A Obra de Arte – Alexandra Mettrau

UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ

ALEXANDRA METTRAU GONÇALVES GOMES PINTO GUEDES

GABRIELE DE MARTINI

A OBRA DE ARTE

Rio de Janeiro

2011

Trabalho Acadêmico Avançado apresentado ao curso de Psicologia da Universidade Estácio de Sá, como requisito parcial para a obtenção do grau de psicólogo.

Prof. Marcelo de Abreu Maciel

Data: 12 de junho de 2011

 

No princípio dos tempos

O Espírito da Terra

Apresentou-se ao Espírito do Céu.

Disse em oração:

Eu sei falar ao coração humano

Mas, uma linguagem, peço-te ainda,

Com a qual possa falar

O Coração do Universo ao Coração do Homem.

Então o benevolente Espírito do Céu

Deu ao suplicante Espírito da Terra

A Arte.

 

Rudolf Steiner

 

Resumo

 

O presente trabalho pretende investigar histórica e filosoficamente como a arte foi compreendida pela humanidade e qual seu papel na sua relação com o homem. A partir deste entendimento busca-se definir o que é obra de arte relacionando-a com a construção da própria existência, Vamos aqui investigar a arte, a obra de arte, o fenômeno artístico; como a arte transforma o homem, e como o homem transforma a própria vida em uma obra de arte, como ele pode ser criador de si próprio e, a partir disto, atuar transformando também o mundo. Para isto nos ampararemos e tentaremos relacionar as visões de Foucault, Deleuze, Nietzsche, Schiller, Goethe e Steiner.

Palavras-Chave: Arte; Obra de arte; Estética da existência; Transformação; Criação.

 

INTRODUÇÃO

 

A arte é, desde sempre, algo que se constitui no âmbito do humano: pelo homem e para o homem. Ou, podemos dizer, pelo homem e para a arte, pois a arte é por si só, ela se justifica em si própria, não necessita explicação.

Na relação do homem com a arte, podemos ver as mais diversas expressões: a expressão do artista criador, a expressão do espectador que contempla, a expressão do crítico que pretende entender e explicar e, se quisermos, podemos continuar a buscar as mais diversas formas e contextos relacionais do homem com a arte.

No presente estudo, três destas formas nos interrogam: a do homem que cria, a do homem que contempla e, talvez a mais intrigante, a do homem que faz de si próprio, de sua própria vida, uma obra de arte.

Algumas das perguntas que subjazem, que estão presentes nestas expressões e que nos impelem a estas considerações e investigações são: qual a relação da arte com a psicologia? O que faz com que o homem, através da criação, da contemplação e do viver como obra de arte transforme a si próprio? Quais processos existem e relacionam a psique com a arte a ponto de a arte ser, entre muitas outras coisas, um elemento curador, sanante e, também, patologizante? Onde ou como a arte atua na psique humana. E esta atuação se dá em quais âmbitos: no pensar, no sentir, no agir, nos três, em outro?

É conhecida a arte utilizada como processo terapêutico, seja de forma criativa e transformadora, seja de forma ocupacional, mas, em sua expressão mais pura, a arte em si é terapêutica. Não é necessário ser paciente de arte-terapia para que os efeitos de fazer arte, de criar, sejam sentidos. Um artista de profissão ou de hobby pode atestar o efeito do processo artístico em si próprio, e mesmo quem não tem nenhum dote, quem não se considera capaz, percebe o quanto é mobilizador fazer arte: a começar pela sensação de prazer ou desprazer, agrado ou desagrado, entrega ou rejeição.

Também a contemplação artística que, à primeira vista parece um processo passivo, tem efeitos ativos. Como, por exemplo, ao contemplar uma bela obra de Michelangelo, Da Vinci, Van Gogh, Rodin, Camille Claudel, Monet, assistir a um espetáculo de dança, ouvir Maria Callas ou uma obra de Beethoven, Mozart, uma pessoa pode passar do riso às lágrimas, de uma apatia a uma resolução, passar pela dor, pela compaixão, pela veneração. A arte parece ativar processos e isto se dá na relação homem-arte.

