Carnaval – festa pagã que prepara para a quaresma

Berenice von Rückert*

Origens

Sua origem remonta às festividades realizadas na Antiguidade por povos como os egípcios, hebreus, gregos e romanos para comemorar e celebrar as grandes colheitas. Eram festividades que duravam dias e tinham como ponto principal louvar as divindades pela abundância e alegria.

Na antiga Roma define-se o culto a Saturno (Kronos para os gregos), que era o deus da agricultura. Durante estas celebrações, conhecidas como “Saturnais” os escravos eram soltos e as pessoas dançavam na rua. Havia algumas alegorias de homens e mulheres que dançavam nus e se deliciavam regados a vinho agradando ao deus Baco/Dionísio.

Estas festividades vão evoluindo. Ainda no período romano aparece como a Festividade da Saturnália, onde as pessoas, mascaradas, transitam pela cidade dentro de um “carrum navalis”. Desfilavam fazendo jogos e brincadeiras com aqueles que assistiam. A motivação ainda consistia na comemoração da colheita e abundância.


Incorporação pela Igreja.

No ano de 325 d/C no Concílio de Nicéia, o papa Silvestre I define o cálculo da data da Páscoa como sendo no primeiro domingo de lua cheia após o equinócio da primavera (data em que o dia e a noite têm a mesma duração) no hemisfério norte. Definida esta data, o carnaval vai entrar no calendário cristão como sendo imediatamente anterior a quarta-feira de cinzas. Não vamos detalhar, no entanto, todas estas datas têm uma numerologia esotérica que as justificam.

Mudança de foco da festa

Pertencendo ao calendário cristão, oficialmente no ano de 590 d/C o carnaval deixa de ser uma festa de comemoração da abundância da colheita para ser uma festa de “carnelevale” que quer dizer “adeus a carne” ou “ a carne nada vale”. O ritual da festa continua o mesmo. Vai haver uma grande mudança no foco da festa, pois esta passa a ser uma festa de limpeza, onde vale tudo. É um preparo para a entrada da quaresma. Neste período tudo é permitido para que se purifique a carne até a exaustão, pois ela “nada vale”. Durante este período, além da purificação da carne, purifica-se a vida do cotidiano e da vida mundana.

Entrando na quaresma

Com o término de todas estas festividades marca-se os últimos dias de liberdade para os povos antes de entrar no período de preparação e reflexões para reviver o caminho percorrido por Jesus Cristo na Terra.

Significado cristão do “carnelevale”

Através das brincadeiras, dos jogos, dos desfiles, das fantasias, das máscaras, todo cidadão deveria se libertar e se purificar de tudo que as forças telúricas, as forças de baixo, que prendem os homens ao terreno, à sexualidade, ao profano possam significar. E o vinho e a bebida eram liberados para que todos os demônios pudessem sair e purificar esta alma contaminada. Seria um processo de purificação da alma e do espírito.

4ª feira de cinzas

Depois de todo este processo de limpeza é o momento da queima. A cinza que vai se transformar na adubação do novo, da ressurreição. A carne que vai se purificar. Após esta data as pessoas deveriam entrar em um estado de purificação espiritual, não comer carne, jejuar, ficar em oração. São os 40 dias que lembram as 3 tentações de Jesus no deserto. O número 40 é bastante esotérico. Já começando pelos 40 anos no deserto que o povo passou com Moisés do Egito para a Terra Prometida. Deve ser um período de penitência onde, como aconteceu com Jesus, não se deve ceder às tentações do demônio.

