Biografia – por Ana Maria Lucchesi

Na vida real o amor é o maior
poder de conhecimento.

 

  • Kraljevec – Croácia 27 de fevereiro de 1861
  • Dornach – Suíça 30 de março de 1925

ANA MARIA LUCCHESI CUNHA VASCONCELOS

Escola Livre de Estudos Biográficos Minas Gerais – Juiz de Fora

Formada pelo grupo I

RUDOLF STEINER

 

A Biografia de um Ser Humano Livre

 

‘Vidas não podem ser fielmente registradas em papel, sobretudo aquelas que merecem ser recontadas. Mas, se cabe ao escriba, honesto em seu propósito, a missão de relatar uma vida, o relato inevitavelmente, desfigurado e incompleto, consistirá na soma de várias histórias.’

Esta biografia fala de um iniciado cristão dos tempos modernos – um mestre espiritual, representante da corrente central do esoterismo cristão, cuja missão foi preparar a Terra, para que outros pudessem lançar a semente.

Rudolf Steiner foi um dos maiores pensadores e iniciados do século XX, doando ao mundo a Antroposofia – a sabedoria do Homem, a Ciência Espiritual que ele fundamentou a partir de suas próprias vivências, no início como ‘manifestação por obra de graça’ e a partir dos 18 anos de idade como uma disciplina conscientemente aplicada ao próprio interior. Constante foi o seu esforço para fazer da Antroposofia um trabalho espiritual útil e positivo, reconhecido e aprovado como um movimento científico-espiritual.

Apontou para a humanidade um caminho de autodesenvolvimento adequado ao homem moderno, tornando possível a concretização dos impulsos do mundo espiritual em conseqüências práticas no mundo exterior através da pedagogia, da arte, da Medicina, da agricultura e muitos campos de atividade.

Rudolf Steiner é o primogênito de um modesto casal de austríacos. Seus pais provinham de uma região de florestas ao norte do Danúbio, intocada pelos ventos da modernidade que começavam a soprar. Seu pai, Johann Steiner havia sido caçador a serviço do Conde De Hoyos, em Horn, na Baixa Áustria, onde conheceu Franziska Blie, uma mulher calma e silenciosa. Para se casar com Franziska, Johann assumiu o cargo de telegrafista na recém inaugurada ferrovia do sul da Áustria, favorecendo ao pequeno Steiner um ambiente bastante moderno para aqueles tempos, a partir de sua profissão.

Johann Steiner foi transferido para Kraljevec, situada na fronteira húngaro-croata, num lugar bem distante de sua região natal. É nessa cidade, numa segunda feira, 27 de fevereiro de 1861, que nasceu Rudolf Steiner. O bebê era muito chorão, necessitando ser sempre ninado no colo, em volta da casa, para que se acalmasse e não incomodasse tanto os vizinhos com seus gritos.

Quando completou 1 ano e meio de idade iniciou-se para Rudolf Steiner o que podemos chamar da perda de suas raízes e pátria: mudou-se de seu lugar de nascimento e as mudanças não pararam mais. Johann foi novamente transferido, desta vez para Mödling, perto de Viena e seis meses mais tarde, mudou-se com a família para Pottschach, próximo à fronteira estíria. Neste lugar Rudolf Steiner viveu até a época dos 8 anos de idade e viu chegar ali sua única irmã, Leopoldine (1864 – 1927), e Gustave (1866 – 1941), seu irmão mais novo, que era um menino bem alegre, surdo-mudo de nascença, de quem Rudolf Steiner se ocupou desde cedo. Depois disso a família não cresceu mais.

Os pais de Rudolf Steiner tinham poucos recursos materiais, morando sempre em casas pertencentes às estações de ferro onde o pai trabalhava. No entanto, Johann e Franziska dedicavam o pouco que possuíam ao bem estar de suas crianças. Johann era agnóstico, extremamente trabalhador e sua única distração era se ocupar com os assuntos da política. Franziska era uma mulher inteiramente dedicada às tarefas domésticas e aos cuidados carinhosos com os filhos. A família falava o dialeto alemão da Baixa – Áustria oriental, usual nas regiões da Hungria.

A paisagem natural que cercou o ambiente da infância de Steiner era deslumbrante, cercada por verdejantes montanhas. Tudo era sublime natureza e reinava no lugar uma grande tranqüilidade! De vez em quando os trens se encarregavam de dar aquele lugar um pouco de movimento, colocando o menino em contato com o elemento mecânico traduzido em tudo o que dizia respeito à estação ferroviária.

O ambiente educacional naquela época era desanimador, tendo o menino ficado bem pouco tempo na escola em que foi matriculado. Seu pai logo o tirou dali, em razão de um incidente com o filho do Mestre – Escola e se encarregou pessoalmente de ensiná-lo. Rudolf Steiner aprendeu a ler cedo, mas a escrita era uma atividade pela qual o menino não tinha muitos interesses. Naquele ambiente de trabalho do pai, interessava-o muito mais observar todas as atividades práticas que o pai executava do que se envolver com aquilo que ele lhe ensinava. Fazia logo suas obrigações, para se ver livre das mesmas e observar atentamente todas as manifestações das leis da natureza e da mecânica.

Steiner era uma criança introspectiva, silenciosa, de índole compassiva perante as pessoas e à natureza. Era um menino clarividente, percebendo por detrás de todas as coisas e seres um mundo que não se revelava aos olhos de ninguém de sua convivência.

Desde cedo começou a ter experiências interiores que marcariam sua vida dali por diante. As vivências com as quais se deparava levaram-no a cada vez mais silenciar sobre elas. Dentro da criança reinava a convicção de que não adiantaria em nada esclarecer com os adultos o que ele via, porque se tratava de algo que ninguém em torno vele percebia. O ambiente que reinava à época era de um catolicismo pragmático desprovido de qualquer conteúdo interior, presente apenas como tradição histórica e em sua própria casa não encontrava estímulo algum quanto a essa sua relação com os assuntos do mundo espiritual, levando-o a se sentir completamente estranho em seu próprio meio. Portanto, desde muito cedo se acostumou ao silêncio e à solidão.

Com 7 anos de idade Rudolf Steiner se encontrava sozinho numa sala da estação ferroviária perto de um fogão à lenha, quando viu abrir-se a porta e entrar por ela uma mulher que lhe disse algumas palavras, fez alguns gestos e depois se encaminhou até o fogão e desapareceu dentro dele. Sabia não se tratar de um seu humano corpóreo, no entanto guardou segredo sobre essa experiência porque sabia não encontrar ninguém de seu meio com a mínima compreensão para o que todos consideravam ser somente uma superstição. Se contasse sobre o acontecimento ao pai sabia, com certeza, que ouviria as reprimendas mais amargas e seria alvo de terríveis chacotas. Mais tarde sua família foi informada que uma tia havia se suicidado, num lugar longe dali. O pai nada comentou com ele, mas o menino não teve dúvidas de que aquele episódio se tratou da visita, em espírito, da pessoa que havia se suicidado e que o havia encarregado de fazer algo por ela após sua morte.

A partir desse acontecimento, iniciou-se para o menino uma vida na alma em que se manifestam os mundos dos quais não só falam as árvores, as montanhas, mas também os mundos que se encontram por trás delas. Desse momento em diante o menino vivia com os espíritos da natureza que podiam ser especialmente percebidos naquela região.

Esta é umas das qualidades da iniciação rosa-cruz, vivenciada a partir da condição de vida e da biografia.

Em mais um transferência de seu pai, Rudolf Steiner, aos 8 anos de idade, muda-se com a família, para Neudörfl, uma pequena aldeia húngara, situada na fronteira com a Baixa – Áustria. A região é formada por rios, montanhas, florestas e colinas ao leste e ao sul, favorecendo ao menino o desenvolvimento de sua capacidade de observar a natureza, outra qualidade da iniciação rosa-cruz.

O dia na aldeia era preenchido com a ida à escola, a colheita de frutos na floresta e longas caminhadas para buscar água gaseificada numa forma de contribuir com os afazeres domésticos e colaborar para enriquecer tanto o almoço, quanto com o jantar da família, que normalmente se compunha de um pedaço de pão com manteiga e, às vezes, um pedaço de queijo.

Rudolf Steiner era de pouquíssimas amizades com outras crianças de sua idade, passando horas vagando solitariamente nas florestas das redondezas, em contato com os aldeões adultos que ali buscavam lenha ou observando passar a sua frente monges redentoristas que nem lhe dirigiam a palavra, mas que lhe causavam uma grande curiosidade em relação ao que eles faziam.

Quando entrou para a escola em Neudörfl, o menino já sabia ler, porém tinha grandes dificuldades com a escrita: Rudolf Steiner arredondava todas as letras, ignorando as linhas de cima, escrevendo as palavras desconsiderando a ortografia, lançando mão da musicalidade da língua. Para escrever sentia-se compelido a fixar as imagens verbais em fonemas, da mesma forma que ele ouvia as palavras do dialeto que falava, tornando-lhe muito difícil encontrar um acesso para a escrita da língua.

Para ajudá-lo nessa dificuldade o mestre – auxiliar lhe dá aulas particulares em seu quarto, onde possui uma pequena biblioteca. Rudolf Steiner desperta um especial interesse pelo livro de Geometria de Franz Monik, tomando-o emprestado, começando a estudá-lo sozinho, com afinco e entusiasmo.

O fato de se poder presenciar animicamente o desenvolvimento de formas a serem observadas de maneira puramente interior, sem impressão dos sentidos externos, proporcionou-me imensa satisfação. Nisto eu encontrei consolo para a disposição anímica que me resultara das questões não respondidas. Poder compreender algo puramente no espírito trazia-me uma felicidade interior. Sei que na Geometria eu conheci a felicidade pela primeira vez.

Sua alma ficou plenamente preenchida pela congruência, pela semelhança dos triângulos, quadriláteros, pelo teorema de Pitágoras e pela questão sobre onde se interceptariam as paralelas? Encontrou na Geometria uma espécie de espaço anímico, dando-lhe o modelo pelo qual se pode ter em si mesmo o conhecimento do mundo espiritual.

Este professor também trouxe ao pequeno Steiner a vivência do elemento artístico, lhe ensinando a desenhar com lápis carvão e colocando-o em contato com o violino e o piano, instrumentos que o mestre tocava. O menino ficava junto do professor todo o tempo que podia. Seu nome era Heinrich Gangl.

Recebeu através do pároco responsável pelo ensino religioso, Franz Maráz, a explicação do funcionamento do sistema cósmico copernicano, deixando na alma do pequeno Steiner uma impressão que marcou de modo exemplar sua orientação espiritual posterior. A criança ficou inteiramente cativada pelo assunto.

Com a idade de 10 anos, Rudolf Steiner, o pequeno solitário e de natureza observadora, ainda não sabia escrever corretamente, mas já cultivava dentro de si uma vontade silenciosa e reta de apoderar-se dos acontecimentos a partir da inteligência e da compreensão.

Para que pudesse ingressar no curso ginasial, foi necessário a Steiner realizar uma prova de admissão para a Escola Real, que ficava em Wierner-Neustadt, do outro lado do rio que cortava sua aldeia. A Escola tinha o caráter mais técnico, porque Johann, o pai de Rudolf Steiner, previa para o filho a profissão de Engenheiro. Mesmo não tendo sido aprovado com brilhantismo, ingressou nessa escola em outubro de 1872, com 11 anos de idade.

Cabe ressaltar que para Steiner pouco importava estudar numa escola clássica ou numa escola técnica. O que atuava dentro dele naquela época era um forte desejo de encontrar as respostas para as perguntas que ele carregava dentro de si.

Para ir para a Escola Real, Rudolf Steiner valia-se do trem que partia de manhã de sua aldeia para Wierner-Neustadt, porém na volta não havia mais horários de trens, sendo obrigado a voltar a pé, num percurso que demorava uma hora e meia. No verão o trajeto era de pura natureza, não se podendo dizer o mesmo da paisagem quando era inverno: a neve chegava a bater na altura dos joelhos. Mais tarde ele atribuiu a esse grande esforço físico a oportunidade de fortalecer sua saúde.

O menino acostumado a uma pequena aldeia, não se sente nem um pouco à vontade naquela cidade de casas apertadas umas contra as outras. Porque não morava ali, não lhe sobrava tempo para fazer amizades, sobrando-lhe apenas poucos momentos em que gastava, solitariamente, observando as vitrines no caminho de volta para casa. Nas horas do almoço era acolhido por uma amiga da família que lhe dava de comer gratuitamente e o acolhia sempre que necessário.

Ainda sentia muitas dificuldades em acompanhar as aulas, com exceção de Matemática, Física, Química e Geometria Descritiva, achando a maioria das aulas exageradamente monótonas. Para compensar toda a sua dificuldade de aprender, ele começou a estudar sozinho em livros de matemática e física, que ele mesmo comprava.

Aos 13 anos encontrou na pessoa do professor de Aritmética e Geometria alguém a quem poderia seguir como um ideal de ser humano. O professor lhe ensinava de uma forma tão ordenada e clara, que despertou em Steiner os entendimentos necessários para compreender a Matemática e muita coisa mais que ele ainda não conseguia compreender. Era altamente benéfico ao pensar poder acompanhá-lo.

Empenhando-se em harmonizar o que assimilava pela Matemática, Física e Desenho Geométrico, com o conteúdo que ele trazia dentro de si, buscava encontrar a forma de responder à pergunta: Como se pode abrir para o pensar o mundo do espírito?

Sentia que somente se aproximando da natureza poderia se posicionar perante o mundo espiritual que se encontrava em evidente manifestação diante dele. A adequada vivência do mundo espiritual por meio da alma somente aconteceria quando o pensar adquirisse uma configuração capaz de aproximar-se da essência dos fenômenos da natureza. E, ordenando tudo o que aprendia para se aproximar de sua meta, tornava-se cada vez mais, um aluno exemplar.

O jovem empenhado em elucidar as questões não resolvidas trazidas dentro de si, nunca abdicou de desempenhar as tarefas da vida cotidiana. Aprendeu a encadernar seus próprios livros escolares, a estenografar, e ocupando-se dos afazeres de sua casa, ajudando em tudo que fosse possível e que o tempo lhe permitisse: junto com seus irmãos encarregava-se de replantar os canteiros, cultivar o pomar e ainda arrumava tempo para cuidar sozinho, e com prazer, da tarefa das compras alimentícias para a família, na aldeia. Mais tarde, quando adulto, entendia que devia aquilo do que era capaz ao fato de ter aprendido em criança a sempre lustrar, ele mesmo, os seus sapatos.

Para Steiner, o conhecedor do mundo supra-sensível deve saber como se encontrar de maneira prática na vida, não devendo refletir sobre a vida quem não está inserido nela de forma prática. Por toda sua vida lutará incansavelmente para que o conhecimento do supra-sensório não seja algo meramente que atenda à necessidade teórica, mas sim à verdadeira vida prática.

A partir dos 14 anos de idade, o aluno com grandes dificuldades de aprendizagem se transformou, sendo indicado por seus professores a colegas de sua classe ou alunos mais novos, para ministrar-lhes aulas particulares, encontrando dessa forma um modo de minimizar as despesas que seus pais tinham com sua educação. Foi uma oportunidade para estudar e aprender mais e mais sobre as matérias que ensinava, observando ainda bem novo, as dificuldades da evolução da alma humana.

Aos 15 anos de idade reencontra-se em Wierner-Neustadt, com Carl Hickel, um médico que ele conhecia quando menino, podendo freqüentar sua biblioteca.  O médico se tornou para Steiner o seu professor particular de literatura poética, mostrando-lhe que o mundo era belo, dando-lhe a oportunidade de experimentar um universo diferente daquele que encontrava tanto em sua casa quanto na escola.

Em torno dos 16 anos, numa de suas observações das vitrines das livrarias, Rudolf Steiner adquire um livro de Immanuel Kant – A Critica da Razão Pura. Naquela época ele não tinha a menor idéia da posição espiritual que o filósofo ocupava na história. Seu interesse pelo conteúdo do livro dizia respeito ao que ele desejava compreender dentro de si. Entretanto, o jovem adolescente não tinha tempo disponível para ler o livro, levando-o a buscar a seguinte solução: como as aulas de história eram muito enfadonhas ele inseriu dentro do livro da matéria as folhas do livreto de Kant, podendo ler sossegadamente o filósofo enquanto a aula era ministrada em sala de aula. Steiner lia Kant continuadamente, até vinte vezes a mesma página, para entender como o pensar humano se situava diante do criar da natureza. Queria educar em si a atividade pensante de forma que todo pensamento fosse inteiramente visível, sem a interferência dos sentimentos.

Além do empenho em estudar Kant, adquiriu vários manuais da língua grega e latina, como uma maneira de estudar as matérias que não eram ministradas no seu curso técnico, tornando-se um jovem autodidata e pesquisador de todas as impressões que vinham em sua direção.

Concluiu seus estudos do ensino médio aos 18 anos de idade, em 1879. Encerrou esta etapa com uma prova oral onde explicou o funcionamento do telefone pela física e recebeu seu diploma de Bacharel com nota exemplar no seu comportamento moral.

Os anos de estudo em Viena – 1879 a 1890

Para que Rudolf Steiner pudesse prosseguir seus estudos superiores, seu pai pediu transferência para a estação de ferro de Inzersdorf.  A família muda-se em agosto de 1879, para Oberlaa. Ficaram para trás todos os encantos naturais da paisagem que rodeou a infância e adolescência de Steiner, indo a família morar num canto triste e solitário na periferia de Viena.

A cidade já havia se tornada cosmopolita e moderna, sem os vestígios da Idade Média, escutando-se aqui e ali tons dissonantes que provocavam o despertar da consciência junto com a aurora da nova época.

 

Antes da entrada na Academia Politécnica de Viena, Steiner aprofundou sua pesquisa filosófica, dedicando-se a estudar Fitche, Schelling e Hegel. Foi no estudo de Fitche que lhe foi revelada uma realidade ativa e espiritual. Reescreveu a teoria científica de Fichte, empenhando-se por encontrar o caminho do Eu até a natureza. Para Steiner o Eu humano era o único ponto de partida para um verdadeiro conhecimento.

Sua matrícula na Academia Politécnica foi decidida em função de um estudo que lhe garantisse um ganha-pão, optando, então, pelo magistério científico, com ênfase em Matemática, História Natural e Química.  Reconhece que foram esses conteúdos que lhe deram uma base segura para uma concepção espiritual do mundo, mais que a História e a Literatura que não tinham um método determinado e nem perspectiva no contexto científico alemão daquela época.

Continua dando aulas particulares e estuda graças a uma bolsa de estudos conseguida pelo pai. Na Academia tem aulas de Literatura Alemã, ministrada por Karl Julius Schröer, um pesquisador de Goethe, que ensinava de um modo caloroso e entusiasmado. Através desse professor Steiner é conduzido ao espírito da época de Goethe, sendo incentivado à leitura de Fausto, a obra-prima do filósofo alemão. O professor se tornou um protetor e amigo paternal, sendo esse um encontro decisivo na vida de Steiner.

Ansioso por conhecimento e de natureza muito observadora, Steiner ainda consegue tempo para frequentar toda a sorte de palestras e aulas dos mais variados temas na Universidade de Viena tais como: medicina, pedagogia, psicologia e artes. Buscava encontrar uma forma de esclarecer a questão de como se relacionariam o mundo físico e o mundo espiritual, naquela época de grande materialismo científico e filosófico.

Freqüenta como aluno-ouvinte as palestras de filosofia de Schröer, Robert Zimmermann e Franz Brentano, não lhe sendo fácil assimilar que aquela Filosofia que ele estudava não poderia, no pensamento daqueles filósofos, ser conduzida até a visão do mundo espiritual.

Nesse momento de sua vida, empenha-se em ampliar o seu mundo social, aprofundando-se, para isto, na vida estudantil de Viena. Tudo o que lhe acontecia em volta não lhe passava despercebido, observando as complicadas relações humanas que se desvendavam ante seus olhos.

No entanto, não permitia que ninguém percebesse o que acontecia dentro de si, demonstrando possuir uma força anímica e uma saúde física capaz de suportar toda e qualquer solidão. Estava convicto que sua visão da realidade espiritual deveria ser embasada pelo pensamento científico, e através da Filosofia, busca uma forma concreta de adentrar o, caso contrário, aos olhos dos outros, o jovem talentoso, cujas faculdades de clarividência não lhe davam dúvidas sobre o que existia por detrás e acima do mundo sensorial, demonstraria apenas ser um enfermo da alma.

Para fortalecê-lo em sua meta, duas personalidades são colocadas no caminho de Steiner, como fatos biográficos tramados pelo destino. O primeiro encontro se dá no trem para Inzersdorf, quando ele tinha 18 anos de idade. Era um homem simples do povo, que colhia ervas nas montanhas e as vendia nas farmácias de Viena, de nome Felix Koguzki. Era um iniciado nos mistérios da atuação de todas as plantas e de suas conexões com o cosmo e com a natureza. Para Rudolf Steiner foi difícil, no início, compreender o colhedor de ervas, mas desde o seu primeiro contato teve a mais profunda simpatia por aquele homem. Sentia que o aquele homem falava era influenciado por uma vida anímica de grande sabedoria criativa, trazendo-lhe um grande conhecimento instintivo da Antiguidade. Com Felix, Steiner sentia que se podia falar do mundo espiritual com alguém que tinha experiência dele. Percebia, ainda, que Felix era apenas o órgão fonador para um conteúdo espiritual que queria lhe falar de mundos ocultos.

Rudolf Steiner nunca mencionou o nome dessa pessoa, referindo-se a ele de maneira muito afetuosa em sua biografia. Um antropósofo esclareceu o segredo daquele homem simples. Ele foi fundamental para o caminho interior e o destino de Rudolf Steiner, tendo seu caráter e sua individualidade sido descritos por Steiner em seus ‘Dramas de Mistério’ na figura de Felix Breve.

Mais tarde, num relato a Edouard Schuré, um poeta e teósofo francês seu amigo, Steiner lhe disse que Felix fora apenas o enviado do mestre, que ele ainda não conhecia, mas já o observava à distância e viria a ser seu iniciador. Steiner nunca fez nenhum comentário sobre a identidade pública desta outra personalidade, mencionando-o apenas como aquele homem excepcional e insignificante na profissão exterior. Uma das condições para ser um Mestre é permanecer incógnito.

Ainda, de acordo com Schuré, não foi difícil para o Mestre completar a primeira iniciação espontânea em seu discípulo, Rudolf Steiner. Ele apenas precisou mostrar-lhe como teria de utilizar-se de sua própria natureza para colocar todo o necessário em suas mãos. Mostrou-lhe a ligação entre as ciências exteriores e a ciências ocultas, as religiões e as forças espirituais, assim como a antiqüíssima tradição oculta, que tece os fios da História, separando-os e reatando-os no decorrer dos séculos. Através dos estudos das obras de Fichte, o Mestre conduziu o discípulo a tal fortalecimento dos pensamentos, que o leva a um decisivo despertar da alma. Desse encontro nasceriam os fundamentos de seu livro Ciência Oculta.

O Mestre deixou-o percorrer rapidamente as diversas etapas da disciplina interior, para elevá-lo ao grau da clarividência consciente e racional. Em poucos meses, em aulas orais, ele havia tomado conhecimento da incomparável profundidade e beleza da visão esotérica conjunta. Mostrou-lhe também o significado da dupla corrente do tempo: a expiração e a inspiração da alma do mundo, que provém da eternidade e à eternidade retornam. O conhecimento desta dupla corrente do tempo é a premissa para a vidência espiritual.

Foi lhe concedido seguir os falecidos, vendo o mundo espiritual como sendo realidade. Eu seguia a pessoa falecida pelo seu caminho para dentro do mundo espiritual.

A tarefa de Rudolf Steiner, sua missão de vida, já se delineava: religar ciência e religião. Introduzir Deus na ciência e a natureza na religião. Mas de que maneira isto poderia ser feito? Como ele poderia domar e transformar a ciência materialista? Estas eram suas perguntas mais prementes.

E o Mestre lhe responde: Se você quiser vencer o inimigo, comece por compreendê-lo. Você apenas se tornará o vencedor do dragão quando puder entrar em sua pele. Você precisa pegar o dragão pelos chifres. Apenas no meio da maior adversidade é que encontrará suas armas e seus companheiros de luta. Mostrei-lhe quem você é. Agora vá e permaneça você mesmo!

Iniciava-se um caminho novo e penoso para o jovem de aproximadamente 21 anos, caminho que ele seguiu por toda a sua vida, tornando-se o grande desbravador de um futuro espiritual.

A matemática mais uma vez se mostra como um fundamento de toda a sua busca de conhecimento. Numa aula de Geometria Moderna Steiner se confronta com a imagem de que uma reta, quando prolongada pela direita ao infinito, volta ao seu ponto de partida pela esquerda. O ponto infinitamente distante à direita é o mesmo que o infinitamente distante à esquerda. Compreender que a reta voltava a si como uma linha circular foi uma revelação que lhe tirou um peso enorme dos ombros. Como em seus anos de menino, a Geometria lhe trouxe novamente uma sensação de felicidade junto com um sentimento libertador. Poderia então ser possível uma representação mental que por meio de um avanço no futuro infinitamente distante, implicasse num retorno do passado?

Apresentou-se diante de minha alma uma vidência espiritual, e ela não repousava sobre um sentimento místico obscuro. Transcorria em uma atividade espiritual plenamente comparável ao pensar matemático em sua transparência. Eu me acercava da constituição de alma por meio da qual eu acreditava poder justificar a visão do mundo espiritual que eu trazia dentro de mim também diante do for do pensar científico-natural.  Encontrava-me em meu vigésimo – segundo ano de vida quando estas vivências passavam por minha alma.

Amplia o seu contato com o professor Schröer, freqüentando suas aulas de História da Literatura como aluno ouvinte e visitando-o, freqüentemente, em sua casa, para conversar sobre Goethe, educação e ensino, como num prosseguimento às suas aulas. O professor era 36 anos mais velho que Steiner, estabelecendo entre professor e aluno uma renovação da clássica relação mestre e discípulo.

Schröer recomenda Steiner ao professor Joseph Kürschner, como sendo a pessoa capaz de reorganizar e apresentar a obra científica de Goethe. Steiner seria o responsável por estabelecer uma ponte entre a obra científica de Goethe e a Idade Moderna. Esta tarefa estendeu-se por quase vinte e dois anos de sua vida, levando-o a um contato com a obra do pensador alemão da forma mais aprofundada que qualquer outra pessoa poderia ter.

Assumindo uma tarefa que caberia a Schröer, que era o editor da obra literária de Goethe, mas não tinha nenhum acesso interior à obra científica do pensador, Steiner assumiu para si parte do destino de Schröer e adiou o cumprimento de sua missão por vários anos. No entanto, colocou-o diante de uma decisão que influenciou tanto sua vida espiritual, quanto sua vida exterior. Foi essa a tarefa que obrigou o seu espírito a aprofundar-se e pelejar em seu próprio mundo interior a fim de estruturar as idéias para compreender e demonstrar a índole de Goethe, tornando-lhe possível introduzir a Antroposofia ao público, pois estava ali a base de todo o edifício da Ciência Espiritual.

Era Goethe quem mostrava ao jovem Steiner que ‘aquele que progride rápido demais pelos caminhos espirituais, pode certamente chegar a uma experiência cabal do espírito; só que em matéria de conteúdo-realidade, sairá empobrecido na plenitude da vida.’

Através do trabalho com as obras de Goethe pode observar a diferença entre a constituição da alma à qual o mundo espiritual se manifesta por intermédio da graça, como havia ocorrido com ele em sua infância e a constituição da alma que passo a passo torna o próprio interior cada vez mais semelhante com o espírito. Vivenciando a si mesma como verdadeiro espírito.

É só então que se sente o quão intimamente o espírito humano e a espiritualidade do mundo podem crescer juntos na alma humana.

Nas introduções elaboradas por Rudolf Steiner pode-se observar toda a essência da obra de Goethe. Em sua edição do primeiro volume das obras científicas de Goethe, Steiner alcança o reconhecimento público.

Steiner tem 23 anos quando conclui seus estudos na Academia Politécnica de Viena, mas ainda não tem elaborada uma tese que lhe permitiria seguir a carreira de professor de Filosofia. Não recebendo mais a bolsa de estudos, vê-se empenhado em garantir uma forma de sustento regular. Emprega-se como preceptor na casa da família vienense Specht, também por indicação de Schröer. Na decisão de assumir a educação das crianças dessa família, Steiner tem seus planos de se tornar professor universitário adiados, porém percebe o cumprimento do destino por vias indiretas.

O impulso de participar dos destinos de outras pessoas se faz notar mais uma vez nesse momento em sua vida e de novo a retardação de seus planos, como uma característica sempre presente em sua biografia.

O mais novo dos meninos, Otto Specht era portador de hidrocefalia, sendo considerado anormal em seu desenvolvimento. Por meio de medidas pedagógicas especiais e de um modo particular de se ligar à criança, Steiner conseguiu obter uma melhora tão radical, que após dois anos o menino pode ser matriculado numa escola comum, numa classe de crianças de sua idade. O menino formou-se em Medicina, atuando como médico na 1ª Guerra Mundial.

Além de ter encontrado uma espécie de lar junto a essa família e desenvolvido uma intensa amizade com a mãe das crianças, Pauline Specht, Steiner reconhece que foi a oportunidade dada pelo destino de perceber que a educação e o ensino formam uma arte baseada no real conhecimento do homem, levando-o mais tarde a desenvolver uma pedagogia revolucionária aplicável a toda a humanidade. Com as crianças dessa família ele teve, ainda, a oportunidade de aprender a brincar, resgatando o tempo perdido de sua infância, entre os 23 e 28 anos.

Nessa casa Rudolf Steiner também conheceu Josef Breuer, o médico vienense que participou junto com Freud do nascimento da psicanálise, admirando-se com a criatividade e sutileza de espírito com que esse médico buscava os caminhos para a cura de seus pacientes.

Em 1886, aos 25 anos, como resultado de seus estudos sobre Goethe e de seus esforços filosófico-metodológicos para superar o abismo entre o pensamento moderno e a concepção espiritual, ele escreveu e publicou: Linhas Básicas para uma Teoria do Conhecimento na Cosmovisão de Goethe – uma reflexão do método de conhecimento que Goethe utilizava em suas pesquisas de Ciência Natural – o Goetheanismo. Edita, também, o segundo volume das obras científicas de Goethe.

Nessa mesma época, ele conhece Gundi, a irmã mais nova de um amigo, com quem viveu uma relação anímica muito intensa, mas reconhecia ser a relação impossível de ser concretizada dada a sua reserva em dizer àquela jovem que ele a amava, percebendo igual reserva na moça. Descreve a amiga como um ser solar em sua vida, restando do relacionamento apenas correspondências e, mais tarde, somente as boas lembranças que sempre emergiram de sua alma durante toda a sua vida

Steiner é introduzido, por Schröer, a um círculo de filósofos e literatos vienenses, que se reunia na casa da poetisa Marie Eugenie delle Grazie, onde se promoviam saraus, e se reuniam regularmente professores da faculdade católica de Teologia. Reinava naquele círculo uma busca constante de valores elevados e abertos a impulsos espirituais, mesmo que não houvesse consenso de idéias, como avaliava Steiner. As idéias para sua Filosofia da Liberdade foram amadurecendo à época do convívio com esse círculo.

No início de 1887, então com quase 26 anos, Rudolf Steiner adoece gravemente e precisa de várias semanas para se recuperar, tendo sido cuidado com muita atenção pela Sra. Pauline Specht, mãe das crianças sob a sua responsabilidade educacional. É possível que tenha sido tratado pelo Doutor Josef Breuer nesta ocasião.

Em torno de seus 28 anos de idade, teve a oportunidade de frequentar um círculo de pessoas agrupadas em torno de Marie Lang, que o impressionava profundamente. Foi levado a esse grupo por Friedrich Eckstein, um jovem dirigente de uma Loja Teosófica em Viena. A busca das pessoas que frequentavam o círculo era por algo mais elevado e ali se reuniam para partilhar suas vivências anímicas interiores. Interessou-se pelo efeito que a Teosofia exercia nas pessoas como uma busca mística séria e lê nessa época ‘Budismo Esotérico’ de Sinnet e ‘Luz no Caminho’ de Mabel Collins, mas a leitura do primeiro livro não lhe causou impressão alguma, ficando até aliviado por não tê-lo lido antes de ter suas idéias embasadas em sua própria vida anímica.

Por intermédio deste grupo, conhece Rosa Mayreder, uma mulher engajada nos movimentos políticos e sociais inovadores da época, em torno de quem, reina uma atmosfera de liberdade de pensamento e fervorosa defesa do verdadeiro lugar e significação da mulher na sociedade. Marie Lang e Rosa Mayreder vieram a ser as líderes do movimento feminista, fundando a Associação das Mulheres Austríacas.

Rosa Mayreder foi uma alma feminina totalmente diferente para Steiner. Ele estabeleceu com ela uma grande amizade e junto compartilhava suas formas de pensamento de sua Filosofia da Liberdade. Foi com essa amiga que experimentou ser tirado de parte daquela solidão interior em que ele vivia, mesmo que tivessem diferentes pontos de vista com relação à vivência do espírito. Rudolf Steiner nos conta que Rosa era uma mulher que lhe dava a impressão de possuir alguns dons anímicos que formavam a expressão correta da natureza humana.

Podemos perceber o imenso carinho que Rosa tinha por Rudolf Steiner, através de suas palavras numa carta a ele, de outubro de 1890:

‘Pois a lacuna que sua despedida deixou na minha vida se me faz sentir, todos os dias, a toda hora, em todos os inumeráveis pontos de raciocínio em que a insegurança, a dúvida, a confusão, a inquietação fazem nascer o desejo da felicidade insubstituível da comunicação amistosa que o senhor me ofereceu. Por quanto mais tempo o senhor fica longe, meu caro amigo, tanto mais inimaginável me parece que possa permanecer longe. (Viena, 26 de outubro de 1890).’

Pode-se perceber a variedade das relações e o grande número de amizades que Steiner reuniu ao seu redor, pelo fato de ter se tornado extremamente sociável e por desenvolver dentro de si cada vez mais a característica de nunca negar sua admiração a ninguém e nem por aquilo que estivesse em oposição direta a ele, mesmo tendo a certeza de que ninguém do seu círculo o acompanharia até o seu mundo.

Steiner dessa forma participa, por suas incontáveis amizades em tão diferentes círculos, a tudo que de moderno pulsava em Viena, onde acontecia grande parte da vida cultural da monarquia imperial da Áustria, levando uma vida exterior sem nenhuma relação com o que se encontrava em sua vida interior, mas reconhecia que os seus interesses estavam entrelaçados.

Em paralelo com a função de educador das e professor particular que se estendeu por mais de 15 anos de sua vida, Steiner assumiu temporariamente, na primeira metade de 1888, com 27 anos de idade, a redação do Semanário Alemão, publicado em Viena. Empenhou-se em introduzir uma discussão onde se levasse em conta as grandes metas espirituais da humanidade, recebendo, com essa tarefa a oportunidade de se ocupar com as almas de povos das várias nacionalidades austríacas, buscando encontrar o fio condutor para uma política cultural espiritual.

Ainda se resguarda de uma atuação pública, concentrando-se na estruturação de seu universo filosófico de idéias, prosseguindo em silêncio com seu treinamento espiritual. Tudo na roupagem da filosofia idealista era o que lhe aconselhavam as forças que atuavam por detrás de si.

Em novembro de 1888, perto dos 28 anos de idade, profere na Sociedade Goethe de Viena o que viria ser a sua primeira palestra antroposófica: ‘Goethe como Pai de uma nova Estética’, levando um dos ouvintes presentes a perceber que Steiner compreendia Goethe de uma maneira aristotélica, sugerindo a ele afinidade de seus pensamentos com os de Tomás de Aquino.

Aos 28 anos de idade, em 1889, tem seu primeiro contato com as obras de Nietzsche, sentindo-se capturado e rechaçado por sua abordagem. Não gostou nenhum um pouco de como o filósofo tratava dos problemas mais profundos com nenhuma espiritualidade consciente.

Com essa idade, Rudolf Steiner fez sua primeira viagem ao Império Alemão. Visitou Eisenach, Sttugart, Berlim e Weimar, conhecida como a Atenas do Norte e cidade de Goethe. Em Berlim ele conhece pessoalmente Eduard Von Hartmann – o filósofo do inconsciente, num encontro decepcionante, levando-o a sentir a distância que o separava da Filosofia contemporânea. Hartmann considerou Steiner apenas um admirador, não levando em consideração nada do que ele tinha a falar-lhe.

O ano de 1890, quando Steiner tem 29 anos de idade, é dedicado a terminar a introdução ao terceiro volume da obra científica de Goethe – a parte sistemática da Teoria das Cores. Sua introdução é o que se pode chamar de Ontologia: a teoria do fenômeno primordial arquetípico, do espaço e do tempo e do sistema da Ciência Natural. Pode-se dizer que formava, em esboço, as bases da Antroposofia.

 

Os anos em Weimar – 1890 a 1896

Em 29 de setembro de 1890, aos 29 anos, Rudolf Steiner muda-se para Weimar, na Alemanha, num adeus à Viena e ao convívio regular das reuniões de jovens.

Começa a trabalhar no Arquivo Goethe-Schiller, como um colaborador, sem um emprego oficial, recebendo a tarefa de preparar para a publicação seis volumes das obras científico-naturais de Goethe, destinada à edição Sofia. Deposita as mais altas expectativas quanto a um futuro promissor nessa mudança, uma vez que tal circunstância lhe proporcionaria o mais vivo contato com tudo quanto na vida internacional significava entusiasmo por Goethe ou pesquisa séria do universo goetheano. Porém a mudança revelou-se para Steiner uma desilusão, sentindo que esta incumbência não correspondia aos seus interesses. A ida para Weimar resultou num intervalo de sete anos de espera em sua vida, apesar de ter sido reconhecido como a capacidade mais importante no campo dos escritos-científicos naturais de Goethe. Mais uma vez a postergação de sua meta se faz notar em sua biografia.

Ele não encontrou em Weimar o goetheanismo atual, mas o passado, embora a cidade ainda tivesse o ar da época de Goethe. Sofria com aquela situação acanhada e burocrática que reinava no arquivo encobrindo a possante irradiação que o gênio de Goethe poderia influenciar na vida cultural do ocidente. Estranhou muito o ambiente externo de atividade científica a que estava submetido, sentindo não ter nenhuma relação interior com ele.

Ocupou-se em estudar o conto de Goethe: ‘A Bela Líria e a Serpente Verde’, como forma de pesquisa de todo o credo de Goethe.