E a experiência de transformar a própria vida em uma obra de arte, como podemos entender arte neste contexto? Citamos Foucault:

 

O que me surpreende, em nossa sociedade, é que a arte se relacione apenas com objetos e não com indivíduos ou a vida; e que também seja um domínio especializado, um domínio de peritos, que são os artistas. Mas a vida de todo indivíduo não poderia ser uma obra de arte? Por que uma mesa ou uma casa são objetos de arte, mas nossas vidas não? (Foucault apud Pinho, p. 1).

 

Partindo desta visão podemos perceber que o homem, em si, pode ser ao mesmo tempo, matéria, artista e espectador/contemplador ativo. Em outras palavras, o homem pode contemplar-se, recriar-se a partir desta contemplação, sendo continuamente criador e criatura, sempre em processo, sempre em elaboração.

Partindo destas três visões sobre a arte pretendemos, nesta pesquisa, investigar o que filósofos, artistas, pensadores, psicanalistas, psicólogos, entre outros, entenderam por arte e sua relação com o humano. Em seguida, temos a intenção de nos aprofundarmos na visão Foucaultiana, relacionando-a com a idéia de Deleuze de que a arte é um ato de resistência e com o olhar para a própria história de vida como ato transformador.

Como ponto de partida usamos Goethe, Rudolf Steiner, Foucault e Deleuze. Passaremos por Nietzsche, Freud, Jung, Kant, Schiller. E buscaremos perceber como os autores e psicólogos atuais percebem esta questão.

 

1 – O QUE É ARTE?

 

Uma das maiores dificuldades no estudo das questões relacionadas à arte, seja no campo da estética, da psicologia ou da sociologia é a definição do que se entende por arte. Podemos encontrar, nos diferentes momentos históricos e culturais, entendimentos diversos e, por vezes, opostos. Isto acontece em virtude do caráter de “auto-contestação e de invenção” da arte que “a torna literalmente inapreensível” (Dufrene, 1982, apud Frayze, 1994, p. 42).

De início esclarecemos que entendemos arte como uma manifestação exclusivamente humana, embora haja estudos que apontem para uma arte pré-humana, como podemos encontrar referência em Frayze (1994, p. 39) sobre pinturas realizadas por macacos e elefantes. Também ele nos informa que a arte historicamente teve diferentes definições: na Antiguidade era percebida como um fazer, onde os “aspectos fabris, manuais e executivos eram acentuados”; no Romantismo foi entendida como um exprimir: “a beleza não era compreendida como uma adequação ao modelo exterior, mas como uma íntima coerência das figuras artísticas ao sentimento que as inspirava e suscitava” e; a partir do Renascimento ela passou a ser concebida como um conhecer: “arte como visão da realidade, ora da realidade sensível, ora de uma realidade metafísica superior, mais verdadeira, ou de uma realidade espiritual mais íntima, profunda, emblemática” (Frayze, 1994, p. 43).

Tentamos agora, apoiando-nos em grandes pensadores da humanidade, traçar um entendimento mais profundo da relação existente entre a arte e o humano. Na Grécia Antiga a arte era a perfeita imitação da natureza, pois como nos indica Steiner (2001, p. 13): “nada mais é preciso alcançar além da natureza, pois nela se encontra a fonte de toda e qualquer satisfação estética”. Ele nos ensina ainda que os gregos encontravam na realidade, na natureza, a satisfação de todos os seus anseios. Os deuses eram representações das manifestações naturais, assim, Zeus era o deus que, irado, lançava raios de destruição; Chronos regia o tempo, Afrodite e seu filho Eros eram os deuses das manifestações do amor. A arte era, portanto, a representação do sublime encontrado na realidade. Ela não necessitava de compreensão porque era intimamente ligada aos anseios humanos naturais. Avançando no tempo, a humanidade foi se distanciando da realidade natural e mergulhando cada vez mais em uma consciência separada, na qual o divino está fora do homem, mas não na natureza, está num mundo supra-sensível. Os anseios humanos são buscados fora do mundo, nas religiões, no ascetismo. Neste momento, a realidade não abriga mais em si o divino, os anseios humanos não são mais satisfeitos neste mundo natural. Assim, a arte também já não é a expressão mais elevada da natureza, como no mundo grego, mas agora ela também não pode ser compreendida, uma vez que não se pode representar o divino a partir de um mundo em que ele não habita e, a arte não pode prescindir da matéria para ser edificada. Ainda assim o homem cria as mais belas obras artísticas.