Carnaval no Brasil

Entrudo na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, em 1884, retratado por Angelo Agostini

Trazido desde a época da Colônia como a “Festa do Entrudo” palavra vinda do latim introitus e que significa introdução, onde a tônica era jogar água nas outras pessoas, cantar modinhas, fazer grandes bonecos que simbolizavam vultos famosos ou políticos, no sentido de fazer gozação. Logo a festa brasileira se diversificou em duas: O Entrudo popular, que era na rua, onde acontecia também o Entrudo dos negros, e o Entrudo familiar, que acontecia nas casas das famílias da sociedade. Por volta de 1800 é que vai se dar uma grande ruptura entre o Entrudo e o que hoje conhecemos como carnaval. O Entrudo passa a ser uma festa de cunho anárquico, debochado, e o carnaval uma festa de descontração da nova elite brasileira. Intelectuais, famílias da corte passaram a sair em corso pelas ruas principalmente da cidade do Rio de Janeiro, com fantasias e máscaras. Aparecem os bailes de máscaras e as modinhas de carnaval, com um ritmo próprio, músicas feitas especialmente para estas ocasiões.

Na Bahia o carnaval vai tomar outra dimensão, vai ser uma expressão mais africana, tendo uma relação muito mais forte com a dança e com a sexualidade.

Com a proclamação da república, a abolição da escravatura e uma nova elite as festas vão se tornando mais populares e ficando cada vez mais diversificadas. No Nordeste a música africana passa a ter um espaço maior e o frevo e outras danças africanas, já misturadas, tomam lugar e se denominam afro/brasileiras. No Sudeste surge o ritmo do samba. As marchinhas de carnaval por muitos anos vão ser destaque nas festas de carnaval, que aos poucos se descolam das casas das famílias mais abastadas para entrar nos clubes e se tornar mais populares. As festas de rua também se modificam, surgem os blocos caricatos e mais tarde as Escolas de Samba.

Atualmente o carnaval passa por outro processo de mudança. Praticamente só nas cidades do interior que ainda podemos encontrar os clubes carnavalescos, com as matinées e os bailes noturnos. As Escolas de Samba passaram a ser um grande empreendimento. As festas de rua ainda persistem, mas com outro cunho de significado. As marchinhas de carnaval já não encontram mais o seu espaço na cultura popular, uma ou outra das marchinhas antigas teimam em prevalecer.


O significado da origem

Já não é mais do conhecimento popular a origem da festa e sua relação com a Páscoa. O carnaval veio de uma origem de festa pagã que tinha como tema principal o agradecimento aos deuses pela colheita e abundância. Era uma festa de alegria e agradecimento. Depois passa a ser uma festa de “catarse” do profano como limpeza e preparação para a quaresma e para a páscoa. Hoje estamos completamente distantes destas duas origens.

O que nos sobrou foi somente o lado do profano, o lado da total entrega à tentação.

No ano de 1899, ano em que Rudolf Steiner nos relata que termina o período do ‘Kali Yuga’, ou seja, da escuridão da Terra e quando começa a regência do Arcanjo Michael, Chiquinha Gonzaga vai nos presentear com esta marchinha:

Ó ABRE ALAS 
Ó abre alas que EU quero passar,
Ó abre alas que EU quero passar,
Eu sou da lira não posso negar.

Ó abre alas que EU quero passar,
Ó abre alas que EU quero passar,
Rosa de ouro é que vai ganhar.

Fonte de pesquisa.

Araújo, Iram – Carnaval – seis milênios de história
Morais, Wesley Aragão – O mistério do carnaval
Sousa, Rainier – Origem do carnaval
Steiner, Rudolf – A estratégia de Ariman
……………………….As influências Luciféricas, Arimanicas e Asuricas sobre o homem
……………………….O equilíbrio no mundo e o homem – Lúcifer e Ariman
……………………….O mistério do abismo
Trigueiro, Osvaldo Meira – O Entrudo e as origens do nosso carnaval
Valença, Raquel – Carnaval

*Berenice von Rückert
Cientista Social;
Aconselhadora Biográfica;
Presidente da ABAB;
Membro do grupo “Prosa de Vida”;
Docente da Escola Livre de Estudos Biográficos – MG;
Supervisora da Escuela Eleusis-Formación Biografica – Buenos Aires – AR;

 

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Um comentário sobre “Carnaval – festa pagã que prepara para a quaresma

  1. Daniela Pardi

    Agradeço imensamente pelo texto! Achei bastante aprofundado e esclarecedor!!!! Um abraço fraterno.

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