Em março de 1891, aos 30 anos de idade, Steiner sofreu afonia, com paralisia completa das cordas vocais, sendo tratado com aplicações de eletricidade, considerada o agente universal da Idade Moderna.

Seu principal trabalho nesse ano foi a edição das obras morfológicas na edição Sofia, um trabalho puramente filológico. Com sua disposição de ânimo alterada, ele tinha pressa em terminar o trabalho para concentrar-se em sua tese de doutorado e obter um cargo como professor catedrático na Universidade Jena.

Sua tese intitulada Verdade e Ciência é uma lúcida investigação dos elementos básicos do ato cognitivo e seria prelúdio de sua Filosofia da Liberdade. Com ela obteve seu título de Doutor em Filosofia pela Universidade de Rostock em 26 de setembro de 1891.

Logo após a publicação da tese, Steiner aceita o pedido de um editor para escrever um livro sobre os problemas fundamentais da metafísica, que lhe dá muita alegria por perceber-se envolvido com algo que faz sentido para ele. Então, em outubro de 1891, ele começa a escrever sua Filosofia da Liberdade, há muito já preparada.

Em 1892 a tese é publicada em forma de livro – Verdade e Ciência, e ao mesmo tempo, ele se dedica, através de muitos contatos, a conseguir um emprego como professor de Filosofia na Escola Politécnica de Viena, porém sem sucesso.

No meio do ano de 1892, com 31 anos, Rudolf Steiner conhece Anna Eunike.  Ela era uma mulher viúva, mãe de quatro filhas e um filho e tinha 39 anos de idade. Solicitou a Steiner que a ajudasse na tarefa de educar seus filhos, cedendo-lhe uma parte de sua residência. Steiner, que até então não havia encontrado um lugar satisfatório para morar em Weimar, aceitou o convite, mudando-se para a residência da família. Logo entre os dois nasceu uma íntima amizade que se transformou em matrimônio 7 anos mais tarde em Berlim.

Pouco antes de sua morte, Anna relatou a uma de suas filhas que os anos em que viveu com Rudolf Steiner foram os mais felizes de sua vida, existindo outros depoimentos que mostram, também, Steiner muito feliz enquanto durou o matrimônio.

Anna Eunike, de quem logo me tornei intimamente amigo, cuidava para mim com dedicação de tudo que tinha de ser cuidado. Ela dava grande valor à ajuda que lhe prestava em suas difíceis tarefas com a educação dos filhos.

Aos 32 anos de idade, publicou seu livro Filosofia da Liberdade em 15 de novembro de 1893, pela Editora de Emil Felber, de Berlim, trazendo sua teoria do conhecimento. Em todos os capítulos há pensamentos novos, idéias que Steiner não havia expressado desse modo até então. Filosofia da Liberdade tem seu fundamento numa vivência que consiste na conciliação da consciência humana consigo mesma. A liberdade é exercitada no querer; no sentir é experimentada; no pensar é reconhecida. Porém, para alcançar isto, não deve a vida ser perdida no pensar.’

Em janeiro de 1894 proferiu uma palestra intitulada ‘Gênio, Loucura e Criminalidade’ para trezentos ouvintes, provocando em seus colegas de trabalho do Arquivo uma reação de distanciamento e frieza, lhe custando, mais tarde, a possibilidade de voltar à Viena ou de trabalhar em Jena como professor de Filosofia, por boatos que os colegas espalharam dele.

No ano de 1894, aos 33 anos de idade, Steiner dedicou-se ao estudo das obras de Friedrich Nietzsche, cujo primeiro contato já havia se dado em 1889.  Foi convidado, tempos depois, em 1896, a conhecer pessoalmente o filósofo, que já se encontrava seriamente doente. Contemplando Nietzsche Steiner percebeu que tem diante de si uma alma infinitamente bela, que trouxera de existências anteriores um tesouro dourado de luz, mas incapaz de fazer com ele brilhasse plenamente nesta vida.

Com 34 anos, em 1895, conheceu Haeckel pessoalmente em Jena, um eminente cientista representante da Teoria Evolucionista. Steiner considerava a teoria de Haeckel como a mulher fundamentação científica para o ocultismo, compreendendo que se o pensador tivesse estudado um pouco mais de Filosofia teria chegado às mais elevadas conclusões espirituais em seus trabalhos filogenéticos. Ao conhecê-lo pessoalmente, Steiner viu naquele homem um ser humano que somente era capaz de suportar impressões dos sentidos, não deixando o pensamento manifestar-se nele. A atividade da alma cessava naquela personalidade.

Nietzsche e Haeckel eram dois representantes da cosmovisão moderna. Mesmo que toda a teoria que os dois defendessem lhe fosse totalmente estranhas, Steiner reconheceu que eram os principais impulsos da época, levando-o a unir-se com esses impulsos, transformando-os a partir de suas concepções e com isto construir uma ponte apoiada em fundações firmes da Ciência Natural para uma Ciência do Espírito. Dessa forma entrosou-se nas correntes mais contraditórias, compartilhando dos destinos e das visões de mundo daquelas duas personalidades, reconhecendo o abismo em que se encontrava a humanidade, sem perder de vista a necessidade de sobrepujar esse abismo rumo a uma nova era de luz.

Suas forças ocultas lhe mostravam que deixasse fluir para a época o verdadeiramente espiritual, sem que isso fosse notado, tendo sempre em vista que não se chega ao conhecimento quando se quer impingir o próprio ponto de vista de maneira absoluta, mas quando se imerge em correntes espirituais alheias.

Um ano antes de deixar Weimar, por volta dos 35 anos de idade, Steiner sentiu em sua alma uma transformação que ele denominou ‘uma grande reviravolta anímica’, que se tornará pura vivência após sua mudança para Berlim.

Terminou a edição da obra de Goethe, na qual trabalhou por 7 anos.Trata-se de uma obra monumental, abrangendo 147 volumes, pelo acréscimo de introduções. Até hoje a Edição de Weimar ou ‘de Sofia’ é a mais completa das obras de Goethe.

Na finalização de suas atividades em Weimar, Steiner nutriu cada vez mais a esperança de poder voltar à Viena, pois lhe pareceu próxima a possibilidade da criação da cadeira de Filosofia na Academia Politécnica de lá, mas isso se mostrou muito improvável de realizar. Colocava-se para ele a questão do quê fazer? Vivia sem moradia própria, num quarto de hotel em Weimar. Começou a elaborar o livro A Cosmovisão de Goethe, editado em 1897, escrito a partir do que ele vivenciou na cidade e de estudos bem abrangentes sobre a História, que se fizeram necessários para a finalização de seu trabalho do pensador alemão.

Em caráter ilustrativo, cabe mencionar que Steiner se ocupou também das edições completas de Schopenhauer e das obras de Jean Paul, Wieland e Uhland.

Aos 36 anos idade, sua vida anímica sofreu uma profunda modificação, relatada da seguinte forma: Minha capacidade de observar objetos, seres e processos do mundo físico transformou-se rumo à exatidão e à profundidade. Isto ocorreu tanto na vida científica quanto na vida exterior. (…) Uma atenção dirigida ao mundo das percepções sensíveis, antes não existentes, despertou em mim. Detalhes passaram a ser importantes: eu tinha a sensação de que o mundo sensorial tinha a revelar algo que só ele pode revelar.

Essa transformação de percepção significou para Steiner o ingresso num mundo novo. Para estudar esse mundo da observação sensível, adentrou em sua natureza concreta através de uma prática exaustiva, enquanto lhe teria sido muito mais fácil movimentar-se no mundo das idéias. O difícil para ele foi apreender o nexo entre essas duas esferas. Em resumo, Steiner se defrontou cada vez mais com a clareza – e morte – das forças estruturadoras do mundo físico, que também possibilitam a precisão na observação dos fenômenos da natureza. O conhecimento tornou-se para ele algo pertencente a todo o existir e vir a ser do mundo, não só do homem.

Desenvolveu mais tarde, a partir dessas vivências, o livro Concepções sobre o Mundo e a Vida no Século XIX.

A meditação passa a ser nessa época, uma necessidade existencial, reconhecendo que através dela o conhecimento do mundo espiritual é apropriado no organismo assim como este se apropria da respiração. Toda a mudança anímica de Steiner estava, pois, vinculada com um processo de auto-observação.

Até esse momento de sua vida, ele percebia que as forças que determinavam seu destino exterior sempre estiveram em consonância com seus anseios interiores. No entanto, agora sentia de modo diferente: era-lhe necessário dar um cunho novo a sua atividade externa. Nunca precisara conciliar de maneira tão árdua, as orientações provenientes do mundo exterior com as suas próprias. Buscava encontrar de todas as maneiras o caminho para traduzir de uma forma inteligível, aquilo que observava interiormente como verdadeiro. Não queria mais se calar, como lhe ordenava sua necessidade interior, mas falar o quanto fosse possível.

Os primeiros anos em Berlim – 1897 a 1901

Surgiu em Berlim a oportunidade de adquirir os direitos de editar a revista Magazine de Literatura, que publicava poesias, ensaios e críticas provenientes da vida cultural. Porém como garantia de pagamento, o editor que estava lhe passando os direitos, impõe como co-editor da revista o poeta Otto Erich Hartleben, um intelectual boêmio, que ainda não tinha superado dentro de si o estudante acadêmico. Hartleben era um tipo de personalidade oposta a tudo aquilo que Steiner sempre estivera vinculado, mas tornou-se participante do círculo de amigos do co-editor.

A mudança para Berlim aconteceu em junho de 1897, aos 36 anos de idade.

Nas redações de seus artigos para a revista, Steiner falava de literatura contemporânea e da vida espiritual moderna, expressando suas convicções. Sua tarefa era fazer valer uma corrente espiritual dentro da literatura. Lentamente ele se dirigia a caminhos esotéricos.

A partir de 1898 começou a participar intensamente de toda a vida literária e dramática da vanguarda artística de Berlim, significando ser absorvido por um estilo de vida muito diferente do seu. Como forma de compreender as buscas interiores de seus contemporâneos, Steiner passava as noites em teatros, mesas de bares e cafés, em debates e apresentações artísticas. Conviveu, então, com pessoas de diversas classes e atividades sociais, estando ai incluído quase todo o espectro da vida cultural da Alemanha. Em suas relações com os boêmios, artistas, poetas e intelectuais da capital do Reino Alemão, ele se viu completamente privado de estabelecer um convívio mais intenso com os filósofos daquela Berlim da virada do século. Percebia, no entanto, ser natural que o outro grupo de convívio o absorvesse completamente.

Internamente viveu uma crise séria e profunda, sentindo como se a alma fosse arrastada para uma espécie de abismo. Não se encontrava satisfeito com sua atuação no mundo, nem pelo que escrevia e nem pelas palestras que proferia. Enfatizava de forma incisiva que o conhecimento do fundamento da natureza deve conduzir ao conhecimento do espírito. Experimentando fortemente os ventos da época em que o materialismo se fazia crescente em todos os anseios sociais e onde todo o conteúdo de vivência religiosa apontava para um mundo espiritual intangível, Steiner experimentou uma intensificação de suas vivências nos tempos finais de Weimar.

Empenhou-se para impedir que o moderno conhecimento da natureza não o arrastasse para uma mentalidade materialista, atento para não perder, desse modo de ver e viver a vida, a contemplação do espiritual. Rejeitou tudo quanto nas confissões religiosas era aceito como transcendente. Sua diretriz baseava-se em situar o divino, o além, no mundo de cá. Começou a falar do Cristianismo de uma forma nova: O que se passou em minha alma ante a visão do Cristianismo foi uma intensa provação para mim. (…) Tais provações são as resistências oferecidas pelo destino, que devem ser superadas através do desenvolvimento espiritual. (…) O germe do conhecimento se desenvolveu cada vez mais na virada do século. Antes dessa época deu-se a descrita provação da alma. No desenvolvimento de minha alma, na maior seriedade, como festa de conhecimento, se tratava de estar espiritualmente erguido diante do Mistério do Gólgota.

Deu-se na vida de Steiner, por volta dos 38 anos de idade, a vivência do caminho iniciático cristão-rosacruz, cujo coroamento é o encontro pessoal com o Cristo, tendo o fundamento do conhecimento se tornado encontro espiritual direto. Tudo o que agora ele falava, jorrava com uma intensidade que demonstrava estar contido por anos. Como um Mestre esotérico, passou a expressar publicamente, através de imagens todo o conteúdo esotérico oculto. A época exigia tornar público qualquer conhecimento que viesse a surgir, tornando-se impossível preservar os segredos da sabedoria oculta.

Na vida exterior, diante de tantas preocupações com sua subsistência, sendo ajudado inclusive por amigos de Viena, encontrou a serenidade quando Anna Eunike, com sua família muda-se para Berlim, possibilitando-lhe um refúgio de tranqüilidade e felicidade diante de tudo que vivia na época. Depois de ter passado durante curto período por toda a miséria de morar sozinho, voltam a morar juntos, oficializando sua união – em 31 de outubro de 1899.  Este ano foi bem difícil, um ano que não favoreceu nenhum tipo de trabalho de alma. Creio que não teria conseguido suportar o que tive de trabalhar neste ano sem teus cuidados, tua companhia e participação plenos de amor – não a quantidade, mas a qualidade das vivências me teria oprimido sem você, pois pesou tanto em minha alma. É esta a razão porque nos últimos tempos eu estive tão desagradável.

Em 1899 tornou-se professor na Escola de Cultura dos Operários em Berlim, um reduto do movimento sindical socialista, onde ensinava História Universal, Ciências Naturais e Exercícios de Alocução, para um proletariado adulto e entusiasmado pelo saber. Ensinou segundo o seu ponto de vista e não conforme o marxismo, como era o costume nos círculos sociais democratas da época. Seu método idealista para a História e seu modo de ensinar se tornaram simpáticos e compreensíveis aos operários, levando o círculo de ouvintes a crescer cada vez mais, e dessa forma era chamado todas as noites para ensinar. Em suas aulas mostrava ao operariado a forma como os impulsos espirituais atuavam na História e as maneiras como eles se enfraqueceram ante os impulsos econômico-materiais.  Ao entrar em contato com o operariado, Rudolf Steiner mergulhou num segmento da vida onde a alma individual dormia e sonhava e pôde perceber como uma espécie de alma de massa se apoderava daquelas pessoas, abarcando juízo, idéia e comportamento. Mais tarde constatou como a massa proletária ficou como ‘possuída’.

Publicou seu estudo sobre o Conto A Bela Líria e a Serpente Verde, de Goethe, por ocasião do sesquicentenário do pensador. Em A Revelação Secreta de Goethe, Rudolf Steiner falou sobre o mundo espiritual, numa primeira tentativa de apresentar em público os resultados de sua própria pesquisa espiritual, sentindo agir corretamente dessa forma. Considerava essa criação de Goethe como a ante-sala do esoterismo. O artigo foi publicado em seu Magazine para Literatura, em 28 de agosto de 1899.

Rudolf Steiner proferiu palestras nos mais variados círculos de Berlim, onde se reuniam pessoas interessadas sobre os assuntos do conhecimento e da vida em geral. Usava uma linguagem e um modo de falar intenso, cativando as pessoas que o ouviam, porém em parte alguma lhe parecia ser possível abrir brechas que pudessem desobstruir o campo de visão para o mundo espiritual.

Em setembro de 1900 consegue passar o Magazine para outras mãos.

 

A época da Sociedade Teosófica – 1902 a 1912

Primeira fase da Antroposofia

Ainda em setembro de 1900, aos 39 anos de idade, foi convidado pelo Conde e pela Condessa Brockdorff, mentores de um pequeno círculo de teósofos que se reunia em Berlim, para proferir uma conferência sobre Nietzsche. Diante daquele público, Steiner sentia estar falando para pessoas interessadas no mundo espiritual. Convidado a dar mais uma palestra, ele propôs o tema A Revelação Secreta de Goethe. Sentiu falar de um modo bastante esotérico, pela primeira vez, já que até então só poda deixar o espiritual apenas transparecer em suas exposições.

Passou a proferir palestras aos membros daquele círculo de forma regular, deixando claro que falaria sobre aquilo que pulsava dentro dele como Ciência Espiritual. Essas conferências foram reunidas e publicadas no livro A Mística no Despontar da Vida Espiritual (Berlim – 1900). Neste livro encontra-se a primeira referência da figura médica capital da Europa Central no início da Idade Moderna: Paracelso – o médico que conhece a natureza da cura é uma presença essencial nas conferências de Steiner.

Nesta época conheceu Ita Wegman, que freqüentava suas palestras como uma de suas ouvintes. Porém, foram necessários vinte anos, quase três setênios, para que desse encontro surgisse a ampliação científico-espiritual na antroposofia.

Dentro da Sociedade Teosófica deu-se, também, o seu encontro com Marie Von Sivers, uma jovem polonesa muito bonita, que se educara na Rússia e havia estudado teatro em Paris, tendo, recentemente, encerrado sua carreira de atriz. Esse encontro com Marie Von Sivers marca o princípio de sua vida como personalidade pública e assinala o fim de seu matrimônio com Anna Eunike, apesar de os dois ainda viverem juntos até o ano de 1903.

Com o surgimento de uma seção alemã da Sociedade Teosófica, em outubro de 1902, Steiner foi convidado por Annie Besant, a presidente geral da Sociedade, para assumir a Secretaria Geral, tendo sido Marie Von Sivers indicada para sua direção. Dentro dessa Seção, ele teve a oportunidade de falar cada vez mais somente os resultados de sua própria visão do mundo espiritual, já apresentando suas palestras sob o título da antroposofia. Buscava alcançar um saber de ordem espiritual, preocupando-se em sacudir do movimento teosófico qualquer tendência que proviesse de meios espíritas e evitar que se desenvolvesse a prática de passes e do mediunismo. São águas para o moinho do materialismo, escreve ele. Sentiu-se acolhido e compreendido em torno das pessoas interessadas em Teosofia.

Após assumir o cargo na Sociedade Teosófica, seu nome foi profundamente rejeitado em outros círculos em que proferia suas palestras. Passaram a designá-lo como um ‘teósofo’ e dirigente de uma sociedade obscura. Compreendeu que nesses outros círculos ouviam-no apenas como um literato, não tendo a menor compreensão para o conteúdo que ele trazia no coração.

Três dias depois de assumir o cargo como Secretário, ele e Marie Von Sivers são admitidos na Escola Esotérica que existia dentro da Sociedade Teosófica. Assim como ele introduzira algo novo na Sociedade Teosófica, deixou claro que também no círculo esotérico o conteúdo deveria ser buscado diretamente na revelação presente e contínua dos mundos espirituais, independente de qualquer tradição. Em relação à forma exterior da Sociedade, Steiner respeitava corretamente as competências e os usos, mas em relação ao conteúdo espiritual, ele estava decidido a seguir seu próprio rumo.

O movimento teosófico era sediado em Adyar, perto de Madras, na Índia e estava estruturado sobre os ensinamentos da Senhora Helena Blavatsky (‘Ísis sem Véu’ e ‘A Doutrina Secreta’), que estava orientada exclusivamente para a sabedoria oriental da Índia. Na Alemanha, a Sociedade enfrentava uma espécie de definhamento e as pessoas ligadas a esse círculo esperavam a ‘fundação científica’ da Teosofia, quando foi fundada a Seção Alemã.

Steiner reconhecia a grandeza da sabedoria oriental, porém a considerava inadequada em satisfazer as necessidades espirituais do ocidente, entendendo que essa sabedoria não poderia superar a diretriz materialista da moderna Ciência Natural. Para fazer-se inteligível servia-se, com reservas, da terminologia oriental-teosófica, mas logo depois, procurou substituir as expressões orientais por palavras novas, correspondentes à consciência moderna.

Steiner sabia que as pessoas que acolhiam o conhecimento do espírito, que ele dizia com o coração e o bom senso, não eram necessariamente os membros da Sociedade Teosófica, mas pessoas interessadas na sua forma de conhecimento do espírito. Nos membros, percebia que a grande maioria eram fanáticos seguidores de alguns líderes da Sociedade, que atuavam de forma dogmática e sectária.

Os obstáculos a que esteve confrontado nessa época, através de forças contemporâneas avessas ao conhecimento espiritual, se transformaram no motivo que o levaram a atravessar sua prova espiritual mais intensa. Foi daí que ele retirou energia para atuar com base no espírito, empenhando-se cada vez mais em levar a Antroposofia ao mundo.

Em maio de 1903, com 42 anos de idade, fundou com Marie Von Sivers uma publicação mensal de nome Lúcifer, que surgiu para desenvolver a Antroposofia, sem nenhuma dependência com aquilo que a Sociedade Teosófica mandava ensinar. A revista se ampliou, sendo Steiner convidado por um editor de Viena, que editava um periódico de nome Gnosis, para a fusão dos dois periódicos. A publicação passou a se chamar Lúcifer-Gnosis e nela tomam forma as instruções destinadas a criar uma consciência superior e uma autêntica penetração nos mundos supra-sensíveis. A senda do conhecimento passou a ser ensinada de forma pública, endereçada a todos os homens e adequada à consciência do nosso tempo

Aos 43 anos de idade, em 1904, participou do Congresso Teosófico de Amsterdam-Holanda e ministrou inúmeras conferências na Alemanha.

 

Seu livro Teosofia foi publicado sob a forma de artigos na revista Lúcifer-Gnosis, assim como O conhecimento dos mundos superiores e Crônica do Akasha. Nestes escritos estão contidos os conteúdos introdutórios e a preparação individual para iniciar o caminho meditativo ensinado na Escola Esotérica. Em suas exposições ele distingue três estágios na consciência superior: Imaginação, Inspiração e Intuição.

 

Em Teosofia encontramos um livro que nos permite compreender de forma clara e direta as idéias de Rudolf Steiner. O livro estabelece os pontos básicos acerca do espírito e da vida depois da morte e tem uma atmosfera de serenidade que produz no leitor o mesmo efeito da leitura do Bhagavad Gita. Nesse livro desenvolve conceitos que esclarecem a lei da reencarnação.

 

Steiner advertia que a leitura de um livro antroposófico, deveria servir para despertar no leitor a vida espiritual e não para lhe proporcionar uma soma de informações.

 

Com 44 anos, no ano de 1905, dedicou-se intensamente a proferir conferências públicas, tanto na Alemanha quanto na Suíça, visitando grupos teosóficos que já existiam e fundando novos grupos, aprofundando o seu contato com os membros e outros interessados. Ministrou aulas esotéricas em todas as cidades que visitava para fazer conferências públicas, somando por volta de duzentas e cinqüenta aulas até o início da Primeira Guerra. Esforçava-se em formar um novo organismo esotérico que seria como alimento para a nova cultura a ser fundada a partir da abertura e mudança ocorrida no mundo espiritual. Suas conferências falam do novo, com muitas imagens sobre mitos e símbolos antigos, trazendo esclarecimentos sobre os antecedentes das antigas tradições, despertando na alma o conhecimento desse patrimônio inconsciente da humanidade, preparando e dispondo a alma para o cultivo consciente do autoconhecimento.

 

Encerrou neste ano suas atividades na escola de formação de trabalhadores, convidado a se retirar daquele círculo, pois a direção marxista não aceitava mais a sua maneira de falar e seus temas. O impulso libertário que ele buscou implantar nos jovens discípulos foi o motivo pelo qual as autoridades resolveram afastá-lo da Instituição. Foi com este público que Steiner descobriu-se um orador carismático e, até alguns decênios depois, encontravam-se socialistas que falavam com entusiasmo desse mestre que despertava neles o sentido da liberdade.

 

Em 1906, com 45 anos, proferiu os primeiros grandes ciclos de conferências fora de Berlim, inclusive o ciclo O evangelho Segundo João, em Munique, dando inicio à sequência de ciclos sobre os evangelhos, sua obra sobre Cristologia. Apenas 44 conferências se realizaram em Berlim e 201 em outras cidades. Rudolf Steiner começou a dar cursos de uma conferência por dia ao longo de duas semanas – os ciclos. Os participantes podiam se aprofundar melhor no tema, sendo o efeito mais intenso do que em conferências isoladas.

 

Fez nessa época conferências em Paris, onde encontrou pela primeira vez com Edouard Schuré, o poeta e teósofo, autor de Drama Sagrado de Eleusis, que Marie Von Sivers havia traduzido para o alemão, que se tornaria um grande amigo. No ciclo de Paris, depois de um longo processo de maturação, comunicou o fato de o corpo etérico do homem ser feminino e o da mulher, masculino. Com seu corpo físico o homem está integrado às forças da Terra e por meio do corpo etérico encontra-se entrosado com as forças do Cosmo extraterreno. Demonstrou que as qualidades masculinas e femininas remetem-se aos mistérios do mundo.

 

Berlim continuava a ser o centro de suas atividades. Lá, na Rua Motz 17, ele conservou seu domicílio até além do fim da Primeira Guerra Mundial. Mas em Berlim a Antroposofia se desenvolvia numa racionalidade clara, uma vez que a cidade se encontrava completamente imersa na esfera do racionalismo e do intelectualismo.

 

No decurso do ano de 1906 demonstrou a nítida diferenciação entre os vários caminhos de autodesenvolvimento esotérico: o caminho hindu da yoga (difícil de trilhar pelo homem ocidental), o caminho cristão-gnóstico da Idade Média (que requer o afastamento da vida cotidiana) e o caminho rosacruz, que se inicia com a educação do pensar, com o ‘estudo’. Para Steiner o verdadeiro rosacrucianismo não se encontrava nos livros de história, porque foi transmitido por tradição oral. E neste caminho, a relação entre guru e discípulo é substituída pelo apoio de uma educação do pensar. O próprio discípulo tem de ser o condutor e dirigente.

 

1907 é o último ano descrito por Rudolf Steiner em seu livro autobiográfico – Minha Vida. No último capítulo informa ao leitor que a exposição de sua biografia, desse momento em diante, dificilmente poderá ser separada da uma história do movimento antroposófico.

 

Rudolf Steiner estava com 46 anos de idade, quando, à época de Pentecostes, aconteceu em Munique o IV Congresso da Federação das Seções Européias da Sociedade Teosófica. Neste congresso ele tem a oportunidade de reproduzir no ambiente uma decoração em formas e cores em que expressava o conteúdo das comunicações orais que seriam realizadas, fazendo questão de apresentar um ambiente artístico em completa harmonia com a atuação espiritual. Ele falou pela primeira vez sobre Cosmologia e Antropogenia. Ao lado de Marie Von Sivers, ele inaugurou o elemento artístico, através da apresentação do ‘Drama de Eleusis’ de Edouard Schuré, ficando claro que a vida espiritual na Sociedade não aconteceria mais sem o lado artístico. Era a aplicação prática da Antroposofia no mundo exterior.

 

As inovações trazidas por Steiner ao Congresso de Munique não agradaram parte dos antigos membros da Sociedade Teosófica da Inglaterra, França e Holanda. Somente uma minoria entendeu que aquilo que estava sendo oferecido pela corrente antroposófica, era uma postura interior totalmente diversa daquela praticada pela Sociedade Teosófica. Esta postura interior era o verdadeiro motivo pelo qual a Sociedade Antroposófica não podia continuar a existir como uma parte da Sociedade Teosófica, e não os fatos que assumiram vulto mais tarde, provocando inúmeras discórdias.

 

Infatigavelmente ativo espiritual e fisicamente, Rudolf Steiner elaborava a Antroposofia como ciência espiritual, como arte e impulso social e procura consolidá-la em almas e círculos humanos. Era-lhe necessário introduzir o espírito no mundo, desempenhar um trabalho fértil e frutífero para a alma.

 

Em maio de 1908, quando Steiner tinha 47 anos, o último número da revista Lúcifer-Gnosis é publicado. As publicações tiveram que ser encerradas em virtude da carga de trabalho a que estava exposto. Foi um período de muitas viagens e conferências, sendo cada vez mais solicitado como conselheiro pessoal em todas as questões de vida.

 

Marie Von Sivers, juntamente com a colaboração de Johanna Mücke, fundou a Editora Filosófico-Teosófica, em Berlim, com o objetivo de reunir em forma de livros as publicações dos escritos de Rudolf Steiner e ainda, dar uma forma correta às anotações individuais que vinham sendo feitas pelos membros em suas várias conferências e aulas.

 

Aos 48 anos de idade, em 1909, encontrou-se pela primeira vez, em Berlim, com Christian Morgenstern (1971-1914), um dos mais notáveis poetas da língua alemã que se tornará seu discípulo. Christian transformou em maravilhosos poemas muitos conteúdos das conferências de Steiner:

 

Ele falou. E como ele falava, resplandeciam nele o Zodíaco, querubins e serafins,

O astro solar, a translação dos planetas

De ponto em ponto.

Tudo isso jorrava com sua voz,

Era avistado em relance, como um sonho cósmico,

Todo o firmamento parecia baixado às suas instâncias

Por mercê de suas palavras.

 

A ciência Oculta é publicada em 1909. Nesse livro Rudolf Steiner comunica o que tinha elaborado como resultado de sua pesquisa espiritual e fornece as indicações de como podem ser desenvolvidos órgãos para a percepção espiritual, numa linguagem clara e acessível ao não iniciado. No livro foram mantidos com precisão os limites entre o que se pode e deve comunicar, naquela época, do âmbito dos conhecimentos supra-sensíveis e aquilo que se deveria expor mais tarde de outra forma.

 

Em suas conferências abordava aspectos íntimos e profundos da essência do Cristianismo, avançando nos ensinamentos esotéricos e na pesquisa espiritual do Evangelho de Lucas, das Hierarquias Espirituais e dos poderes opositores à evolução humana.

 

No Congresso Internacional em Budapeste, em agosto de 1909, encenou ‘Os Filhos de Lúcifer’, peça de Edouard Schuré, com Marie Von Sivers, proferindo uma conferência sob o tema A Essência das Artes, que do princípio ao fim foi ela própria uma obra de arte configurada.

 

Ao final de 1909, Steiner falou da Antroposofia, por ocasião da Assembléia Geral da Seção Alemã da Sociedade Teosófica, e anunciou que ela será publicada em esboço, em vários cursos e conferências.

 

Segunda fase da Antroposofia – 1909 a 1916

Em 12 de janeiro de 1910, perto de completar 49 anos, num curso em Estocolmo, Suécia, Steiner anunciou pela primeira vez o aparecimento do Cristo no plano etérico: novas faculdades da alma humana se mostrariam a partir de 1933 tornando possível aos seres humanos a visão clarividente do mundo etérico, no qual Cristo se manifesta de forma nova. Ele já observava o desenvolvimento de novas faculdades de clarividência sob as faixas da consciência intelectual que precisavam apenas ser despertadas para que sublime vulto etéreo do Cristo fosse percebido.

O Cristo voltará, porém numa realidade superior à física, numa realidade tal que somente se lhe poderá elevar o olhar tendo-se, antes, adquirido o sentido e a compreensão pela vida espiritual… Inscrevam em seus corações o que deverá ser a Antroposofia: uma preparação para a grande época da humanidade que nos aguarda.’

No entanto, evitava todo o tipo de sensacionalismo ao se manifestar sobre os acontecimentos do momento, para que as pessoas não perdessem sua liberdade em seu sentimento de vida e em suas decisões.

Em julho de 1910 Steiner escreveu o primeiro de seus quatro ‘Dramas de Mistério’ – O Portal da Iniciação – Um Mistério Rosacruz. A apresentação deste Drama se deu no Congresso da Sociedade Teosófica em Munique, diante de um público de duas mil pessoas. Os Dramas de Mistério representavam em linguagem artística aquilo que Rudolf Steiner proferia em suas palestras e foram a aurora da iniciativa que levou à construção do primeiro Goetheanum, o edifício que viria a construir em Dornach para ser a sede do movimento antroposófico. Amadureceu em Steiner uma nova possibilidade: o que ele expunha em seus livros se transformou em Inspiração, expresso pela linguagem e pelo movimento.

Nos dramas são apresentados destinos humanos interligados através de várias vidas terrestres. São mostrados indivíduos em busca do espírito, trilhando o caminho do autoconhecimento e chegando ao limiar do mundo espiritual, cada um a seu modo.

A alma desse empreendimento era Marie Von Sivers, que em São Petersburgo e Paris já tivera aulas com exímios atores e abandonara o teatro quando se deparou com a Teosofia. As recitações eram o seu elemento e ao lado de Rudolf Steiner, ela inspirava vida aos seus dramas.

Em 17 de março de 1911 Anna Steiner faleceu.

Rudolf Steiner, então com 50 anos, proferiu uma série ciclos e conferências em Bolonha, Copenhague, Munique, Karlsruhe, Hannover, Milão, Berna e Munique. Nesta ocasião fala na Dinamarca, onde teve a oportunidade de conhecer a senhora Valborg Werberck-Swärdström e seu marido Louis Werbeck, que se tornaram colaboradores incansáveis na divulgação da Antroposofia.

A apresentação do segundo Drama de Mistérios – A Provação da Alma em 17 de agosto de 1911 deu-se em um momento em que as discordâncias com a Sociedade Teosófica aprofundavam-se.

Após anunciar uma nova revelação do Cristo fica evidente para Steiner um conflito com a Sociedade Teosófica, cujos membros e dirigentes – Annie Besant e H. S. Olcott – viam na síntese de todas as religiões um alto ideal que esperavam alcançar por uma tolerância inteligente. A sua visão do acontecimento do Gólgota e de Jesus Cristo como ponto central da História da Terra e da Humanidade, era uma visão estranha aos dirigentes da Sociedade Teosófica.

Juntando-se a tudo isto, sobreveio o fato de que Annie Besant apresentou um rapaz hindu que seria a personalidade na qual o Cristo se apresentava em uma nova vida terrena, fundando dentro da Sociedade Teosófica a Ordem chamada ‘Estrela do Oriente’, que cuidaria dessa personalidade, que vem a ser Jiddu Krishnamurt.

Os ataques cada vez mais intensos e depois a campanha de difamação desencadeada abertamente por Annie Besant, em resposta à postura que Steiner assumira em relação ao caso Krishnamurt, tornaram impossível a continuação do seu trabalho dentro da Sociedade Teosófica. Em setembro de 1912 a diretoria da Seção Alemã, na pessoa de Rudolf Steiner e Marie Von Sivers, declarou ser incompatível com esta seção o que estava acontecendo na Sociedade Teosófica, tornando-lhe impossível receber os membros da nova Ordem dentro da Seção Alemã.

A Sociedade Teosófica, através de Annie Besant, rompeu a ligação com Rudolf Steiner num ato que revogava o Conselho Geral dos Estatutos da Sociedade Alemã – quatorze lojas alemãs se mantiveram com ela e as demais seguiram Steiner. Com estes membros ele iniciou os preparativos para a fundação da Sociedade Antroposófica em dezembro de 1912, como uma sociedade autônoma.

Fato relevante é que, mesmo com todo sofrimento a que esteve sujeito quando do episódio de seu rompimento com a Sociedade Teosófica, Rudolf Steiner nunca teceu nenhum comentário que desmerecesse a pessoa de Annie Besant, como pode se constatar em sua autobiografia, num exemplo de tolerância e perdão, característico de seu ser.

É fato, também que, em virtude de ter iniciado seu trabalho de cunho esotérico nos âmbitos da Sociedade Teosófica, mesmo discorrendo sobre um conteúdo que não se vinculava àquela Sociedade, Rudolf Steiner sempre foi reconhecido como um teósofo e mesmo hoje, as pessoas de fora ainda confundem a corrente central do cristianismo esotérico, representado pelo Antroposofia, com a Teosofia, de orientação oriental de Blavatsky e Besant, incluindo a Antroposofia como corrente não cristã dos tempos modernos.

Ocupado a todas essas questões que envolviam sua vida, Rudolf Steiner se mantinha atento e solícito às perguntas sempre crescentes das pessoas que o cercavam, organizando nessa época – janeiro de 1912, aos 51 anos de idade, as primeiras instruções dos exercícios de Euritmia a Lory Smits. A jovem alemã de Düsseldorf, de apenas 19 anos, estava interessada numa formação especializada em ginástica rítmica.

Steiner tem a preocupação em demonstrar que a Euritmia não era simplesmente uma arte da dança, mas uma arte do movimento, provinda dos antigos mistérios gregos, que promoviam a cura através de palavras, movimentos sonoros e tonalidades.

Sob os cuidados de Marie Von Sivers, desdobrou-se em três abordagens: arte teatral, complemento de educação nas escolas e como euritmia curativa. Talvez não seja possível sentir, em arte alguma, o ser colocado no cosmo de uma maneira tão intensiva como na arte eurítmica.

Na Páscoa desse ano, Rudolf Steiner publicou o Calendário Antroposófico da Alma e escreveu e encenou o terceiro Drama de Mistério: O Guardião do Limiar, em agosto. Em dezembro deste mesmo ano, fundou sem grandes formalidades a Sociedade Antroposófica em Colônia, na Alemanha.

Com 52 anos de idade participou da realização da primeira assembléia da Sociedade Antroposófica, porém não faz parte da Diretoria e recebeu a adesão de grupos de vários países.

As apresentações dos Dramas, que eram encenadas sempre em Munique, no Teatro do Gärtnerplatz, em agosto de cada ano, revelavam a Steiner que nessa cidade atuava o lado artístico do trabalho antroposófico, de modo oposto ao que acontecia com o movimento antroposófico em Berlim, onde se progredia cada vez mais no saber a respeito do mundo espiritual.

Por força desse impulso criativo que acontecia com a Antroposofia em Munique, Steiner viu surgir a iniciativa da construção de um edifício com um palco onde se pudesse realizar as apresentações dos Dramas e fosse o centro para as atividades antroposóficas.

O edifício deveria ser algo parecido aos centros de mistérios das culturas antigas, dedicado a cultivar os três grandes poderes da vida espiritual: Ciência, Arte e Religião. A nova construção seria a ‘Casa da Linguagem’ onde o mundo espiritual iria falar. Para sua construção foi formada a ‘Associação Johannes de Construção’, mas a Prefeitura de Munique negou o alvará, considerando o projeto extremamente questionável, em meio à experiente e segura atmosfera artística da época e temendo que a cidade se convertesse num centro de uma peculiar seita religiosa. Anteriormente, uma grande agitação popular, por motivos religiosos, durante a apresentação do Congresso Teosófico naquela cidade fora atribuída à Sociedade Teosófica.

Steiner recebeu a ajuda de muitos membros da Sociedade Antroposófica para o seu empreendimento, ressaltando os esforços de Sofia Stinde, uma pintora alemã, aliada à condessa Pauline Von Kalkreut, também pintora e dama de honra da mãe do último Imperador da Alemanha. Era na residência da pintora que aconteciam as reuniões do ramo e as conferências internas da Sociedade Antroposófica, em Munique – Alemanha. Seus esforços também possibilitaram a apresentação dos quatro Dramas de Mistérios de Rudolf Steiner, em Munique.