Em Kant encontramos uma primeira possibilidade de compreensão da arte como aproximação da idéia, do divino, com a realidade, a natureza. Ele percebe a arte como a possibilidade de apreciação da beleza e investigação da razão do prazer experimentado nesta apreciação. Para ele a finalidade última da arte é permitir uma contemplação desinteressada, sem cobiça pelo objeto contemplado, que evoque sentimentos de prazer ou desprazer, de forma a podermos emitir um juízo de beleza ou não. E este juízo, por ser desinteressado do objeto em si, é subjetivo, particular, sendo “assim, anterior a todo conceito e a toda satisfação sensível, mas precisamente por que se isenta de todo interesse individual, o prazer que experimentamos é dito universal” (Freitas, 2003, p. 254).

Schopenhauer, assim como Kant percebe a arte como possibilidade de integrar o ideal e o natural. Ele entende a contemplação da arte como forma de transcendência. Por trás da obra, do belo, encontra-se o luminoso, a idéia, a essência livre da temporalidade e das amarras da vontade.

 

Para Schopenhauer, a beleza é luz da idéia que irradia do objeto particular, é luminosidade que obscurece os traços individuais e as qualidades desse objeto e aponta para a possibilidade total de libertação da servidão da realidade prática, particular e concreta. (Dias, 1997, p. 13).

 

No entanto, estes dois autores não buscam a finalidade do objeto artístico em si, esta está na contemplação, na atividade receptiva do homem. Schiller, partindo de Kant, vê na própria obra de arte a sua justificação. “No belo o ‘para quê’ se encontra na própria coisa e o entendimento não precisa ir além dela” (Steiner, 2001, p. 23). Para ele o homem possui dois impulsos subordinados a leis naturais e racionais: o impulsomatéria, que percebe o mundo através dos sentidos; e o impulso-forma, que ordena o caos percebido. Entre estes dois impulsos ele indica que o homem pode se movimentar livremente pela arte: na criação artística o homem é livre através do impulso-lúdico. É desta forma que natureza e idéia novamente se interpenetram, mas agora com a atividade criativa humana.

Neste ponto chamamos a atenção para as apreciações de Göethe sobre a arte e o belo. O filósofo, cientista e poeta alemão vê a arte como a possibilidade de perceber o essencial e particular do natural e expressá-lo, transcendendo a realidade e elevando-a à idéia. Ao contrário do pensamento filosófico a partir de Schelling e Hegel de que na arte, através do belo reluz a idéia, sendo a arte, portanto, apenas objeto de intelecção para apreensão da idéia que reluz por trás, Goethe propõe que a arte eleva a natureza à idéia, que o homem, transformando a matéria, transcende o puramente material através de seu impulso criativo, elevando-o ao espiritual (Steiner, 2001, p. 33). O objeto artístico, o belo, não é uma representação da idéia essencial, divina e luminosa que está por trás das coisas, inalcançável, ele é a transcendência da natureza real que se eleva ao divino, é transformada e, em si própria, existe como idéia espiritual, essencial, divina, mas também como realidade, matéria, natureza, pois integra o fazer, o sentir e a razão humanos na sua elaboração. Assim, o homem, ao se relacionar com o belo e a arte, como criador ou como espectador, relaciona-se com uma realidade nova no mundo, uma realidade que contém em si o natural, o humano e o ideal. E, partindo do entendimento deste filósofo, podemos ampliar o conceito de arte a tudo o que o homem é capaz de construir com labor criativo, através da intensa observação e experimentação do natural, que lhe possibilita perceber a idéia essencial e, desta forma, criar uma realidade ideal.

O pensamento filosófico alemão segue na direção de Schelling e Hegel, vendo a arte como “ciência objetivada”, e o belo artístico como o “reluzir sensório da idéia” (Steiner, 2001, p. 26), e privilegiando o papel do homem como espectador, contemplador, receptor que observa a arte para captar este ‘reluzir’.

