06 de janeiro dia de Reis

 * Berenice von Rückert
** Cristiano Moreira

Ó Deus salve o oratório
Ó Deus salve o oratório
Onde Deus fez a morada
Oiá meu Deus, onde Deus fez a morada, oiá
Onde mora o calix bento
Onde mora o calix bento
E a hóstia consagrada
Óiá, meu Deus, e a hóstia consagrada, oiá
De Jessé nasceu a vara
De Jessé nasceu a vara
E da vara nasceu a flor
Oiá, meu Deus, da vara nasceu a flor, oiá
E da flor nasceu Maria
E da flor nasceu Maria
De Maria o Salvador
Oiá, meu Deus, de Maria o Salvador, oiá

De origem espanhola, passando para Portugal e chegando ao Brasil, onde foi mais difundida a partir do século XIX, a folia de Reis tem sua origem no catolicismo e é a comemoração da visitação dos Reis Magos à criança prometida.

Segundo o Evangelho de Matheus em 2.1.12:
“Tendo nascido em Belém de Judéia, no tempo de Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, Dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente e viemos a adorá-lo.”

Segue a narrativa dizendo que Herodes ou ouvir isso perturbou-se, chamando todos os escribas e profetas, perguntando onde teria nascido esta criança,  e eles respondem que em Belém de Judéia.

E em Matheus continua: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá, porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo de Israel

Herodes chama os Reis e os convoca a irem buscar onde está essa criança e que voltem para anunciá-la a ele.

Saindo, os Reis partem em direção ao caminho indicado pela estrela até encontrarem com a casa onde está o menino e se alegram ao vê-lo, prostrando-se e adorando- o e à sua mãe. Abrem seus tesouros e lhe  oferecem. Ouro, incenso e mirra.

E, por uma divina revelação, são informados que não devem comunicar a Herodes onde está a criança e que devem voltar a suas casas por outro caminho.

Matheus não fala quantos reis eram e nem quem eram eles. Em alguns inscritos fala-se de mais de 3, podendo mesmo a chegar a 12.

Segundo o Evangelho apócrifo da Armênia, que tem o cristianismo mais ortodoxo, do final do século VI, onde relata a infância de Jesus, seus nomes eram Melquior, Baltasar e Gaspar.

Um anjo do Senhor foi depressa ao país dos persas para avisar aos reis magos e ordenar a eles de ir e adorar o menino que acabara de nascer. Estes, depois de ter caminhado durante nove meses, tendo por guia a estrela, chegaram à meta exatamente quando Maria tinha dado à luz. Precisa-se saber que, naquele tempo, o reino persiano dominava todos os reis do Oriente, por causa do seu poder e das suas vitórias. Os reis magos eram 3 irmãos: Melquior, que reinava sobre os persianos; Baltasar, que era rei dos indianos, e Gaspar, que dominava no país dos árabes.” Capítulo 5.10 do Evangelho Armeno

Entres os persas, denominavam “Magos” aqueles que os judeus chamavam “escribas”, os gregos “filósofos” e os latinos “sábios”.

Nas narrações mais recentes, não da igreja ortodoxa, mas da igreja romana, os reis representavam as três raças: a branca, a negra e a mestiça. Portanto neste ponto de vista não eram irmãos.

Em algumas versões se fala inclusive que não vieram juntos e nem do mesmo lugar mas que Baltazar veio da África e foi ele quem trouxe a mirra. Era mouro, de barba cerrada e em torno dos 40 anos. Gaspar era o mais novo, em torno de 20 anos e vinha da Índia e trouxe o incenso. Já Melquior também chamado de Belquior era velho de 60 anos, cabelos e barba brancos vindo da Europa e trouxe o ouro.

Rudolf Steiner fala que ainda havia um quarto rei que se perdeu e que viria das Américas, na época não conhecida. Mais tarde este rei vai se encarnar como sendo Parsifal, na Bretanha, e vai ser o primeiro homem a fazer o caminho iniciático pela alma da consciência, através dos mistérios do Graal.

Os presentes que os magos trazem para o Menino têm um rico significado simbólico.

  • O ouro é o metal precioso por excelência e para a antroposofia, o metal do Sol que é o metal do Cristo, tendo uma relação com o pensar puro, espiritual.
  • O incenso, um perfume que se queima, é usado durante as celebrações rituais e venerações religiosas e é o símbolo da divindade. Para a antroposofia faz a conexão entre o terreno e o espiritual, tendo assim uma relação com a alma e o sentir.
  • A mirra que é uma planta medicinal e misturada com óleo era usada para fins medicinais, religiosos e também para embalsamar os corpos, Para antroposofia vai representar a preparação do corpo de volta ao mundo espiritual.

Portanto espírito, alma e corpo representados nestes 3 presentes recebidos.

Sobre a estrela muito se tem falado. Que estrela é essa? A partir do século XV começa-se uma grande especulação de fenômenos acontecidos dentro da astronomia que podem revelar esta estrela. No entanto até hoje ainda não se tem uma resposta concreta sobre este fenômeno. A hipótese que acreditam ser a mais correta é a da passagem do cometa Halley, porém como seu ciclo é de 86 anos ele deveria ter passado 4 a 5 anos antes da data comemorativa do nascimento. Outros estudos apontam para conjunções muito raras de planetas com a Lua o que daria um reflexo muito grande em sua luminosidade.

Tentando compreender o fenômeno através da Bíblia vamos encontrar no livro dos Números, quando o profeta Balaão diz “um astro procedente de Jacó se torna chefe” (24,17).
E no texto de Isaías 9,1: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria.”

Como tradição europeia, o dia de Reis é o dia dos presentes, sendo dados no dia 6 de janeiro e não no dia 25 de dezembro como é feito aqui no Brasil e nos países das Américas, onde os presentes são dados no dia do nascimento.