Em maio de 1913, Emil Grossheintz, um antropósofo suíço, colocou à disposição de Steiner um terreno de sua propriedade em Dornach, perto da Basiléia, fazendo fronteira com a França, Alemanha e Suíça, um lugar que permaneceu ileso na guerra que já se pressentia. Steiner conheceu o terreno no mesmo mês e aceitou a oferta, comunicando que seria em Dornach e não em Munique a construção do primeiro centro do movimento antroposófico. O trabalho de construção começou imediatamente, pois não havia tempo a perder, diante da eminência de uma guerra.

Num ideal arquitetônico contemplado pelo olhar de Goethe que afirmara que ‘Religião, Arte e Ciência atendem à tripla necessidade do homem bafejado por Deus: cultuar, produzir e contemplar; todos os três são um do início ao fim, embora separados pelo meio’, o próprio Steiner encarregou-se do projeto, dando ao edifício um estilo totalmente inovador para a época. O Goetheanum, conforme o edifício foi chamado por Steiner, tinha uma fundação de concreto de onde se erguia uma obra de madeira coberta por duas grandes cúpulas, cuja dificuldade para serem calculadas e erguidas foi totalmente dominada.

Rudolf Steiner assumiu pessoalmente a direção da obra, encarregando-se em grande parte pelo seu acabamento artístico, pintando, por exemplo, o teto da cúpula menor. O teatro tinha capacidade para mil pessoas e os custos de construção somaram o montante de mais de sete milhões de francos suíços, obtidos por doações. Ali cidadãos de dezessete nações diferentes trabalharam juntos sob a supervisão e cooperação calorosa de Steiner.

A pedra fundamental da construção – um duplo dodecaedro – foi colocada no dia 20 de setembro de 1913. Enquanto Steiner pronunciava o discurso, desabou uma grande chuva, escurecedora e barulhenta, quase fazendo desaparecer a sua voz. Em seu discurso ele falava das forças crescentes de Árimã, que trata de semear o caos e a escuridão.

Após a colocação da pedra fundamental, Steiner realizou em Kristiania, hoje Oslo – Noruega, seu curso sobre o ‘Quinto Evangelho’, um ponto alto na sua pesquisa, demonstrando as vivências experimentadas por Jesus de Nazaré ao longo de seu caminho antes e depois de receber em si, pelo batismo no Jordão, a entidade do Cristo.

Em agosto de 1913 os Dramas de Mistérios são apresentados pela última vez em Munique e ainda neste ano é escrito e encenado o quarto de seus Dramas de MistériosO Despertar das Almas, que mostra as crises de uma comunidade na passagem da teoria à aplicação prática.

Em novembro ficaram prontas as fundações em cimento armado do Goetheanum, sendo construídos os andaimes para a construção de madeira. Em dezembro de 1913 iniciou-se a construção das colunas na carpintaria.

Em janeiro de 1914, perto de completar 53 anos, Steiner participou da segunda e última Assembléia da ‘antiga’ Sociedade Antroposófica, que entrou em um longo período de inatividade enquanto sociedade.

O dinheiro obtido para a construção do Goetheanum começou a se acabar, inviabilizando a inauguração da obra para agosto de 1914, como era o desejo de Steiner, e ali ele pudesse apresentar o quinto Drama de Mistério, ainda não escrito.  Para levantar fundos, foi organizada uma série de conferência onde ele destacava a importância da efetivação do projeto para a humanidade, conseguindo continuar a construção, mas sua inauguração precisou ser adiada.

Nos primeiros dias de agosto de 1914 sobreveio a 1ª. Grande Guerra. Muitos operários precisaram deixar a Suíça e voltar a seus países de origem e partir para os campos de batalha. Quando a guerra eclodiu, Rudolf Steiner encontrava-se em Bayreuth, junto a Marie Von Sivers, regressando rapidamente a Dornach, numa noite de grande caos. Ela relata que no transcurso dessa terrível noite cinza, o mundo havia mudado e a expressão pesada expressa no rosto de Steiner durante estes dias, a dor que ele sentia por toda a humanidade, era quase intolerável.

As aulas esotéricas foram interrompidas, pois havia muita perturbação no mundo espiritual vizinho à Terra pelo grande derramamento de sangue humano e pela morte de tantos jovens.

No final deste terrível ano a estrutura da construção ficou pronta e continuaram os trabalhos de escultura das colunas, das arquitraves e de pinturas. Em 24 de dezembro de 1914, Steiner casou-se com Marie Von Sivers, em Dornach, tendo ela passado a se chamar Marie Steiner.

Durante o ano de 1915 a guerra impediu a atuação pública de Steiner, que tem 54 anos de idade. Dornach havia se tornado o centro da vida antroposófica, abrigando ali cerca de duzentas pessoas de diversas nacionalidades, jovens e velhos, artistas, cientistas, comerciantes, unidos e trabalhando em torno de um mesmo ideal, fazendo germinar uma comunidade antroposófica. A obra de construção do Goetheanum tinha um ritmo mais limitado pela falta de dinheiro.

Steiner desistiu da idéia de escrever um quinto Drama de Mistério, se dedicando à produção da primeira versão teatral completa de ‘Fausto’ de Goethe, ministrando ainda, o primeiro curso de Euritmia verbal. Até os dias de hoje somente no Goetheanum, Fausto é apresentado em sua forma integral.

Steiner envolveu-se pessoalmente no trabalho de esculpir uma estátua de madeira que idealizara, junto com Edith Maryon, uma fiel colaboradora. A escultura foi nomeada o Representante da Humanidade, representando o Cristo entre as forças de Lúcifer e Árimã e tem aproximadamente 8 metros de altura. Na escultura podemos observar a expressão da harmonia entre as três forças da alma: o pensar, o sentir e o querer – forças que devem viver com autonomia. E das mãos do Cristo podemos sentir fluir o amor que emana de seu coração.

Rudolf Steiner plasmou de tal forma o modelo, que torna possível a qualquer um de nós, reconhecermos o Cristo de imediato ao nos depararmos com Ele. Lá está o Cristo que caminha entre os poderes adversários: o brilhante e sedutor Lúcifer e o sinistro e enrijecido Árimã.

1916 foi um ano marcado por muitas dificuldades do ponto de vista exterior tendo em vista a Guerra. Porém Steiner, com 55 anos de idade, ainda conseguiu viajar e dar conferências na Alemanha e Áustria. Nesta época publicou Do Enigma do Homem.

Em suas conferências começou a desenvolver um novo jeito de falar sobre a Antroposofia, orientando-se pelos fatos históricos da época, abarcando os aspectos centrais da vida espiritual alemã.

Outro tema com o qual se ocupou nessa época foi da vida após a morte, especialmente em relação aos acontecimentos da Guerra. Iniciava todas as suas conferências durante a guerra, com uma prece pelas almas dos combatentes vivos e mortos, compondo versos mântricos que visavam proporcionar uma ligação com o mundo dos mortos.

Provavelmente foi nessa época – entre agosto de 1916 e janeiro de 1917 – mas a data é incerta, que Steiner sofreu um acidente, quase se ferindo gravemente: ele caiu do andaime utilizado para construir a escultura de madeira, mas foi salvo por Edith Maryon, que conseguiu segurá-lo, desviando sua queda que seria em cima de uma ponta de madeira.

 

Terceira Fase da Antroposofia – 1917 a 1923

O mundo caminhava dividido por causa da Guerra. A Revolução Russa estabeleceu o poder soviético. No Ocidente despontavam os EUA como um novo poder. Na Europa Central, a Alemanha e a monarquia austro-húngara encontravam-se preocupadas apenas com guerras de anexação, sem nenhuma proposição que abarcasse os seres humanos. Em conseqüência da catástrofe da Primeira Guerra Mundial, novas possibilidades se abriram para que a Ciência Espiritual transpusesse para a realidade social as suas conclusões.

A partir de uma pergunta vinda de Otto Graf Lerchenfeld, um político alemão preocupado em formar novas idéias que levassem a guerra a um desfecho e a uma nova ordem social, Steiner formulou a idéia da Trimembração do Organismo Social. Não se tratava de nenhum programa partidário e não continha nenhuma exigência abstrata. A Trimembração Social considerava as áreas da vida econômica, jurídica e espiritual como três funções existentes lado a lado e administradas de forma autônoma, exigindo a descentralização da vida social.

O organismo social é constituído como o natural. E como o organismo natural deve prover o pensamento por meio da cabeça e não dos pulmões, assim é necessária ao organismo social a constituição em sistemas que não possam absorver cada um deles as funções do outro, mas que devem antes, colaborar com os demais, mantendo, porém, sua autonomia.

Escreveu, ainda, o livro Do Enigma da Alma, onde expõe uma de suas afirmações mais importantes: a divisão ternária do ser humano. As principais faculdades do homem – o pensamento, o sentimento e a vontade – se realizam através de partes diferentes do organismo físico. Não se trata de uma divisão trivial em cabeça, tórax e abdome. O homem é uma ação conjunta e um entrelaçamento dinâmico desses três componentes. As doenças decorrem da preponderância de um sistema sobre o outro. Em princípio, todas as forças curativas procedem do sistema médio, pois o homem rítmico é em si mesmo o ser primitivamente são. Esta idéia é o elemento verdadeiramente novo da Antroposofia.

Nos anos seguintes, após 1917, a idéia da trimembração foi cada vez mais elaborada, principalmente no ciclo de conferência chamada A Arte da Educação, dada em 1919 aos professores da primeira escola Waldorf em Stuttgart.

Durante este tempo, as atividades em Dornach prosseguem ativamente, tais como: a Euritmia, a preparação para a encenação do ‘Fausto’, a escultura de madeira e a pintura das cúpulas do Goetheanum.

No ano de 1918, com 57 anos, Steiner viajou a um grande número de cidades para ministrar conferências, além daquelas que proferiu em Dornach e Berlim. Foi um ano de conclusão e preparação da base de sua atuação para a época do pós-guerra. Nenhum livro novo foi publicado, mas são reeditados vários livros, tornando-se disponíveis todas as obras que ele já havia publicado.

Na Alemanha pairava uma ameaça de guerra civil na primavera de 1919. O império havia ruído: fome, desemprego, doenças, revoltas faziam parte do dia-a-dia. As pessoas se dividiam entre tomar posições extremistas ou se sobrepor às grandes dificuldades e buscar um objetivo em comum. 1919 evidenciou-se como o ano da luta pela Trimembração Social, tendo Steiner realizado uma série de conferências para industriais e pequenos grupos de operários, falando em pequenas salas, pátios de fábricas e mesas de bares. Foi constituída a Associação para a Trimembração do Organismo Social, em Stuttgart a qual pertenciam muitas personalidades completamente alheias aos círculos antroposóficos. A associação tinha como objetivo despertar a compreensão para as exigências sociais do tempo e divulgar as leis que atendessem às mesmas, empenhando-se em iniciativas sociais concretas. Liberdade no espírito, igualdade perante o direito, fraternidade na economia – conferindo um novo conteúdo aos ideais da Revolução Francesa.

A partir deste momento histórico, com 58 anos de idade, a atuação de Rudolf Steiner passou a ter uma característica totalmente nova: sem nenhuma reserva, ele falava das relações entre os fatos históricos e os fatos políticos. Revelava os bastidores da história de uma maneira que não podia deixar de surpreender a todos quantos se apegavam a uma concepção convencional dela, e não menos aos políticos profissionais. Esta forma de atuar culminou no manifesto Apelo ao povo alemão e ao mundo cultural, divulgado em março de 1919, depois da derrocada da Alemanha. O documento é assinado por várias personalidades, muitas das quais não pertenciam, nem antes e nem depois, à Antroposofia, porém, abaladas pelo impacto dos acontecimentos e aguardando algo de totalmente diverso, estavam preparadas para defender a realização das idéias do manifesto. Nesse Apelo Rudolf Steiner falava da necessidade de desmembrar o antigo complexo estatal nos três sistemas: o espiritual, o político e o econômico, podendo-se assim ser evitado o caos, que continuava eminente, terminando da seguinte forma: Ou se condescenderá em conformar-se, no próprio pensar, com as exigências da realidade, ou não se terá aprendido coisa alguma da desgraça, e do contrário, multiplicar-se-à, ad infinitum, por novas desgraças, a causada até aí. No entanto, com a finalização do estado de Guerra, prevaleceu entre as pessoas a atitude de deixar as coisas como estavam, uma vez que a crise inflacionária já estava superada pela estabilização do marco, e as transformações esperadas não se realizaram, fadando ao fracasso a luta pela Trimembração Social.

Foi o início de uma atuação pública que faria Rudolf Steiner entrar mais amplamente na consciência da Europa Central, em particular na Alemanha, levando passo a passo, à fundação dos impulsos culturais específicos da Antroposofia.

Os comunistas passaram a se preocupar com o que Steiner tinha a dizer e proíbem seus membros de assistirem às suas conferências. Os nazistas começaram a considerá-lo uma ameaça ao defender que a Trimembração Social encerrava em si as leis estruturais de uma nova ordem social. Era uma época em despontava como grande orador o jovem cabo do exército bávaro, Adolf Hitler, que inspirava o Partido dos Trabalhadores Alemães, falando sobre nacionalismo e anti-semitismo.

Steiner não nutria ilusão nenhuma acerca da capacidade moral dos ocupantes do poder político e econômico ou dos homens em geral. O que ele propunha não era uma utopia, mas um sistema social que partia do conhecimento do homem em seus impulsos sociais e anti-sociais, concretizando as capacidades sociais que poderiam ser despertadas, mesmo diante de tanta fraqueza e egoísmo, se fossem desenvolvidas de forma verdadeiramente humanas. Em vez de pensar nas alternativas imediatas do momento, haverá de existir uma concepção mais ampliada da vida que esforce em compreender as forças evolucionistas da Humanidade moderna…

Não era chegada ainda a hora de uma ordem social trimembrada. Mas uma das sementes dessa concepção se transformou num bonito fruto: a Pedagogia Waldorf, criada a partir da escola Waldorf de Stuttgart, cuja abertura se deu em 7 de setembro de 1919, após intensa preparação e envolvimento de Rudolf Steiner.

Com o apoio de Emil Molt, Conselheiro Comercial e chefe da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, em Stuttgart, ele assumiu a instalação e direção da escola, tarefa que aceitou com a mais alta responsabilidade, em abril de 1919. Rudolf Steiner sentia a feliz expectativa do que estava sendo criado por ele.

Alguns círculos sociais, como a Igreja Católica, olhavam com desconfiança para esta pedagogia nascida da Antroposofia e torciam pelo malogro do empreendimento. Entretanto, a Escola Waldorf de Stuttgart foi um grande sucesso, começando a funcionar com 200 alunos e em poucos anos, já contava com 1000 alunos, sendo necessário rejeitar inúmeros outros, por falta de vagas. Pouco a pouco outras escolas surgiram: Berlim, Altona, Hannover, Kassel, Breslau, Dresden, Basiléia, Zurique, Haia, Londres, Nova York e Oslo. E muitas outras pelo mundo afora.

O desejo de Rudolf Steiner era fundar uma escola única de 12 séries, para todas as classes sociais e para meninos de ambos os sexos, independente da camada social a qual pertencessem. Seu objetivo para uma escola desse tipo é a formação do ser humano, necessitando para isso de um professor que possa imergir nas almas e em toda a essência do ser humano em desenvolvimento.

Posteriormente, em março de 1939, a escola de Stuttgart foi fechada com o advento do Regime nacional-socialista na Alemanha. Seus edifícios foram seriamente danificados pelo bombardeio das tropas aliadas durante a Segunda Grande Guerra. Com a chegada das tropas americanas naquela cidade, em 1945, os ex-alunos, mesmo sem se comunicarem entre si e sem qualquer planejamento, começaram a estabelecer uma nova ordem, fazendo a escola renascer dos escombros, florescendo até hoje.

Também no ano de 1919 a Euritmia foi apresentada ao público em uma grande viagem pela Alemanha e Suíça. O ser humano, tal como o vemos ante nós, é uma forma acabada. Mas essa forma acabada origina-se de movimentos… E, desenvolvendo a euritmia, retornarmos aos movimentos primordiais… Deus euritmiza, e enquanto Ele o faz nasce, como resultado desse euritimizar, a figura humana.

Na idade de 59 anos, Steiner encontrava-se envolvido intensamente nos mais variados campos, a partir do impulso espiritual de trazer vida nova à civilização atual e enriquecê-la através dos conhecimentos da ciência iniciática. Confiava na força da Antroposofia, que converte o pensar materialista e egoísta em pensar espiritualizado e humano, acreditando que a mentalidade se modificaria em todos os campos da vida do homem aos poucos. Todo o seu esforço consistia em transmitir aos homens uma nova compreensão do próprio assunto com o qual os homens têm de lidar em cada esfera particular da vida.

Rudolf Steiner se colocava sempre à disposição daqueles que tinham perguntas, encarando seu interlocutor com seus bondosos olhos castanhos luminosos, como se naquele momento não existisse nada mais importante que as perguntas ou o destino pessoal de quem estava a sua frente.

Ele esperava sempre que as pessoas se dirigissem a ele e lhe solicitassem ajuda e, na plenitude de seu conhecimento espiritual, ele respondia de bom grado, dando-lhes do maior e do melhor do que se ousaria esperar. Mas as pessoas tinham de ser aqueles indivíduos que pela força de sua entrega, lhe fornecessem o fundamento apropriado ao novo que era trazido. Uma regra do esoterismo diz que um Iniciado só responde se for perguntado.

A solidão de todos os tempos continuava sua companheira, percebendo o abismo crescente entre o que falava em suas conferências, trazido diretamente dos mundos espirituais, e a consciência extremamente terrena de seus ouvintes. Porém Rudolf Steiner nunca deixou que qualquer um dos seus colaboradores percebesse um desapontamento seu, suportando tudo sempre com gentil paciência. Sempre se dirigia ao melhor do outro, mesmo se fosse a parte mais baixa deste que lhe respondesse. Um grande sábio falava às pessoas, mas elas não percebiam de quem se tratava.

Na Páscoa de 1920, aos 59 anos de idade, Rudolf Steiner deu o primeiro curso para médicos e estudantes de Medicina, em Dornach. Foram 20 conferências que demonstraram um conhecimento soberano de questões relacionadas com a ciência médica. Porém não era sua intenção aparecer como terapeuta; compreendendo que essa missão cabia aos médicos. Só se empenhava na atividade terapêutica em ligação com um médico licenciado, não tratando as pessoas. Ele aconselhava o médico com toda a sua humanidade e os médicos, ao se disporem a aceitar os seus ensinamentos, dispunham-se, também, a passarem por uma profunda reviravolta em suas consciências médicas. Oferecia a educação de novas faculdades de discernimento, o despertar da visão correta para os diagnósticos e liberava no praticante uma dose superior da vontade de curar e combater a enfermidade. A Antroposofia, antes de afirmar algo acerca do espiritual, elabora os métodos que a autorizam a fazer tais afirmações.

Mas essa espera pelos médicos foi uma das mais demoradas de sua biografia e talvez uma das mais dolorosas. Ele já havia percebido muito cedo o significado social abrangente e a premência da ampliação do impulso científico-espiritual na Medicina Antroposófica, diante do desenvolvimento vertiginoso da medicina convencional. Em uma palestra de 1909 já anunciava: Deixe-se desenvolver a Medicina de forma tão materialista e, se vocês pudessem antever quarenta anos, ficariam assustados diante da brutalidade dos seus procedimentos e até que formas de morte serão empregadas por essa Medicina para curar as pessoas.

Em 1920 também foram instituídos 2 cursos antroposóficos de nível universitário, dados por colaboradores e pelo próprio Steiner, que difundiam o saber científico. Essa iniciativa trouxe para o movimento um número de jovens com formação universitária, ocasionando a substituição dos antigos membros vinculados à época da Seção alemã da Sociedade Teosófica por jovens cientistas, professores e médicos que buscavam a Antroposofia como uma nova forma de atuação. Steiner considerou que os dois cursos ficaram em total desacordo com o espírito do edifício, porque ao invés da Ciência ser fecundada pela Antroposofia, a Antroposofia se viu invadida pelos hábitos do pensamento da Ciência Natural.

 

Em setembro de 1920 o Goetheanum é inaugurado sem a escultura do Representante da Humanidade, que ainda estava sendo esculpida por Steiner na marcenaria ao lado do prédio. A construção era majestosa, com suas cúpulas reluzentes e as formas modificando-se sobre as janelas e os portais. Tinha-se a impressão de que tudo se superava.

Desta época em diante, praticamente todas as semanas publicavam-se artigos e livros contra Rudolf Steiner, com ataques, calúnias e zombarias provenientes de um grande número de adversários, fanáticos religiosos, cientistas dogmáticos e de círculos nacionalista alemães. Steiner tinha a consciência de que seus opositores arrastavam seu nome na lama para destruir seu trabalho, pressentindo que o movimento sofreria muito com tudo isso. Empenhou-se solitariamente e com muito sofrimento em ordenar e responder a todos esses ataques.

Em Stuttgart aconteceu, ainda, um grande congresso público e o segundo curso para médicos foi oferecido. Os cursos para médicos continham múltiplas sugestões para uma nova aplicação de medicamentos, fazendo nascer dessas indicações os laboratórios farmacêuticos. Em 1920 havia uma grande pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos, favorecendo o nascimento dos laboratórios farmacêuticos em Arlesheim e Schwabisch Gmünd (Weleda A.G) e mais tarde em Eckwalden (WALA). Surgiu, também, a necessidade de se fundar uma clínica levando alguns médicos antroposóficos a criarem um Instituto Terapêutico em Stuttgart, onde Steiner teve a oportunidade de trabalhar em conjunto com eles.  Porém esses médicos eram aqueles formados nos cursos que desagradaram Steiner, não se empenhando da maneira urgente, como ele esperava, para que se pudesse promover o estudo e a reforma necessária da Medicina.

Muitas iniciativas antroposóficas foram organizadas, mas a Sociedade Antroposófica ainda estava inativa e sem um cultivo de seus ramos. As empresas ‘Der Kommende Tag’ e a ‘Futurum S.A.’ na Suíça, que foram fundadas com a tarefa de apoiar empreendimentos econômicos e espirituais, geravam muita preocupação, causada pela incompetência administrativa e pela falta de idéias. Sentia-se por todos os lados o prenúncio de uma crise.

Em junho de 1921, em Arlesheim, Suíça, próximo ao Goetheanum, a Dra. Ita Wegman inaugurou um Instituto Clínico-Terapêutico, como forma de fazer o que fosse necessário no sentido da Antroposofia. A cooperação entre Steiner e a médica começou nesse verão, tornando-se mais próxima, mais tarde num momento trágico da vida dele.

O auge da atuação pública de Rudolf Steiner foi alcançado no ano de 1922, quando contava com 61 anos de idade. A Agência de concerto Wolff, em Berlim, interessou-se pela organização de suas conferências e as salas existentes já não comportavam mais o público ouvinte. Em maio ele proferiu um ciclo de palestras de duas semanas em dez cidades alemãs. Marie Steiner descreveu o ambiente reinante na Europa com relação à atuação de Rudolf Steiner dessa forma: O público vindo das cidades vizinhas estacionava diante das ruas próximas ao local do evento em Berlim, sem conseguir entrar. Esse sucesso desencadeou logo a sanha dos adversários. Para aniquilar um movimento espiritualista, perigoso, conforme as opiniões de inúmeras pessoas uniram as hostes inimigas entre si. Pan-germânicos, católicos, protestantes, comunistas, representantes da ciência, uniram-se nessa mesma intenção. Os poderosos círculos judaicos, dirigentes nas finanças e na imprensa tudo fizeram, por meio de uma campanha em artigos difamatórios para apoiar e atiçar a ânsia de destruição dos inimigos. Desse modo não foi difícil encenar arruaças.

Estas cenas aconteceram em Elberfeld e Munique – a cidade sede da atuação de Adolf Hitler. Jovens ligados ao movimento nacionalista alemão interromperam várias vezes, quando Rudolf Steiner falava Da Antroposofia e o Conhecimento Espiritual, no Hotel Quatro Estações. Nesse hotel ele foi alvo de um atentado à mão armada, que graças à intervenção dos amigos, evitou-se o pior. Steiner escapou pela porta dos fundos e terminou seu ciclo serenamente.

Os organizadores aconselharam-no a suspender a realização das palestras, entendendo que a organização inimiga era tão forte, que eles não se achavam em condições de oferecer garantias quanto à sua segurança. Esses episódios foram apenas avisos do que deveria seguir-se: um golpe bem mais duro.

Em julho ele compareceu em Viena ao Congresso Leste-Oeste, em que era um dos principais oradores. O Congresso aconteceu num clima tenso, encontrando-se Steiner extremamente triste Os ataques a sua obra continuavam e certa oposição interna dirigida a sua pessoa começou a ser percebida.

Num esforço sobre-humano Steiner falou no Congresso, dispondo-se, como sempre, a oferecer conselhos e consolo a centena de pessoas. Duas mil pessoas participaram do Congresso Leste-Oeste, todas cheias de entusiasmo, apesar das críticas agressivas da imprensa. Ele considerou este congresso como sendo o mais grandioso empreendimento público originado do espírito antroposófico. Foi durante este Congresso que a senhora Valborg Werbeck Svärdstöm, criadora da Escola do Desvendar da Voz, de inspiração antroposófica, deu um concerto na famosa Sala da Associação Musical de Viena.

Em agosto de 1922, pela primeira vez depois da Guerra, Steiner viajou à Oxford, Inglaterra, para falar em uma conferência sobre educação. Aconteceram, também, apresentações de Euritmia em Londres e em Haia, evidenciando-se um crescente entusiasmo por esta arte. Em Dornach um curso para franceses foi organizado, demonstrando que os contatos interrompidos pela Guerra estavam sendo retomados.

Ainda nesta época, um grupo de jovens teólogos reuniu-se em Stuttgart para solicitar a Steiner conselhos e diretivas para sua futura atividade religiosa. Esse grupo depositava enorme confiança em Rudolf Steiner não só em suas doutrinas, mas, sobretudo pelo modo como ele se situara na vida pública nos anos da derrocada alemã. Como encontrar eco nos corações dos contemporâneos quando se trata de falar-lhes das coisas relativas ao verdadeiro cristianismo? Foi a pergunta que Steiner lhes fez.

Dessa forma, em setembro de 1922 foi fundada a Comunidade de Cristãos, com o intuito de dar prosseguimento à corrente cristã da humanidade, junto com quarenta e cinco sacerdotes, entre eles um sábio budista e três mulheres.

A Comunidade de Cristãos é uma comunidade inteiramente autônoma e sua vida se processa sem qualquer vinculação de dependência perante a Sociedade Antroposófica. O movimento antroposófico deve atender à necessidade cognitiva, ao passo que o movimento religioso deve atender às necessidades de ressurreição do homem.

Em dezembro de 1922 Rudolf Steiner proferiu uma conferência para esclarecer à Sociedade Antroposófica que não se tratava da criação de uma nova religião, como muitos acreditaram e adverte os antropósofos a não se descuidarem do solo a partir do qual o culto da Comunidade de Cristãos brotara – a Antroposofia. Aos antropósofos caberia o cultivo do ser Antroposofia. O que seria da Sociedade Antroposófica se ela necessitasse em primeiro lugar de uma renovação religiosa? Era a pergunta de Rudolf Steiner para aqueles que se limitavam apenas em acorrer aos bandos aos atos cúlticos dos pastores.

Os inimigos aumentavam, uma vez que foi inevitável o surgimento da compreensão de que se tratava da fundação de uma nova religião antroposófica.

Durante o mês de outubro, depois de muitos conflitos com os mais velhos, Steiner deu o ‘Curso para Jovens’ em resposta à busca de muitos deles por caminhos na Antroposofia, já que a cultivavam como se fosse um partido antroposófico.  Sente que os mais velhos sabiam muito, porém faziam pouco e rejeitavam os mais jovens, que sabiam pouco e queriam fazer muito.

Steiner retirou-se em grande parte da vida pública, constatando que aquela Sociedade não estava espiritualmente desperta o bastante para defender o edifício e protegê-lo internamente de seus poderosos e numerosos inimigos. A Sociedade Antroposófica está dormindo.

As empresas e as instituições financeiras continuavam em crise, sendo necessária a liquidação da ‘Futurum’, na Suíça, com graves perdas financeiras. Na Alemanha, a sociedade ‘Die Kommende Tag’ tem de passar a maior parte de suas ações para sua maior acionista, a fábrica de cigarros Waldorf-Astória e reduzir bastante o seu programa. Os institutos de pesquisa não atingiam os resultados práticos e apareciam dificuldades até mesmo na Escola Waldorf. No Instituto Terapêutico de Stuttgart a espera pelo trabalho dos médicos não acontecia, formando-se um muro burocrático, conhecido como o ‘sistema de Stuttgart’, a oposição no colegiado dos médicos era a mais visível.

Rudolf Steiner tentou, em inúmeras reuniões noturnas, votações, conferências e palestras, ativar finalmente a auto-reflexão dos antropósofos e chegar com eles ao que realmente paralisava a Sociedade: falta de elaboração de tarefas científicas, bloqueio ao êxito de muitas iniciativas recentemente fundadas, rejeição aos jovens, espera do trabalho científico central dos médicos – o Vademecum, além de outros aspectos. A intenção de Steiner era dar às iniciativas um cunho antroposófico, ou todos aqueles impulsos que surgiam, acabariam arruinando o movimento.

A campanha difamatória dos inimigos amplamente organizados realizou-se principalmente nos anos de 1922 e 1923. Max Hayek, simpatizante da Antroposofia, havia se encontrado com Rudolf Steiner no verão de 1922 e percebera que ele era um portador de grandes aflições… na Terra, um mártir do espírito, alguém que suportava uma cruz.

No Congresso de Natal de 1922 suas palestras levavam os antropósofos presentes à compreensão do posicionamento do ser humano no decurso do dia e do ano, da metamorfose dos mistérios solares e à compreensão dos profundos mistérios de Hibérnia, através do acontecimento no Gólgota.

As palestras estavam sendo proferidas no grande salão de cúpulas para um grande público e turnos de vigilância foram preparados para evitar qualquer acidente na construção, provocado por falhas técnicas ou por forças da natureza, levando-se em consideração que Steiner já alertara muitas vezes que o Goetheanum estava extremamente exposto ao perigo. Enquanto soavam aqueles avisos de alerta, sérios e penetrantes, contra a destruição que viria de dentro, tanto por não se cuidar devidamente do espiritual, como por não se cultivar a Antroposofia, o destino do primeiro Goetheanum já estava selado.

A crise no movimento antroposófico se tornou explícita na noite de 31 de dezembro de 1922: um incêndio destruiu o edifício, numa ação criminosa. Naquela noite Rudolf Steiner falava de coisas grandiosas: O ser humano transforma a Terra a partir de sua própria espiritualidade ao compartilhá-la com o mundo; ao vivificar os pensamentos pela Imaginação, a Inspiração, a Intuição; ao realizar a comunhão espiritual da humanidade. O tom solene e a penetração de suas palavras intensificavam-se ao longo da palestra. Tinha-se a impressão de que naquele púlpito um grande iniciado celebrava o culto do futuro, o culto cósmico da humanidade.

Depois de ter proferido os versos que ele havia escrito no quadro negro, ele se afastou do púlpito com grande discrição, pela lateral, tornando assim óbvio que ninguém o aplaudisse como naturalmente ocorria em outras palestras. Os dois versos permaneceram na lousa com sua letra bonita, enquanto jovens e velhos, profundamente comovidos, saíam para a noite estrelada de São Silvestre. Pouco depois o guarda de plantão acionou a linha de emergência do corpo de bombeiros do Goetheanum, dando o sinal de incêndio. Fogo no Goetheanum!

Aquela construção onde trabalharam pessoas de diferentes nações por muitos anos e a qual Rudolf Steiner tinha se entregado totalmente, fora consumida pelas chamas. Tudo agora está inscrito no éter cósmico, foi o que Rudolf Steiner disse a Ita Wegman, que se encontrava ao seu lado nessa hora.

Rudolf Steiner foi visto percorrendo o terreno, em todas as direções, com o semblante marcado por profunda tristeza, consciente do que a humanidade havia perdido. Após a noite de incêndio, pela manhã, apesar da imensa dor provocada por aquela tragédia, com seu espírito inabalável, deu coragem e força a todos os presentes para que pudessem suportar aquela situação. Ele informou a um pequeno de grupo de antropósofos que estava ao seu lado que o trabalho continuaria e que voltaria a construir.

Quis na matéria sensória

O Goetheanum falar ao eterno

Através das formas, ao olho.

As chamas puderam destruir a matéria.

Deve a Antroposofia

Fazer, a partir do espírito,

Sua construção falar à alma.

As chamas do espírito,

Elas hão de endurecê-la.

 

Ao meio dia do dia 1º de janeiro de 1923 todos foram informados que as apresentações previstas seriam mantidas conforme o programa.

Neste mesmo dia Steiner ainda disse as seguintes palavras ao conde Polzer-Hoditz: as diferenças entre as almas são muito grandes. Elas querem ver, ouvir e acompanhar tudo, mas acordar elas não querem. Assim elas tiveram de sentir a catástrofe e a dor física. Aqui não age o carma e sim o não estar acordado dos membros e a maldade de algumas pessoas. A possibilidade nos foi dada: o Espaço da Palavra estava lá, mas esta só pode viver se seu interlocutor tiver sua contra-imagem no coração, e lá haverá a consciência da palavra, ou seja, quando o homem não apenas se responsabilizar pela ‘Palavra do Mundo’. Este era o sentido da edificação: Palavra e Resposta, Logos e Homem. Em Éfesus tivemos os mistérios da encarnação da Palavra. Éfesus teve de ser destruído para que não fosse usado indevidamente pelas forças contrárias. Aqui ocorreu o contrário. Os deuses olharam com expectativa para o Espaço da Palavra, mas os homens não estavam lá para protegê-lo. Foi dada uma possibilidade, mas a resposta dos homens faltou.

A destruição do Goetheanum foi o acontecimento mais trágico de toda a história do movimento antroposófico e da Sociedade Antroposófica até aquele momento. Não só a ruína física que estava ali à vista de todos e, principalmente de Rudolf Steiner, era preocupante, mas a advertência que nos últimos anos a Sociedade havia estado sem firmeza, acometida também com algo de aspecto ruinoso, simbolizado nas ruínas do edifício. Dez anos e um monte de ruínas. Estas foram as palavras encontradas em seu caderno de anotações de 1923, indicando o estado de sua alma depois do incêndio, mas que não expressaram de modo algum a tragédia que o incêndio representou para ele pessoalmente.

Para dar vida ao edifício, Steiner havia sacrificado parte de suas próprias forças etéricas, que deste modo se entrelaçaram à essência viva do Goetheanum. O incêndio revelou-se um duro golpe ao próprio corpo etérico de Rudolf Steiner. A obra ainda não estava completa, portanto, estava ligada às forças de seu criador.

Friedrich Rittelmeyer relatou que durante aqueles dias Steiner estava como uma grande ferida aberta, e foi a partir desse estado que ele pode voltar à calma translúcida e ao espírito suave com o qual escreveu Minha Vida.

Assya Turguenieff, uma colaboradora, observou que a risada jovial e alegre que muitas vezes clareava os severos traços do rosto do Dr. Steiner, seus movimentos rápidos e leves, seu passo rítmico – ninguém era capaz de andar como ele – nada disto pudemos vivenciar depois da noite do incêndio. Um grande peso pressionava seus ombros. Ele tinha de produzir a força para manter sua postura ereta e fazia muito esforço para caminhar.

Nesse momento de muita dor sua relação com Ita Wegman se intensificou, havendo surgido por parte da médica a compreensão mais exata de quem era Rudolf Steiner, do que ele precisaria e de como ele deveria ser apoiado.

1923 se revelou o ano mais crítico, não só para Rudolf Steiner como também para a Sociedade Antroposófica. Aos 62 anos de idade pensou na possibilidade de afastar-se totalmente e por completo da Sociedade, somente em companhia de alguns poucos discípulos e continuar o seu trabalho em caráter mais privado. Sentia-se como uma quantidade de valor desprezível. Entretanto, decidiu continuar, apesar de sentir que as pessoas queriam exatamente o contrário do que ele sugeria.

Em verdade, Rudolf Steiner já havia manifestado esta possibilidade anteriormente, conforme relato de Marie Steiner, pouco depois da morte dele: Na esteira da guerra, em muitos momentos difíceis – tanto do fracasso diante da luta cheia de ódio dos inimigos, quanto de indiferença frente ao seu fanatismo destrutivo – Rudolf Steiner se pronunciou com freqüência nos seguintes termos: ‘Quem sabe não seria melhor levar o movimento adiante sem a Sociedade?

Rudolf Steiner planejava a reconstrução da Sociedade e deixou isto bem claro 3 semanas depois do incêndio, falando da necessidade de consolidar a Sociedade o mais rápido possível. Porque, em certo sentido, o que faltou ao edifício de Dornach – e isto falou alto e claro para o mundo todo – foi o apoio protetor da Sociedade Antroposófica. Basicamente a Sociedade Antroposófica se esquivou desde o início da construção… A reconstrução só faz sentido se, atrás dela, estiver uma Sociedade Antroposófica cônscia de si mesma, tendo presentes seus deveres. Nas antigas iniciações sempre se conhecera o grau da prova de fogo, e essa prova de fogo fora estabelecida como se visasse a proporcionar-lhe uma iniciação vital.

Com um esforço sobre-humano, Steiner retomou suas viagens para proferir palestras, negociações, reuniões, aconselhamentos e cursos. As viagens e conferências serviam para cumprir a meta de despertar a antiga Sociedade Antroposófica do sono e do marasmo em que se encontrava e de resolver a ineficiência e má administração das várias firmas. Steiner exigiu a supressão de todo o espírito sectarista, o senso pela realidade em todas as esferas da vida e a coragem para enfrentar todas as deturpações da Antroposofia. Para ele o que deveria prevalecer era o caráter espiritual da Antroposofia e não um espírito teórico-didático. Enquanto a Antroposofia não for tomada com um ser vivo, que se movimenta invisível entre nós e perante o qual cada um se sinta responsável, o pequeno grupo dos antropósofos não progredirá como um grupo exemplar.

Prosseguiu com uma intensa atividade de esclarecimento, nos mínimos detalhes, das causas do incêndio junto à polícia e as demais autoridades suíças, negociando pessoalmente com as companhias seguradoras as indenizações que viabilizariam a construção do segundo Goetheanum.