Nietzsche traz nova forma de percepção da relação homem-arte considerando que a imagem de espectador é insuficiente para traçar um entendimento da arte e foca sua atenção na estética como criação, para ele o homem assume o papel de criador. Nietzsche percebe a arte como ato de criação. Dias (1997) nos informa que em sua obra

O Nascimento da Tragédia ele aponta para dois impulsos artísticos naturais: o apolíneo e o dionisíaco. Apolo é o deus que ordena o caos natural e Dionísio é o Deus do êxtase, da embriaguez, da dissolução. Pelo impulso apolíneo o homem cria representações, a arte é forma, aparência. Pelo impulso dionisíaco o homem cria a tragédia, na qual vê a eternidade das coisas, apesar de todo o sofrimento, sente sua essência e se sente parte do Uno, alegre, essencial. A arte é transcendente. “A arte transfigura todo o existente, mas só a tragédia exprime a crença na eternidade da vida” (Dias, 1997, p. 20).

Com o nascimento da psicologia a relação do homem com a arte ganhou novas dimensões, pois a psicologia se ocupa do propriamente humano. Freud inaugura a visão psicanalítica, na qual todas as produções humanas são fruto de seu inconsciente, desta forma, a arte perde seu aspecto transcendente, ela é vista como processo individual, pessoal: orgânico e psíquico.

Jung, por sua vez entende que a arte, vista desta forma, fica reduzida a condicionamentos pessoais prévios, mas para ele a arte é algo que supera o meramente pessoal, por isto devemos buscar compreender o sentido da obra, não sua causalidade. Atentemos que, quando fala de sentido ele fala da relação entre a psicologia e a obra de arte, pois a arte em si não tem sentido, ela “é beleza e nisto se realiza e se basta a si mesma” (Jung, p.50). A arte, como questionamento psicológico, no entanto, é fruto de experiências pessoais, mas mais do que isto, ela expressa o que se encontra no inconsciente coletivo, expressa o que há de universal e, por isto tem um caráter curativo ou intuitivo: expressa o que é universalmente necessário ou inspirador para a época ou cultura na qual é criada.

Em sua obra O Espírito na Arte e na Ciência, Jung coloca duas possibilidades distintas de origem de uma obra de arte: a introvertida, que ele relaciona com a o gênero artístico sentimental proposto por Schiller, na qual o artista afirma suas “intenções e finalidades conscientes em oposição das solicitações do objeto”, e; a extrovertida, relacionada com o gênero ingênuo de Schiller, “caracterizado pela subordinação do sujeito às solicitações do objeto” (Jung, p. 47). Consideramos que estas possibilidades podem também ser relacionadas aos impulsos apolíneos e dionisíacos, respectivamente, elaborados por Nietzsche. Aprofundando sua análise Jung remete o gênero introvertido a uma obra que se pode chamar de psicológica e o gênero extrovertido à obra chamada por ele de originária (Jung, p.57).

Há ainda que se considerar a percepção de arte como sendo algo que resiste do filósofo contemporâneo Gilles Deleuze:

 

[…] existe uma afinidade fundamental entre a obra de arte e o ato de resistência”. (…) “André Malraux (escritor e diretor francês, 1901-1976) desenvolve um belo conceito filosófico: ele diz uma coisa bem simples sobre a arte, diz que ela é a única coisa que resiste à morte”. (…) “Poderíamos dizer então, de forma mais tosca, do ponto de vista que nos interessa, que a arte é aquilo que resiste, mesmo que não seja a única coisa que resiste. Daí a relação tão estreita entre o ato de resistência e a obra de arte. Todo ato de resistência não é uma obra de arte, embora de uma certa maneira ela faça parte dele. Toda obra de arte não é um ato de resistência, e no entanto, de uma certa maneira, ela acaba sendo. (Deleuze, 1987, p. 13).

