Reflexões Joaninas

Berenice von Rückert *

Se caminharmos para o passado e formos até a cultura persa, veremos que já lá se celebrava, num dia de junho, algo correspondente ao chamado “Batismo pela àgua e pelo fogo.”

Em Roma esta festividade era conhecida como o “Festival da Vesta” que era também um batismo pelo fogo.

Nas civilizações europeias pré-cristãs vamos encontrar novamente, no mês de junho, este tipo de comemoração. Para estes antigos europeus essas festividades se relacionavam à retirada gradual do deus Baldur, que tinha sua divindade relacionada com o sol.

No próximo período, cristão, estas mesmas festividades se metamorfosearam na “Festa de São João”.

Por quê? Qual é o caminho percorrido desde a Pérsia até hoje? Como elementos podemos observar: o mês de junho, o fogo, o batismo, o deus solar.

Homens, no decorrer dos tempos, já podiam sentir ou mesmo saber o que deveria ser anunciado e o que estava contido ou inserido dentro deste contexto de elementos.

O dia de São João nos remete à lembrança de que já era preparada e anunciada uma individualidade (Cristo) que deveria participar do marco mais importante da evolução da humanidade e de que sua introdução na Terra já acontecia nas antigas festividades que anunciavam a descida deste Ser Solar.

João, o Batista, foi o percursor do Cristo-Jesus, o mais significativo e o mais próximo. Ele possuia dons espirituais e virtudes que lhe davam uma profunda visão do contexto da evolução da humanidade e como esta deveria ser conduzida para o acontecimento do batismo.

Portanto o conteúdo do Mistério do Cristo era algo que por milênios já vinha acontecendo. A grande diferença entre os períodos pré e o pós Cristão era a maneira de anunciá-lo. .João, anterior ao batismo já o anunciava para um público maior. Antes do Cristo estes Mistérios Solares eram cultuados em recintos fechados e para um pequeno público.

No Evangelho de João lemos: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus”.

João, o Batista, compreendia isso da seguinte maneira:

O Verbo ou o Logos estava no princípio de Deus.
Deus era o Verbo.
O Verbo era Cristo.
A Luz estava no mundo
O mundo era a escuridão.

Chegou um momento na humanidade em que os povos não mais viam a Luz que irradiava para a escuridão. Porém a Luz estava no Mundo entre os homens.

Foi então preciso que este princípio Luz (Verbo) se fizesse Homem (carne).

“E o Verbo se fez carne”
E o Verbo era Deus.

Apareceu para a humanidade o Verbo em forma de homem. Quem o introduziu foi João, o Batista.

Batismo de Cristo 1481-1483. Perugino, Capela Sistina, Vaticano.

João compreendia a natureza profunda do significado do homem Jesus de Nazaré. Deveria habitar em Jesus a natureza do Verbo. Jesus era o homem através do qual se manifestaria Deus, que é o próprio Verbo vivo, o próprio Logos vivo.

Cristo-Jesus foi anunciado por João Batista como o mais sagrado, aquele que possuía o mais intimo elemento do próprio homem (o verbo).

Para poder compreendê-lo tem que existir algo dentro do próprio homem que corresponda diretamente ao acontecimento do Cristo.

Se Cristo representa o maior e mais relevante acontecimento da humanidade, deve haver em todas as coisas e em todas as almas humanas um elo de união entre os homens, as coisas e o próprio Cristo.

Este elemento (o Verbo) deve ser então despertado, renascido ou iniciado.

O homem sabe que tudo que está ao seu redor se liga ao tempo. Cresce e se desfaz. Mas há algo no Ser humano que é da mesma natureza do Verbo, que não se desfaz. Essa corporalidade individualizada, este EU humano é a-temporal.

E é este que pode ser renascido.
E é este que pode ser batizado.

Essa força e essa energia deste Eu, deste Verbo que se fez carne e que se individualiza, só são alcançadas se dentro de cada um ascender a “Chama quente”. Se for compreendida a Luz que transforma a treva pelo calor, pelo fogo.

Para a humanidade o que viveu em Jesus deve ter o simbolismo histórico de algo superior e que não viveu em nenhum homem (só no Cristo).

Esse algo superior, essa “chama de Luz e Calor”, trazida por João no momento do batismo, deverá ser cultivada por todas as culturas como o símbolo máximo da busca do calor interiorizado, que se expressa na chama do Fogo Divino.

Cada Ser humano poderá, conscientemente, encontrar essa natureza essencial que vem do Divino.

No Evangelho de Lucas temos:

“Olhai para aquele que foi batizado por João. Ele traz características especiais da fonte divina da qual descende Adão. A humanidade pode renascer na sua natureza divina mais íntima…”

Algo divino que se encontra enterrado na matéria pode reencontrar o seu Logos, e esse Logos se expressa pelo calor. Para cada Eu humano existe uma chama e o seu magnânimo momento se deslumbra no renascimento do Eu para o Eu Divino.

Para os cristãos Joanitas este Eu superior está simbolizado na lenda do “Santo Graal”, do qual “Jesus bebeu e comeu e no qual o sangue que jorrou de suas feridas foi recolhido por José de Arimathéia”.

Eis o Mistério de Deus renascido na Humanidade
Eis o Mistério do Santo Graal.

O tempo todo podemos perceber a ideia deste princípio (fogo) que deve ser mantido através dos tempos.

Deus deve permanecer na humanidade e Deus vive na humanidade e se expressa pelo calor interno do Eu, deste Eu humano ligado ao imutável, unido ao reino eterno, imortal.

O Eu é o Graal.
O cálice a vida e a Luz.
E a Luz irradiou na escuridão.

Em João Evangelista: “Só aqueles que compreendem que algo vive e que não é nascido da carne podem entender como a Luz irradia para a escuridão. Então a Luz tonou-se carne e viveu entre os homens na forma de Jesus de Nazaré”.

Tal qual o Eu Divino nasceu para a humanidade em Jesus de Nazaré, o Eu superior pode renascer para cada Ser humano. É o grande momento do nascimento do Eu imortal para dentro do mortal humano.

João foi aquele que trouxe pelo batismo, para Jesus de Nazaré, o Eu Divino.
João foi o percursor do Cristo em Jesus.
João foi um dos e, o último que percebeu e compreendeu a chama do calor interno que arde e lateja no imortal.
João foi quem enxergou (para nós do hemisfério sul – no inverno) a semente que se prepara para Ser.

O cristão Joanita é:

aquele que se pré-dispõe a deixar romper a semente.
aquele que se permite Ser batizado.
aquele que sabe quando pode observar o fogo.
aquele que dança e canta com alegria e júbilo.
aquele que compartilha e comunga o alimento quente.

Festejar João :

é estar à procura da Luz, do Graal.
é achar a lanterna que indica o caminho.
é ter a certeza e segurança de que todo o caminho não se faz se não houver caminhada.
é saber que, por longas que sejam as caminhadas, sempre se encontra alguém que o acompanhe.

*Berenice von Rückert
Fundamentado no “Evangelho Segundo João” Rudolf Steiner.

Compartilhar:
Share

Um comentário sobre “Reflexões Joaninas

  1. Tânia Cristina Santos Matos

    Linda mensagem… ilustra de maneira profunda este período junino. Parabéns !!!