Em agosto de 1923, Rudolf Steiner fez uma viagem a Gales, acompanhado de Ita Wegman, para novas conferências. Naquela região dos Mistérios de Gales a médica teve a oportunidade de ter muitas conversas com ele, falando-lhe de suas aspirações pelos Mistérios, perguntando-lhe, ainda, porque os cursos de Medicina eram dados de forma tão intelectual. Esta foi a pergunta que ele esperou que lhe fosse feita há muito tempo. Haviam-se passados exatos vinte e um anos até aquele dia – três setênios, desde que Rudolf Steiner formulou a frase, em 16 de agosto de 1902: Eu quero construir apoiado sobre a força que me permita levar ‘discípulos do espírito’ ao caminho do desenvolvimento. Uma meta importante e central do desenvolvimento foi alcançada por um verdadeiro discípulo. Confirmou-se a possibilidade do desenvolvimento de uma nova Medicina dos Mistérios, esta devia vir à vida… O mundo espiritual se rejubilou.

Em suas conferências para médicos não-antroposóficos e um público interessado, começou a fazer, então, uma série de exposições sobre a nova arte de curar e expressou com toda a clareza: Especialmente deve-se apontar aqui o Instituto Clínico Terapêutico de Arlesheim, sob a direção da Doutora Ita Wegman, que desenvolve uma atividade especialmente benéfica para esse Instituto, por ter aquilo que eu gostaria de chamar de coragem de curar. Não fora em Dornach ou Stuttgart que surgiu a expressão coragem de curar. Essas palavras foram expressas numa paisagem relacionada tanto com os mistérios de Hibérnia, quanto com a corrente de Micael, em Gales, onde ele tinha acolhido profundamente em si toda a espiritualidade da paisagem do lugar.

A partir de setembro de 1923 Steiner tomou nas mãos o desenvolvimento interior futuro de Ita Wegman, com toda a energia, ensinado-a e preparando-a para aquilo que deveria ser realizado de forma mais elevada.

Durante o restante deste ano formulou cada vez mais claramente a inauguração dos novos Mistérios, que agora se tornavam públicos e manifestos. Muito preocupado em aumentar as forças morais da Sociedade, apresentou de forma enfática a sua missão cultural, demonstrando que esta deveria se tornar um instrumento onde a renovação espiritual da humanidade se concretizasse, não obstante os intensos esforços das potências adversárias. O teor de suas conferências mostrou o resultado de seu trabalho. Todos os níveis até então ainda ocultos se revelavam. Evidencia-se agora o caráter Intuitivo, no despertar e na revelação dos níveis da vontade, é a expressão pública das ‘Bodas Químicas’ (no sentido de transubstanciação da matéria).

Numa série de conferências e palestras sobre Micael, em Viena, local de sua juventude e dos anos de estudante, anunciou que escreveria um livro de Medicina junto com a doutora Ita Wegman. O livro Os Elementos Fundamentais para uma ampliação da Arte de Cura começou a ser escrito no atelier de Rudolf Steiner e todas as noites iniciava o trabalho com a oração Pai Nosso, ao lado da estátua do Cristo.

No Congresso de Natal de 1923, realizado em Dornach, em meio a todos os escombros do incêndio, Rudolf Steiner fundou a nova Sociedade Antroposófica, num ato individual de grande coragem e absolutamente só. Tomou para si o cargo de presidente da Sociedade Antroposófica e sem reservas uniu o seu destino totalmente ao destino da Sociedade Antroposófica Universal num ato esotérico público, vinculando o Movimento Antroposófico à Sociedade Antroposófica. Após vencer graves dúvidas interiores, ergueu-se dentro de mim o conhecimento de que será impossível continuar a dirigir o movimento antroposófico dentro da Sociedade Antroposófica, se esta Assembléia de Natal não concordar com que eu retorne novamente a toda a forma de direção, inclusive a Presidência da Sociedade Antroposófica, a ser fundada aqui em Dornach, no Goetheanum.

Do ponto de vista do oculto, a atitude de Steiner somente é possível quando o princípio do perdão se torna uma realidade no mais nobre sentido cristão. Ao não empurrar a oposição para fora e nem se esquivar, deixando cada um por sua própria conta, Rudolf Steiner uniu-se à oposição. No sacrifício reside todo o esoterismo. Perdoando e acolhendo a todos os membros da recém fundada Sociedade Antroposófica, inclusive os que se opunham a ele, por todos os seus erros passados, inclusive ações e atitudes contra sua pessoa, cujas conseqüências ele suportou externa e internamente, tornou-lhe possível permanecer espiritualmente com essas pessoas, perdoando-lhes sempre que necessário, esperando pacientemente até que, mediante sua liberdade interior, elas adquirissem a consciência da absoluta necessidade da iniciativa espiritual individual para a evolução futura da humanidade inteira. Neste ato de perdão completo e sem reservas pode-se formar a efetiva substância espiritual, o solo moral-espiritual que lhe possibilitou desenvolver o impulso moderno dos novos mistérios cristãos.

Marie Steiner demonstrou a impossibilidade de dar uma descrição do que foi o Congresso de Natal de 1923. Mal se podiam perceber as forças que o impulsionaram. Entretanto, ali se deu a mais enérgica tentativa de um educador da humanidade de erguer seus contemporâneos acima de seu pequeno ego e de fazer um apelo à sua vontade consciente, no sentido de se tornarem um instrumento da sábia direção do cosmos.

Deu-se também a abertura da primeira classe (como de um primeiro ano de uma escola) da Escola Livre de Ciência Espiritual – a Escola Esotérica, centro de atuação da Sociedade Antroposófica. Sua abertura em 15 de fevereiro de 1924 foi precedida por um curso de Introdução à Antroposofia onde estavam presentes muitos jovens e novos membros.

Da nova Sociedade Antroposófica Universal são membros as Sociedades Territoriais e a Escola Superior Livre para as Ciências Espirituais com suas seções ligadas às atividades práticas: seção médica, seção pedagógica, seção de ciências naturais, seção de matemática e astronomia, seção de literatura, seção de artes dramáticas e musicais, seção social e seção de Antroposofia geral.

Além de Rudolf Steiner como presidente dessa Sociedade, foram nomeados Albert Steffen como vice-presidente e diretor de literatura, Marie Steiner como diretora da seção de Artes Dramáticas e Musicais, Ita Wegman como diretora da Seção Médica, Elisabeth Vreede como diretora da seção de Matemática e Astronomia e Gunther Waschsmuth como Secretário e Tesoureiro da Sociedade e dirigente da seção de Ciências Naturais.

Em sua alocução de abertura do Congresso de Natal, Rudolf Steiner apontou claramente para o fato de que o Goetheanum não fora consumido pelas chamas apenas em conseqüência de um ataque inimigo, mas o monte de escombros na colina de Dornach simbolizava num certo sentido, outro monte de escombros dentro da Sociedade Antroposófica e da própria situação do mundo.

Naquela época foi dada aos corações e às almas de todos os verdadeiros antropósofos do passado, do presente e do futuro a possibilidade de depositarem dentro de si a Pedra Fundamental, que estava relacionada com tudo aquilo que já havia começado a viver na Terra através do lançamento da primeira pedra fundamental e da construção do primeiro Goetheanum. Desta vez a Pedra Fundamental foi lançada no coração dos presentes sob a forma de uma meditação, fundando-se os novos mistérios cristãos. E o solo adequado em que precisamos colocar a Pedra Fundamental de hoje, esse solo adequado são os nossos corações, em sua harmoniosa cooperação, em sua boa vontade compenetrada de amor, para transportamos juntos o querer antroposófico, através do mundo para nós.

No Congresso de Natal consumou-se um grande mistério: foi criada a possibilidade do mundo se tornar um templo onde, em toda parte, almas humanas vivam e atuem a partir da força da pedra Fundamental. Esta meditação é um exercício constante para gerar em nós, por caminhos meditativos espirituais, as forças puras do amor em nossa organização trimembrada.

O solo onde foi colocada a ‘Pedra Fundamental’ puderam ser apenas os corações e as almas das personalidades unidas na Sociedade; e a própria Pedra Fundamental, ele mesma tem de ser a mentalidade que brota da configuração antroposófica da vida. ‘Esta mentalidade na maneira como é exigida dos sinais da época presente, é formada pela vontade de encontrar através do aprofundamento humano da alma o caminho para a visão do espírito e para a vida a partir do espírito’

Estavam ali presentes entre setecentas a oitocentas pessoas, algumas como representantes de suas Sociedades Territoriais, e muitas porque o destino as levara até lá. Marie Steiner constatou que aqueles ali presentes não eram os escolhidos, somente foram de fato chamados, mas não estavam à altura do apelo, conforme se evidenciaria mais tarde.

Também, naquele Congresso, Steiner sancionou como um caminho de canto com orientação antroposófica, a Escola do Desvendar da Voz, que tinha na pessoa da senhora Valborg Werbeck-Swärdström sua idealizadora.

Suas exposições passaram a ser relacionadas à atuação de personalidades concretas – sejam elas historicamente conhecidas ou não – que representaram os impulsos espirituais da humanidade nas maneiras mais diversas, em diferentes épocas. Esse tipo de exposição intimamente relacionada ao carma da Sociedade Antroposófica, iniciou-se durante o Congresso de Natal de 1923, destacando os antecedentes espirituais da fundação da nova Sociedade e a ampla dimensão em que Steiner colocava a Sociedade Antroposófica a partir do Congresso.

Os últimos anos de vida – 1924 a 1925

O esgotamento físico de Rudolf Steiner, bem nítido aos olhos de seus colaboradores desde o incêndio do Goetheanum, se agravou repentinamente em 1º de janeiro de 1924, e ele adoeceu gravemente: A mais profunda ação esotérica teria consistido em conseguir que correntes espirituais anteriormente divergentes, pudessem chegar nesse momento, entre alguns de seus representantes, a um acordo harmonioso. Essa teria sido uma missão esotérica que, em comum atuação do Dr. Steiner, pela sua transcendente compreensão, energia e capacidade de amor, poderia ter sido solucionada. Mas nosso carma humano e o carma da Sociedade Antroposófica, abateram-se sobre ele imediatamente após o Congresso de Natal. No último dia, 1º de janeiro de 1924, ele adoeceu gravemente e de súbito. Foi como um golpe de espada, que atingiu sua vida, por ocasião de um chá acompanhado de doces e salgados, assinalado no programa como ‘Rout’. (Marie Steiner)

Steiner subjugou repetidamente a moléstia que se fez sentir na noite de 1º de janeiro de 1924. A imagem de homem saudável deu lugar a de um homem enfermo, sem contudo, interromper suas atividades. Neste ano ele completou 63 anos e foi o último ano completo de sua vida, sendo também um ano de atividade plena.

Num período de 272 dias ele proferiu 338 conferências, 60 alocuções, além de viajar para Paris, Londres, Breslau, Praga, Berna, Arnheim e Torquay. Do ponto de vista da Medicina, ele trabalhava exclusiva e intensamente com a Doutora Ita Wegman, a colaboradora que ele considerava poder fazer valer a Antroposofia na forma correta, em sua área específica – a Medicina.

Ita Wegman percebia aflita, porém impotente, o declínio gradativo das forças físicas de Steiner. Numa carta a Ita Wegman, escrita em 1º de abril de 1924, Rudolf Steiner esclareceu-lhe:

Minha querida Mysa-Ita (a forma como Rudolf Steiner tratava a Doutora Ita Wegman), muitíssimo obrigado, de coração pela amorosa carta, que me deixou muito contente. Espero que minha querida Mysa esteja bem. Por favor, não tenha mais preocupações pelo meu estado; eu me cuidarei de verdade, tanto quanto seja possível. Até agora tudo pôde ser superado. Há muito para ser feito.

Naquela época, tal como hoje, muitos antropósofos especulavam sobre a natureza de sua doença. Para alguns, Steiner permitiu saber em que direção eles deveriam pensar – e esses entenderam imediatamente. Entre essas pessoas estava, o escocês Daniel Dunlop, que se encontrou com ele em Torquay no sul da Inglaterra, em agosto de 1924: Algumas semanas ainda antes de sua última doença, durante o curso de verão de Torquay, eu falei da minha preocupação pela sua saúde física. Com firmeza, mas com infinita amabilidade, ele me levou para o lado e me chamou a atenção de que não deveriam ser empregadas idéias comuns sobre enfermidades para o seu estado. Com estas poucas palavras abriu-se para mim muito mais do que estava contido no significado imediato delas.

 

Numa carta a Marie Steiner, em outubro de 1924, ele escreveu:

‘Minha querida Marie, eu lhe contei há algum tempo que desde janeiro de 1923 a conexão dos membros constitutivos superiores de meu ser com meu corpo físico já não estava mais completa: em minha vida nos reinos espirituais, eu, em certo sentido, perdi a conexão direta com meu organismo físico.’

A fraqueza física e o excesso de trabalho não foram capazes de abater Rudolf Steiner, que se mostrava pleno de possibilidades espirituais, chegando até a manifestar que sentia como se recebesse uma retribuição do mundo espiritual, como uma compensação do destino pela perda sofrida pela Antroposofia, com o incêndio do Goetheanum.

O ponto central de suas conferências é a consideração sobre o destino humano, retomando assim suas intenções mais genuínas. Com toda intimidade e soberania, Steiner sentia que era possível revelar os resultados concretos de sua pesquisa cármica e do destino humano a um público que agora o escutava atentamente, conseguindo tornar realidade o que outrora, em conseqüência de oposições que vigoravam, não pudera ser iniciado com a intrepidez necessária. Não mais se tratava de ensinamentos gerais, agora era possível falar abertamente sobre as relações na vida terrena, pois isto tem a ver com o mistério desvelado de Micael… O fato novo é que os demônios, que antes não permitiam que se falasse das coisas, agora devem silenciar.

Seu curso para jovens médicos no início de 1924 assumiu um tom inteiramente novo, apoiado na natureza própria do homem. A Euritmia ganhou sua síntese e seu coroamento com grandes cursos de fevereiro a junho – Euritmia Musical e a Euritmia como Linguagem visível.

Dois importantes impulsos se concretizaram ainda em 1924, mais uma vez vindo de solicitação externa:

1- A Pedagogia Curativa – que surgiu da iniciativa de jovens estudantes universitários de Jena, na Alemanha, que trabalhavam com crianças psicopatas. Steiner deu conselhos sobre quais cuidados elas deveriam receber: O que é preciso em primeiro lugar para a educação dessas crianças? Não o peso do chumbo, mas humor, humor verdadeiro, humor vital!

O trabalho da Pedagogia Curativa é subordinado à Seção Médica e corre de mãos dadas com a Euritmia Curativa. Na Escócia, na Inglaterra e na África do Sul o Doutor Karl Köning criou o movimento pedagógico-curativo ‘Camphill’. Na Suécia formou-se um centro perto de Estocolmo com três sedes. Atualmente, existem mais de seiscentas instituições para crianças, jovens e adultos com distúrbios de desenvolvimento, deficiência física e mental e distúrbios comportamentais. Hoje são cerca de sessenta centros de formação em Pedagogia Curativa.

2- A Agricultura Biodinâmica – O Conde Carl Keyserlingk formulou uma série de perguntas a Rudolf Steiner sobre a Agricultura, solicitando-lhe que realizasse um curso para agricultores. Então, na primavera de 1924, Rudolf Steiner, já debilitado fisicamente, pronunciou um ciclo de palestras na casa do Conde, em Koberwitz, Polônia, para  fazendeiros, donos de terras, interessados e negociadores de terras de todas as partes da Europa. O objetivo era promover uma atitude de agricultura na qual a terra e a natureza não fossem limitadas como um mero objeto de exploração financeira.  As conferências consideraram um novo método biodinâmico  de cultivo para produzir colheitas sadias, prevenindo erosão do solo, combate à poluição e redução de doenças nas plantas e animais, com a eliminação de venenos industriais e fertilizantes sintéticos.

Junto com o curso de Agricultura, que aconteceu de 6 a 17 de junho de 1924, realizou-se o Congresso de Pentecostes em Breslau, à noite. Neste Congresso Steiner deu um ciclo de conferências sobre o carma, que ganhou um cunho especial pela intimidade com que ele se dirigia às forças humanas do coração. Encontrou tempo para se juntar a um grupo de jovens da Silésia, uma zona industrial entre a Polônia e a República Checa, ouvindo com o coração suas questões e preocupações sobre a vida; encorajando-os e, com sua linguagem imaginativa, abrindo-lhes os olhos da alma para o feito luminoso de Micael, o condutor da humanidade, através de duas aulas proferidas.

Pela manhã de cada dia, ele voltava de trem à Koberwitz para falar ao público que lá o esperava. Nem todos eram agricultores, alguns eram penetras, como dizia Rudolf Steiner. Jovens que, com sua bondade e generosidade, ele permitia que participassem, imaginando que aquela participação pudesse influenciar o destino de um ou outro. Era visível a satisfação e a felicidade dele naquela atmosfera campestre, falando de uma maneira que tocava o coração, dizendo que ele próprio queria estar totalmente ligado à recém fundada sociedade de agricultores profissionais antroposóficos. Surgia para o agricultor um caminho voltado ao espírito, que conduz à compreensão proveniente da região espiritual pela criação e pelo trabalho.

Steiner estava completamente entusiasmado por mais essa iniciativa: Acabamos agora de dar um grande passo adiante.

Ocupou-se ainda dos cursos de formação de professores, formação esotérica dos médicos, Arte da Fala e Arte Dramática, de colaboração profissional entre médicos e sacerdotes, de aprofundamento esotérico para os sacerdotes, e do curso sobre os desvios patológicos dos estados de consciência (A Consciência Iniciática) e de conferência sobre a Antroposofia, ministradas em Praga e Paris. Ainda encontrou tempo para publicar, no período entre 20 de janeiro e 10 de agosto de 1924, no Boletim de Notícias da Sociedade Antroposófica, dezoito cartas aos membros. A Antroposofia somente pode prosperar como algo vivo. Porque a característica fundamental de sua natureza é vida. Ela é vida jorrando do espírito… A forma primordial em que ela pode aparecer entre seres humanos é a idéia: e o primeiro portal a que se dirige no ser humano é o juízo. Não fosse assim, e ela não teria conteúdo. Seria apenas exaltação de sentimento. Mas o espírito verdadeiro não se exalta, fala uma linguagem concisa e substancial. Steiner buscava sempre referendar a intenção espiritual do Congresso de Natal, certificando-se se aqueles impulsos estavam sendo aceitos na Sociedade Antroposófica.

Em setembro de 1924 viajou à Inglaterra, sendo esperado em Dornach, no seu retorno, por mais de mil pessoas, entre elas médicos, atores e teólogos, aos quais havia prometido cursos especiais. Embora já estivesse sofrendo seriamente com a doença, reuniu todas as promessas feitas e durante três semanas falou sobre o Apocalipse de João e deu para médicos e pastores um curso sobre medicina pastoral. Ministrou, ainda, um curso para os operários que participavam da reconstrução do Goetheanum.

Em 28 de setembro de 1924, véspera de Micael, sugeriu que ainda não havia um número suficiente de pessoas que tinham acolhido os impulsos espirituais. É a sua Última Alocução aos membros. Irá vigorar o carma, foi sua resposta à indagação que a Doutora Ita Wegman lhe fizera sobre o que aconteceria se os impulsos não fossem acolhidos pelas pessoas.

Prokofieff demonstra que tal sacrifício somente pode ser superado quando as pessoas abrem seus olhos ao ‘conhecimento’ das verdadeiras realidades do mundo espiritual, que virá como parte de um processo de desenvolvimento ainda maior de uma atividade interior de suas almas, orientadas espiritualmente. Até então, os discípulos iniciados e os mestres espirituais, suportarão a pesada cruz do sofrimento e do perdão pelo tempo necessário, esperando pelas pessoas ‘que ainda não sabem o que fazem’. E a Sociedade ainda não tinha acolhido os impulsos espirituais em si.

Marie Steiner comentou que em setembro se poderia ter chegado à possibilidade de começar com a segunda classe da Escola Livre de Ciência Espiritual, se a onda de sócios que chegava a Dornach não tivesse sido tão avassaladora, necessitando de toda a atenção, assim como o necessitavam as exigências espirituais e a receptividade dos recém-vindos. …havia tantos desejos pessoais a contentar, que foi impossível impedir a exaustão física total do Mestre e Doador.

Rudolf Steiner encontrava-se completamente exausto. Sua enfermidade praticamente impedia a alimentação do seu corpo enfraquecido. A sobrecarga pessoal lhe roubou as últimas reservas de força física e, a partir de 29 de setembro de 1924, viu-se obrigado a renunciar a qualquer atividade entre os sócios, permanecendo acamado, no máximo isolamento. A marcenaria, onde funcionava seu atelier, foi transformada em um quarto de enfermo e sua cama posta ao pé da inacabada estátua do Cristo. A Doutora Ita Wegman se responsabilizou pelos seus cuidados e tratamento, juntamente com o Doutor Ludwig Noll, um médico de Stuttgart, contra a vontade de Steiner.

De seu leito continuou o trabalho, dedicando atenção especial à reconstrução do Goetheanum, planejado em novas formas e feito de concreto armado, um material inovador nas construções à época. Rudolf Steiner amava o ruído vigoroso de marteladas e armações que do canteiro de obras do Goetheanum vinha penetrando a tranqüilidade de seu quarto de doente e lhe anunciava o progresso da construção.

Começou a escrever As Máximas Antroposóficas, que se reuniriam num volume sob o título Mistério de Micael, concentrando ali tudo o que ele tinha a dizer sobre a orientação espiritual da humanidade. Chamou a atenção para o fato de ser Micael o dirigente de nossos tempos, que educa a humanidade para ser livre, crendo no seu futuro, não desejando ver essa humanidade entregue às suas fraquezas, mas sim a um esforço supremo. Steiner adverte que somente em ligação com Micael a humanidade conseguirá superar as forças contrárias que ameaçam a sobrevivência da civilização, revelando-se o mistério da luta contra o dragão.

Temos de erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer ao homem.
Temos de adquirir serenidade em todos os sentimentos e sensações a respeito do futuro.
Temos que olhar para frente com absoluta equanimidade para com tudo que possa vir.
Temos que pensar somente que tudo o que vier nos será dado por uma direção mundial plena de sabedoria.
Isto é parte do que temos de aprender nesta era, a saber: viver com pura confiança, sem qualquer segurança na existência; confiança na ajuda sempre presente do mundo espiritual.
Em verdade, nada terá valor se a coragem nos faltar.
Disciplinemos nossa vontade e busquemos todas as manhãs e todas as noites, o despertar interior.

Elementos Fundamentais para uma Ampliação da Arte de Curar Segundo os Conhecimentos da Ciência Espiritual, o livro que escrevia em conjunto com a Doutora Ita Wegman foi interrompido antes de completar-se, mas foi publicado. Seu objetivo era reunir as primeiras indicações conceituais e práticas para o exercício de uma arte médica ampliada.

Na primavera de 1924 ele já havia começado a escrever sua autobiografia como uma maneira de invalidar as acusações infundadas às quais esteve duramente exposto, não sofrendo nenhuma interrupção durante a doença. Os relatos vinham sendo publicados semanalmente e todos os fascículos recebiam de sua mão o adendo ‘Segue’. De maneira curiosa, o manuscrito que ele enviou na última semana de março de 1925 não continha o adendo.

Seu estado de saúde se agravou muito no final do ano de 1924, à época do Natal. Os antropósofos chegavam a Dornach para estar pelo menos fisicamente, próximos de Rudolf Steiner, mas as visitas não eram mais permitidas. Somente umas poucas pessoas tinham acesso a ele: Marie Steiner, Albert Steffen e Günther Wachsmut. Mesmo muito debilitado escreveu uma longa carta em 30 de dezembro, agradecendo a atenção de todos e especialmente a dedicação da Doutora Ita Wegman: O que a Doutora Wegman faz em fiel assistência… Sempre permanecerá, diante dos médicos, como exemplo luminoso da atuação do amor médico.

Três meses depois pela manhã, Rudolf Steiner faleceu em seu Atelier em Dornach – Suíça. Novamente era uma segunda-feira, 10 horas da manhã, 30 de março de 1925.

Conforme relato da Doutora Ita Wegman, A partida foi como um milagre. Ele foi embora como se fosse algo natural. Para mim foi como se, no último momento, tivessem sido jogados os dados da decisão. E, quando eles caíram, não havia mais luta, nenhuma intenção de ficar na Terra. Ele olhou calmamente por algum tempo para frente, disse-me algumas palavras carinhosas e com toda a consciência, fechou os olhos e ajuntou as mãos.

Era a época da Paixão, mas já se anunciava a festa da Ressurreição. A notícia de sua morte foi um imenso golpe e de todos os lados as pessoas chegavam com olhares que revelavam uma enorme tristeza. A Sociedade e a Escola Superior perderam sua cabeça em um instante quando tudo havia sido fixado, mas nada levado a cabo. Agora, aprendizes e oficiais tinham de mostrar com força própria o que haviam aprendido do Mestre.

 

 

 

 

 

 

 

 

‘Que seja para o bem.’

Referências:

 

Além das biografias e estudos, existem dezenas de outros livros e sites sobre a vida de Rudolf Steiner:

 

CALLEGARO, Bruno. Momentos de um Caminho. Reflexões sobre a Vida de Rudolf Steiner. Editora João de Barro; 2007. 152 pg.

HEMLEBEN, Johannes. Rudolf Steiner. Editora Antroposófica; 1989. 185 pg.

MEYER, Rudolf. Quem era Rudolf Steiner. Editado pela Associação Pedagógica Rudolf Steiner; 1969. 211 pg.

STEINER, Rudolf. Minha Vida. A narrativa autobiográfica do fundador da Antroposofia. Editora Antroposófica; 2006. 389 pg.

WILSON, Colin. Rudolf Steiner: El hombre y su visión: una introducción a la vida y a las ideas del fundador de la Antroposofia. Ediciones Urano, S.A.; 1986. 199 pg.

 

Na vida real o amor é o maior

poder de conhecimento.

 

  • Kraljevec – Croácia 27 de fevereiro de 1861
  • Dornach – Suíça 30 de março de 1925

ANA MARIA LUCCHESI CUNHA VASCONCELOS

Escola Livre de Estudos Biográficos Minas Gerais – Juiz de Fora

Formada pelo grupo I

RUDOLF STEINER

 

A Biografia de um Ser Humano Livre

 

‘Vidas não podem ser fielmente registradas em papel, sobretudo aquelas que merecem ser recontadas. Mas, se cabe ao escriba, honesto em seu propósito, a missão de relatar uma vida, o relato inevitavelmente, desfigurado e incompleto, consistirá na soma de várias histórias.’

Esta biografia fala de um iniciado cristão dos tempos modernos – um mestre espiritual, representante da corrente central do esoterismo cristão, cuja missão foi preparar a Terra, para que outros pudessem lançar a semente.

Rudolf Steiner foi um dos maiores pensadores e iniciados do século XX, doando ao mundo a Antroposofia – a sabedoria do Homem, a Ciência Espiritual que ele fundamentou a partir de suas próprias vivências, no início como ‘manifestação por obra de graça’ e a partir dos 18 anos de idade como uma disciplina conscientemente aplicada ao próprio interior. Constante foi o seu esforço para fazer da Antroposofia um trabalho espiritual útil e positivo, reconhecido e aprovado como um movimento científico-espiritual.

Apontou para a humanidade um caminho de autodesenvolvimento adequado ao homem moderno, tornando possível a concretização dos impulsos do mundo espiritual em conseqüências práticas no mundo exterior através da pedagogia, da arte, da Medicina, da agricultura e muitos campos de atividade.

Rudolf Steiner é o primogênito de um modesto casal de austríacos. Seus pais provinham de uma região de florestas ao norte do Danúbio, intocada pelos ventos da modernidade que começavam a soprar. Seu pai, Johann Steiner havia sido caçador a serviço do Conde De Hoyos, em Horn, na Baixa Áustria, onde conheceu Franziska Blie, uma mulher calma e silenciosa. Para se casar com Franziska, Johann assumiu o cargo de telegrafista na recém inaugurada ferrovia do sul da Áustria, favorecendo ao pequeno Steiner um ambiente bastante moderno para aqueles tempos, a partir de sua profissão.

Johann Steiner foi transferido para Kraljevec, situada na fronteira húngaro-croata, num lugar bem distante de sua região natal. É nessa cidade, numa segunda feira, 27 de fevereiro de 1861, que nasceu Rudolf Steiner. O bebê era muito chorão, necessitando ser sempre ninado no colo, em volta da casa, para que se acalmasse e não incomodasse tanto os vizinhos com seus gritos.

Quando completou 1 ano e meio de idade iniciou-se para Rudolf Steiner o que podemos chamar da perda de suas raízes e pátria: mudou-se de seu lugar de nascimento e as mudanças não pararam mais. Johann foi novamente transferido, desta vez para Mödling, perto de Viena e seis meses mais tarde, mudou-se com a família para Pottschach, próximo à fronteira estíria. Neste lugar Rudolf Steiner viveu até a época dos 8 anos de idade e viu chegar ali sua única irmã, Leopoldine (1864 – 1927), e Gustave (1866 – 1941), seu irmão mais novo, que era um menino bem alegre, surdo-mudo de nascença, de quem Rudolf Steiner se ocupou desde cedo. Depois disso a família não cresceu mais.

Os pais de Rudolf Steiner tinham poucos recursos materiais, morando sempre em casas pertencentes às estações de ferro onde o pai trabalhava. No entanto, Johann e Franziska dedicavam o pouco que possuíam ao bem estar de suas crianças. Johann era agnóstico, extremamente trabalhador e sua única distração era se ocupar com os assuntos da política. Franziska era uma mulher inteiramente dedicada às tarefas domésticas e aos cuidados carinhosos com os filhos. A família falava o dialeto alemão da Baixa – Áustria oriental, usual nas regiões da Hungria.

A paisagem natural que cercou o ambiente da infância de Steiner era deslumbrante, cercada por verdejantes montanhas. Tudo era sublime natureza e reinava no lugar uma grande tranqüilidade! De vez em quando os trens se encarregavam de dar aquele lugar um pouco de movimento, colocando o menino em contato com o elemento mecânico traduzido em tudo o que dizia respeito à estação ferroviária.

O ambiente educacional naquela época era desanimador, tendo o menino ficado bem pouco tempo na escola em que foi matriculado. Seu pai logo o tirou dali, em razão de um incidente com o filho do Mestre – Escola e se encarregou pessoalmente de ensiná-lo. Rudolf Steiner aprendeu a ler cedo, mas a escrita era uma atividade pela qual o menino não tinha muitos interesses. Naquele ambiente de trabalho do pai, interessava-o muito mais observar todas as atividades práticas que o pai executava do que se envolver com aquilo que ele lhe ensinava. Fazia logo suas obrigações, para se ver livre das mesmas e observar atentamente todas as manifestações das leis da natureza e da mecânica.

Steiner era uma criança introspectiva, silenciosa, de índole compassiva perante as pessoas e à natureza. Era um menino clarividente, percebendo por detrás de todas as coisas e seres um mundo que não se revelava aos olhos de ninguém de sua convivência.

Desde cedo começou a ter experiências interiores que marcariam sua vida dali por diante. As vivências com as quais se deparava levaram-no a cada vez mais silenciar sobre elas. Dentro da criança reinava a convicção de que não adiantaria em nada esclarecer com os adultos o que ele via, porque se tratava de algo que ninguém em torno vele percebia. O ambiente que reinava à época era de um catolicismo pragmático desprovido de qualquer conteúdo interior, presente apenas como tradição histórica e em sua própria casa não encontrava estímulo algum quanto a essa sua relação com os assuntos do mundo espiritual, levando-o a se sentir completamente estranho em seu próprio meio. Portanto, desde muito cedo se acostumou ao silêncio e à solidão.

Com 7 anos de idade Rudolf Steiner se encontrava sozinho numa sala da estação ferroviária perto de um fogão à lenha, quando viu abrir-se a porta e entrar por ela uma mulher que lhe disse algumas palavras, fez alguns gestos e depois se encaminhou até o fogão e desapareceu dentro dele. Sabia não se tratar de um seu humano corpóreo, no entanto guardou segredo sobre essa experiência porque sabia não encontrar ninguém de seu meio com a mínima compreensão para o que todos consideravam ser somente uma superstição. Se contasse sobre o acontecimento ao pai sabia, com certeza, que ouviria as reprimendas mais amargas e seria alvo de terríveis chacotas. Mais tarde sua família foi informada que uma tia havia se suicidado, num lugar longe dali. O pai nada comentou com ele, mas o menino não teve dúvidas de que aquele episódio se tratou da visita, em espírito, da pessoa que havia se suicidado e que o havia encarregado de fazer algo por ela após sua morte.

A partir desse acontecimento, iniciou-se para o menino uma vida na alma em que se manifestam os mundos dos quais não só falam as árvores, as montanhas, mas também os mundos que se encontram por trás delas. Desse momento em diante o menino vivia com os espíritos da natureza que podiam ser especialmente percebidos naquela região.

Esta é umas das qualidades da iniciação rosa-cruz, vivenciada a partir da condição de vida e da biografia.

Em mais um transferência de seu pai, Rudolf Steiner, aos 8 anos de idade, muda-se com a família, para Neudörfl, uma pequena aldeia húngara, situada na fronteira com a Baixa – Áustria. A região é formada por rios, montanhas, florestas e colinas ao leste e ao sul, favorecendo ao menino o desenvolvimento de sua capacidade de observar a natureza, outra qualidade da iniciação rosa-cruz.

O dia na aldeia era preenchido com a ida à escola, a colheita de frutos na floresta e longas caminhadas para buscar água gaseificada numa forma de contribuir com os afazeres domésticos e colaborar para enriquecer tanto o almoço, quanto com o jantar da família, que normalmente se compunha de um pedaço de pão com manteiga e, às vezes, um pedaço de queijo.

Rudolf Steiner era de pouquíssimas amizades com outras crianças de sua idade, passando horas vagando solitariamente nas florestas das redondezas, em contato com os aldeões adultos que ali buscavam lenha ou observando passar a sua frente monges redentoristas que nem lhe dirigiam a palavra, mas que lhe causavam uma grande curiosidade em relação ao que eles faziam.

Quando entrou para a escola em Neudörfl, o menino já sabia ler, porém tinha grandes dificuldades com a escrita: Rudolf Steiner arredondava todas as letras, ignorando as linhas de cima, escrevendo as palavras desconsiderando a ortografia, lançando mão da musicalidade da língua. Para escrever sentia-se compelido a fixar as imagens verbais em fonemas, da mesma forma que ele ouvia as palavras do dialeto que falava, tornando-lhe muito difícil encontrar um acesso para a escrita da língua.

Para ajudá-lo nessa dificuldade o mestre – auxiliar lhe dá aulas particulares em seu quarto, onde possui uma pequena biblioteca. Rudolf Steiner desperta um especial interesse pelo livro de Geometria de Franz Monik, tomando-o emprestado, começando a estudá-lo sozinho, com afinco e entusiasmo.

O fato de se poder presenciar animicamente o desenvolvimento de formas a serem observadas de maneira puramente interior, sem impressão dos sentidos externos, proporcionou-me imensa satisfação. Nisto eu encontrei consolo para a disposição anímica que me resultara das questões não respondidas. Poder compreender algo puramente no espírito trazia-me uma felicidade interior. Sei que na Geometria eu conheci a felicidade pela primeira vez.

Sua alma ficou plenamente preenchida pela congruência, pela semelhança dos triângulos, quadriláteros, pelo teorema de Pitágoras e pela questão sobre onde se interceptariam as paralelas? Encontrou na Geometria uma espécie de espaço anímico, dando-lhe o modelo pelo qual se pode ter em si mesmo o conhecimento do mundo espiritual.

Este professor também trouxe ao pequeno Steiner a vivência do elemento artístico, lhe ensinando a desenhar com lápis carvão e colocando-o em contato com o violino e o piano, instrumentos que o mestre tocava. O menino ficava junto do professor todo o tempo que podia. Seu nome era Heinrich Gangl.

Recebeu através do pároco responsável pelo ensino religioso, Franz Maráz, a explicação do funcionamento do sistema cósmico copernicano, deixando na alma do pequeno Steiner uma impressão que marcou de modo exemplar sua orientação espiritual posterior. A criança ficou inteiramente cativada pelo assunto.

Com a idade de 10 anos, Rudolf Steiner, o pequeno solitário e de natureza observadora, ainda não sabia escrever corretamente, mas já cultivava dentro de si uma vontade silenciosa e reta de apoderar-se dos acontecimentos a partir da inteligência e da compreensão.

Para que pudesse ingressar no curso ginasial, foi necessário a Steiner realizar uma prova de admissão para a Escola Real, que ficava em Wierner-Neustadt, do outro lado do rio que cortava sua aldeia. A Escola tinha o caráter mais técnico, porque Johann, o pai de Rudolf Steiner, previa para o filho a profissão de Engenheiro. Mesmo não tendo sido aprovado com brilhantismo, ingressou nessa escola em outubro de 1872, com 11 anos de idade.

Cabe ressaltar que para Steiner pouco importava estudar numa escola clássica ou numa escola técnica. O que atuava dentro dele naquela época era um forte desejo de encontrar as respostas para as perguntas que ele carregava dentro de si.

Para ir para a Escola Real, Rudolf Steiner valia-se do trem que partia de manhã de sua aldeia para Wierner-Neustadt, porém na volta não havia mais horários de trens, sendo obrigado a voltar a pé, num percurso que demorava uma hora e meia. No verão o trajeto era de pura natureza, não se podendo dizer o mesmo da paisagem quando era inverno: a neve chegava a bater na altura dos joelhos. Mais tarde ele atribuiu a esse grande esforço físico a oportunidade de fortalecer sua saúde.

O menino acostumado a uma pequena aldeia, não se sente nem um pouco à vontade naquela cidade de casas apertadas umas contra as outras. Porque não morava ali, não lhe sobrava tempo para fazer amizades, sobrando-lhe apenas poucos momentos em que gastava, solitariamente, observando as vitrines no caminho de volta para casa. Nas horas do almoço era acolhido por uma amiga da família que lhe dava de comer gratuitamente e o acolhia sempre que necessário.

Ainda sentia muitas dificuldades em acompanhar as aulas, com exceção de Matemática, Física, Química e Geometria Descritiva, achando a maioria das aulas exageradamente monótonas. Para compensar toda a sua dificuldade de aprender, ele começou a estudar sozinho em livros de matemática e física, que ele mesmo comprava.

Aos 13 anos encontrou na pessoa do professor de Aritmética e Geometria alguém a quem poderia seguir como um ideal de ser humano. O professor lhe ensinava de uma forma tão ordenada e clara, que despertou em Steiner os entendimentos necessários para compreender a Matemática e muita coisa mais que ele ainda não conseguia compreender. Era altamente benéfico ao pensar poder acompanhá-lo.