 

Como ato de resistência Deleuze entende tudo aquilo que resiste à morte, que fica para as gerações e povos que virão. Pode ser uma luta, um grito que se eleva na multidão, um objeto criado. Na arte são as pinturas de Rafael, Da Vinci, as esculturas gregas, as de Michelangelo, Camille Claudel, Rodin, as músicas de Bach, Beethoven, Wagner. Mais ainda, ele afirma que:

 

[…] o ato de resistência possui duas faces. Ele é humano e é também um ato de arte. Somente o ato de resistência resiste à morte, seja sob a forma de uma obra de arte, seja sob a forma de uma luta entre os homens.

Qual a relação entre a luta entre os homens e a obra de arte?

A relação mais estreita possível e, para mim, a mais misteriosa. Exatamente o que Paul Klee queria dizer quando afirmava: “Pois bem, falta o povo”. O povo falta e ao mesmo tempo não falta. “Falta o povo” quer dizer que essa afinidade fundamental entre a obra de arte e um povo que ainda não existe nunca será clara. Não existe obra de arte que não faça apelo a um povo que ainda não existe. (Deleuze, 1987, p. 14).

 

Aqui entendemos que Deleuze coloca a arte como possuindo um componente humano, mas também um componente ideal, traduzido na idéia de um devir, na medida em que a arte resiste e fala a um povo que ainda não existe, ou seja, o homem criador do objeto artístico coloca nesta criação o que ele é, fruto de sua cultura e da natureza, mas também o que está por vir, o que ele pode trazer de futuro, de novo, de essencial, para transformar o mundo no qual está inserido.

2 – A OBRA DE ARTE

 

Partindo das significações artísticas levantadas, percebemos que a relação do homem com a arte foi olhada de diferentes formas ao longo da evolução humana. Vimos que Kant, Schopenhauer, Schelling, Hegel percebem a obra de arte como possibilidade de apreensão do divino, ideal, essencial que subjaz por trás da beleza. A arte é um veículo: através de sua contemplação chegamos ao ideal, à liberdade.

Nesta relação o homem é visto como receptor destas verdades supremas. Podemos dizer que aqui a expressão artística está na contemplação do belo. Através de um ato contemplativo o homem chega ao sentimento de perfeição que se encontra além da beleza da obra contemplada.

Nietzsche inaugura na filosofia uma nova forma de pensar esta relação. Ele entende que o homem enquanto espectador não pode entender a arte, ele só é capaz desta compreensão a partir do momento em que cria a arte. Com isto ele polariza a arte: ou ela é uma representação, uma ordenação apolínea do que se encontra caótico na natureza, ou melhor, é racional; ou ela é um arrebatamento, um êxtase dionisíaco que cria a partir da unidade originária, da transfiguração da existência, do eterno prazer de existir, da alegria pela “crença na eternidade da vida”.

Não pretendemos aqui fazer uma analogia com a religião, mas a arte, por seu caráter transformador e por sua dificuldade de apreensão, é alvo de muitos questionamentos sobre sua aproximação com as religiões, o religioso, o místico e o sagrado. Uma das pesquisas neste sentido nos traz a visão de artistas contemporâneos sobre sua relação com a arte e gostaríamos de apresentar algumas destas imagens, pois falam diretamente destas polaridades.

 

A arte, como que fazer, ocupa lugar central na vida dos entrevistados. É alimento básico, obsessão, dedicação total, angústia pelo lugar no mundo, tentativa de entender o mundo, processo de autoconhecimento, visão de mundo, esforço para melhorar o relacionamento humano e a qualidade de vida, preenchimento completo da pessoa, ligada à total função de viver, essência da elegância do viver na terra, substituto da terapia, prazer de viver, urgência, excitação, algo vital (Paiva, 2004, p. 227).

 

Contém em si, portanto, o aspecto apolíneo, na visão nietzschiniana ou psicológico, na concepção junguiana, traduzido pelas expressões: angústia pelo lugar no mundo, tentativa de entender o mundo, processo de autoconhecimento, visão de mundo, esforço para melhorar o relacionamento humano e a qualidade de vida, mas contém também o aspecto dionisíaco para Nietzsche, ou originário, segundo Jung, expresso como: alimento básico, obsessão, dedicação total, preenchimento completo da pessoa, ligada à total função de viver, essência da elegância do viver na terra, substituto da terapia, prazer de viver, urgência, excitação, algo vital.