Neste dia 6 também é comemorado o dia de São Nicolau, ou Saint Klaus, que levou os presentes para as crianças pobres, na Ásia Menor, na Turquia, no século III e falecido em 6 de dezembro de 350 no império de Diocleciano tendo sido encarcerado por recusar a negar sua fé em Jesus Cristo.

Folia de Reis

A festa da Folia de Reis é uma tradição popular, já sendo comemorada em Portugal e Espanha. No Brasil, apesar de ser uma tradição católica, foi muito absorvida pelo sincretismo religioso e pelos descendentes dos escravos. Também em alguns estados tem uma relação forte com as festas de umbanda e candomblé.

No Estado de Minas Gerais a festa de Reis é tombada como patrimônio cultural.

Normalmente, quem conduz as festividades são famílias que passam essa tradição para seus descendentes.

Em alguns lugares as festividades começam no dia 20 de dezembro, data que, dizem, foi o primeiro anuncio aos Reis de que a criança ia nascer e eles se puseram a caminho. Em outros locais a festa começa no dia 5 e vai até o dia 7 e ainda em outros, vai até o dia 20, quando se comemora o dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, e por isso a motivação do encontro social de todas as folias para encerrar as atividades.

A organização da folia fica a cargo do Mestre ou embaixador que em geral é a pessoa mais velha do clã e é ele que deve ter sob seus cuidados a tradição da festa, o envolvimento da família e também manter em sua casa, em algum local sagrado, a bandeira, que é o estandarte da folia. Este local durante o ano pode ser aberto à visitação onde acontecem as cantorias e o beijo das fitas para proteção de todos.

A folia tem uma divisão social bem definida:
São os três reis, os personagens principais e que vão à frente do cortejo abrindo o caminho de visitação.

Em seguida vem os palhaços, também chamados de Bastiões, em homenagem a São Sebastião, e que tem por tarefa cuidar da bandeira, puxar a cantoria e proteger os enfeites e os letreiros feitos pelos moradores das casas que visitam.

O cortejo só sai à noite, depois que o Sol se põe, eles só podem caminhar no clarão da lua. A caminhada dura até o Sol nascer, quando precisam guardar a bandeira para seguir na noite seguinte. A visitação e a cantoria vão de casa em casa, e as casas que os recebem estão marcadas por letreiros simbólicos, então eles sabem que aí podem entrar, estão procurando pela criança e perguntam se tem alguém que faz aniversário naquele dia. As famílias que os recebem devem oferecer café, pão ou broa e participar da cantoria. O estandarte entra na casa, principalmente passando pelas camas onde abençoa o novo ano que vai nascer.

Importante também são o coro e os músicos. As toadas podem ser cantadas ou tiradas na hora, como se fosse um repente, conforme o motivo que acontece na residência que estão visitando. São vários os instrumentos tocados e são diferentes as vozes dos cantores. Os instrumentos são: rabeca, que está sendo substituída pela viola de 12 cordas, sanfona, tambor, reco-reco, chocalho e guizos. Normalmente confeccionados pelos próprios participantes.

Bandeireiro ou alferes da bandeira – São os que carregam a bandeira. Nenhum dançarino pode ficar na frente da bandeira, só os Reis estão à sua frente.

E finalmente o festeiro que é a pessoa que cuida de toda a organização e que tem a responsabilidade de guardar a bandeira, chamada da tirada da bandeira, no final da festa, quando se termina o giro, que é a caminhada feita pelos festeiros, em geral guardada na casa do mestre.

É uma festa de grande alegria, pois festeja a busca da criança e o seu encontro.
Simbolicamente quando entram em uma casa onde tem alguém que faz aniversario as toadas se modificam e os cânticos passam a ser para parabenizar o aniversariante.

Na caminhada eles têm todo o cuidado para não serem seguidos na busca do local onde está o aniversariante, ou seja, a criança que nasceu. Este cuidado é para que Herodes, não descubra onde a criança está. Os reis precisam estar de olhos abertos e os palhaços têm também a tarefa de entreter aqueles que querem saber onde a criança está para mandar matá-la.

A festa termina na igreja ou na matriz da cidade. Deve ser recebida pelo padre ou vigário no final da noite, e dentro da igreja fazem todas as cantorias e o padre deve benzer a bandeira que é fincada no altar enquanto acontece a celebração. Cabe ao padre também dar a benção a todos os participantes e renovar os votos dos Reis e do Mestre para que possam cuidar bem da bandeira até a próxima festa. Caso aconteça uma mudança de Rei deve haver uma benção específica para o novo Rei e este, durante o ano, deve ser preparado pelo Rei anterior para assumir a sua posição real.

Em geral o motivo de troca se dá por idade avançada ou doença. Como é uma tradição familiar geralmente os seguidores já estão sendo preparados. Caso aconteça durante o ano a morte de um dos Reis, o novo Rei deve receber a benção do padre antes de sair na folia e assumir seu papel.

Hoje é o dia do Santo Reis
Anda meio esquecido
Mas é o dia da festa do Santo Reis
Hoje é o dia do Santo Reis
Anda meio esquecido
Mas é o dia da festa do Santo Reis

 

 

* Berenice von Rückert
aconselhadora biográfica e tesoureira da ABAB

** Cristiano Moreira
Professor Waldorf e aluno do grupo V da Escola de Formação Biográfica de MG.

Fontes de pesquisa:
Evangelho de Mateus
Internet
Entrevista com Vera Lúcia
Membro de uma tradicional família de festeiros
afrodescendentes na região de Ponte Nova – MG

Fotos:
Folia de Reis na cidade de
São Gonçalo do Rio das Pedras – MG em 05/01/2018

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