Empenhando-se em harmonizar o que assimilava pela Matemática, Física e Desenho Geométrico, com o conteúdo que ele trazia dentro de si, buscava encontrar a forma de responder à pergunta: Como se pode abrir para o pensar o mundo do espírito?

Sentia que somente se aproximando da natureza poderia se posicionar perante o mundo espiritual que se encontrava em evidente manifestação diante dele. A adequada vivência do mundo espiritual por meio da alma somente aconteceria quando o pensar adquirisse uma configuração capaz de aproximar-se da essência dos fenômenos da natureza. E, ordenando tudo o que aprendia para se aproximar de sua meta, tornava-se cada vez mais, um aluno exemplar.

O jovem empenhado em elucidar as questões não resolvidas trazidas dentro de si, nunca abdicou de desempenhar as tarefas da vida cotidiana. Aprendeu a encadernar seus próprios livros escolares, a estenografar, e ocupando-se dos afazeres de sua casa, ajudando em tudo que fosse possível e que o tempo lhe permitisse: junto com seus irmãos encarregava-se de replantar os canteiros, cultivar o pomar e ainda arrumava tempo para cuidar sozinho, e com prazer, da tarefa das compras alimentícias para a família, na aldeia. Mais tarde, quando adulto, entendia que devia aquilo do que era capaz ao fato de ter aprendido em criança a sempre lustrar, ele mesmo, os seus sapatos.

Para Steiner, o conhecedor do mundo supra-sensível deve saber como se encontrar de maneira prática na vida, não devendo refletir sobre a vida quem não está inserido nela de forma prática. Por toda sua vida lutará incansavelmente para que o conhecimento do supra-sensório não seja algo meramente que atenda à necessidade teórica, mas sim à verdadeira vida prática.

A partir dos 14 anos de idade, o aluno com grandes dificuldades de aprendizagem se transformou, sendo indicado por seus professores a colegas de sua classe ou alunos mais novos, para ministrar-lhes aulas particulares, encontrando dessa forma um modo de minimizar as despesas que seus pais tinham com sua educação. Foi uma oportunidade para estudar e aprender mais e mais sobre as matérias que ensinava, observando ainda bem novo, as dificuldades da evolução da alma humana.

Aos 15 anos de idade reencontra-se em Wierner-Neustadt, com Carl Hickel, um médico que ele conhecia quando menino, podendo freqüentar sua biblioteca.  O médico se tornou para Steiner o seu professor particular de literatura poética, mostrando-lhe que o mundo era belo, dando-lhe a oportunidade de experimentar um universo diferente daquele que encontrava tanto em sua casa quanto na escola.

Em torno dos 16 anos, numa de suas observações das vitrines das livrarias, Rudolf Steiner adquire um livro de Immanuel Kant – A Critica da Razão Pura. Naquela época ele não tinha a menor idéia da posição espiritual que o filósofo ocupava na história. Seu interesse pelo conteúdo do livro dizia respeito ao que ele desejava compreender dentro de si. Entretanto, o jovem adolescente não tinha tempo disponível para ler o livro, levando-o a buscar a seguinte solução: como as aulas de história eram muito enfadonhas ele inseriu dentro do livro da matéria as folhas do livreto de Kant, podendo ler sossegadamente o filósofo enquanto a aula era ministrada em sala de aula. Steiner lia Kant continuadamente, até vinte vezes a mesma página, para entender como o pensar humano se situava diante do criar da natureza. Queria educar em si a atividade pensante de forma que todo pensamento fosse inteiramente visível, sem a interferência dos sentimentos.

Além do empenho em estudar Kant, adquiriu vários manuais da língua grega e latina, como uma maneira de estudar as matérias que não eram ministradas no seu curso técnico, tornando-se um jovem autodidata e pesquisador de todas as impressões que vinham em sua direção.

Concluiu seus estudos do ensino médio aos 18 anos de idade, em 1879. Encerrou esta etapa com uma prova oral onde explicou o funcionamento do telefone pela física e recebeu seu diploma de Bacharel com nota exemplar no seu comportamento moral.

Os anos de estudo em Viena – 1879 a 1890

Para que Rudolf Steiner pudesse prosseguir seus estudos superiores, seu pai pediu transferência para a estação de ferro de Inzersdorf.  A família muda-se em agosto de 1879, para Oberlaa. Ficaram para trás todos os encantos naturais da paisagem que rodeou a infância e adolescência de Steiner, indo a família morar num canto triste e solitário na periferia de Viena.

A cidade já havia se tornada cosmopolita e moderna, sem os vestígios da Idade Média, escutando-se aqui e ali tons dissonantes que provocavam o despertar da consciência junto com a aurora da nova época.

 

Antes da entrada na Academia Politécnica de Viena, Steiner aprofundou sua pesquisa filosófica, dedicando-se a estudar Fitche, Schelling e Hegel. Foi no estudo de Fitche que lhe foi revelada uma realidade ativa e espiritual. Reescreveu a teoria científica de Fichte, empenhando-se por encontrar o caminho do Eu até a natureza. Para Steiner o Eu humano era o único ponto de partida para um verdadeiro conhecimento.

Sua matrícula na Academia Politécnica foi decidida em função de um estudo que lhe garantisse um ganha-pão, optando, então, pelo magistério científico, com ênfase em Matemática, História Natural e Química.  Reconhece que foram esses conteúdos que lhe deram uma base segura para uma concepção espiritual do mundo, mais que a História e a Literatura que não tinham um método determinado e nem perspectiva no contexto científico alemão daquela época.

Continua dando aulas particulares e estuda graças a uma bolsa de estudos conseguida pelo pai. Na Academia tem aulas de Literatura Alemã, ministrada por Karl Julius Schröer, um pesquisador de Goethe, que ensinava de um modo caloroso e entusiasmado. Através desse professor Steiner é conduzido ao espírito da época de Goethe, sendo incentivado à leitura de Fausto, a obra-prima do filósofo alemão. O professor se tornou um protetor e amigo paternal, sendo esse um encontro decisivo na vida de Steiner.

Ansioso por conhecimento e de natureza muito observadora, Steiner ainda consegue tempo para frequentar toda a sorte de palestras e aulas dos mais variados temas na Universidade de Viena tais como: medicina, pedagogia, psicologia e artes. Buscava encontrar uma forma de esclarecer a questão de como se relacionariam o mundo físico e o mundo espiritual, naquela época de grande materialismo científico e filosófico.

Freqüenta como aluno-ouvinte as palestras de filosofia de Schröer, Robert Zimmermann e Franz Brentano, não lhe sendo fácil assimilar que aquela Filosofia que ele estudava não poderia, no pensamento daqueles filósofos, ser conduzida até a visão do mundo espiritual.

Nesse momento de sua vida, empenha-se em ampliar o seu mundo social, aprofundando-se, para isto, na vida estudantil de Viena. Tudo o que lhe acontecia em volta não lhe passava despercebido, observando as complicadas relações humanas que se desvendavam ante seus olhos.

No entanto, não permitia que ninguém percebesse o que acontecia dentro de si, demonstrando possuir uma força anímica e uma saúde física capaz de suportar toda e qualquer solidão. Estava convicto que sua visão da realidade espiritual deveria ser embasada pelo pensamento científico, e através da Filosofia, busca uma forma concreta de adentrar o, caso contrário, aos olhos dos outros, o jovem talentoso, cujas faculdades de clarividência não lhe davam dúvidas sobre o que existia por detrás e acima do mundo sensorial, demonstraria apenas ser um enfermo da alma.

Para fortalecê-lo em sua meta, duas personalidades são colocadas no caminho de Steiner, como fatos biográficos tramados pelo destino. O primeiro encontro se dá no trem para Inzersdorf, quando ele tinha 18 anos de idade. Era um homem simples do povo, que colhia ervas nas montanhas e as vendia nas farmácias de Viena, de nome Felix Koguzki. Era um iniciado nos mistérios da atuação de todas as plantas e de suas conexões com o cosmo e com a natureza. Para Rudolf Steiner foi difícil, no início, compreender o colhedor de ervas, mas desde o seu primeiro contato teve a mais profunda simpatia por aquele homem. Sentia que o aquele homem falava era influenciado por uma vida anímica de grande sabedoria criativa, trazendo-lhe um grande conhecimento instintivo da Antiguidade. Com Felix, Steiner sentia que se podia falar do mundo espiritual com alguém que tinha experiência dele. Percebia, ainda, que Felix era apenas o órgão fonador para um conteúdo espiritual que queria lhe falar de mundos ocultos.

Rudolf Steiner nunca mencionou o nome dessa pessoa, referindo-se a ele de maneira muito afetuosa em sua biografia. Um antropósofo esclareceu o segredo daquele homem simples. Ele foi fundamental para o caminho interior e o destino de Rudolf Steiner, tendo seu caráter e sua individualidade sido descritos por Steiner em seus ‘Dramas de Mistério’ na figura de Felix Breve.

Mais tarde, num relato a Edouard Schuré, um poeta e teósofo francês seu amigo, Steiner lhe disse que Felix fora apenas o enviado do mestre, que ele ainda não conhecia, mas já o observava à distância e viria a ser seu iniciador. Steiner nunca fez nenhum comentário sobre a identidade pública desta outra personalidade, mencionando-o apenas como aquele homem excepcional e insignificante na profissão exterior. Uma das condições para ser um Mestre é permanecer incógnito.

Ainda, de acordo com Schuré, não foi difícil para o Mestre completar a primeira iniciação espontânea em seu discípulo, Rudolf Steiner. Ele apenas precisou mostrar-lhe como teria de utilizar-se de sua própria natureza para colocar todo o necessário em suas mãos. Mostrou-lhe a ligação entre as ciências exteriores e a ciências ocultas, as religiões e as forças espirituais, assim como a antiqüíssima tradição oculta, que tece os fios da História, separando-os e reatando-os no decorrer dos séculos. Através dos estudos das obras de Fichte, o Mestre conduziu o discípulo a tal fortalecimento dos pensamentos, que o leva a um decisivo despertar da alma. Desse encontro nasceriam os fundamentos de seu livro Ciência Oculta.

O Mestre deixou-o percorrer rapidamente as diversas etapas da disciplina interior, para elevá-lo ao grau da clarividência consciente e racional. Em poucos meses, em aulas orais, ele havia tomado conhecimento da incomparável profundidade e beleza da visão esotérica conjunta. Mostrou-lhe também o significado da dupla corrente do tempo: a expiração e a inspiração da alma do mundo, que provém da eternidade e à eternidade retornam. O conhecimento desta dupla corrente do tempo é a premissa para a vidência espiritual.

Foi lhe concedido seguir os falecidos, vendo o mundo espiritual como sendo realidade. Eu seguia a pessoa falecida pelo seu caminho para dentro do mundo espiritual.

A tarefa de Rudolf Steiner, sua missão de vida, já se delineava: religar ciência e religião. Introduzir Deus na ciência e a natureza na religião. Mas de que maneira isto poderia ser feito? Como ele poderia domar e transformar a ciência materialista? Estas eram suas perguntas mais prementes.

E o Mestre lhe responde: Se você quiser vencer o inimigo, comece por compreendê-lo. Você apenas se tornará o vencedor do dragão quando puder entrar em sua pele. Você precisa pegar o dragão pelos chifres. Apenas no meio da maior adversidade é que encontrará suas armas e seus companheiros de luta. Mostrei-lhe quem você é. Agora vá e permaneça você mesmo!

Iniciava-se um caminho novo e penoso para o jovem de aproximadamente 21 anos, caminho que ele seguiu por toda a sua vida, tornando-se o grande desbravador de um futuro espiritual.

A matemática mais uma vez se mostra como um fundamento de toda a sua busca de conhecimento. Numa aula de Geometria Moderna Steiner se confronta com a imagem de que uma reta, quando prolongada pela direita ao infinito, volta ao seu ponto de partida pela esquerda. O ponto infinitamente distante à direita é o mesmo que o infinitamente distante à esquerda. Compreender que a reta voltava a si como uma linha circular foi uma revelação que lhe tirou um peso enorme dos ombros. Como em seus anos de menino, a Geometria lhe trouxe novamente uma sensação de felicidade junto com um sentimento libertador. Poderia então ser possível uma representação mental que por meio de um avanço no futuro infinitamente distante, implicasse num retorno do passado?

Apresentou-se diante de minha alma uma vidência espiritual, e ela não repousava sobre um sentimento místico obscuro. Transcorria em uma atividade espiritual plenamente comparável ao pensar matemático em sua transparência. Eu me acercava da constituição de alma por meio da qual eu acreditava poder justificar a visão do mundo espiritual que eu trazia dentro de mim também diante do for do pensar científico-natural.  Encontrava-me em meu vigésimo – segundo ano de vida quando estas vivências passavam por minha alma.

Amplia o seu contato com o professor Schröer, freqüentando suas aulas de História da Literatura como aluno ouvinte e visitando-o, freqüentemente, em sua casa, para conversar sobre Goethe, educação e ensino, como num prosseguimento às suas aulas. O professor era 36 anos mais velho que Steiner, estabelecendo entre professor e aluno uma renovação da clássica relação mestre e discípulo.

Schröer recomenda Steiner ao professor Joseph Kürschner, como sendo a pessoa capaz de reorganizar e apresentar a obra científica de Goethe. Steiner seria o responsável por estabelecer uma ponte entre a obra científica de Goethe e a Idade Moderna. Esta tarefa estendeu-se por quase vinte e dois anos de sua vida, levando-o a um contato com a obra do pensador alemão da forma mais aprofundada que qualquer outra pessoa poderia ter.

Assumindo uma tarefa que caberia a Schröer, que era o editor da obra literária de Goethe, mas não tinha nenhum acesso interior à obra científica do pensador, Steiner assumiu para si parte do destino de Schröer e adiou o cumprimento de sua missão por vários anos. No entanto, colocou-o diante de uma decisão que influenciou tanto sua vida espiritual, quanto sua vida exterior. Foi essa a tarefa que obrigou o seu espírito a aprofundar-se e pelejar em seu próprio mundo interior a fim de estruturar as idéias para compreender e demonstrar a índole de Goethe, tornando-lhe possível introduzir a Antroposofia ao público, pois estava ali a base de todo o edifício da Ciência Espiritual.

Era Goethe quem mostrava ao jovem Steiner que ‘aquele que progride rápido demais pelos caminhos espirituais, pode certamente chegar a uma experiência cabal do espírito; só que em matéria de conteúdo-realidade, sairá empobrecido na plenitude da vida.’

Através do trabalho com as obras de Goethe pode observar a diferença entre a constituição da alma à qual o mundo espiritual se manifesta por intermédio da graça, como havia ocorrido com ele em sua infância e a constituição da alma que passo a passo torna o próprio interior cada vez mais semelhante com o espírito. Vivenciando a si mesma como verdadeiro espírito.

É só então que se sente o quão intimamente o espírito humano e a espiritualidade do mundo podem crescer juntos na alma humana.

Nas introduções elaboradas por Rudolf Steiner pode-se observar toda a essência da obra de Goethe. Em sua edição do primeiro volume das obras científicas de Goethe, Steiner alcança o reconhecimento público.

Steiner tem 23 anos quando conclui seus estudos na Academia Politécnica de Viena, mas ainda não tem elaborada uma tese que lhe permitiria seguir a carreira de professor de Filosofia. Não recebendo mais a bolsa de estudos, vê-se empenhado em garantir uma forma de sustento regular. Emprega-se como preceptor na casa da família vienense Specht, também por indicação de Schröer. Na decisão de assumir a educação das crianças dessa família, Steiner tem seus planos de se tornar professor universitário adiados, porém percebe o cumprimento do destino por vias indiretas.

O impulso de participar dos destinos de outras pessoas se faz notar mais uma vez nesse momento em sua vida e de novo a retardação de seus planos, como uma característica sempre presente em sua biografia.

O mais novo dos meninos, Otto Specht era portador de hidrocefalia, sendo considerado anormal em seu desenvolvimento. Por meio de medidas pedagógicas especiais e de um modo particular de se ligar à criança, Steiner conseguiu obter uma melhora tão radical, que após dois anos o menino pode ser matriculado numa escola comum, numa classe de crianças de sua idade. O menino formou-se em Medicina, atuando como médico na 1ª Guerra Mundial.

Além de ter encontrado uma espécie de lar junto a essa família e desenvolvido uma intensa amizade com a mãe das crianças, Pauline Specht, Steiner reconhece que foi a oportunidade dada pelo destino de perceber que a educação e o ensino formam uma arte baseada no real conhecimento do homem, levando-o mais tarde a desenvolver uma pedagogia revolucionária aplicável a toda a humanidade. Com as crianças dessa família ele teve, ainda, a oportunidade de aprender a brincar, resgatando o tempo perdido de sua infância, entre os 23 e 28 anos.

Nessa casa Rudolf Steiner também conheceu Josef Breuer, o médico vienense que participou junto com Freud do nascimento da psicanálise, admirando-se com a criatividade e sutileza de espírito com que esse médico buscava os caminhos para a cura de seus pacientes.

Em 1886, aos 25 anos, como resultado de seus estudos sobre Goethe e de seus esforços filosófico-metodológicos para superar o abismo entre o pensamento moderno e a concepção espiritual, ele escreveu e publicou: Linhas Básicas para uma Teoria do Conhecimento na Cosmovisão de Goethe – uma reflexão do método de conhecimento que Goethe utilizava em suas pesquisas de Ciência Natural – o Goetheanismo. Edita, também, o segundo volume das obras científicas de Goethe.

Nessa mesma época, ele conhece Gundi, a irmã mais nova de um amigo, com quem viveu uma relação anímica muito intensa, mas reconhecia ser a relação impossível de ser concretizada dada a sua reserva em dizer àquela jovem que ele a amava, percebendo igual reserva na moça. Descreve a amiga como um ser solar em sua vida, restando do relacionamento apenas correspondências e, mais tarde, somente as boas lembranças que sempre emergiram de sua alma durante toda a sua vida

Steiner é introduzido, por Schröer, a um círculo de filósofos e literatos vienenses, que se reunia na casa da poetisa Marie Eugenie delle Grazie, onde se promoviam saraus, e se reuniam regularmente professores da faculdade católica de Teologia. Reinava naquele círculo uma busca constante de valores elevados e abertos a impulsos espirituais, mesmo que não houvesse consenso de idéias, como avaliava Steiner. As idéias para sua Filosofia da Liberdade foram amadurecendo à época do convívio com esse círculo.

No início de 1887, então com quase 26 anos, Rudolf Steiner adoece gravemente e precisa de várias semanas para se recuperar, tendo sido cuidado com muita atenção pela Sra. Pauline Specht, mãe das crianças sob a sua responsabilidade educacional. É possível que tenha sido tratado pelo Doutor Josef Breuer nesta ocasião.

Em torno de seus 28 anos de idade, teve a oportunidade de frequentar um círculo de pessoas agrupadas em torno de Marie Lang, que o impressionava profundamente. Foi levado a esse grupo por Friedrich Eckstein, um jovem dirigente de uma Loja Teosófica em Viena. A busca das pessoas que frequentavam o círculo era por algo mais elevado e ali se reuniam para partilhar suas vivências anímicas interiores. Interessou-se pelo efeito que a Teosofia exercia nas pessoas como uma busca mística séria e lê nessa época ‘Budismo Esotérico’ de Sinnet e ‘Luz no Caminho’ de Mabel Collins, mas a leitura do primeiro livro não lhe causou impressão alguma, ficando até aliviado por não tê-lo lido antes de ter suas idéias embasadas em sua própria vida anímica.

Por intermédio deste grupo, conhece Rosa Mayreder, uma mulher engajada nos movimentos políticos e sociais inovadores da época, em torno de quem, reina uma atmosfera de liberdade de pensamento e fervorosa defesa do verdadeiro lugar e significação da mulher na sociedade. Marie Lang e Rosa Mayreder vieram a ser as líderes do movimento feminista, fundando a Associação das Mulheres Austríacas.

Rosa Mayreder foi uma alma feminina totalmente diferente para Steiner. Ele estabeleceu com ela uma grande amizade e junto compartilhava suas formas de pensamento de sua Filosofia da Liberdade. Foi com essa amiga que experimentou ser tirado de parte daquela solidão interior em que ele vivia, mesmo que tivessem diferentes pontos de vista com relação à vivência do espírito. Rudolf Steiner nos conta que Rosa era uma mulher que lhe dava a impressão de possuir alguns dons anímicos que formavam a expressão correta da natureza humana.

Podemos perceber o imenso carinho que Rosa tinha por Rudolf Steiner, através de suas palavras numa carta a ele, de outubro de 1890:

‘Pois a lacuna que sua despedida deixou na minha vida se me faz sentir, todos os dias, a toda hora, em todos os inumeráveis pontos de raciocínio em que a insegurança, a dúvida, a confusão, a inquietação fazem nascer o desejo da felicidade insubstituível da comunicação amistosa que o senhor me ofereceu. Por quanto mais tempo o senhor fica longe, meu caro amigo, tanto mais inimaginável me parece que possa permanecer longe. (Viena, 26 de outubro de 1890).’

Pode-se perceber a variedade das relações e o grande número de amizades que Steiner reuniu ao seu redor, pelo fato de ter se tornado extremamente sociável e por desenvolver dentro de si cada vez mais a característica de nunca negar sua admiração a ninguém e nem por aquilo que estivesse em oposição direta a ele, mesmo tendo a certeza de que ninguém do seu círculo o acompanharia até o seu mundo.

Steiner dessa forma participa, por suas incontáveis amizades em tão diferentes círculos, a tudo que de moderno pulsava em Viena, onde acontecia grande parte da vida cultural da monarquia imperial da Áustria, levando uma vida exterior sem nenhuma relação com o que se encontrava em sua vida interior, mas reconhecia que os seus interesses estavam entrelaçados.

Em paralelo com a função de educador das e professor particular que se estendeu por mais de 15 anos de sua vida, Steiner assumiu temporariamente, na primeira metade de 1888, com 27 anos de idade, a redação do Semanário Alemão, publicado em Viena. Empenhou-se em introduzir uma discussão onde se levasse em conta as grandes metas espirituais da humanidade, recebendo, com essa tarefa a oportunidade de se ocupar com as almas de povos das várias nacionalidades austríacas, buscando encontrar o fio condutor para uma política cultural espiritual.

Ainda se resguarda de uma atuação pública, concentrando-se na estruturação de seu universo filosófico de idéias, prosseguindo em silêncio com seu treinamento espiritual. Tudo na roupagem da filosofia idealista era o que lhe aconselhavam as forças que atuavam por detrás de si.

Em novembro de 1888, perto dos 28 anos de idade, profere na Sociedade Goethe de Viena o que viria ser a sua primeira palestra antroposófica: ‘Goethe como Pai de uma nova Estética’, levando um dos ouvintes presentes a perceber que Steiner compreendia Goethe de uma maneira aristotélica, sugerindo a ele afinidade de seus pensamentos com os de Tomás de Aquino.

Aos 28 anos de idade, em 1889, tem seu primeiro contato com as obras de Nietzsche, sentindo-se capturado e rechaçado por sua abordagem. Não gostou nenhum um pouco de como o filósofo tratava dos problemas mais profundos com nenhuma espiritualidade consciente.

Com essa idade, Rudolf Steiner fez sua primeira viagem ao Império Alemão. Visitou Eisenach, Sttugart, Berlim e Weimar, conhecida como a Atenas do Norte e cidade de Goethe. Em Berlim ele conhece pessoalmente Eduard Von Hartmann – o filósofo do inconsciente, num encontro decepcionante, levando-o a sentir a distância que o separava da Filosofia contemporânea. Hartmann considerou Steiner apenas um admirador, não levando em consideração nada do que ele tinha a falar-lhe.

O ano de 1890, quando Steiner tem 29 anos de idade, é dedicado a terminar a introdução ao terceiro volume da obra científica de Goethe – a parte sistemática da Teoria das Cores. Sua introdução é o que se pode chamar de Ontologia: a teoria do fenômeno primordial arquetípico, do espaço e do tempo e do sistema da Ciência Natural. Pode-se dizer que formava, em esboço, as bases da Antroposofia.

 

Os anos em Weimar – 1890 a 1896

Em 29 de setembro de 1890, aos 29 anos, Rudolf Steiner muda-se para Weimar, na Alemanha, num adeus à Viena e ao convívio regular das reuniões de jovens.

Começa a trabalhar no Arquivo Goethe-Schiller, como um colaborador, sem um emprego oficial, recebendo a tarefa de preparar para a publicação seis volumes das obras científico-naturais de Goethe, destinada à edição Sofia. Deposita as mais altas expectativas quanto a um futuro promissor nessa mudança, uma vez que tal circunstância lhe proporcionaria o mais vivo contato com tudo quanto na vida internacional significava entusiasmo por Goethe ou pesquisa séria do universo goetheano. Porém a mudança revelou-se para Steiner uma desilusão, sentindo que esta incumbência não correspondia aos seus interesses. A ida para Weimar resultou num intervalo de sete anos de espera em sua vida, apesar de ter sido reconhecido como a capacidade mais importante no campo dos escritos-científicos naturais de Goethe. Mais uma vez a postergação de sua meta se faz notar em sua biografia.

Ele não encontrou em Weimar o goetheanismo atual, mas o passado, embora a cidade ainda tivesse o ar da época de Goethe. Sofria com aquela situação acanhada e burocrática que reinava no arquivo encobrindo a possante irradiação que o gênio de Goethe poderia influenciar na vida cultural do ocidente. Estranhou muito o ambiente externo de atividade científica a que estava submetido, sentindo não ter nenhuma relação interior com ele.

Ocupou-se em estudar o conto de Goethe: ‘A Bela Líria e a Serpente Verde’, como forma de pesquisa de todo o credo de Goethe.

Em março de 1891, aos 30 anos de idade, Steiner sofreu afonia, com paralisia completa das cordas vocais, sendo tratado com aplicações de eletricidade, considerada o agente universal da Idade Moderna.

Seu principal trabalho nesse ano foi a edição das obras morfológicas na edição Sofia, um trabalho puramente filológico. Com sua disposição de ânimo alterada, ele tinha pressa em terminar o trabalho para concentrar-se em sua tese de doutorado e obter um cargo como professor catedrático na Universidade Jena.

Sua tese intitulada Verdade e Ciência é uma lúcida investigação dos elementos básicos do ato cognitivo e seria prelúdio de sua Filosofia da Liberdade. Com ela obteve seu título de Doutor em Filosofia pela Universidade de Rostock em 26 de setembro de 1891.

Logo após a publicação da tese, Steiner aceita o pedido de um editor para escrever um livro sobre os problemas fundamentais da metafísica, que lhe dá muita alegria por perceber-se envolvido com algo que faz sentido para ele. Então, em outubro de 1891, ele começa a escrever sua Filosofia da Liberdade, há muito já preparada.

Em 1892 a tese é publicada em forma de livro – Verdade e Ciência, e ao mesmo tempo, ele se dedica, através de muitos contatos, a conseguir um emprego como professor de Filosofia na Escola Politécnica de Viena, porém sem sucesso.

No meio do ano de 1892, com 31 anos, Rudolf Steiner conhece Anna Eunike.  Ela era uma mulher viúva, mãe de quatro filhas e um filho e tinha 39 anos de idade. Solicitou a Steiner que a ajudasse na tarefa de educar seus filhos, cedendo-lhe uma parte de sua residência. Steiner, que até então não havia encontrado um lugar satisfatório para morar em Weimar, aceitou o convite, mudando-se para a residência da família. Logo entre os dois nasceu uma íntima amizade que se transformou em matrimônio 7 anos mais tarde em Berlim.

Pouco antes de sua morte, Anna relatou a uma de suas filhas que os anos em que viveu com Rudolf Steiner foram os mais felizes de sua vida, existindo outros depoimentos que mostram, também, Steiner muito feliz enquanto durou o matrimônio.

Anna Eunike, de quem logo me tornei intimamente amigo, cuidava para mim com dedicação de tudo que tinha de ser cuidado. Ela dava grande valor à ajuda que lhe prestava em suas difíceis tarefas com a educação dos filhos.

Aos 32 anos de idade, publicou seu livro Filosofia da Liberdade em 15 de novembro de 1893, pela Editora de Emil Felber, de Berlim, trazendo sua teoria do conhecimento. Em todos os capítulos há pensamentos novos, idéias que Steiner não havia expressado desse modo até então. Filosofia da Liberdade tem seu fundamento numa vivência que consiste na conciliação da consciência humana consigo mesma. A liberdade é exercitada no querer; no sentir é experimentada; no pensar é reconhecida. Porém, para alcançar isto, não deve a vida ser perdida no pensar.’

Em janeiro de 1894 proferiu uma palestra intitulada ‘Gênio, Loucura e Criminalidade’ para trezentos ouvintes, provocando em seus colegas de trabalho do Arquivo uma reação de distanciamento e frieza, lhe custando, mais tarde, a possibilidade de voltar à Viena ou de trabalhar em Jena como professor de Filosofia, por boatos que os colegas espalharam dele.

No ano de 1894, aos 33 anos de idade, Steiner dedicou-se ao estudo das obras de Friedrich Nietzsche, cujo primeiro contato já havia se dado em 1889.  Foi convidado, tempos depois, em 1896, a conhecer pessoalmente o filósofo, que já se encontrava seriamente doente. Contemplando Nietzsche Steiner percebeu que tem diante de si uma alma infinitamente bela, que trouxera de existências anteriores um tesouro dourado de luz, mas incapaz de fazer com ele brilhasse plenamente nesta vida.

Com 34 anos, em 1895, conheceu Haeckel pessoalmente em Jena, um eminente cientista representante da Teoria Evolucionista. Steiner considerava a teoria de Haeckel como a mulher fundamentação científica para o ocultismo, compreendendo que se o pensador tivesse estudado um pouco mais de Filosofia teria chegado às mais elevadas conclusões espirituais em seus trabalhos filogenéticos. Ao conhecê-lo pessoalmente, Steiner viu naquele homem um ser humano que somente era capaz de suportar impressões dos sentidos, não deixando o pensamento manifestar-se nele. A atividade da alma cessava naquela personalidade.

Nietzsche e Haeckel eram dois representantes da cosmovisão moderna. Mesmo que toda a teoria que os dois defendessem lhe fosse totalmente estranhas, Steiner reconheceu que eram os principais impulsos da época, levando-o a unir-se com esses impulsos, transformando-os a partir de suas concepções e com isto construir uma ponte apoiada em fundações firmes da Ciência Natural para uma Ciência do Espírito. Dessa forma entrosou-se nas correntes mais contraditórias, compartilhando dos destinos e das visões de mundo daquelas duas personalidades, reconhecendo o abismo em que se encontrava a humanidade, sem perder de vista a necessidade de sobrepujar esse abismo rumo a uma nova era de luz.

Suas forças ocultas lhe mostravam que deixasse fluir para a época o verdadeiramente espiritual, sem que isso fosse notado, tendo sempre em vista que não se chega ao conhecimento quando se quer impingir o próprio ponto de vista de maneira absoluta, mas quando se imerge em correntes espirituais alheias.

Um ano antes de deixar Weimar, por volta dos 35 anos de idade, Steiner sentiu em sua alma uma transformação que ele denominou ‘uma grande reviravolta anímica’, que se tornará pura vivência após sua mudança para Berlim.

Terminou a edição da obra de Goethe, na qual trabalhou por 7 anos.Trata-se de uma obra monumental, abrangendo 147 volumes, pelo acréscimo de introduções. Até hoje a Edição de Weimar ou ‘de Sofia’ é a mais completa das obras de Goethe.

Na finalização de suas atividades em Weimar, Steiner nutriu cada vez mais a esperança de poder voltar à Viena, pois lhe pareceu próxima a possibilidade da criação da cadeira de Filosofia na Academia Politécnica de lá, mas isso se mostrou muito improvável de realizar. Colocava-se para ele a questão do quê fazer? Vivia sem moradia própria, num quarto de hotel em Weimar. Começou a elaborar o livro A Cosmovisão de Goethe, editado em 1897, escrito a partir do que ele vivenciou na cidade e de estudos bem abrangentes sobre a História, que se fizeram necessários para a finalização de seu trabalho do pensador alemão.

Em caráter ilustrativo, cabe mencionar que Steiner se ocupou também das edições completas de Schopenhauer e das obras de Jean Paul, Wieland e Uhland.

Aos 36 anos idade, sua vida anímica sofreu uma profunda modificação, relatada da seguinte forma: Minha capacidade de observar objetos, seres e processos do mundo físico transformou-se rumo à exatidão e à profundidade. Isto ocorreu tanto na vida científica quanto na vida exterior. (…) Uma atenção dirigida ao mundo das percepções sensíveis, antes não existentes, despertou em mim. Detalhes passaram a ser importantes: eu tinha a sensação de que o mundo sensorial tinha a revelar algo que só ele pode revelar.

Essa transformação de percepção significou para Steiner o ingresso num mundo novo. Para estudar esse mundo da observação sensível, adentrou em sua natureza concreta através de uma prática exaustiva, enquanto lhe teria sido muito mais fácil movimentar-se no mundo das idéias. O difícil para ele foi apreender o nexo entre essas duas esferas. Em resumo, Steiner se defrontou cada vez mais com a clareza – e morte – das forças estruturadoras do mundo físico, que também possibilitam a precisão na observação dos fenômenos da natureza. O conhecimento tornou-se para ele algo pertencente a todo o existir e vir a ser do mundo, não só do homem.

Desenvolveu mais tarde, a partir dessas vivências, o livro Concepções sobre o Mundo e a Vida no Século XIX.

A meditação passa a ser nessa época, uma necessidade existencial, reconhecendo que através dela o conhecimento do mundo espiritual é apropriado no organismo assim como este se apropria da respiração. Toda a mudança anímica de Steiner estava, pois, vinculada com um processo de auto-observação.

Até esse momento de sua vida, ele percebia que as forças que determinavam seu destino exterior sempre estiveram em consonância com seus anseios interiores. No entanto, agora sentia de modo diferente: era-lhe necessário dar um cunho novo a sua atividade externa. Nunca precisara conciliar de maneira tão árdua, as orientações provenientes do mundo exterior com as suas próprias. Buscava encontrar de todas as maneiras o caminho para traduzir de uma forma inteligível, aquilo que observava interiormente como verdadeiro. Não queria mais se calar, como lhe ordenava sua necessidade interior, mas falar o quanto fosse possível.

Os primeiros anos em Berlim – 1897 a 1901

Surgiu em Berlim a oportunidade de adquirir os direitos de editar a revista Magazine de Literatura, que publicava poesias, ensaios e críticas provenientes da vida cultural. Porém como garantia de pagamento, o editor que estava lhe passando os direitos, impõe como co-editor da revista o poeta Otto Erich Hartleben, um intelectual boêmio, que ainda não tinha superado dentro de si o estudante acadêmico. Hartleben era um tipo de personalidade oposta a tudo aquilo que Steiner sempre estivera vinculado, mas tornou-se participante do círculo de amigos do co-editor.

A mudança para Berlim aconteceu em junho de 1897, aos 36 anos de idade.

Nas redações de seus artigos para a revista, Steiner falava de literatura contemporânea e da vida espiritual moderna, expressando suas convicções. Sua tarefa era fazer valer uma corrente espiritual dentro da literatura. Lentamente ele se dirigia a caminhos esotéricos.

A partir de 1898 começou a participar intensamente de toda a vida literária e dramática da vanguarda artística de Berlim, significando ser absorvido por um estilo de vida muito diferente do seu. Como forma de compreender as buscas interiores de seus contemporâneos, Steiner passava as noites em teatros, mesas de bares e cafés, em debates e apresentações artísticas. Conviveu, então, com pessoas de diversas classes e atividades sociais, estando ai incluído quase todo o espectro da vida cultural da Alemanha. Em suas relações com os boêmios, artistas, poetas e intelectuais da capital do Reino Alemão, ele se viu completamente privado de estabelecer um convívio mais intenso com os filósofos daquela Berlim da virada do século. Percebia, no entanto, ser natural que o outro grupo de convívio o absorvesse completamente.

Internamente viveu uma crise séria e profunda, sentindo como se a alma fosse arrastada para uma espécie de abismo. Não se encontrava satisfeito com sua atuação no mundo, nem pelo que escrevia e nem pelas palestras que proferia. Enfatizava de forma incisiva que o conhecimento do fundamento da natureza deve conduzir ao conhecimento do espírito. Experimentando fortemente os ventos da época em que o materialismo se fazia crescente em todos os anseios sociais e onde todo o conteúdo de vivência religiosa apontava para um mundo espiritual intangível, Steiner experimentou uma intensificação de suas vivências nos tempos finais de Weimar.

Empenhou-se para impedir que o moderno conhecimento da natureza não o arrastasse para uma mentalidade materialista, atento para não perder, desse modo de ver e viver a vida, a contemplação do espiritual. Rejeitou tudo quanto nas confissões religiosas era aceito como transcendente. Sua diretriz baseava-se em situar o divino, o além, no mundo de cá. Começou a falar do Cristianismo de uma forma nova: O que se passou em minha alma ante a visão do Cristianismo foi uma intensa provação para mim. (…) Tais provações são as resistências oferecidas pelo destino, que devem ser superadas através do desenvolvimento espiritual. (…) O germe do conhecimento se desenvolveu cada vez mais na virada do século. Antes dessa época deu-se a descrita provação da alma. No desenvolvimento de minha alma, na maior seriedade, como festa de conhecimento, se tratava de estar espiritualmente erguido diante do Mistério do Gólgota.

Deu-se na vida de Steiner, por volta dos 38 anos de idade, a vivência do caminho iniciático cristão-rosacruz, cujo coroamento é o encontro pessoal com o Cristo, tendo o fundamento do conhecimento se tornado encontro espiritual direto. Tudo o que agora ele falava, jorrava com uma intensidade que demonstrava estar contido por anos. Como um Mestre esotérico, passou a expressar publicamente, através de imagens todo o conteúdo esotérico oculto. A época exigia tornar público qualquer conhecimento que viesse a surgir, tornando-se impossível preservar os segredos da sabedoria oculta.

Na vida exterior, diante de tantas preocupações com sua subsistência, sendo ajudado inclusive por amigos de Viena, encontrou a serenidade quando Anna Eunike, com sua família muda-se para Berlim, possibilitando-lhe um refúgio de tranqüilidade e felicidade diante de tudo que vivia na época. Depois de ter passado durante curto período por toda a miséria de morar sozinho, voltam a morar juntos, oficializando sua união – em 31 de outubro de 1899.  Este ano foi bem difícil, um ano que não favoreceu nenhum tipo de trabalho de alma. Creio que não teria conseguido suportar o que tive de trabalhar neste ano sem teus cuidados, tua companhia e participação plenos de amor – não a quantidade, mas a qualidade das vivências me teria oprimido sem você, pois pesou tanto em minha alma. É esta a razão porque nos últimos tempos eu estive tão desagradável.