Entendemos, portanto, que estas duas possibilidades não são excludentes e podem estar expressas na mesma obra de arte, como, aliás, Jung atesta, entre outras obras, acerca do Fausto de Goethe, que em sua primeira parte é de uma expressão mais psicológica, porém na sua segunda parte é totalmente originário, visceral e arrebatador (Jung, p. 58).

Uma vez que compreendemos a significação da arte e de sua relação com o homem, uma questão se coloca: o que pode ser considerado uma obra de arte?

De acordo com nossa pesquisa, uma obra de arte se caracteriza por ser realizada por um ser humano, por ser um fazer, um expressar e um conhecer humanos. Ela expressa o natural e o divino, na forma de representação (aparência) ou na forma de um arrebatamento sensorial e ela resiste ao tempo, à morte.

Dentro destas características podemos encontrar as artes plásticas, a música, a literatura, a poesia, o teatro, enfim, tudo o que pode ser criado pelo homem e que pode ser apreendido pelos sentidos humanos, levando tanto criador quanto espectador a estados de beleza, a estados estéticos.

Neste momento queremos trazer Foucault para nosso estudo. Ele se interroga, investiga os modos de viver e pensar desde a Antiguidade Clássica e propõe uma maneira de viver, um cuidado consigo próprio, que faça da própria vida uma obra de arte. Trazemos mais uma vez seu questionamento sobre a arte: “a vida de todo indivíduo não poderia ser uma obra de arte? Por que uma mesa ou uma casa são objetos de arte, mas nossas vidas não?” (Foucault apud Pinho, p. 1.).

Para Foucault devemos pautar nossas ações por uma estética da existência que considera o cuidado com o corpo, mas também e, principalmente, a preocupação com o desenvolvimento de uma ética a partir do exercício de práticas de si. “O indivíduo pode dominar-se, transformar-se na relação consigo mesmo, independente de prescrições. O regime é de uma ‘arte de viver’, onde se evita o desperdício e requer cuidado para evitar a morte” (Silva, p.3). O sujeito é transformável e o cuidado de si leva a um presentificar-se que permite a realização de um devir próprio, o homem, na medida em que se volta para si próprio, se cuida, percebe o ideal de sua existência e pauta suas ações na realização deste ideal, na concretização de uma estética de uma forma bela de existir, de um estilo apresentável a si e aos outros. Nesta construção o homem realiza também uma ação política, pois, na medida em que se volta para si, se percebe como sujeito social e observa que suas ações modificam a realidade no mundo. Assim, a estética da existência de Foucault realiza a vida individual como obra de arte, mas também a amplia a uma obra social, a uma realização na vida social.

Também Nietzsche propõe uma arte de viver. Para ele “embelezar a vida é sair da posição de criatura contemplativa e adquirir os hábitos e os atributos de criador, ser artista de sua própria existência. (Dias, p.4). Ele diz que

 

“somos experimentos de nós mesmos (A gaia ciência, § 319), o homem é ‘o grande experimentador de si mesmo’ (Genealogia da moral, III, § 13). Para Nietzsche, arte e vida encontram-se totalmente entrelaçadas: ‘Uma coisa é necessária. ‘Dar estilo’ a seu caráter — [trata-se de] uma arte grande e rara! É praticada por quem avista tudo o que sua natureza tem de forças e fraquezas e o ajusta a um plano artístico, até que cada uma delas aparece como arte e razão, e também [ou seja, e mesmo] a fraqueza delicia o olhar’ (Nietzsche, 2001, p. 195)” (Pinho, p. 11).

 

Retomamos as concepções de Goethe e Schiller para aprofundar nossas considerações. Schiller fala dos impulsos material, formal e lúdico mostrando que a arte contém em si o natural (matéria) e o divino (idéia, forma), integrados pelo homem através do lúdico, do brincar e que, por isto ela se justifica em si mesma. Goethe amplia esta visão considerando que o homem, ao observar e experimentar o real, o natural, percebe a essência particular que a natureza não pode expressar, pois ela trata do geral, de leis gerais, e a partir daí transcende a realidade, a natureza, criando o particular, o essencial, o divino, no natural, na matéria.

