Páscoa

Alexandra Mettrau Guedes *

 

Na Páscoa nós celebramos a ressurreição de Cristo. O que isto significa? Ressuscitar é voltar a viver; o Cristo voltou à vida. Nós temos muitos símbolos que nos remetem a esta imagem: a metamorfose da lagarta em borboleta; a brotação das plantas na primavera e, o símbolo mais comum, o ovo do coelhinho. Os coelhos são animais que simbolizam a fertilidade e o ovo nos remete ao ciclo da vida, a uma transformação, pois do ovo surge uma nova vida. É interessante notarmos que mesmo esta imagem, aparentemente desconectada da realidade, uma vez que coelhos não põem ovos e não nos lembram em nada os acontecimentos da Semana Santa, mesmo esta imagem carrega um simbolismo do significado mais profundo dessa festa: o ressurgimento da vida.

Podemos nos aprofundar ainda mais e nos perguntarmos o que há de peculiar neste acontecimento, na ressurreição do Cristo. Há o fato de que Ele não surgiu, Ele ressuscitou, ou seja: Ele morreu e depois de morto voltou a viver. Na imagem do ovo, não há uma morte que antecede o surgimento de uma nova vida, pelo contrário, é uma nova vida e não uma volta à vida; na fertilidade do coelho, na vida que nasce do ovo, e na brotação da primavera também estamos falando de uma nova vida, de uma germinação e não de uma morte. Na borboleta que surge do casulo falamos de uma continuação da vida, como os estágios de vida do ser humano: infância, juventude, maturidade, velhice, porém em uma forma física diferente, mas todas dentro de uma substancialidade material, orgânica. No entanto, essas imagens são o que, na natureza, mais nos aproximam deste Mistério que é voltar a viver depois da morte, pois a semente brota após um estado de latência; a borboleta surge da metamorfose da lagarta que ficou dentro de um casulo escondida; o ovo está lá inerte, parece morto e, de repente se quebra para dar nascimento ao ser que estava se desenvolvendo lá dentro, porém, nem a semente, nem a lagarta e nem o embrião estão ou estiveram mortos em algum momento, eles apenas estavam passando por um processo de transformação dentro de seus envoltórios e nós só conseguimos ver o resultado deste processo, que é o surgimento da vida.

Morrer significa voltar ao pó, significa que a vida se extinguiu e o corpo voltou ao estado terreno que se submete integralmente às leis e propriedades da matéria: inércia; gravidade; volume; decomposição; sujeição a forças externas, etc. Em nenhum momento a lagarta, o ovo, a semente estão totalmente submissos a essas leis enquanto passam por seus processos de transformação, pelo contrário: todo o tempo a vida continua pulsando dentro deles. Porém o Cristo efetivamente morreu, a vida no corpo de Jesus Cristo se extinguiu e este foi depositado morto dentro do sepulcro. Tanto é assim que ao ressuscitar Cristo ocupou um corpo em que a matéria havia sido totalmente transubstanciada, um corpo ao qual as leis materiais não mais sujeitam, pois, a força do espirito que o habitava foi capaz de espiritualizar e transiluminar até a ultima célula, transformando-o no envoltório espiritual que todos nós seremos capazes de desenvolver até o final da evolução humana, o envoltório do Homem-Espírito ou Atma, segundo a sabedoria oriental. O que ocorreu foi a total transformação da substância material do corpo físico de Cristo, através da força espiritual do ser que o habitava; esta força permeou de luz espiritual cada célula e cada átomo do corpo de Jesus, de forma que a morte deste corpo não mais o devolve ao mundo físico, senão que o eleva ao mundo espiritual. Cristo surge em uma nova forma de manifestação que é resultante da total espiritualização material; uma volta à vida após a morte.

Morrer na carne não extingue o espírito, mas extingue a vida, só quando um ser é capaz de permear seu corpo físico totalmente com seu espírito até a última gota de sangue, até o último átomo, ele então transubstancia seu corpo material, não o transforma simplesmente, passando de um estágio a outro da mesma substância, mas muda a própria substância, iluminando-a a partir de dentro. Por isto o corpo pode ir para o sepulcro e o sangue pode se derramar na Terra para frutificar e iluminar o corpo terrestre.

Se refletirmos sobre a ressurreição de Cristo, sobre a volta à vida após a morte, perceberemos que isto encerra um Mistério profundo, o Mistério da vida além da morte. Perceberemos que Cristo foi colocado morto no sepulcro e por isto pôde nos mostrar a potência latente em cada um de nós de, através de nossas ações conscientes na Terra, transsubstancializarmos nossos corpos físicos em luz, vida e amor, e assim voltarmos à vida após a morte. Cristo ressuscita, revive após a morte física em seu corpo transformado, transiluminado a partir de dentro, nos mostrando que a morte é vida.

Com esta reflexão compreendemos que Cristo venceu a morte, transformando morte em vida, pois ele foi colocado no sepulcro e surgiu e com isto nos fortalecemos na confiança de que ao morrer podemos também ser colocados no sepulcro, porque também vamos ressuscitar, não apenas continuaremos em uma forma anímico-espiritual, porém estaremos vivos também na matéria que teremos sido capazes de permear de espírito até o último átomo. Podemos confiar que, porque Ele surgiu, nós podemos ser colocados no sepulcro, podemos morrer a morte física, pois dela surgirá a vida.

É de vital importância, portanto, compreendermos o significado mais profundo da Páscoa e nos conectarmos com isto, reconhecermos que para ressuscitar precisamos morrer, que ressuscitar não é simplesmente surgir a vida: é surgir a vida a partir da morte. Para compreender a Páscoa temos que nos confrontar com a ideia de morte, tão evitada hoje em dia, tão amedrontadora, porém, a única ideia que nos leva à compreensão do Mistério do Gólgota, do Mistério da ressurreição. E é com este Mistério que nós, aconselhadores biográficos, devemos contar para saber que, no fundo de toda dor, de toda vivência de morte, de toda aparência de mal, temos que ter a confiança de que há a força que pode fazer a vida ressurgir plena, nova, e assim nos colocarmos diante do outro: nossos clientes ou qualquer outra pessoa, para, neste encontro, nos colocarmos a serviço desta força de vida que vai ajudá-los a ressuscitar (e a nós também). Ter e transmitir a certeza inspiradora de que porque Cristo surgiu, nós podemos ser colocados no sepulcro em confiança, pois Ele vive e nós também. Ele vive em nós.

 

 

 

P.S.: texto revisado em 27/04/2017

*Alexandra Mettrau Guedes
Aconselhadora Biográfica, Psicóloga, Artista Plástica
Secretária da ABAB.

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