Em 1899 tornou-se professor na Escola de Cultura dos Operários em Berlim, um reduto do movimento sindical socialista, onde ensinava História Universal, Ciências Naturais e Exercícios de Alocução, para um proletariado adulto e entusiasmado pelo saber. Ensinou segundo o seu ponto de vista e não conforme o marxismo, como era o costume nos círculos sociais democratas da época. Seu método idealista para a História e seu modo de ensinar se tornaram simpáticos e compreensíveis aos operários, levando o círculo de ouvintes a crescer cada vez mais, e dessa forma era chamado todas as noites para ensinar. Em suas aulas mostrava ao operariado a forma como os impulsos espirituais atuavam na História e as maneiras como eles se enfraqueceram ante os impulsos econômico-materiais.  Ao entrar em contato com o operariado, Rudolf Steiner mergulhou num segmento da vida onde a alma individual dormia e sonhava e pôde perceber como uma espécie de alma de massa se apoderava daquelas pessoas, abarcando juízo, idéia e comportamento. Mais tarde constatou como a massa proletária ficou como ‘possuída’.

Publicou seu estudo sobre o Conto A Bela Líria e a Serpente Verde, de Goethe, por ocasião do sesquicentenário do pensador. Em A Revelação Secreta de Goethe, Rudolf Steiner falou sobre o mundo espiritual, numa primeira tentativa de apresentar em público os resultados de sua própria pesquisa espiritual, sentindo agir corretamente dessa forma. Considerava essa criação de Goethe como a ante-sala do esoterismo. O artigo foi publicado em seu Magazine para Literatura, em 28 de agosto de 1899.

Rudolf Steiner proferiu palestras nos mais variados círculos de Berlim, onde se reuniam pessoas interessadas sobre os assuntos do conhecimento e da vida em geral. Usava uma linguagem e um modo de falar intenso, cativando as pessoas que o ouviam, porém em parte alguma lhe parecia ser possível abrir brechas que pudessem desobstruir o campo de visão para o mundo espiritual.

Em setembro de 1900 consegue passar o Magazine para outras mãos.

 

A época da Sociedade Teosófica – 1902 a 1912

Primeira fase da Antroposofia

Ainda em setembro de 1900, aos 39 anos de idade, foi convidado pelo Conde e pela Condessa Brockdorff, mentores de um pequeno círculo de teósofos que se reunia em Berlim, para proferir uma conferência sobre Nietzsche. Diante daquele público, Steiner sentia estar falando para pessoas interessadas no mundo espiritual. Convidado a dar mais uma palestra, ele propôs o tema A Revelação Secreta de Goethe. Sentiu falar de um modo bastante esotérico, pela primeira vez, já que até então só poda deixar o espiritual apenas transparecer em suas exposições.

Passou a proferir palestras aos membros daquele círculo de forma regular, deixando claro que falaria sobre aquilo que pulsava dentro dele como Ciência Espiritual. Essas conferências foram reunidas e publicadas no livro A Mística no Despontar da Vida Espiritual (Berlim – 1900). Neste livro encontra-se a primeira referência da figura médica capital da Europa Central no início da Idade Moderna: Paracelso – o médico que conhece a natureza da cura é uma presença essencial nas conferências de Steiner.

Nesta época conheceu Ita Wegman, que freqüentava suas palestras como uma de suas ouvintes. Porém, foram necessários vinte anos, quase três setênios, para que desse encontro surgisse a ampliação científico-espiritual na antroposofia.

Dentro da Sociedade Teosófica deu-se, também, o seu encontro com Marie Von Sivers, uma jovem polonesa muito bonita, que se educara na Rússia e havia estudado teatro em Paris, tendo, recentemente, encerrado sua carreira de atriz. Esse encontro com Marie Von Sivers marca o princípio de sua vida como personalidade pública e assinala o fim de seu matrimônio com Anna Eunike, apesar de os dois ainda viverem juntos até o ano de 1903.

Com o surgimento de uma seção alemã da Sociedade Teosófica, em outubro de 1902, Steiner foi convidado por Annie Besant, a presidente geral da Sociedade, para assumir a Secretaria Geral, tendo sido Marie Von Sivers indicada para sua direção. Dentro dessa Seção, ele teve a oportunidade de falar cada vez mais somente os resultados de sua própria visão do mundo espiritual, já apresentando suas palestras sob o título da antroposofia. Buscava alcançar um saber de ordem espiritual, preocupando-se em sacudir do movimento teosófico qualquer tendência que proviesse de meios espíritas e evitar que se desenvolvesse a prática de passes e do mediunismo. São águas para o moinho do materialismo, escreve ele. Sentiu-se acolhido e compreendido em torno das pessoas interessadas em Teosofia.

Após assumir o cargo na Sociedade Teosófica, seu nome foi profundamente rejeitado em outros círculos em que proferia suas palestras. Passaram a designá-lo como um ‘teósofo’ e dirigente de uma sociedade obscura. Compreendeu que nesses outros círculos ouviam-no apenas como um literato, não tendo a menor compreensão para o conteúdo que ele trazia no coração.

Três dias depois de assumir o cargo como Secretário, ele e Marie Von Sivers são admitidos na Escola Esotérica que existia dentro da Sociedade Teosófica. Assim como ele introduzira algo novo na Sociedade Teosófica, deixou claro que também no círculo esotérico o conteúdo deveria ser buscado diretamente na revelação presente e contínua dos mundos espirituais, independente de qualquer tradição. Em relação à forma exterior da Sociedade, Steiner respeitava corretamente as competências e os usos, mas em relação ao conteúdo espiritual, ele estava decidido a seguir seu próprio rumo.

O movimento teosófico era sediado em Adyar, perto de Madras, na Índia e estava estruturado sobre os ensinamentos da Senhora Helena Blavatsky (‘Ísis sem Véu’ e ‘A Doutrina Secreta’), que estava orientada exclusivamente para a sabedoria oriental da Índia. Na Alemanha, a Sociedade enfrentava uma espécie de definhamento e as pessoas ligadas a esse círculo esperavam a ‘fundação científica’ da Teosofia, quando foi fundada a Seção Alemã.

Steiner reconhecia a grandeza da sabedoria oriental, porém a considerava inadequada em satisfazer as necessidades espirituais do ocidente, entendendo que essa sabedoria não poderia superar a diretriz materialista da moderna Ciência Natural. Para fazer-se inteligível servia-se, com reservas, da terminologia oriental-teosófica, mas logo depois, procurou substituir as expressões orientais por palavras novas, correspondentes à consciência moderna.

Steiner sabia que as pessoas que acolhiam o conhecimento do espírito, que ele dizia com o coração e o bom senso, não eram necessariamente os membros da Sociedade Teosófica, mas pessoas interessadas na sua forma de conhecimento do espírito. Nos membros, percebia que a grande maioria eram fanáticos seguidores de alguns líderes da Sociedade, que atuavam de forma dogmática e sectária.

Os obstáculos a que esteve confrontado nessa época, através de forças contemporâneas avessas ao conhecimento espiritual, se transformaram no motivo que o levaram a atravessar sua prova espiritual mais intensa. Foi daí que ele retirou energia para atuar com base no espírito, empenhando-se cada vez mais em levar a Antroposofia ao mundo.

Em maio de 1903, com 42 anos de idade, fundou com Marie Von Sivers uma publicação mensal de nome Lúcifer, que surgiu para desenvolver a Antroposofia, sem nenhuma dependência com aquilo que a Sociedade Teosófica mandava ensinar. A revista se ampliou, sendo Steiner convidado por um editor de Viena, que editava um periódico de nome Gnosis, para a fusão dos dois periódicos. A publicação passou a se chamar Lúcifer-Gnosis e nela tomam forma as instruções destinadas a criar uma consciência superior e uma autêntica penetração nos mundos supra-sensíveis. A senda do conhecimento passou a ser ensinada de forma pública, endereçada a todos os homens e adequada à consciência do nosso tempo

Aos 43 anos de idade, em 1904, participou do Congresso Teosófico de Amsterdam-Holanda e ministrou inúmeras conferências na Alemanha.

 

Seu livro Teosofia foi publicado sob a forma de artigos na revista Lúcifer-Gnosis, assim como O conhecimento dos mundos superiores e Crônica do Akasha. Nestes escritos estão contidos os conteúdos introdutórios e a preparação individual para iniciar o caminho meditativo ensinado na Escola Esotérica. Em suas exposições ele distingue três estágios na consciência superior: Imaginação, Inspiração e Intuição.

 

Em Teosofia encontramos um livro que nos permite compreender de forma clara e direta as idéias de Rudolf Steiner. O livro estabelece os pontos básicos acerca do espírito e da vida depois da morte e tem uma atmosfera de serenidade que produz no leitor o mesmo efeito da leitura do Bhagavad Gita. Nesse livro desenvolve conceitos que esclarecem a lei da reencarnação.

 

Steiner advertia que a leitura de um livro antroposófico, deveria servir para despertar no leitor a vida espiritual e não para lhe proporcionar uma soma de informações.

 

Com 44 anos, no ano de 1905, dedicou-se intensamente a proferir conferências públicas, tanto na Alemanha quanto na Suíça, visitando grupos teosóficos que já existiam e fundando novos grupos, aprofundando o seu contato com os membros e outros interessados. Ministrou aulas esotéricas em todas as cidades que visitava para fazer conferências públicas, somando por volta de duzentas e cinqüenta aulas até o início da Primeira Guerra. Esforçava-se em formar um novo organismo esotérico que seria como alimento para a nova cultura a ser fundada a partir da abertura e mudança ocorrida no mundo espiritual. Suas conferências falam do novo, com muitas imagens sobre mitos e símbolos antigos, trazendo esclarecimentos sobre os antecedentes das antigas tradições, despertando na alma o conhecimento desse patrimônio inconsciente da humanidade, preparando e dispondo a alma para o cultivo consciente do autoconhecimento.

 

Encerrou neste ano suas atividades na escola de formação de trabalhadores, convidado a se retirar daquele círculo, pois a direção marxista não aceitava mais a sua maneira de falar e seus temas. O impulso libertário que ele buscou implantar nos jovens discípulos foi o motivo pelo qual as autoridades resolveram afastá-lo da Instituição. Foi com este público que Steiner descobriu-se um orador carismático e, até alguns decênios depois, encontravam-se socialistas que falavam com entusiasmo desse mestre que despertava neles o sentido da liberdade.

 

Em 1906, com 45 anos, proferiu os primeiros grandes ciclos de conferências fora de Berlim, inclusive o ciclo O evangelho Segundo João, em Munique, dando inicio à sequência de ciclos sobre os evangelhos, sua obra sobre Cristologia. Apenas 44 conferências se realizaram em Berlim e 201 em outras cidades. Rudolf Steiner começou a dar cursos de uma conferência por dia ao longo de duas semanas – os ciclos. Os participantes podiam se aprofundar melhor no tema, sendo o efeito mais intenso do que em conferências isoladas.

 

Fez nessa época conferências em Paris, onde encontrou pela primeira vez com Edouard Schuré, o poeta e teósofo, autor de Drama Sagrado de Eleusis, que Marie Von Sivers havia traduzido para o alemão, que se tornaria um grande amigo. No ciclo de Paris, depois de um longo processo de maturação, comunicou o fato de o corpo etérico do homem ser feminino e o da mulher, masculino. Com seu corpo físico o homem está integrado às forças da Terra e por meio do corpo etérico encontra-se entrosado com as forças do Cosmo extraterreno. Demonstrou que as qualidades masculinas e femininas remetem-se aos mistérios do mundo.

 

Berlim continuava a ser o centro de suas atividades. Lá, na Rua Motz 17, ele conservou seu domicílio até além do fim da Primeira Guerra Mundial. Mas em Berlim a Antroposofia se desenvolvia numa racionalidade clara, uma vez que a cidade se encontrava completamente imersa na esfera do racionalismo e do intelectualismo.

 

No decurso do ano de 1906 demonstrou a nítida diferenciação entre os vários caminhos de autodesenvolvimento esotérico: o caminho hindu da yoga (difícil de trilhar pelo homem ocidental), o caminho cristão-gnóstico da Idade Média (que requer o afastamento da vida cotidiana) e o caminho rosacruz, que se inicia com a educação do pensar, com o ‘estudo’. Para Steiner o verdadeiro rosacrucianismo não se encontrava nos livros de história, porque foi transmitido por tradição oral. E neste caminho, a relação entre guru e discípulo é substituída pelo apoio de uma educação do pensar. O próprio discípulo tem de ser o condutor e dirigente.

 

1907 é o último ano descrito por Rudolf Steiner em seu livro autobiográfico – Minha Vida. No último capítulo informa ao leitor que a exposição de sua biografia, desse momento em diante, dificilmente poderá ser separada da uma história do movimento antroposófico.

 

Rudolf Steiner estava com 46 anos de idade, quando, à época de Pentecostes, aconteceu em Munique o IV Congresso da Federação das Seções Européias da Sociedade Teosófica. Neste congresso ele tem a oportunidade de reproduzir no ambiente uma decoração em formas e cores em que expressava o conteúdo das comunicações orais que seriam realizadas, fazendo questão de apresentar um ambiente artístico em completa harmonia com a atuação espiritual. Ele falou pela primeira vez sobre Cosmologia e Antropogenia. Ao lado de Marie Von Sivers, ele inaugurou o elemento artístico, através da apresentação do ‘Drama de Eleusis’ de Edouard Schuré, ficando claro que a vida espiritual na Sociedade não aconteceria mais sem o lado artístico. Era a aplicação prática da Antroposofia no mundo exterior.

 

As inovações trazidas por Steiner ao Congresso de Munique não agradaram parte dos antigos membros da Sociedade Teosófica da Inglaterra, França e Holanda. Somente uma minoria entendeu que aquilo que estava sendo oferecido pela corrente antroposófica, era uma postura interior totalmente diversa daquela praticada pela Sociedade Teosófica. Esta postura interior era o verdadeiro motivo pelo qual a Sociedade Antroposófica não podia continuar a existir como uma parte da Sociedade Teosófica, e não os fatos que assumiram vulto mais tarde, provocando inúmeras discórdias.

 

Infatigavelmente ativo espiritual e fisicamente, Rudolf Steiner elaborava a Antroposofia como ciência espiritual, como arte e impulso social e procura consolidá-la em almas e círculos humanos. Era-lhe necessário introduzir o espírito no mundo, desempenhar um trabalho fértil e frutífero para a alma.

 

Em maio de 1908, quando Steiner tinha 47 anos, o último número da revista Lúcifer-Gnosis é publicado. As publicações tiveram que ser encerradas em virtude da carga de trabalho a que estava exposto. Foi um período de muitas viagens e conferências, sendo cada vez mais solicitado como conselheiro pessoal em todas as questões de vida.

 

Marie Von Sivers, juntamente com a colaboração de Johanna Mücke, fundou a Editora Filosófico-Teosófica, em Berlim, com o objetivo de reunir em forma de livros as publicações dos escritos de Rudolf Steiner e ainda, dar uma forma correta às anotações individuais que vinham sendo feitas pelos membros em suas várias conferências e aulas.

 

Aos 48 anos de idade, em 1909, encontrou-se pela primeira vez, em Berlim, com Christian Morgenstern (1971-1914), um dos mais notáveis poetas da língua alemã que se tornará seu discípulo. Christian transformou em maravilhosos poemas muitos conteúdos das conferências de Steiner:

 

Ele falou. E como ele falava, resplandeciam nele o Zodíaco, querubins e serafins,

O astro solar, a translação dos planetas

De ponto em ponto.

Tudo isso jorrava com sua voz,

Era avistado em relance, como um sonho cósmico,

Todo o firmamento parecia baixado às suas instâncias

Por mercê de suas palavras.

 

A ciência Oculta é publicada em 1909. Nesse livro Rudolf Steiner comunica o que tinha elaborado como resultado de sua pesquisa espiritual e fornece as indicações de como podem ser desenvolvidos órgãos para a percepção espiritual, numa linguagem clara e acessível ao não iniciado. No livro foram mantidos com precisão os limites entre o que se pode e deve comunicar, naquela época, do âmbito dos conhecimentos supra-sensíveis e aquilo que se deveria expor mais tarde de outra forma.

 

Em suas conferências abordava aspectos íntimos e profundos da essência do Cristianismo, avançando nos ensinamentos esotéricos e na pesquisa espiritual do Evangelho de Lucas, das Hierarquias Espirituais e dos poderes opositores à evolução humana.

 

No Congresso Internacional em Budapeste, em agosto de 1909, encenou ‘Os Filhos de Lúcifer’, peça de Edouard Schuré, com Marie Von Sivers, proferindo uma conferência sob o tema A Essência das Artes, que do princípio ao fim foi ela própria uma obra de arte configurada.

 

Ao final de 1909, Steiner falou da Antroposofia, por ocasião da Assembléia Geral da Seção Alemã da Sociedade Teosófica, e anunciou que ela será publicada em esboço, em vários cursos e conferências.

 

Segunda fase da Antroposofia – 1909 a 1916

Em 12 de janeiro de 1910, perto de completar 49 anos, num curso em Estocolmo, Suécia, Steiner anunciou pela primeira vez o aparecimento do Cristo no plano etérico: novas faculdades da alma humana se mostrariam a partir de 1933 tornando possível aos seres humanos a visão clarividente do mundo etérico, no qual Cristo se manifesta de forma nova. Ele já observava o desenvolvimento de novas faculdades de clarividência sob as faixas da consciência intelectual que precisavam apenas ser despertadas para que sublime vulto etéreo do Cristo fosse percebido.

O Cristo voltará, porém numa realidade superior à física, numa realidade tal que somente se lhe poderá elevar o olhar tendo-se, antes, adquirido o sentido e a compreensão pela vida espiritual… Inscrevam em seus corações o que deverá ser a Antroposofia: uma preparação para a grande época da humanidade que nos aguarda.’

No entanto, evitava todo o tipo de sensacionalismo ao se manifestar sobre os acontecimentos do momento, para que as pessoas não perdessem sua liberdade em seu sentimento de vida e em suas decisões.

Em julho de 1910 Steiner escreveu o primeiro de seus quatro ‘Dramas de Mistério’ – O Portal da Iniciação – Um Mistério Rosacruz. A apresentação deste Drama se deu no Congresso da Sociedade Teosófica em Munique, diante de um público de duas mil pessoas. Os Dramas de Mistério representavam em linguagem artística aquilo que Rudolf Steiner proferia em suas palestras e foram a aurora da iniciativa que levou à construção do primeiro Goetheanum, o edifício que viria a construir em Dornach para ser a sede do movimento antroposófico. Amadureceu em Steiner uma nova possibilidade: o que ele expunha em seus livros se transformou em Inspiração, expresso pela linguagem e pelo movimento.

Nos dramas são apresentados destinos humanos interligados através de várias vidas terrestres. São mostrados indivíduos em busca do espírito, trilhando o caminho do autoconhecimento e chegando ao limiar do mundo espiritual, cada um a seu modo.

A alma desse empreendimento era Marie Von Sivers, que em São Petersburgo e Paris já tivera aulas com exímios atores e abandonara o teatro quando se deparou com a Teosofia. As recitações eram o seu elemento e ao lado de Rudolf Steiner, ela inspirava vida aos seus dramas.

Em 17 de março de 1911 Anna Steiner faleceu.

Rudolf Steiner, então com 50 anos, proferiu uma série ciclos e conferências em Bolonha, Copenhague, Munique, Karlsruhe, Hannover, Milão, Berna e Munique. Nesta ocasião fala na Dinamarca, onde teve a oportunidade de conhecer a senhora Valborg Werberck-Swärdström e seu marido Louis Werbeck, que se tornaram colaboradores incansáveis na divulgação da Antroposofia.

A apresentação do segundo Drama de Mistérios – A Provação da Alma em 17 de agosto de 1911 deu-se em um momento em que as discordâncias com a Sociedade Teosófica aprofundavam-se.

Após anunciar uma nova revelação do Cristo fica evidente para Steiner um conflito com a Sociedade Teosófica, cujos membros e dirigentes – Annie Besant e H. S. Olcott – viam na síntese de todas as religiões um alto ideal que esperavam alcançar por uma tolerância inteligente. A sua visão do acontecimento do Gólgota e de Jesus Cristo como ponto central da História da Terra e da Humanidade, era uma visão estranha aos dirigentes da Sociedade Teosófica.

Juntando-se a tudo isto, sobreveio o fato de que Annie Besant apresentou um rapaz hindu que seria a personalidade na qual o Cristo se apresentava em uma nova vida terrena, fundando dentro da Sociedade Teosófica a Ordem chamada ‘Estrela do Oriente’, que cuidaria dessa personalidade, que vem a ser Jiddu Krishnamurt.

Os ataques cada vez mais intensos e depois a campanha de difamação desencadeada abertamente por Annie Besant, em resposta à postura que Steiner assumira em relação ao caso Krishnamurt, tornaram impossível a continuação do seu trabalho dentro da Sociedade Teosófica. Em setembro de 1912 a diretoria da Seção Alemã, na pessoa de Rudolf Steiner e Marie Von Sivers, declarou ser incompatível com esta seção o que estava acontecendo na Sociedade Teosófica, tornando-lhe impossível receber os membros da nova Ordem dentro da Seção Alemã.

A Sociedade Teosófica, através de Annie Besant, rompeu a ligação com Rudolf Steiner num ato que revogava o Conselho Geral dos Estatutos da Sociedade Alemã – quatorze lojas alemãs se mantiveram com ela e as demais seguiram Steiner. Com estes membros ele iniciou os preparativos para a fundação da Sociedade Antroposófica em dezembro de 1912, como uma sociedade autônoma.

Fato relevante é que, mesmo com todo sofrimento a que esteve sujeito quando do episódio de seu rompimento com a Sociedade Teosófica, Rudolf Steiner nunca teceu nenhum comentário que desmerecesse a pessoa de Annie Besant, como pode se constatar em sua autobiografia, num exemplo de tolerância e perdão, característico de seu ser.

É fato, também que, em virtude de ter iniciado seu trabalho de cunho esotérico nos âmbitos da Sociedade Teosófica, mesmo discorrendo sobre um conteúdo que não se vinculava àquela Sociedade, Rudolf Steiner sempre foi reconhecido como um teósofo e mesmo hoje, as pessoas de fora ainda confundem a corrente central do cristianismo esotérico, representado pelo Antroposofia, com a Teosofia, de orientação oriental de Blavatsky e Besant, incluindo a Antroposofia como corrente não cristã dos tempos modernos.

Ocupado a todas essas questões que envolviam sua vida, Rudolf Steiner se mantinha atento e solícito às perguntas sempre crescentes das pessoas que o cercavam, organizando nessa época – janeiro de 1912, aos 51 anos de idade, as primeiras instruções dos exercícios de Euritmia a Lory Smits. A jovem alemã de Düsseldorf, de apenas 19 anos, estava interessada numa formação especializada em ginástica rítmica.

Steiner tem a preocupação em demonstrar que a Euritmia não era simplesmente uma arte da dança, mas uma arte do movimento, provinda dos antigos mistérios gregos, que promoviam a cura através de palavras, movimentos sonoros e tonalidades.

Sob os cuidados de Marie Von Sivers, desdobrou-se em três abordagens: arte teatral, complemento de educação nas escolas e como euritmia curativa. Talvez não seja possível sentir, em arte alguma, o ser colocado no cosmo de uma maneira tão intensiva como na arte eurítmica.

Na Páscoa desse ano, Rudolf Steiner publicou o Calendário Antroposófico da Alma e escreveu e encenou o terceiro Drama de Mistério: O Guardião do Limiar, em agosto. Em dezembro deste mesmo ano, fundou sem grandes formalidades a Sociedade Antroposófica em Colônia, na Alemanha.

Com 52 anos de idade participou da realização da primeira assembléia da Sociedade Antroposófica, porém não faz parte da Diretoria e recebeu a adesão de grupos de vários países.

As apresentações dos Dramas, que eram encenadas sempre em Munique, no Teatro do Gärtnerplatz, em agosto de cada ano, revelavam a Steiner que nessa cidade atuava o lado artístico do trabalho antroposófico, de modo oposto ao que acontecia com o movimento antroposófico em Berlim, onde se progredia cada vez mais no saber a respeito do mundo espiritual.

Por força desse impulso criativo que acontecia com a Antroposofia em Munique, Steiner viu surgir a iniciativa da construção de um edifício com um palco onde se pudesse realizar as apresentações dos Dramas e fosse o centro para as atividades antroposóficas.

O edifício deveria ser algo parecido aos centros de mistérios das culturas antigas, dedicado a cultivar os três grandes poderes da vida espiritual: Ciência, Arte e Religião. A nova construção seria a ‘Casa da Linguagem’ onde o mundo espiritual iria falar. Para sua construção foi formada a ‘Associação Johannes de Construção’, mas a Prefeitura de Munique negou o alvará, considerando o projeto extremamente questionável, em meio à experiente e segura atmosfera artística da época e temendo que a cidade se convertesse num centro de uma peculiar seita religiosa. Anteriormente, uma grande agitação popular, por motivos religiosos, durante a apresentação do Congresso Teosófico naquela cidade fora atribuída à Sociedade Teosófica.

Steiner recebeu a ajuda de muitos membros da Sociedade Antroposófica para o seu empreendimento, ressaltando os esforços de Sofia Stinde, uma pintora alemã, aliada à condessa Pauline Von Kalkreut, também pintora e dama de honra da mãe do último Imperador da Alemanha. Era na residência da pintora que aconteciam as reuniões do ramo e as conferências internas da Sociedade Antroposófica, em Munique – Alemanha. Seus esforços também possibilitaram a apresentação dos quatro Dramas de Mistérios de Rudolf Steiner, em Munique.

Em maio de 1913, Emil Grossheintz, um antropósofo suíço, colocou à disposição de Steiner um terreno de sua propriedade em Dornach, perto da Basiléia, fazendo fronteira com a França, Alemanha e Suíça, um lugar que permaneceu ileso na guerra que já se pressentia. Steiner conheceu o terreno no mesmo mês e aceitou a oferta, comunicando que seria em Dornach e não em Munique a construção do primeiro centro do movimento antroposófico. O trabalho de construção começou imediatamente, pois não havia tempo a perder, diante da eminência de uma guerra.

Num ideal arquitetônico contemplado pelo olhar de Goethe que afirmara que ‘Religião, Arte e Ciência atendem à tripla necessidade do homem bafejado por Deus: cultuar, produzir e contemplar; todos os três são um do início ao fim, embora separados pelo meio’, o próprio Steiner encarregou-se do projeto, dando ao edifício um estilo totalmente inovador para a época. O Goetheanum, conforme o edifício foi chamado por Steiner, tinha uma fundação de concreto de onde se erguia uma obra de madeira coberta por duas grandes cúpulas, cuja dificuldade para serem calculadas e erguidas foi totalmente dominada.

Rudolf Steiner assumiu pessoalmente a direção da obra, encarregando-se em grande parte pelo seu acabamento artístico, pintando, por exemplo, o teto da cúpula menor. O teatro tinha capacidade para mil pessoas e os custos de construção somaram o montante de mais de sete milhões de francos suíços, obtidos por doações. Ali cidadãos de dezessete nações diferentes trabalharam juntos sob a supervisão e cooperação calorosa de Steiner.

A pedra fundamental da construção – um duplo dodecaedro – foi colocada no dia 20 de setembro de 1913. Enquanto Steiner pronunciava o discurso, desabou uma grande chuva, escurecedora e barulhenta, quase fazendo desaparecer a sua voz. Em seu discurso ele falava das forças crescentes de Árimã, que trata de semear o caos e a escuridão.

Após a colocação da pedra fundamental, Steiner realizou em Kristiania, hoje Oslo – Noruega, seu curso sobre o ‘Quinto Evangelho’, um ponto alto na sua pesquisa, demonstrando as vivências experimentadas por Jesus de Nazaré ao longo de seu caminho antes e depois de receber em si, pelo batismo no Jordão, a entidade do Cristo.

Em agosto de 1913 os Dramas de Mistérios são apresentados pela última vez em Munique e ainda neste ano é escrito e encenado o quarto de seus Dramas de MistériosO Despertar das Almas, que mostra as crises de uma comunidade na passagem da teoria à aplicação prática.

Em novembro ficaram prontas as fundações em cimento armado do Goetheanum, sendo construídos os andaimes para a construção de madeira. Em dezembro de 1913 iniciou-se a construção das colunas na carpintaria.

Em janeiro de 1914, perto de completar 53 anos, Steiner participou da segunda e última Assembléia da ‘antiga’ Sociedade Antroposófica, que entrou em um longo período de inatividade enquanto sociedade.

O dinheiro obtido para a construção do Goetheanum começou a se acabar, inviabilizando a inauguração da obra para agosto de 1914, como era o desejo de Steiner, e ali ele pudesse apresentar o quinto Drama de Mistério, ainda não escrito.  Para levantar fundos, foi organizada uma série de conferência onde ele destacava a importância da efetivação do projeto para a humanidade, conseguindo continuar a construção, mas sua inauguração precisou ser adiada.

Nos primeiros dias de agosto de 1914 sobreveio a 1ª. Grande Guerra. Muitos operários precisaram deixar a Suíça e voltar a seus países de origem e partir para os campos de batalha. Quando a guerra eclodiu, Rudolf Steiner encontrava-se em Bayreuth, junto a Marie Von Sivers, regressando rapidamente a Dornach, numa noite de grande caos. Ela relata que no transcurso dessa terrível noite cinza, o mundo havia mudado e a expressão pesada expressa no rosto de Steiner durante estes dias, a dor que ele sentia por toda a humanidade, era quase intolerável.

As aulas esotéricas foram interrompidas, pois havia muita perturbação no mundo espiritual vizinho à Terra pelo grande derramamento de sangue humano e pela morte de tantos jovens.

No final deste terrível ano a estrutura da construção ficou pronta e continuaram os trabalhos de escultura das colunas, das arquitraves e de pinturas. Em 24 de dezembro de 1914, Steiner casou-se com Marie Von Sivers, em Dornach, tendo ela passado a se chamar Marie Steiner.

Durante o ano de 1915 a guerra impediu a atuação pública de Steiner, que tem 54 anos de idade. Dornach havia se tornado o centro da vida antroposófica, abrigando ali cerca de duzentas pessoas de diversas nacionalidades, jovens e velhos, artistas, cientistas, comerciantes, unidos e trabalhando em torno de um mesmo ideal, fazendo germinar uma comunidade antroposófica. A obra de construção do Goetheanum tinha um ritmo mais limitado pela falta de dinheiro.

Steiner desistiu da idéia de escrever um quinto Drama de Mistério, se dedicando à produção da primeira versão teatral completa de ‘Fausto’ de Goethe, ministrando ainda, o primeiro curso de Euritmia verbal. Até os dias de hoje somente no Goetheanum, Fausto é apresentado em sua forma integral.

Steiner envolveu-se pessoalmente no trabalho de esculpir uma estátua de madeira que idealizara, junto com Edith Maryon, uma fiel colaboradora. A escultura foi nomeada o Representante da Humanidade, representando o Cristo entre as forças de Lúcifer e Árimã e tem aproximadamente 8 metros de altura. Na escultura podemos observar a expressão da harmonia entre as três forças da alma: o pensar, o sentir e o querer – forças que devem viver com autonomia. E das mãos do Cristo podemos sentir fluir o amor que emana de seu coração.

Rudolf Steiner plasmou de tal forma o modelo, que torna possível a qualquer um de nós, reconhecermos o Cristo de imediato ao nos depararmos com Ele. Lá está o Cristo que caminha entre os poderes adversários: o brilhante e sedutor Lúcifer e o sinistro e enrijecido Árimã.

1916 foi um ano marcado por muitas dificuldades do ponto de vista exterior tendo em vista a Guerra. Porém Steiner, com 55 anos de idade, ainda conseguiu viajar e dar conferências na Alemanha e Áustria. Nesta época publicou Do Enigma do Homem.

Em suas conferências começou a desenvolver um novo jeito de falar sobre a Antroposofia, orientando-se pelos fatos históricos da época, abarcando os aspectos centrais da vida espiritual alemã.

Outro tema com o qual se ocupou nessa época foi da vida após a morte, especialmente em relação aos acontecimentos da Guerra. Iniciava todas as suas conferências durante a guerra, com uma prece pelas almas dos combatentes vivos e mortos, compondo versos mântricos que visavam proporcionar uma ligação com o mundo dos mortos.

Provavelmente foi nessa época – entre agosto de 1916 e janeiro de 1917 – mas a data é incerta, que Steiner sofreu um acidente, quase se ferindo gravemente: ele caiu do andaime utilizado para construir a escultura de madeira, mas foi salvo por Edith Maryon, que conseguiu segurá-lo, desviando sua queda que seria em cima de uma ponta de madeira.

 

Terceira Fase da Antroposofia – 1917 a 1923

O mundo caminhava dividido por causa da Guerra. A Revolução Russa estabeleceu o poder soviético. No Ocidente despontavam os EUA como um novo poder. Na Europa Central, a Alemanha e a monarquia austro-húngara encontravam-se preocupadas apenas com guerras de anexação, sem nenhuma proposição que abarcasse os seres humanos. Em conseqüência da catástrofe da Primeira Guerra Mundial, novas possibilidades se abriram para que a Ciência Espiritual transpusesse para a realidade social as suas conclusões.

A partir de uma pergunta vinda de Otto Graf Lerchenfeld, um político alemão preocupado em formar novas idéias que levassem a guerra a um desfecho e a uma nova ordem social, Steiner formulou a idéia da Trimembração do Organismo Social. Não se tratava de nenhum programa partidário e não continha nenhuma exigência abstrata. A Trimembração Social considerava as áreas da vida econômica, jurídica e espiritual como três funções existentes lado a lado e administradas de forma autônoma, exigindo a descentralização da vida social.

O organismo social é constituído como o natural. E como o organismo natural deve prover o pensamento por meio da cabeça e não dos pulmões, assim é necessária ao organismo social a constituição em sistemas que não possam absorver cada um deles as funções do outro, mas que devem antes, colaborar com os demais, mantendo, porém, sua autonomia.

Escreveu, ainda, o livro Do Enigma da Alma, onde expõe uma de suas afirmações mais importantes: a divisão ternária do ser humano. As principais faculdades do homem – o pensamento, o sentimento e a vontade – se realizam através de partes diferentes do organismo físico. Não se trata de uma divisão trivial em cabeça, tórax e abdome. O homem é uma ação conjunta e um entrelaçamento dinâmico desses três componentes. As doenças decorrem da preponderância de um sistema sobre o outro. Em princípio, todas as forças curativas procedem do sistema médio, pois o homem rítmico é em si mesmo o ser primitivamente são. Esta idéia é o elemento verdadeiramente novo da Antroposofia.

Nos anos seguintes, após 1917, a idéia da trimembração foi cada vez mais elaborada, principalmente no ciclo de conferência chamada A Arte da Educação, dada em 1919 aos professores da primeira escola Waldorf em Stuttgart.

Durante este tempo, as atividades em Dornach prosseguem ativamente, tais como: a Euritmia, a preparação para a encenação do ‘Fausto’, a escultura de madeira e a pintura das cúpulas do Goetheanum.

No ano de 1918, com 57 anos, Steiner viajou a um grande número de cidades para ministrar conferências, além daquelas que proferiu em Dornach e Berlim. Foi um ano de conclusão e preparação da base de sua atuação para a época do pós-guerra. Nenhum livro novo foi publicado, mas são reeditados vários livros, tornando-se disponíveis todas as obras que ele já havia publicado.

Na Alemanha pairava uma ameaça de guerra civil na primavera de 1919. O império havia ruído: fome, desemprego, doenças, revoltas faziam parte do dia-a-dia. As pessoas se dividiam entre tomar posições extremistas ou se sobrepor às grandes dificuldades e buscar um objetivo em comum. 1919 evidenciou-se como o ano da luta pela Trimembração Social, tendo Steiner realizado uma série de conferências para industriais e pequenos grupos de operários, falando em pequenas salas, pátios de fábricas e mesas de bares. Foi constituída a Associação para a Trimembração do Organismo Social, em Stuttgart a qual pertenciam muitas personalidades completamente alheias aos círculos antroposóficos. A associação tinha como objetivo despertar a compreensão para as exigências sociais do tempo e divulgar as leis que atendessem às mesmas, empenhando-se em iniciativas sociais concretas. Liberdade no espírito, igualdade perante o direito, fraternidade na economia – conferindo um novo conteúdo aos ideais da Revolução Francesa.

A partir deste momento histórico, com 58 anos de idade, a atuação de Rudolf Steiner passou a ter uma característica totalmente nova: sem nenhuma reserva, ele falava das relações entre os fatos históricos e os fatos políticos. Revelava os bastidores da história de uma maneira que não podia deixar de surpreender a todos quantos se apegavam a uma concepção convencional dela, e não menos aos políticos profissionais. Esta forma de atuar culminou no manifesto Apelo ao povo alemão e ao mundo cultural, divulgado em março de 1919, depois da derrocada da Alemanha. O documento é assinado por várias personalidades, muitas das quais não pertenciam, nem antes e nem depois, à Antroposofia, porém, abaladas pelo impacto dos acontecimentos e aguardando algo de totalmente diverso, estavam preparadas para defender a realização das idéias do manifesto. Nesse Apelo Rudolf Steiner falava da necessidade de desmembrar o antigo complexo estatal nos três sistemas: o espiritual, o político e o econômico, podendo-se assim ser evitado o caos, que continuava eminente, terminando da seguinte forma: Ou se condescenderá em conformar-se, no próprio pensar, com as exigências da realidade, ou não se terá aprendido coisa alguma da desgraça, e do contrário, multiplicar-se-à, ad infinitum, por novas desgraças, a causada até aí. No entanto, com a finalização do estado de Guerra, prevaleceu entre as pessoas a atitude de deixar as coisas como estavam, uma vez que a crise inflacionária já estava superada pela estabilização do marco, e as transformações esperadas não se realizaram, fadando ao fracasso a luta pela Trimembração Social.

Foi o início de uma atuação pública que faria Rudolf Steiner entrar mais amplamente na consciência da Europa Central, em particular na Alemanha, levando passo a passo, à fundação dos impulsos culturais específicos da Antroposofia.

Os comunistas passaram a se preocupar com o que Steiner tinha a dizer e proíbem seus membros de assistirem às suas conferências. Os nazistas começaram a considerá-lo uma ameaça ao defender que a Trimembração Social encerrava em si as leis estruturais de uma nova ordem social. Era uma época em despontava como grande orador o jovem cabo do exército bávaro, Adolf Hitler, que inspirava o Partido dos Trabalhadores Alemães, falando sobre nacionalismo e anti-semitismo.