Ora, podemos perceber como, em todas as concepções sobre arte estudadas encontramos estes elementos: o humano, o natural e o ideiético ou essencial. O homem está sempre na posição de criador ou contemplador que une ou integra os outros elementos na arte. Não queremos impor a idéia de um componente material e um componente espiritual, queremos chamar a atenção para o fato de que há estes componentes, sejam eles chamados de natureza e divindade; realidade e idéia; inconsciente e consciente; inconsciente coletivo e inconsciente pessoal; ordem e caos; matéria e forma, Dionísio e Apolo, Deus e Necessidades.

Schiller propõe a estética como uma educação: através deste impulso lúdico que começa com o brincar infantil, o homem torna-se livre e ético, pois é capaz de realizar a integração criativa entre idéia e realidade.

Göethe compreende que o homem não apenas integra estes impulsos, ele transforma ao criar.

 

As obras elevadas de arte foram produzidas, por seres humanos, como as supremas obras da Natureza, de acordo com leis verdadeiras e naturais. Todas as arbitrariedades e falsas ilusões desmoronam – pois aqui só existem Necessidades e Deus. (Goethe apud Steiner, 2001, p.35).

 

E Steiner coloca:

Neste sentido, o artista se nos apresenta como o continuador do espírito que atua no mundo; ele continua a Criação onde o espírito divino a abandonou. Ele se apresenta em íntima confraternização com o espírito divino, e a Arte como a continuação livre da evolução natural. Com isto o artista se eleva acima da vida real comum e leva consigo quem consegue aprofundar-se em suas obras. Ele não produz para o mundo finito; ele o transcende. (Steiner, 2001, p. 34).

[…] Só podemos considerar um artista realmente forte aquele que não nos causa a impressão de repetição fiel da realidade, e sim nos compele a acompanhá-lo quando está dando, criativamente, continuação à evolução do Cosmo em suas obras. (Steiner, 2001, p. 38).

Dentro destas considerações Steiner, em sua obra Pedagogia, Arte e Moral, coloca a arte, o fazer e o contemplar artísticos, como matéria pedagógica obrigatória nas escolas, uma vez que, através da arte podemos aprender a observar e experimentar o natural e o divino e a nos transformarmos em criadores livres, capazes de operar transformações através de nossas obras.

Podemos ver como Schiller, Goethe e Steiner aproximam a arte da pedagogia, mas uma pedagogia de si, do viver, de viver artisticamente para realizar obras de arte. E entendemos que a obra de arte também para estes autores pode ser a própria existência, a própria vida.

Desta forma o viver, em si próprio, é um ato estético, cuidado, como propõe Foucault, criador, como propõe Nietzsche, capaz de resistir, como propõe Deleuze.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para nós fica claro que muito há ainda a ser pesquisado sobre este assunto, mas a realização deste trabalho nos foi muito prazerosa e reveladora. Perceber as diferentes concepções filosóficas e suas aproximações, mesmo com claras oposições entre os autores nos permite entrever um pouco do que talvez seja esta característica de olhar artisticamente e perceber o divino que se expressa em cada obra individualizada.

Fazer da vida uma obra de arte onde as ações, o pensar e o sentir individuais possuem um sentido, uma auto-criação, auto-transformação e transcendência constantes que se refletem no ambiente e no social nos parece agora, diante de tantas reflexões, difícil, pois requer observação atenta, experimentação, repetição, mas não impossível.

Também se torna mais patente a responsabilidade que Foucault, Nietzsche, Schiller, Goethe, Deleuze e Steiner nos legam, de transformarmos a nós próprios e assim sermos agentes de transformação do mundo. A vida, a partir destas visões, tornase um ato resistente, um ato que transcende a morte e se eterniza nas ações praticadas que transformam a realidade do sujeito artista de si próprio, ficando assim, legadas às futuras gerações, a um povo que ainda não existe, transformando também, desta forma, o mundo.