Steiner não nutria ilusão nenhuma acerca da capacidade moral dos ocupantes do poder político e econômico ou dos homens em geral. O que ele propunha não era uma utopia, mas um sistema social que partia do conhecimento do homem em seus impulsos sociais e anti-sociais, concretizando as capacidades sociais que poderiam ser despertadas, mesmo diante de tanta fraqueza e egoísmo, se fossem desenvolvidas de forma verdadeiramente humanas. Em vez de pensar nas alternativas imediatas do momento, haverá de existir uma concepção mais ampliada da vida que esforce em compreender as forças evolucionistas da Humanidade moderna…

Não era chegada ainda a hora de uma ordem social trimembrada. Mas uma das sementes dessa concepção se transformou num bonito fruto: a Pedagogia Waldorf, criada a partir da escola Waldorf de Stuttgart, cuja abertura se deu em 7 de setembro de 1919, após intensa preparação e envolvimento de Rudolf Steiner.

Com o apoio de Emil Molt, Conselheiro Comercial e chefe da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, em Stuttgart, ele assumiu a instalação e direção da escola, tarefa que aceitou com a mais alta responsabilidade, em abril de 1919. Rudolf Steiner sentia a feliz expectativa do que estava sendo criado por ele.

Alguns círculos sociais, como a Igreja Católica, olhavam com desconfiança para esta pedagogia nascida da Antroposofia e torciam pelo malogro do empreendimento. Entretanto, a Escola Waldorf de Stuttgart foi um grande sucesso, começando a funcionar com 200 alunos e em poucos anos, já contava com 1000 alunos, sendo necessário rejeitar inúmeros outros, por falta de vagas. Pouco a pouco outras escolas surgiram: Berlim, Altona, Hannover, Kassel, Breslau, Dresden, Basiléia, Zurique, Haia, Londres, Nova York e Oslo. E muitas outras pelo mundo afora.

O desejo de Rudolf Steiner era fundar uma escola única de 12 séries, para todas as classes sociais e para meninos de ambos os sexos, independente da camada social a qual pertencessem. Seu objetivo para uma escola desse tipo é a formação do ser humano, necessitando para isso de um professor que possa imergir nas almas e em toda a essência do ser humano em desenvolvimento.

Posteriormente, em março de 1939, a escola de Stuttgart foi fechada com o advento do Regime nacional-socialista na Alemanha. Seus edifícios foram seriamente danificados pelo bombardeio das tropas aliadas durante a Segunda Grande Guerra. Com a chegada das tropas americanas naquela cidade, em 1945, os ex-alunos, mesmo sem se comunicarem entre si e sem qualquer planejamento, começaram a estabelecer uma nova ordem, fazendo a escola renascer dos escombros, florescendo até hoje.

Também no ano de 1919 a Euritmia foi apresentada ao público em uma grande viagem pela Alemanha e Suíça. O ser humano, tal como o vemos ante nós, é uma forma acabada. Mas essa forma acabada origina-se de movimentos… E, desenvolvendo a euritmia, retornarmos aos movimentos primordiais… Deus euritmiza, e enquanto Ele o faz nasce, como resultado desse euritimizar, a figura humana.

Na idade de 59 anos, Steiner encontrava-se envolvido intensamente nos mais variados campos, a partir do impulso espiritual de trazer vida nova à civilização atual e enriquecê-la através dos conhecimentos da ciência iniciática. Confiava na força da Antroposofia, que converte o pensar materialista e egoísta em pensar espiritualizado e humano, acreditando que a mentalidade se modificaria em todos os campos da vida do homem aos poucos. Todo o seu esforço consistia em transmitir aos homens uma nova compreensão do próprio assunto com o qual os homens têm de lidar em cada esfera particular da vida.

Rudolf Steiner se colocava sempre à disposição daqueles que tinham perguntas, encarando seu interlocutor com seus bondosos olhos castanhos luminosos, como se naquele momento não existisse nada mais importante que as perguntas ou o destino pessoal de quem estava a sua frente.

Ele esperava sempre que as pessoas se dirigissem a ele e lhe solicitassem ajuda e, na plenitude de seu conhecimento espiritual, ele respondia de bom grado, dando-lhes do maior e do melhor do que se ousaria esperar. Mas as pessoas tinham de ser aqueles indivíduos que pela força de sua entrega, lhe fornecessem o fundamento apropriado ao novo que era trazido. Uma regra do esoterismo diz que um Iniciado só responde se for perguntado.

A solidão de todos os tempos continuava sua companheira, percebendo o abismo crescente entre o que falava em suas conferências, trazido diretamente dos mundos espirituais, e a consciência extremamente terrena de seus ouvintes. Porém Rudolf Steiner nunca deixou que qualquer um dos seus colaboradores percebesse um desapontamento seu, suportando tudo sempre com gentil paciência. Sempre se dirigia ao melhor do outro, mesmo se fosse a parte mais baixa deste que lhe respondesse. Um grande sábio falava às pessoas, mas elas não percebiam de quem se tratava.

Na Páscoa de 1920, aos 59 anos de idade, Rudolf Steiner deu o primeiro curso para médicos e estudantes de Medicina, em Dornach. Foram 20 conferências que demonstraram um conhecimento soberano de questões relacionadas com a ciência médica. Porém não era sua intenção aparecer como terapeuta; compreendendo que essa missão cabia aos médicos. Só se empenhava na atividade terapêutica em ligação com um médico licenciado, não tratando as pessoas. Ele aconselhava o médico com toda a sua humanidade e os médicos, ao se disporem a aceitar os seus ensinamentos, dispunham-se, também, a passarem por uma profunda reviravolta em suas consciências médicas. Oferecia a educação de novas faculdades de discernimento, o despertar da visão correta para os diagnósticos e liberava no praticante uma dose superior da vontade de curar e combater a enfermidade. A Antroposofia, antes de afirmar algo acerca do espiritual, elabora os métodos que a autorizam a fazer tais afirmações.

Mas essa espera pelos médicos foi uma das mais demoradas de sua biografia e talvez uma das mais dolorosas. Ele já havia percebido muito cedo o significado social abrangente e a premência da ampliação do impulso científico-espiritual na Medicina Antroposófica, diante do desenvolvimento vertiginoso da medicina convencional. Em uma palestra de 1909 já anunciava: Deixe-se desenvolver a Medicina de forma tão materialista e, se vocês pudessem antever quarenta anos, ficariam assustados diante da brutalidade dos seus procedimentos e até que formas de morte serão empregadas por essa Medicina para curar as pessoas.

Em 1920 também foram instituídos 2 cursos antroposóficos de nível universitário, dados por colaboradores e pelo próprio Steiner, que difundiam o saber científico. Essa iniciativa trouxe para o movimento um número de jovens com formação universitária, ocasionando a substituição dos antigos membros vinculados à época da Seção alemã da Sociedade Teosófica por jovens cientistas, professores e médicos que buscavam a Antroposofia como uma nova forma de atuação. Steiner considerou que os dois cursos ficaram em total desacordo com o espírito do edifício, porque ao invés da Ciência ser fecundada pela Antroposofia, a Antroposofia se viu invadida pelos hábitos do pensamento da Ciência Natural.

 

Em setembro de 1920 o Goetheanum é inaugurado sem a escultura do Representante da Humanidade, que ainda estava sendo esculpida por Steiner na marcenaria ao lado do prédio. A construção era majestosa, com suas cúpulas reluzentes e as formas modificando-se sobre as janelas e os portais. Tinha-se a impressão de que tudo se superava.

Desta época em diante, praticamente todas as semanas publicavam-se artigos e livros contra Rudolf Steiner, com ataques, calúnias e zombarias provenientes de um grande número de adversários, fanáticos religiosos, cientistas dogmáticos e de círculos nacionalista alemães. Steiner tinha a consciência de que seus opositores arrastavam seu nome na lama para destruir seu trabalho, pressentindo que o movimento sofreria muito com tudo isso. Empenhou-se solitariamente e com muito sofrimento em ordenar e responder a todos esses ataques.

Em Stuttgart aconteceu, ainda, um grande congresso público e o segundo curso para médicos foi oferecido. Os cursos para médicos continham múltiplas sugestões para uma nova aplicação de medicamentos, fazendo nascer dessas indicações os laboratórios farmacêuticos. Em 1920 havia uma grande pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos, favorecendo o nascimento dos laboratórios farmacêuticos em Arlesheim e Schwabisch Gmünd (Weleda A.G) e mais tarde em Eckwalden (WALA). Surgiu, também, a necessidade de se fundar uma clínica levando alguns médicos antroposóficos a criarem um Instituto Terapêutico em Stuttgart, onde Steiner teve a oportunidade de trabalhar em conjunto com eles.  Porém esses médicos eram aqueles formados nos cursos que desagradaram Steiner, não se empenhando da maneira urgente, como ele esperava, para que se pudesse promover o estudo e a reforma necessária da Medicina.

Muitas iniciativas antroposóficas foram organizadas, mas a Sociedade Antroposófica ainda estava inativa e sem um cultivo de seus ramos. As empresas ‘Der Kommende Tag’ e a ‘Futurum S.A.’ na Suíça, que foram fundadas com a tarefa de apoiar empreendimentos econômicos e espirituais, geravam muita preocupação, causada pela incompetência administrativa e pela falta de idéias. Sentia-se por todos os lados o prenúncio de uma crise.

Em junho de 1921, em Arlesheim, Suíça, próximo ao Goetheanum, a Dra. Ita Wegman inaugurou um Instituto Clínico-Terapêutico, como forma de fazer o que fosse necessário no sentido da Antroposofia. A cooperação entre Steiner e a médica começou nesse verão, tornando-se mais próxima, mais tarde num momento trágico da vida dele.

O auge da atuação pública de Rudolf Steiner foi alcançado no ano de 1922, quando contava com 61 anos de idade. A Agência de concerto Wolff, em Berlim, interessou-se pela organização de suas conferências e as salas existentes já não comportavam mais o público ouvinte. Em maio ele proferiu um ciclo de palestras de duas semanas em dez cidades alemãs. Marie Steiner descreveu o ambiente reinante na Europa com relação à atuação de Rudolf Steiner dessa forma: O público vindo das cidades vizinhas estacionava diante das ruas próximas ao local do evento em Berlim, sem conseguir entrar. Esse sucesso desencadeou logo a sanha dos adversários. Para aniquilar um movimento espiritualista, perigoso, conforme as opiniões de inúmeras pessoas uniram as hostes inimigas entre si. Pan-germânicos, católicos, protestantes, comunistas, representantes da ciência, uniram-se nessa mesma intenção. Os poderosos círculos judaicos, dirigentes nas finanças e na imprensa tudo fizeram, por meio de uma campanha em artigos difamatórios para apoiar e atiçar a ânsia de destruição dos inimigos. Desse modo não foi difícil encenar arruaças.

Estas cenas aconteceram em Elberfeld e Munique – a cidade sede da atuação de Adolf Hitler. Jovens ligados ao movimento nacionalista alemão interromperam várias vezes, quando Rudolf Steiner falava Da Antroposofia e o Conhecimento Espiritual, no Hotel Quatro Estações. Nesse hotel ele foi alvo de um atentado à mão armada, que graças à intervenção dos amigos, evitou-se o pior. Steiner escapou pela porta dos fundos e terminou seu ciclo serenamente.

Os organizadores aconselharam-no a suspender a realização das palestras, entendendo que a organização inimiga era tão forte, que eles não se achavam em condições de oferecer garantias quanto à sua segurança. Esses episódios foram apenas avisos do que deveria seguir-se: um golpe bem mais duro.

Em julho ele compareceu em Viena ao Congresso Leste-Oeste, em que era um dos principais oradores. O Congresso aconteceu num clima tenso, encontrando-se Steiner extremamente triste Os ataques a sua obra continuavam e certa oposição interna dirigida a sua pessoa começou a ser percebida.

Num esforço sobre-humano Steiner falou no Congresso, dispondo-se, como sempre, a oferecer conselhos e consolo a centena de pessoas. Duas mil pessoas participaram do Congresso Leste-Oeste, todas cheias de entusiasmo, apesar das críticas agressivas da imprensa. Ele considerou este congresso como sendo o mais grandioso empreendimento público originado do espírito antroposófico. Foi durante este Congresso que a senhora Valborg Werbeck Svärdstöm, criadora da Escola do Desvendar da Voz, de inspiração antroposófica, deu um concerto na famosa Sala da Associação Musical de Viena.

Em agosto de 1922, pela primeira vez depois da Guerra, Steiner viajou à Oxford, Inglaterra, para falar em uma conferência sobre educação. Aconteceram, também, apresentações de Euritmia em Londres e em Haia, evidenciando-se um crescente entusiasmo por esta arte. Em Dornach um curso para franceses foi organizado, demonstrando que os contatos interrompidos pela Guerra estavam sendo retomados.

Ainda nesta época, um grupo de jovens teólogos reuniu-se em Stuttgart para solicitar a Steiner conselhos e diretivas para sua futura atividade religiosa. Esse grupo depositava enorme confiança em Rudolf Steiner não só em suas doutrinas, mas, sobretudo pelo modo como ele se situara na vida pública nos anos da derrocada alemã. Como encontrar eco nos corações dos contemporâneos quando se trata de falar-lhes das coisas relativas ao verdadeiro cristianismo? Foi a pergunta que Steiner lhes fez.

Dessa forma, em setembro de 1922 foi fundada a Comunidade de Cristãos, com o intuito de dar prosseguimento à corrente cristã da humanidade, junto com quarenta e cinco sacerdotes, entre eles um sábio budista e três mulheres.

A Comunidade de Cristãos é uma comunidade inteiramente autônoma e sua vida se processa sem qualquer vinculação de dependência perante a Sociedade Antroposófica. O movimento antroposófico deve atender à necessidade cognitiva, ao passo que o movimento religioso deve atender às necessidades de ressurreição do homem.

Em dezembro de 1922 Rudolf Steiner proferiu uma conferência para esclarecer à Sociedade Antroposófica que não se tratava da criação de uma nova religião, como muitos acreditaram e adverte os antropósofos a não se descuidarem do solo a partir do qual o culto da Comunidade de Cristãos brotara – a Antroposofia. Aos antropósofos caberia o cultivo do ser Antroposofia. O que seria da Sociedade Antroposófica se ela necessitasse em primeiro lugar de uma renovação religiosa? Era a pergunta de Rudolf Steiner para aqueles que se limitavam apenas em acorrer aos bandos aos atos cúlticos dos pastores.

Os inimigos aumentavam, uma vez que foi inevitável o surgimento da compreensão de que se tratava da fundação de uma nova religião antroposófica.

Durante o mês de outubro, depois de muitos conflitos com os mais velhos, Steiner deu o ‘Curso para Jovens’ em resposta à busca de muitos deles por caminhos na Antroposofia, já que a cultivavam como se fosse um partido antroposófico.  Sente que os mais velhos sabiam muito, porém faziam pouco e rejeitavam os mais jovens, que sabiam pouco e queriam fazer muito.

Steiner retirou-se em grande parte da vida pública, constatando que aquela Sociedade não estava espiritualmente desperta o bastante para defender o edifício e protegê-lo internamente de seus poderosos e numerosos inimigos. A Sociedade Antroposófica está dormindo.

As empresas e as instituições financeiras continuavam em crise, sendo necessária a liquidação da ‘Futurum’, na Suíça, com graves perdas financeiras. Na Alemanha, a sociedade ‘Die Kommende Tag’ tem de passar a maior parte de suas ações para sua maior acionista, a fábrica de cigarros Waldorf-Astória e reduzir bastante o seu programa. Os institutos de pesquisa não atingiam os resultados práticos e apareciam dificuldades até mesmo na Escola Waldorf. No Instituto Terapêutico de Stuttgart a espera pelo trabalho dos médicos não acontecia, formando-se um muro burocrático, conhecido como o ‘sistema de Stuttgart’, a oposição no colegiado dos médicos era a mais visível.

Rudolf Steiner tentou, em inúmeras reuniões noturnas, votações, conferências e palestras, ativar finalmente a auto-reflexão dos antropósofos e chegar com eles ao que realmente paralisava a Sociedade: falta de elaboração de tarefas científicas, bloqueio ao êxito de muitas iniciativas recentemente fundadas, rejeição aos jovens, espera do trabalho científico central dos médicos – o Vademecum, além de outros aspectos. A intenção de Steiner era dar às iniciativas um cunho antroposófico, ou todos aqueles impulsos que surgiam, acabariam arruinando o movimento.

A campanha difamatória dos inimigos amplamente organizados realizou-se principalmente nos anos de 1922 e 1923. Max Hayek, simpatizante da Antroposofia, havia se encontrado com Rudolf Steiner no verão de 1922 e percebera que ele era um portador de grandes aflições… na Terra, um mártir do espírito, alguém que suportava uma cruz.

No Congresso de Natal de 1922 suas palestras levavam os antropósofos presentes à compreensão do posicionamento do ser humano no decurso do dia e do ano, da metamorfose dos mistérios solares e à compreensão dos profundos mistérios de Hibérnia, através do acontecimento no Gólgota.

As palestras estavam sendo proferidas no grande salão de cúpulas para um grande público e turnos de vigilância foram preparados para evitar qualquer acidente na construção, provocado por falhas técnicas ou por forças da natureza, levando-se em consideração que Steiner já alertara muitas vezes que o Goetheanum estava extremamente exposto ao perigo. Enquanto soavam aqueles avisos de alerta, sérios e penetrantes, contra a destruição que viria de dentro, tanto por não se cuidar devidamente do espiritual, como por não se cultivar a Antroposofia, o destino do primeiro Goetheanum já estava selado.

A crise no movimento antroposófico se tornou explícita na noite de 31 de dezembro de 1922: um incêndio destruiu o edifício, numa ação criminosa. Naquela noite Rudolf Steiner falava de coisas grandiosas: O ser humano transforma a Terra a partir de sua própria espiritualidade ao compartilhá-la com o mundo; ao vivificar os pensamentos pela Imaginação, a Inspiração, a Intuição; ao realizar a comunhão espiritual da humanidade. O tom solene e a penetração de suas palavras intensificavam-se ao longo da palestra. Tinha-se a impressão de que naquele púlpito um grande iniciado celebrava o culto do futuro, o culto cósmico da humanidade.

Depois de ter proferido os versos que ele havia escrito no quadro negro, ele se afastou do púlpito com grande discrição, pela lateral, tornando assim óbvio que ninguém o aplaudisse como naturalmente ocorria em outras palestras. Os dois versos permaneceram na lousa com sua letra bonita, enquanto jovens e velhos, profundamente comovidos, saíam para a noite estrelada de São Silvestre. Pouco depois o guarda de plantão acionou a linha de emergência do corpo de bombeiros do Goetheanum, dando o sinal de incêndio. Fogo no Goetheanum!

Aquela construção onde trabalharam pessoas de diferentes nações por muitos anos e a qual Rudolf Steiner tinha se entregado totalmente, fora consumida pelas chamas. Tudo agora está inscrito no éter cósmico, foi o que Rudolf Steiner disse a Ita Wegman, que se encontrava ao seu lado nessa hora.

Rudolf Steiner foi visto percorrendo o terreno, em todas as direções, com o semblante marcado por profunda tristeza, consciente do que a humanidade havia perdido. Após a noite de incêndio, pela manhã, apesar da imensa dor provocada por aquela tragédia, com seu espírito inabalável, deu coragem e força a todos os presentes para que pudessem suportar aquela situação. Ele informou a um pequeno de grupo de antropósofos que estava ao seu lado que o trabalho continuaria e que voltaria a construir.

Quis na matéria sensória

O Goetheanum falar ao eterno

Através das formas, ao olho.

As chamas puderam destruir a matéria.

Deve a Antroposofia

Fazer, a partir do espírito,

Sua construção falar à alma.

As chamas do espírito,

Elas hão de endurecê-la.

 

Ao meio dia do dia 1º de janeiro de 1923 todos foram informados que as apresentações previstas seriam mantidas conforme o programa.

Neste mesmo dia Steiner ainda disse as seguintes palavras ao conde Polzer-Hoditz: as diferenças entre as almas são muito grandes. Elas querem ver, ouvir e acompanhar tudo, mas acordar elas não querem. Assim elas tiveram de sentir a catástrofe e a dor física. Aqui não age o carma e sim o não estar acordado dos membros e a maldade de algumas pessoas. A possibilidade nos foi dada: o Espaço da Palavra estava lá, mas esta só pode viver se seu interlocutor tiver sua contra-imagem no coração, e lá haverá a consciência da palavra, ou seja, quando o homem não apenas se responsabilizar pela ‘Palavra do Mundo’. Este era o sentido da edificação: Palavra e Resposta, Logos e Homem. Em Éfesus tivemos os mistérios da encarnação da Palavra. Éfesus teve de ser destruído para que não fosse usado indevidamente pelas forças contrárias. Aqui ocorreu o contrário. Os deuses olharam com expectativa para o Espaço da Palavra, mas os homens não estavam lá para protegê-lo. Foi dada uma possibilidade, mas a resposta dos homens faltou.

A destruição do Goetheanum foi o acontecimento mais trágico de toda a história do movimento antroposófico e da Sociedade Antroposófica até aquele momento. Não só a ruína física que estava ali à vista de todos e, principalmente de Rudolf Steiner, era preocupante, mas a advertência que nos últimos anos a Sociedade havia estado sem firmeza, acometida também com algo de aspecto ruinoso, simbolizado nas ruínas do edifício. Dez anos e um monte de ruínas. Estas foram as palavras encontradas em seu caderno de anotações de 1923, indicando o estado de sua alma depois do incêndio, mas que não expressaram de modo algum a tragédia que o incêndio representou para ele pessoalmente.

Para dar vida ao edifício, Steiner havia sacrificado parte de suas próprias forças etéricas, que deste modo se entrelaçaram à essência viva do Goetheanum. O incêndio revelou-se um duro golpe ao próprio corpo etérico de Rudolf Steiner. A obra ainda não estava completa, portanto, estava ligada às forças de seu criador.

Friedrich Rittelmeyer relatou que durante aqueles dias Steiner estava como uma grande ferida aberta, e foi a partir desse estado que ele pode voltar à calma translúcida e ao espírito suave com o qual escreveu Minha Vida.

Assya Turguenieff, uma colaboradora, observou que a risada jovial e alegre que muitas vezes clareava os severos traços do rosto do Dr. Steiner, seus movimentos rápidos e leves, seu passo rítmico – ninguém era capaz de andar como ele – nada disto pudemos vivenciar depois da noite do incêndio. Um grande peso pressionava seus ombros. Ele tinha de produzir a força para manter sua postura ereta e fazia muito esforço para caminhar.

Nesse momento de muita dor sua relação com Ita Wegman se intensificou, havendo surgido por parte da médica a compreensão mais exata de quem era Rudolf Steiner, do que ele precisaria e de como ele deveria ser apoiado.

1923 se revelou o ano mais crítico, não só para Rudolf Steiner como também para a Sociedade Antroposófica. Aos 62 anos de idade pensou na possibilidade de afastar-se totalmente e por completo da Sociedade, somente em companhia de alguns poucos discípulos e continuar o seu trabalho em caráter mais privado. Sentia-se como uma quantidade de valor desprezível. Entretanto, decidiu continuar, apesar de sentir que as pessoas queriam exatamente o contrário do que ele sugeria.

Em verdade, Rudolf Steiner já havia manifestado esta possibilidade anteriormente, conforme relato de Marie Steiner, pouco depois da morte dele: Na esteira da guerra, em muitos momentos difíceis – tanto do fracasso diante da luta cheia de ódio dos inimigos, quanto de indiferença frente ao seu fanatismo destrutivo – Rudolf Steiner se pronunciou com freqüência nos seguintes termos: ‘Quem sabe não seria melhor levar o movimento adiante sem a Sociedade?

Rudolf Steiner planejava a reconstrução da Sociedade e deixou isto bem claro 3 semanas depois do incêndio, falando da necessidade de consolidar a Sociedade o mais rápido possível. Porque, em certo sentido, o que faltou ao edifício de Dornach – e isto falou alto e claro para o mundo todo – foi o apoio protetor da Sociedade Antroposófica. Basicamente a Sociedade Antroposófica se esquivou desde o início da construção… A reconstrução só faz sentido se, atrás dela, estiver uma Sociedade Antroposófica cônscia de si mesma, tendo presentes seus deveres. Nas antigas iniciações sempre se conhecera o grau da prova de fogo, e essa prova de fogo fora estabelecida como se visasse a proporcionar-lhe uma iniciação vital.

Com um esforço sobre-humano, Steiner retomou suas viagens para proferir palestras, negociações, reuniões, aconselhamentos e cursos. As viagens e conferências serviam para cumprir a meta de despertar a antiga Sociedade Antroposófica do sono e do marasmo em que se encontrava e de resolver a ineficiência e má administração das várias firmas. Steiner exigiu a supressão de todo o espírito sectarista, o senso pela realidade em todas as esferas da vida e a coragem para enfrentar todas as deturpações da Antroposofia. Para ele o que deveria prevalecer era o caráter espiritual da Antroposofia e não um espírito teórico-didático. Enquanto a Antroposofia não for tomada com um ser vivo, que se movimenta invisível entre nós e perante o qual cada um se sinta responsável, o pequeno grupo dos antropósofos não progredirá como um grupo exemplar.

Prosseguiu com uma intensa atividade de esclarecimento, nos mínimos detalhes, das causas do incêndio junto à polícia e as demais autoridades suíças, negociando pessoalmente com as companhias seguradoras as indenizações que viabilizariam a construção do segundo Goetheanum.

Em agosto de 1923, Rudolf Steiner fez uma viagem a Gales, acompanhado de Ita Wegman, para novas conferências. Naquela região dos Mistérios de Gales a médica teve a oportunidade de ter muitas conversas com ele, falando-lhe de suas aspirações pelos Mistérios, perguntando-lhe, ainda, porque os cursos de Medicina eram dados de forma tão intelectual. Esta foi a pergunta que ele esperou que lhe fosse feita há muito tempo. Haviam-se passados exatos vinte e um anos até aquele dia – três setênios, desde que Rudolf Steiner formulou a frase, em 16 de agosto de 1902: Eu quero construir apoiado sobre a força que me permita levar ‘discípulos do espírito’ ao caminho do desenvolvimento. Uma meta importante e central do desenvolvimento foi alcançada por um verdadeiro discípulo. Confirmou-se a possibilidade do desenvolvimento de uma nova Medicina dos Mistérios, esta devia vir à vida… O mundo espiritual se rejubilou.

Em suas conferências para médicos não-antroposóficos e um público interessado, começou a fazer, então, uma série de exposições sobre a nova arte de curar e expressou com toda a clareza: Especialmente deve-se apontar aqui o Instituto Clínico Terapêutico de Arlesheim, sob a direção da Doutora Ita Wegman, que desenvolve uma atividade especialmente benéfica para esse Instituto, por ter aquilo que eu gostaria de chamar de coragem de curar. Não fora em Dornach ou Stuttgart que surgiu a expressão coragem de curar. Essas palavras foram expressas numa paisagem relacionada tanto com os mistérios de Hibérnia, quanto com a corrente de Micael, em Gales, onde ele tinha acolhido profundamente em si toda a espiritualidade da paisagem do lugar.

A partir de setembro de 1923 Steiner tomou nas mãos o desenvolvimento interior futuro de Ita Wegman, com toda a energia, ensinado-a e preparando-a para aquilo que deveria ser realizado de forma mais elevada.

Durante o restante deste ano formulou cada vez mais claramente a inauguração dos novos Mistérios, que agora se tornavam públicos e manifestos. Muito preocupado em aumentar as forças morais da Sociedade, apresentou de forma enfática a sua missão cultural, demonstrando que esta deveria se tornar um instrumento onde a renovação espiritual da humanidade se concretizasse, não obstante os intensos esforços das potências adversárias. O teor de suas conferências mostrou o resultado de seu trabalho. Todos os níveis até então ainda ocultos se revelavam. Evidencia-se agora o caráter Intuitivo, no despertar e na revelação dos níveis da vontade, é a expressão pública das ‘Bodas Químicas’ (no sentido de transubstanciação da matéria).

Numa série de conferências e palestras sobre Micael, em Viena, local de sua juventude e dos anos de estudante, anunciou que escreveria um livro de Medicina junto com a doutora Ita Wegman. O livro Os Elementos Fundamentais para uma ampliação da Arte de Cura começou a ser escrito no atelier de Rudolf Steiner e todas as noites iniciava o trabalho com a oração Pai Nosso, ao lado da estátua do Cristo.

No Congresso de Natal de 1923, realizado em Dornach, em meio a todos os escombros do incêndio, Rudolf Steiner fundou a nova Sociedade Antroposófica, num ato individual de grande coragem e absolutamente só. Tomou para si o cargo de presidente da Sociedade Antroposófica e sem reservas uniu o seu destino totalmente ao destino da Sociedade Antroposófica Universal num ato esotérico público, vinculando o Movimento Antroposófico à Sociedade Antroposófica. Após vencer graves dúvidas interiores, ergueu-se dentro de mim o conhecimento de que será impossível continuar a dirigir o movimento antroposófico dentro da Sociedade Antroposófica, se esta Assembléia de Natal não concordar com que eu retorne novamente a toda a forma de direção, inclusive a Presidência da Sociedade Antroposófica, a ser fundada aqui em Dornach, no Goetheanum.

Do ponto de vista do oculto, a atitude de Steiner somente é possível quando o princípio do perdão se torna uma realidade no mais nobre sentido cristão. Ao não empurrar a oposição para fora e nem se esquivar, deixando cada um por sua própria conta, Rudolf Steiner uniu-se à oposição. No sacrifício reside todo o esoterismo. Perdoando e acolhendo a todos os membros da recém fundada Sociedade Antroposófica, inclusive os que se opunham a ele, por todos os seus erros passados, inclusive ações e atitudes contra sua pessoa, cujas conseqüências ele suportou externa e internamente, tornou-lhe possível permanecer espiritualmente com essas pessoas, perdoando-lhes sempre que necessário, esperando pacientemente até que, mediante sua liberdade interior, elas adquirissem a consciência da absoluta necessidade da iniciativa espiritual individual para a evolução futura da humanidade inteira. Neste ato de perdão completo e sem reservas pode-se formar a efetiva substância espiritual, o solo moral-espiritual que lhe possibilitou desenvolver o impulso moderno dos novos mistérios cristãos.

Marie Steiner demonstrou a impossibilidade de dar uma descrição do que foi o Congresso de Natal de 1923. Mal se podiam perceber as forças que o impulsionaram. Entretanto, ali se deu a mais enérgica tentativa de um educador da humanidade de erguer seus contemporâneos acima de seu pequeno ego e de fazer um apelo à sua vontade consciente, no sentido de se tornarem um instrumento da sábia direção do cosmos.

Deu-se também a abertura da primeira classe (como de um primeiro ano de uma escola) da Escola Livre de Ciência Espiritual – a Escola Esotérica, centro de atuação da Sociedade Antroposófica. Sua abertura em 15 de fevereiro de 1924 foi precedida por um curso de Introdução à Antroposofia onde estavam presentes muitos jovens e novos membros.

Da nova Sociedade Antroposófica Universal são membros as Sociedades Territoriais e a Escola Superior Livre para as Ciências Espirituais com suas seções ligadas às atividades práticas: seção médica, seção pedagógica, seção de ciências naturais, seção de matemática e astronomia, seção de literatura, seção de artes dramáticas e musicais, seção social e seção de Antroposofia geral.

Além de Rudolf Steiner como presidente dessa Sociedade, foram nomeados Albert Steffen como vice-presidente e diretor de literatura, Marie Steiner como diretora da seção de Artes Dramáticas e Musicais, Ita Wegman como diretora da Seção Médica, Elisabeth Vreede como diretora da seção de Matemática e Astronomia e Gunther Waschsmuth como Secretário e Tesoureiro da Sociedade e dirigente da seção de Ciências Naturais.

Em sua alocução de abertura do Congresso de Natal, Rudolf Steiner apontou claramente para o fato de que o Goetheanum não fora consumido pelas chamas apenas em conseqüência de um ataque inimigo, mas o monte de escombros na colina de Dornach simbolizava num certo sentido, outro monte de escombros dentro da Sociedade Antroposófica e da própria situação do mundo.

Naquela época foi dada aos corações e às almas de todos os verdadeiros antropósofos do passado, do presente e do futuro a possibilidade de depositarem dentro de si a Pedra Fundamental, que estava relacionada com tudo aquilo que já havia começado a viver na Terra através do lançamento da primeira pedra fundamental e da construção do primeiro Goetheanum. Desta vez a Pedra Fundamental foi lançada no coração dos presentes sob a forma de uma meditação, fundando-se os novos mistérios cristãos. E o solo adequado em que precisamos colocar a Pedra Fundamental de hoje, esse solo adequado são os nossos corações, em sua harmoniosa cooperação, em sua boa vontade compenetrada de amor, para transportamos juntos o querer antroposófico, através do mundo para nós.

No Congresso de Natal consumou-se um grande mistério: foi criada a possibilidade do mundo se tornar um templo onde, em toda parte, almas humanas vivam e atuem a partir da força da pedra Fundamental. Esta meditação é um exercício constante para gerar em nós, por caminhos meditativos espirituais, as forças puras do amor em nossa organização trimembrada.

O solo onde foi colocada a ‘Pedra Fundamental’ puderam ser apenas os corações e as almas das personalidades unidas na Sociedade; e a própria Pedra Fundamental, ele mesma tem de ser a mentalidade que brota da configuração antroposófica da vida. ‘Esta mentalidade na maneira como é exigida dos sinais da época presente, é formada pela vontade de encontrar através do aprofundamento humano da alma o caminho para a visão do espírito e para a vida a partir do espírito’

Estavam ali presentes entre setecentas a oitocentas pessoas, algumas como representantes de suas Sociedades Territoriais, e muitas porque o destino as levara até lá. Marie Steiner constatou que aqueles ali presentes não eram os escolhidos, somente foram de fato chamados, mas não estavam à altura do apelo, conforme se evidenciaria mais tarde.

Também, naquele Congresso, Steiner sancionou como um caminho de canto com orientação antroposófica, a Escola do Desvendar da Voz, que tinha na pessoa da senhora Valborg Werbeck-Swärdström sua idealizadora.

Suas exposições passaram a ser relacionadas à atuação de personalidades concretas – sejam elas historicamente conhecidas ou não – que representaram os impulsos espirituais da humanidade nas maneiras mais diversas, em diferentes épocas. Esse tipo de exposição intimamente relacionada ao carma da Sociedade Antroposófica, iniciou-se durante o Congresso de Natal de 1923, destacando os antecedentes espirituais da fundação da nova Sociedade e a ampla dimensão em que Steiner colocava a Sociedade Antroposófica a partir do Congresso.

Os últimos anos de vida – 1924 a 1925

O esgotamento físico de Rudolf Steiner, bem nítido aos olhos de seus colaboradores desde o incêndio do Goetheanum, se agravou repentinamente em 1º de janeiro de 1924, e ele adoeceu gravemente: A mais profunda ação esotérica teria consistido em conseguir que correntes espirituais anteriormente divergentes, pudessem chegar nesse momento, entre alguns de seus representantes, a um acordo harmonioso. Essa teria sido uma missão esotérica que, em comum atuação do Dr. Steiner, pela sua transcendente compreensão, energia e capacidade de amor, poderia ter sido solucionada. Mas nosso carma humano e o carma da Sociedade Antroposófica, abateram-se sobre ele imediatamente após o Congresso de Natal. No último dia, 1º de janeiro de 1924, ele adoeceu gravemente e de súbito. Foi como um golpe de espada, que atingiu sua vida, por ocasião de um chá acompanhado de doces e salgados, assinalado no programa como ‘Rout’. (Marie Steiner)

Steiner subjugou repetidamente a moléstia que se fez sentir na noite de 1º de janeiro de 1924. A imagem de homem saudável deu lugar a de um homem enfermo, sem contudo, interromper suas atividades. Neste ano ele completou 63 anos e foi o último ano completo de sua vida, sendo também um ano de atividade plena.

Num período de 272 dias ele proferiu 338 conferências, 60 alocuções, além de viajar para Paris, Londres, Breslau, Praga, Berna, Arnheim e Torquay. Do ponto de vista da Medicina, ele trabalhava exclusiva e intensamente com a Doutora Ita Wegman, a colaboradora que ele considerava poder fazer valer a Antroposofia na forma correta, em sua área específica – a Medicina.

Ita Wegman percebia aflita, porém impotente, o declínio gradativo das forças físicas de Steiner. Numa carta a Ita Wegman, escrita em 1º de abril de 1924, Rudolf Steiner esclareceu-lhe:

Minha querida Mysa-Ita (a forma como Rudolf Steiner tratava a Doutora Ita Wegman), muitíssimo obrigado, de coração pela amorosa carta, que me deixou muito contente. Espero que minha querida Mysa esteja bem. Por favor, não tenha mais preocupações pelo meu estado; eu me cuidarei de verdade, tanto quanto seja possível. Até agora tudo pôde ser superado. Há muito para ser feito.

Naquela época, tal como hoje, muitos antropósofos especulavam sobre a natureza de sua doença. Para alguns, Steiner permitiu saber em que direção eles deveriam pensar – e esses entenderam imediatamente. Entre essas pessoas estava, o escocês Daniel Dunlop, que se encontrou com ele em Torquay no sul da Inglaterra, em agosto de 1924: Algumas semanas ainda antes de sua última doença, durante o curso de verão de Torquay, eu falei da minha preocupação pela sua saúde física. Com firmeza, mas com infinita amabilidade, ele me levou para o lado e me chamou a atenção de que não deveriam ser empregadas idéias comuns sobre enfermidades para o seu estado. Com estas poucas palavras abriu-se para mim muito mais do que estava contido no significado imediato delas.

 

Numa carta a Marie Steiner, em outubro de 1924, ele escreveu:

‘Minha querida Marie, eu lhe contei há algum tempo que desde janeiro de 1923 a conexão dos membros constitutivos superiores de meu ser com meu corpo físico já não estava mais completa: em minha vida nos reinos espirituais, eu, em certo sentido, perdi a conexão direta com meu organismo físico.’

A fraqueza física e o excesso de trabalho não foram capazes de abater Rudolf Steiner, que se mostrava pleno de possibilidades espirituais, chegando até a manifestar que sentia como se recebesse uma retribuição do mundo espiritual, como uma compensação do destino pela perda sofrida pela Antroposofia, com o incêndio do Goetheanum.