E aqui cabe uma interrogação: não foram todos estes grandes pensadores artistas de sua própria existência? Não são suas vidas as obras que nos foram legadas, que contemplamos ao estudar seus pensamentos? O gênio intenso e também a ordem – Deus e as Necessidades – estão presentes em suas vidas, e isto pode ser constatado através do estudo de seu legado.

 

REFERÊNCIAS

DELEUZE, G. O Ato de Criação. Palestra de 1987. Edição brasileira: Folha de São Paulo, 27/06/1999.

DIAS, R. M., A influência de Schopenhauer na filosofia da arte de Nietzsche em O nascimento da tragédia. Cadernos Nietzsche 3, p. 07-21, 1997.

_____, Nietzsche e Foucault: A Vida como uma Obra de Arte. Disponível em:

http://pt.scribd.com/doc/3506375/Dias-Rosa-Nietzsche-e-FoucaultA-vida-como-obrade-arte-artigo. Acessado em: 15/03/2011.

FOUCAULT, M. As Técnicas de Si. « Technologies of the self » (Université du Vermont, outubro, 1982; trad. F. Durant-Bogaert). In: Hutton (P.H.), Gutman (H.) e Martin (L.H.), ed. Technologies of the Self. A Seminar with Michel Foucault. Anherst:

The University of Massachusetts Press, 1988, pp. 16-49.  Traduzido a partir de FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. Paris: Gallimard, 1994, Vol. IV, pp. 783-813, por

Karla   Neves e          Wanderson     Flor     do        Nascimento.    Disponível      em: http://vsites.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/tecnicas.pdf. Acessado em: 15/05/11.

_____ História da Sexualidade 2: O Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro. Edições Graal. 8ª Ed. 1998.

_____ História da Sexualidade 3: O Cuidado de Si. Rio de Janeiro. Edições Graal. 8ª Ed. 1998.

FRAYZE-PEREIRA, J. A Alteridade da Arte: Estética e Psicologia. Psicologia USP, São Paulo, 5 (1/2), p. 35-60, 1994.

FREITAS, V. A subjetividade estética em Kant: da apreciação da beleza ao gênio artístico. Revista Veritas. Vol. 48, número 2. Porto Alegre: PUC/RS, 2003, pp.253-276. Disponível em http://www.verlaine.pro.br/txt/subjkant.pdf. Acessado em 10/05/2011.

GÖETHE, J. W. Escritos sobre Arte. Humanitas. 1ª Ed. 2008. São Paulo.

GROS, F. “O cuidado de si em Michel Foucault”. In: RAGO, Margareth; VEIGA-NETO, Alfredo (orgs.). Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006, p. 127-138.

JUNG, C. G. O Espírito na Arte e na Ciência. Disponível em:

http://www.esteticaesemiotica.com.br/biblioteca/O%20espirito%20na%20arte%20e%20 na%20ciencia%20C_G_jung.pdf. Acessado em: 15/05/11.

PAIVA, G. J de et al. Experiência Religiosa e Experiência Estética em Artistas Plásticos: Perspectivas da Psicologia da Religião. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2004,

17(2), pp.223-232. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/prc/v17n2/22474.pdf.

Acessado em: 15/05/11.

PINHO, L. C. A Vida como Obra de Arte: Esboço de uma ética Foucaultiana. Artigo. Disponível em: http://www.ufrrj.br/graduacao/prodocencia/publicacoes/eticaalteridade/artigos/Luiz_celso_Pinho.pdf. Acessado em: 15/03/11.

SCHILLER, F. A Educação Estética do Homem. São Paulo: Iluminuras, 1990.

SILVA, S. M. da. A Vida como Obra de Arte. Disponível em: www.fap.pr.gov.br/arquivos/File/RevistaCientifica2/stelamaris.pdf. Acessado em: 15/03/11.

STEINER, R. Arte e Estética Segundo Goethe: Goethe como Inaugurador de uma Nova Estética. Antroposófica. 2ª Ed. 2001. São Paulo.

_____ História da Arte: Reflexos e Impulsos Espirituais. Antroposófica. 1ª Ed. 2011. São Paulo.

_____ Pedagogia, Arte e Moral. João de Barro. 1ª Ed. 2008. Belo Horizonte.

 

Compartilhar:
Share

Deixe um comentário