O ponto central de suas conferências é a consideração sobre o destino humano, retomando assim suas intenções mais genuínas. Com toda intimidade e soberania, Steiner sentia que era possível revelar os resultados concretos de sua pesquisa cármica e do destino humano a um público que agora o escutava atentamente, conseguindo tornar realidade o que outrora, em conseqüência de oposições que vigoravam, não pudera ser iniciado com a intrepidez necessária. Não mais se tratava de ensinamentos gerais, agora era possível falar abertamente sobre as relações na vida terrena, pois isto tem a ver com o mistério desvelado de Micael… O fato novo é que os demônios, que antes não permitiam que se falasse das coisas, agora devem silenciar.

Seu curso para jovens médicos no início de 1924 assumiu um tom inteiramente novo, apoiado na natureza própria do homem. A Euritmia ganhou sua síntese e seu coroamento com grandes cursos de fevereiro a junho – Euritmia Musical e a Euritmia como Linguagem visível.

Dois importantes impulsos se concretizaram ainda em 1924, mais uma vez vindo de solicitação externa:

1- A Pedagogia Curativa – que surgiu da iniciativa de jovens estudantes universitários de Jena, na Alemanha, que trabalhavam com crianças psicopatas. Steiner deu conselhos sobre quais cuidados elas deveriam receber: O que é preciso em primeiro lugar para a educação dessas crianças? Não o peso do chumbo, mas humor, humor verdadeiro, humor vital!

O trabalho da Pedagogia Curativa é subordinado à Seção Médica e corre de mãos dadas com a Euritmia Curativa. Na Escócia, na Inglaterra e na África do Sul o Doutor Karl Köning criou o movimento pedagógico-curativo ‘Camphill’. Na Suécia formou-se um centro perto de Estocolmo com três sedes. Atualmente, existem mais de seiscentas instituições para crianças, jovens e adultos com distúrbios de desenvolvimento, deficiência física e mental e distúrbios comportamentais. Hoje são cerca de sessenta centros de formação em Pedagogia Curativa.

2- A Agricultura Biodinâmica – O Conde Carl Keyserlingk formulou uma série de perguntas a Rudolf Steiner sobre a Agricultura, solicitando-lhe que realizasse um curso para agricultores. Então, na primavera de 1924, Rudolf Steiner, já debilitado fisicamente, pronunciou um ciclo de palestras na casa do Conde, em Koberwitz, Polônia, para  fazendeiros, donos de terras, interessados e negociadores de terras de todas as partes da Europa. O objetivo era promover uma atitude de agricultura na qual a terra e a natureza não fossem limitadas como um mero objeto de exploração financeira.  As conferências consideraram um novo método biodinâmico  de cultivo para produzir colheitas sadias, prevenindo erosão do solo, combate à poluição e redução de doenças nas plantas e animais, com a eliminação de venenos industriais e fertilizantes sintéticos.

Junto com o curso de Agricultura, que aconteceu de 6 a 17 de junho de 1924, realizou-se o Congresso de Pentecostes em Breslau, à noite. Neste Congresso Steiner deu um ciclo de conferências sobre o carma, que ganhou um cunho especial pela intimidade com que ele se dirigia às forças humanas do coração. Encontrou tempo para se juntar a um grupo de jovens da Silésia, uma zona industrial entre a Polônia e a República Checa, ouvindo com o coração suas questões e preocupações sobre a vida; encorajando-os e, com sua linguagem imaginativa, abrindo-lhes os olhos da alma para o feito luminoso de Micael, o condutor da humanidade, através de duas aulas proferidas.

Pela manhã de cada dia, ele voltava de trem à Koberwitz para falar ao público que lá o esperava. Nem todos eram agricultores, alguns eram penetras, como dizia Rudolf Steiner. Jovens que, com sua bondade e generosidade, ele permitia que participassem, imaginando que aquela participação pudesse influenciar o destino de um ou outro. Era visível a satisfação e a felicidade dele naquela atmosfera campestre, falando de uma maneira que tocava o coração, dizendo que ele próprio queria estar totalmente ligado à recém fundada sociedade de agricultores profissionais antroposóficos. Surgia para o agricultor um caminho voltado ao espírito, que conduz à compreensão proveniente da região espiritual pela criação e pelo trabalho.

Steiner estava completamente entusiasmado por mais essa iniciativa: Acabamos agora de dar um grande passo adiante.

Ocupou-se ainda dos cursos de formação de professores, formação esotérica dos médicos, Arte da Fala e Arte Dramática, de colaboração profissional entre médicos e sacerdotes, de aprofundamento esotérico para os sacerdotes, e do curso sobre os desvios patológicos dos estados de consciência (A Consciência Iniciática) e de conferência sobre a Antroposofia, ministradas em Praga e Paris. Ainda encontrou tempo para publicar, no período entre 20 de janeiro e 10 de agosto de 1924, no Boletim de Notícias da Sociedade Antroposófica, dezoito cartas aos membros. A Antroposofia somente pode prosperar como algo vivo. Porque a característica fundamental de sua natureza é vida. Ela é vida jorrando do espírito… A forma primordial em que ela pode aparecer entre seres humanos é a idéia: e o primeiro portal a que se dirige no ser humano é o juízo. Não fosse assim, e ela não teria conteúdo. Seria apenas exaltação de sentimento. Mas o espírito verdadeiro não se exalta, fala uma linguagem concisa e substancial. Steiner buscava sempre referendar a intenção espiritual do Congresso de Natal, certificando-se se aqueles impulsos estavam sendo aceitos na Sociedade Antroposófica.

Em setembro de 1924 viajou à Inglaterra, sendo esperado em Dornach, no seu retorno, por mais de mil pessoas, entre elas médicos, atores e teólogos, aos quais havia prometido cursos especiais. Embora já estivesse sofrendo seriamente com a doença, reuniu todas as promessas feitas e durante três semanas falou sobre o Apocalipse de João e deu para médicos e pastores um curso sobre medicina pastoral. Ministrou, ainda, um curso para os operários que participavam da reconstrução do Goetheanum.

Em 28 de setembro de 1924, véspera de Micael, sugeriu que ainda não havia um número suficiente de pessoas que tinham acolhido os impulsos espirituais. É a sua Última Alocução aos membros. Irá vigorar o carma, foi sua resposta à indagação que a Doutora Ita Wegman lhe fizera sobre o que aconteceria se os impulsos não fossem acolhidos pelas pessoas.

Prokofieff demonstra que tal sacrifício somente pode ser superado quando as pessoas abrem seus olhos ao ‘conhecimento’ das verdadeiras realidades do mundo espiritual, que virá como parte de um processo de desenvolvimento ainda maior de uma atividade interior de suas almas, orientadas espiritualmente. Até então, os discípulos iniciados e os mestres espirituais, suportarão a pesada cruz do sofrimento e do perdão pelo tempo necessário, esperando pelas pessoas ‘que ainda não sabem o que fazem’. E a Sociedade ainda não tinha acolhido os impulsos espirituais em si.

Marie Steiner comentou que em setembro se poderia ter chegado à possibilidade de começar com a segunda classe da Escola Livre de Ciência Espiritual, se a onda de sócios que chegava a Dornach não tivesse sido tão avassaladora, necessitando de toda a atenção, assim como o necessitavam as exigências espirituais e a receptividade dos recém-vindos. …havia tantos desejos pessoais a contentar, que foi impossível impedir a exaustão física total do Mestre e Doador.

Rudolf Steiner encontrava-se completamente exausto. Sua enfermidade praticamente impedia a alimentação do seu corpo enfraquecido. A sobrecarga pessoal lhe roubou as últimas reservas de força física e, a partir de 29 de setembro de 1924, viu-se obrigado a renunciar a qualquer atividade entre os sócios, permanecendo acamado, no máximo isolamento. A marcenaria, onde funcionava seu atelier, foi transformada em um quarto de enfermo e sua cama posta ao pé da inacabada estátua do Cristo. A Doutora Ita Wegman se responsabilizou pelos seus cuidados e tratamento, juntamente com o Doutor Ludwig Noll, um médico de Stuttgart, contra a vontade de Steiner.

De seu leito continuou o trabalho, dedicando atenção especial à reconstrução do Goetheanum, planejado em novas formas e feito de concreto armado, um material inovador nas construções à época. Rudolf Steiner amava o ruído vigoroso de marteladas e armações que do canteiro de obras do Goetheanum vinha penetrando a tranqüilidade de seu quarto de doente e lhe anunciava o progresso da construção.

Começou a escrever As Máximas Antroposóficas, que se reuniriam num volume sob o título Mistério de Micael, concentrando ali tudo o que ele tinha a dizer sobre a orientação espiritual da humanidade. Chamou a atenção para o fato de ser Micael o dirigente de nossos tempos, que educa a humanidade para ser livre, crendo no seu futuro, não desejando ver essa humanidade entregue às suas fraquezas, mas sim a um esforço supremo. Steiner adverte que somente em ligação com Micael a humanidade conseguirá superar as forças contrárias que ameaçam a sobrevivência da civilização, revelando-se o mistério da luta contra o dragão.

Temos de erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer ao homem.
Temos de adquirir serenidade em todos os sentimentos e sensações a respeito do futuro.
Temos que olhar para frente com absoluta equanimidade para com tudo que possa vir.
Temos que pensar somente que tudo o que vier nos será dado por uma direção mundial plena de sabedoria.
Isto é parte do que temos de aprender nesta era, a saber: viver com pura confiança, sem qualquer segurança na existência; confiança na ajuda sempre presente do mundo espiritual.
Em verdade, nada terá valor se a coragem nos faltar.
Disciplinemos nossa vontade e busquemos todas as manhãs e todas as noites, o despertar interior.

Elementos Fundamentais para uma Ampliação da Arte de Curar Segundo os Conhecimentos da Ciência Espiritual, o livro que escrevia em conjunto com a Doutora Ita Wegman foi interrompido antes de completar-se, mas foi publicado. Seu objetivo era reunir as primeiras indicações conceituais e práticas para o exercício de uma arte médica ampliada.

Na primavera de 1924 ele já havia começado a escrever sua autobiografia como uma maneira de invalidar as acusações infundadas às quais esteve duramente exposto, não sofrendo nenhuma interrupção durante a doença. Os relatos vinham sendo publicados semanalmente e todos os fascículos recebiam de sua mão o adendo ‘Segue’. De maneira curiosa, o manuscrito que ele enviou na última semana de março de 1925 não continha o adendo.

Seu estado de saúde se agravou muito no final do ano de 1924, à época do Natal. Os antropósofos chegavam a Dornach para estar pelo menos fisicamente, próximos de Rudolf Steiner, mas as visitas não eram mais permitidas. Somente umas poucas pessoas tinham acesso a ele: Marie Steiner, Albert Steffen e Günther Wachsmut. Mesmo muito debilitado escreveu uma longa carta em 30 de dezembro, agradecendo a atenção de todos e especialmente a dedicação da Doutora Ita Wegman: O que a Doutora Wegman faz em fiel assistência… Sempre permanecerá, diante dos médicos, como exemplo luminoso da atuação do amor médico.

Três meses depois pela manhã, Rudolf Steiner faleceu em seu Atelier em Dornach – Suíça. Novamente era uma segunda-feira, 10 horas da manhã, 30 de março de 1925.

Conforme relato da Doutora Ita Wegman, A partida foi como um milagre. Ele foi embora como se fosse algo natural. Para mim foi como se, no último momento, tivessem sido jogados os dados da decisão. E, quando eles caíram, não havia mais luta, nenhuma intenção de ficar na Terra. Ele olhou calmamente por algum tempo para frente, disse-me algumas palavras carinhosas e com toda a consciência, fechou os olhos e ajuntou as mãos.

Era a época da Paixão, mas já se anunciava a festa da Ressurreição. A notícia de sua morte foi um imenso golpe e de todos os lados as pessoas chegavam com olhares que revelavam uma enorme tristeza. A Sociedade e a Escola Superior perderam sua cabeça em um instante quando tudo havia sido fixado, mas nada levado a cabo. Agora, aprendizes e oficiais tinham de mostrar com força própria o que haviam aprendido do Mestre.

 

 

 

 

 

 

 

 

‘Que seja para o bem.’

Referências:

 

Além das biografias e estudos, existem dezenas de outros livros e sites sobre a vida de Rudolf Steiner:

 

CALLEGARO, Bruno. Momentos de um Caminho. Reflexões sobre a Vida de Rudolf Steiner. Editora João de Barro; 2007. 152 pg.

HEMLEBEN, Johannes. Rudolf Steiner. Editora Antroposófica; 1989. 185 pg.

MEYER, Rudolf. Quem era Rudolf Steiner. Editado pela Associação Pedagógica Rudolf Steiner; 1969. 211 pg.

STEINER, Rudolf. Minha Vida. A narrativa autobiográfica do fundador da Antroposofia. Editora Antroposófica; 2006. 389 pg.

WILSON, Colin. Rudolf Steiner: El hombre y su visión: una introducción a la vida y a las ideas del funda

 

Na vida real o amor é o maior

poder de conhecimento.

 

  • Kraljevec – Croácia 27 de fevereiro de 1861
  • Dornach – Suíça 30 de março de 1925

ANA MARIA LUCCHESI CUNHA VASCONCELOS

Escola Livre de Estudos Biográficos Minas Gerais – Juiz de Fora

Formada pelo grupo I

RUDOLF STEINER

 

A Biografia de um Ser Humano Livre

 

‘Vidas não podem ser fielmente registradas em papel, sobretudo aquelas que merecem ser recontadas. Mas, se cabe ao escriba, honesto em seu propósito, a missão de relatar uma vida, o relato inevitavelmente, desfigurado e incompleto, consistirá na soma de várias histórias.’

Esta biografia fala de um iniciado cristão dos tempos modernos – um mestre espiritual, representante da corrente central do esoterismo cristão, cuja missão foi preparar a Terra, para que outros pudessem lançar a semente.

Rudolf Steiner foi um dos maiores pensadores e iniciados do século XX, doando ao mundo a Antroposofia – a sabedoria do Homem, a Ciência Espiritual que ele fundamentou a partir de suas próprias vivências, no início como ‘manifestação por obra de graça’ e a partir dos 18 anos de idade como uma disciplina conscientemente aplicada ao próprio interior. Constante foi o seu esforço para fazer da Antroposofia um trabalho espiritual útil e positivo, reconhecido e aprovado como um movimento científico-espiritual.

Apontou para a humanidade um caminho de autodesenvolvimento adequado ao homem moderno, tornando possível a concretização dos impulsos do mundo espiritual em conseqüências práticas no mundo exterior através da pedagogia, da arte, da Medicina, da agricultura e muitos campos de atividade.

Rudolf Steiner é o primogênito de um modesto casal de austríacos. Seus pais provinham de uma região de florestas ao norte do Danúbio, intocada pelos ventos da modernidade que começavam a soprar. Seu pai, Johann Steiner havia sido caçador a serviço do Conde De Hoyos, em Horn, na Baixa Áustria, onde conheceu Franziska Blie, uma mulher calma e silenciosa. Para se casar com Franziska, Johann assumiu o cargo de telegrafista na recém inaugurada ferrovia do sul da Áustria, favorecendo ao pequeno Steiner um ambiente bastante moderno para aqueles tempos, a partir de sua profissão.

Johann Steiner foi transferido para Kraljevec, situada na fronteira húngaro-croata, num lugar bem distante de sua região natal. É nessa cidade, numa segunda feira, 27 de fevereiro de 1861, que nasceu Rudolf Steiner. O bebê era muito chorão, necessitando ser sempre ninado no colo, em volta da casa, para que se acalmasse e não incomodasse tanto os vizinhos com seus gritos.

Quando completou 1 ano e meio de idade iniciou-se para Rudolf Steiner o que podemos chamar da perda de suas raízes e pátria: mudou-se de seu lugar de nascimento e as mudanças não pararam mais. Johann foi novamente transferido, desta vez para Mödling, perto de Viena e seis meses mais tarde, mudou-se com a família para Pottschach, próximo à fronteira estíria. Neste lugar Rudolf Steiner viveu até a época dos 8 anos de idade e viu chegar ali sua única irmã, Leopoldine (1864 – 1927), e Gustave (1866 – 1941), seu irmão mais novo, que era um menino bem alegre, surdo-mudo de nascença, de quem Rudolf Steiner se ocupou desde cedo. Depois disso a família não cresceu mais.

Os pais de Rudolf Steiner tinham poucos recursos materiais, morando sempre em casas pertencentes às estações de ferro onde o pai trabalhava. No entanto, Johann e Franziska dedicavam o pouco que possuíam ao bem estar de suas crianças. Johann era agnóstico, extremamente trabalhador e sua única distração era se ocupar com os assuntos da política. Franziska era uma mulher inteiramente dedicada às tarefas domésticas e aos cuidados carinhosos com os filhos. A família falava o dialeto alemão da Baixa – Áustria oriental, usual nas regiões da Hungria.

A paisagem natural que cercou o ambiente da infância de Steiner era deslumbrante, cercada por verdejantes montanhas. Tudo era sublime natureza e reinava no lugar uma grande tranqüilidade! De vez em quando os trens se encarregavam de dar aquele lugar um pouco de movimento, colocando o menino em contato com o elemento mecânico traduzido em tudo o que dizia respeito à estação ferroviária.

O ambiente educacional naquela época era desanimador, tendo o menino ficado bem pouco tempo na escola em que foi matriculado. Seu pai logo o tirou dali, em razão de um incidente com o filho do Mestre – Escola e se encarregou pessoalmente de ensiná-lo. Rudolf Steiner aprendeu a ler cedo, mas a escrita era uma atividade pela qual o menino não tinha muitos interesses. Naquele ambiente de trabalho do pai, interessava-o muito mais observar todas as atividades práticas que o pai executava do que se envolver com aquilo que ele lhe ensinava. Fazia logo suas obrigações, para se ver livre das mesmas e observar atentamente todas as manifestações das leis da natureza e da mecânica.

Steiner era uma criança introspectiva, silenciosa, de índole compassiva perante as pessoas e à natureza. Era um menino clarividente, percebendo por detrás de todas as coisas e seres um mundo que não se revelava aos olhos de ninguém de sua convivência.

Desde cedo começou a ter experiências interiores que marcariam sua vida dali por diante. As vivências com as quais se deparava levaram-no a cada vez mais silenciar sobre elas. Dentro da criança reinava a convicção de que não adiantaria em nada esclarecer com os adultos o que ele via, porque se tratava de algo que ninguém em torno vele percebia. O ambiente que reinava à época era de um catolicismo pragmático desprovido de qualquer conteúdo interior, presente apenas como tradição histórica e em sua própria casa não encontrava estímulo algum quanto a essa sua relação com os assuntos do mundo espiritual, levando-o a se sentir completamente estranho em seu próprio meio. Portanto, desde muito cedo se acostumou ao silêncio e à solidão.

Com 7 anos de idade Rudolf Steiner se encontrava sozinho numa sala da estação ferroviária perto de um fogão à lenha, quando viu abrir-se a porta e entrar por ela uma mulher que lhe disse algumas palavras, fez alguns gestos e depois se encaminhou até o fogão e desapareceu dentro dele. Sabia não se tratar de um seu humano corpóreo, no entanto guardou segredo sobre essa experiência porque sabia não encontrar ninguém de seu meio com a mínima compreensão para o que todos consideravam ser somente uma superstição. Se contasse sobre o acontecimento ao pai sabia, com certeza, que ouviria as reprimendas mais amargas e seria alvo de terríveis chacotas. Mais tarde sua família foi informada que uma tia havia se suicidado, num lugar longe dali. O pai nada comentou com ele, mas o menino não teve dúvidas de que aquele episódio se tratou da visita, em espírito, da pessoa que havia se suicidado e que o havia encarregado de fazer algo por ela após sua morte.

A partir desse acontecimento, iniciou-se para o menino uma vida na alma em que se manifestam os mundos dos quais não só falam as árvores, as montanhas, mas também os mundos que se encontram por trás delas. Desse momento em diante o menino vivia com os espíritos da natureza que podiam ser especialmente percebidos naquela região.

Esta é umas das qualidades da iniciação rosa-cruz, vivenciada a partir da condição de vida e da biografia.

Em mais um transferência de seu pai, Rudolf Steiner, aos 8 anos de idade, muda-se com a família, para Neudörfl, uma pequena aldeia húngara, situada na fronteira com a Baixa – Áustria. A região é formada por rios, montanhas, florestas e colinas ao leste e ao sul, favorecendo ao menino o desenvolvimento de sua capacidade de observar a natureza, outra qualidade da iniciação rosa-cruz.

O dia na aldeia era preenchido com a ida à escola, a colheita de frutos na floresta e longas caminhadas para buscar água gaseificada numa forma de contribuir com os afazeres domésticos e colaborar para enriquecer tanto o almoço, quanto com o jantar da família, que normalmente se compunha de um pedaço de pão com manteiga e, às vezes, um pedaço de queijo.

Rudolf Steiner era de pouquíssimas amizades com outras crianças de sua idade, passando horas vagando solitariamente nas florestas das redondezas, em contato com os aldeões adultos que ali buscavam lenha ou observando passar a sua frente monges redentoristas que nem lhe dirigiam a palavra, mas que lhe causavam uma grande curiosidade em relação ao que eles faziam.

Quando entrou para a escola em Neudörfl, o menino já sabia ler, porém tinha grandes dificuldades com a escrita: Rudolf Steiner arredondava todas as letras, ignorando as linhas de cima, escrevendo as palavras desconsiderando a ortografia, lançando mão da musicalidade da língua. Para escrever sentia-se compelido a fixar as imagens verbais em fonemas, da mesma forma que ele ouvia as palavras do dialeto que falava, tornando-lhe muito difícil encontrar um acesso para a escrita da língua.

Para ajudá-lo nessa dificuldade o mestre – auxiliar lhe dá aulas particulares em seu quarto, onde possui uma pequena biblioteca. Rudolf Steiner desperta um especial interesse pelo livro de Geometria de Franz Monik, tomando-o emprestado, começando a estudá-lo sozinho, com afinco e entusiasmo.

O fato de se poder presenciar animicamente o desenvolvimento de formas a serem observadas de maneira puramente interior, sem impressão dos sentidos externos, proporcionou-me imensa satisfação. Nisto eu encontrei consolo para a disposição anímica que me resultara das questões não respondidas. Poder compreender algo puramente no espírito trazia-me uma felicidade interior. Sei que na Geometria eu conheci a felicidade pela primeira vez.

Sua alma ficou plenamente preenchida pela congruência, pela semelhança dos triângulos, quadriláteros, pelo teorema de Pitágoras e pela questão sobre onde se interceptariam as paralelas? Encontrou na Geometria uma espécie de espaço anímico, dando-lhe o modelo pelo qual se pode ter em si mesmo o conhecimento do mundo espiritual.

Este professor também trouxe ao pequeno Steiner a vivência do elemento artístico, lhe ensinando a desenhar com lápis carvão e colocando-o em contato com o violino e o piano, instrumentos que o mestre tocava. O menino ficava junto do professor todo o tempo que podia. Seu nome era Heinrich Gangl.

Recebeu através do pároco responsável pelo ensino religioso, Franz Maráz, a explicação do funcionamento do sistema cósmico copernicano, deixando na alma do pequeno Steiner uma impressão que marcou de modo exemplar sua orientação espiritual posterior. A criança ficou inteiramente cativada pelo assunto.

Com a idade de 10 anos, Rudolf Steiner, o pequeno solitário e de natureza observadora, ainda não sabia escrever corretamente, mas já cultivava dentro de si uma vontade silenciosa e reta de apoderar-se dos acontecimentos a partir da inteligência e da compreensão.

Para que pudesse ingressar no curso ginasial, foi necessário a Steiner realizar uma prova de admissão para a Escola Real, que ficava em Wierner-Neustadt, do outro lado do rio que cortava sua aldeia. A Escola tinha o caráter mais técnico, porque Johann, o pai de Rudolf Steiner, previa para o filho a profissão de Engenheiro. Mesmo não tendo sido aprovado com brilhantismo, ingressou nessa escola em outubro de 1872, com 11 anos de idade.

Cabe ressaltar que para Steiner pouco importava estudar numa escola clássica ou numa escola técnica. O que atuava dentro dele naquela época era um forte desejo de encontrar as respostas para as perguntas que ele carregava dentro de si.

Para ir para a Escola Real, Rudolf Steiner valia-se do trem que partia de manhã de sua aldeia para Wierner-Neustadt, porém na volta não havia mais horários de trens, sendo obrigado a voltar a pé, num percurso que demorava uma hora e meia. No verão o trajeto era de pura natureza, não se podendo dizer o mesmo da paisagem quando era inverno: a neve chegava a bater na altura dos joelhos. Mais tarde ele atribuiu a esse grande esforço físico a oportunidade de fortalecer sua saúde.

O menino acostumado a uma pequena aldeia, não se sente nem um pouco à vontade naquela cidade de casas apertadas umas contra as outras. Porque não morava ali, não lhe sobrava tempo para fazer amizades, sobrando-lhe apenas poucos momentos em que gastava, solitariamente, observando as vitrines no caminho de volta para casa. Nas horas do almoço era acolhido por uma amiga da família que lhe dava de comer gratuitamente e o acolhia sempre que necessário.

Ainda sentia muitas dificuldades em acompanhar as aulas, com exceção de Matemática, Física, Química e Geometria Descritiva, achando a maioria das aulas exageradamente monótonas. Para compensar toda a sua dificuldade de aprender, ele começou a estudar sozinho em livros de matemática e física, que ele mesmo comprava.

Aos 13 anos encontrou na pessoa do professor de Aritmética e Geometria alguém a quem poderia seguir como um ideal de ser humano. O professor lhe ensinava de uma forma tão ordenada e clara, que despertou em Steiner os entendimentos necessários para compreender a Matemática e muita coisa mais que ele ainda não conseguia compreender. Era altamente benéfico ao pensar poder acompanhá-lo.

Empenhando-se em harmonizar o que assimilava pela Matemática, Física e Desenho Geométrico, com o conteúdo que ele trazia dentro de si, buscava encontrar a forma de responder à pergunta: Como se pode abrir para o pensar o mundo do espírito?

Sentia que somente se aproximando da natureza poderia se posicionar perante o mundo espiritual que se encontrava em evidente manifestação diante dele. A adequada vivência do mundo espiritual por meio da alma somente aconteceria quando o pensar adquirisse uma configuração capaz de aproximar-se da essência dos fenômenos da natureza. E, ordenando tudo o que aprendia para se aproximar de sua meta, tornava-se cada vez mais, um aluno exemplar.

O jovem empenhado em elucidar as questões não resolvidas trazidas dentro de si, nunca abdicou de desempenhar as tarefas da vida cotidiana. Aprendeu a encadernar seus próprios livros escolares, a estenografar, e ocupando-se dos afazeres de sua casa, ajudando em tudo que fosse possível e que o tempo lhe permitisse: junto com seus irmãos encarregava-se de replantar os canteiros, cultivar o pomar e ainda arrumava tempo para cuidar sozinho, e com prazer, da tarefa das compras alimentícias para a família, na aldeia. Mais tarde, quando adulto, entendia que devia aquilo do que era capaz ao fato de ter aprendido em criança a sempre lustrar, ele mesmo, os seus sapatos.

Para Steiner, o conhecedor do mundo supra-sensível deve saber como se encontrar de maneira prática na vida, não devendo refletir sobre a vida quem não está inserido nela de forma prática. Por toda sua vida lutará incansavelmente para que o conhecimento do supra-sensório não seja algo meramente que atenda à necessidade teórica, mas sim à verdadeira vida prática.

A partir dos 14 anos de idade, o aluno com grandes dificuldades de aprendizagem se transformou, sendo indicado por seus professores a colegas de sua classe ou alunos mais novos, para ministrar-lhes aulas particulares, encontrando dessa forma um modo de minimizar as despesas que seus pais tinham com sua educação. Foi uma oportunidade para estudar e aprender mais e mais sobre as matérias que ensinava, observando ainda bem novo, as dificuldades da evolução da alma humana.

Aos 15 anos de idade reencontra-se em Wierner-Neustadt, com Carl Hickel, um médico que ele conhecia quando menino, podendo freqüentar sua biblioteca.  O médico se tornou para Steiner o seu professor particular de literatura poética, mostrando-lhe que o mundo era belo, dando-lhe a oportunidade de experimentar um universo diferente daquele que encontrava tanto em sua casa quanto na escola.

Em torno dos 16 anos, numa de suas observações das vitrines das livrarias, Rudolf Steiner adquire um livro de Immanuel Kant – A Critica da Razão Pura. Naquela época ele não tinha a menor idéia da posição espiritual que o filósofo ocupava na história. Seu interesse pelo conteúdo do livro dizia respeito ao que ele desejava compreender dentro de si. Entretanto, o jovem adolescente não tinha tempo disponível para ler o livro, levando-o a buscar a seguinte solução: como as aulas de história eram muito enfadonhas ele inseriu dentro do livro da matéria as folhas do livreto de Kant, podendo ler sossegadamente o filósofo enquanto a aula era ministrada em sala de aula. Steiner lia Kant continuadamente, até vinte vezes a mesma página, para entender como o pensar humano se situava diante do criar da natureza. Queria educar em si a atividade pensante de forma que todo pensamento fosse inteiramente visível, sem a interferência dos sentimentos.

Além do empenho em estudar Kant, adquiriu vários manuais da língua grega e latina, como uma maneira de estudar as matérias que não eram ministradas no seu curso técnico, tornando-se um jovem autodidata e pesquisador de todas as impressões que vinham em sua direção.

Concluiu seus estudos do ensino médio aos 18 anos de idade, em 1879. Encerrou esta etapa com uma prova oral onde explicou o funcionamento do telefone pela física e recebeu seu diploma de Bacharel com nota exemplar no seu comportamento moral.

Os anos de estudo em Viena – 1879 a 1890

Para que Rudolf Steiner pudesse prosseguir seus estudos superiores, seu pai pediu transferência para a estação de ferro de Inzersdorf.  A família muda-se em agosto de 1879, para Oberlaa. Ficaram para trás todos os encantos naturais da paisagem que rodeou a infância e adolescência de Steiner, indo a família morar num canto triste e solitário na periferia de Viena.

A cidade já havia se tornada cosmopolita e moderna, sem os vestígios da Idade Média, escutando-se aqui e ali tons dissonantes que provocavam o despertar da consciência junto com a aurora da nova época.

 

Antes da entrada na Academia Politécnica de Viena, Steiner aprofundou sua pesquisa filosófica, dedicando-se a estudar Fitche, Schelling e Hegel. Foi no estudo de Fitche que lhe foi revelada uma realidade ativa e espiritual. Reescreveu a teoria científica de Fichte, empenhando-se por encontrar o caminho do Eu até a natureza. Para Steiner o Eu humano era o único ponto de partida para um verdadeiro conhecimento.

Sua matrícula na Academia Politécnica foi decidida em função de um estudo que lhe garantisse um ganha-pão, optando, então, pelo magistério científico, com ênfase em Matemática, História Natural e Química.  Reconhece que foram esses conteúdos que lhe deram uma base segura para uma concepção espiritual do mundo, mais que a História e a Literatura que não tinham um método determinado e nem perspectiva no contexto científico alemão daquela época.

Continua dando aulas particulares e estuda graças a uma bolsa de estudos conseguida pelo pai. Na Academia tem aulas de Literatura Alemã, ministrada por Karl Julius Schröer, um pesquisador de Goethe, que ensinava de um modo caloroso e entusiasmado. Através desse professor Steiner é conduzido ao espírito da época de Goethe, sendo incentivado à leitura de Fausto, a obra-prima do filósofo alemão. O professor se tornou um protetor e amigo paternal, sendo esse um encontro decisivo na vida de Steiner.

Ansioso por conhecimento e de natureza muito observadora, Steiner ainda consegue tempo para frequentar toda a sorte de palestras e aulas dos mais variados temas na Universidade de Viena tais como: medicina, pedagogia, psicologia e artes. Buscava encontrar uma forma de esclarecer a questão de como se relacionariam o mundo físico e o mundo espiritual, naquela época de grande materialismo científico e filosófico.

Freqüenta como aluno-ouvinte as palestras de filosofia de Schröer, Robert Zimmermann e Franz Brentano, não lhe sendo fácil assimilar que aquela Filosofia que ele estudava não poderia, no pensamento daqueles filósofos, ser conduzida até a visão do mundo espiritual.

Nesse momento de sua vida, empenha-se em ampliar o seu mundo social, aprofundando-se, para isto, na vida estudantil de Viena. Tudo o que lhe acontecia em volta não lhe passava despercebido, observando as complicadas relações humanas que se desvendavam ante seus olhos.

No entanto, não permitia que ninguém percebesse o que acontecia dentro de si, demonstrando possuir uma força anímica e uma saúde física capaz de suportar toda e qualquer solidão. Estava convicto que sua visão da realidade espiritual deveria ser embasada pelo pensamento científico, e através da Filosofia, busca uma forma concreta de adentrar o, caso contrário, aos olhos dos outros, o jovem talentoso, cujas faculdades de clarividência não lhe davam dúvidas sobre o que existia por detrás e acima do mundo sensorial, demonstraria apenas ser um enfermo da alma.

Para fortalecê-lo em sua meta, duas personalidades são colocadas no caminho de Steiner, como fatos biográficos tramados pelo destino. O primeiro encontro se dá no trem para Inzersdorf, quando ele tinha 18 anos de idade. Era um homem simples do povo, que colhia ervas nas montanhas e as vendia nas farmácias de Viena, de nome Felix Koguzki. Era um iniciado nos mistérios da atuação de todas as plantas e de suas conexões com o cosmo e com a natureza. Para Rudolf Steiner foi difícil, no início, compreender o colhedor de ervas, mas desde o seu primeiro contato teve a mais profunda simpatia por aquele homem. Sentia que o aquele homem falava era influenciado por uma vida anímica de grande sabedoria criativa, trazendo-lhe um grande conhecimento instintivo da Antiguidade. Com Felix, Steiner sentia que se podia falar do mundo espiritual com alguém que tinha experiência dele. Percebia, ainda, que Felix era apenas o órgão fonador para um conteúdo espiritual que queria lhe falar de mundos ocultos.

Rudolf Steiner nunca mencionou o nome dessa pessoa, referindo-se a ele de maneira muito afetuosa em sua biografia. Um antropósofo esclareceu o segredo daquele homem simples. Ele foi fundamental para o caminho interior e o destino de Rudolf Steiner, tendo seu caráter e sua individualidade sido descritos por Steiner em seus ‘Dramas de Mistério’ na figura de Felix Breve.

Mais tarde, num relato a Edouard Schuré, um poeta e teósofo francês seu amigo, Steiner lhe disse que Felix fora apenas o enviado do mestre, que ele ainda não conhecia, mas já o observava à distância e viria a ser seu iniciador. Steiner nunca fez nenhum comentário sobre a identidade pública desta outra personalidade, mencionando-o apenas como aquele homem excepcional e insignificante na profissão exterior. Uma das condições para ser um Mestre é permanecer incógnito.

Ainda, de acordo com Schuré, não foi difícil para o Mestre completar a primeira iniciação espontânea em seu discípulo, Rudolf Steiner. Ele apenas precisou mostrar-lhe como teria de utilizar-se de sua própria natureza para colocar todo o necessário em suas mãos. Mostrou-lhe a ligação entre as ciências exteriores e a ciências ocultas, as religiões e as forças espirituais, assim como a antiqüíssima tradição oculta, que tece os fios da História, separando-os e reatando-os no decorrer dos séculos. Através dos estudos das obras de Fichte, o Mestre conduziu o discípulo a tal fortalecimento dos pensamentos, que o leva a um decisivo despertar da alma. Desse encontro nasceriam os fundamentos de seu livro Ciência Oculta.

O Mestre deixou-o percorrer rapidamente as diversas etapas da disciplina interior, para elevá-lo ao grau da clarividência consciente e racional. Em poucos meses, em aulas orais, ele havia tomado conhecimento da incomparável profundidade e beleza da visão esotérica conjunta. Mostrou-lhe também o significado da dupla corrente do tempo: a expiração e a inspiração da alma do mundo, que provém da eternidade e à eternidade retornam. O conhecimento desta dupla corrente do tempo é a premissa para a vidência espiritual.

Foi lhe concedido seguir os falecidos, vendo o mundo espiritual como sendo realidade. Eu seguia a pessoa falecida pelo seu caminho para dentro do mundo espiritual.

A tarefa de Rudolf Steiner, sua missão de vida, já se delineava: religar ciência e religião. Introduzir Deus na ciência e a natureza na religião. Mas de que maneira isto poderia ser feito? Como ele poderia domar e transformar a ciência materialista? Estas eram suas perguntas mais prementes.

E o Mestre lhe responde: Se você quiser vencer o inimigo, comece por compreendê-lo. Você apenas se tornará o vencedor do dragão quando puder entrar em sua pele. Você precisa pegar o dragão pelos chifres. Apenas no meio da maior adversidade é que encontrará suas armas e seus companheiros de luta. Mostrei-lhe quem você é. Agora vá e permaneça você mesmo!

Iniciava-se um caminho novo e penoso para o jovem de aproximadamente 21 anos, caminho que ele seguiu por toda a sua vida, tornando-se o grande desbravador de um futuro espiritual.

A matemática mais uma vez se mostra como um fundamento de toda a sua busca de conhecimento. Numa aula de Geometria Moderna Steiner se confronta com a imagem de que uma reta, quando prolongada pela direita ao infinito, volta ao seu ponto de partida pela esquerda. O ponto infinitamente distante à direita é o mesmo que o infinitamente distante à esquerda. Compreender que a reta voltava a si como uma linha circular foi uma revelação que lhe tirou um peso enorme dos ombros. Como em seus anos de menino, a Geometria lhe trouxe novamente uma sensação de felicidade junto com um sentimento libertador. Poderia então ser possível uma representação mental que por meio de um avanço no futuro infinitamente distante, implicasse num retorno do passado?

Apresentou-se diante de minha alma uma vidência espiritual, e ela não repousava sobre um sentimento místico obscuro. Transcorria em uma atividade espiritual plenamente comparável ao pensar matemático em sua transparência. Eu me acercava da constituição de alma por meio da qual eu acreditava poder justificar a visão do mundo espiritual que eu trazia dentro de mim também diante do for do pensar científico-natural.  Encontrava-me em meu vigésimo – segundo ano de vida quando estas vivências passavam por minha alma.

Amplia o seu contato com o professor Schröer, freqüentando suas aulas de História da Literatura como aluno ouvinte e visitando-o, freqüentemente, em sua casa, para conversar sobre Goethe, educação e ensino, como num prosseguimento às suas aulas. O professor era 36 anos mais velho que Steiner, estabelecendo entre professor e aluno uma renovação da clássica relação mestre e discípulo.

Schröer recomenda Steiner ao professor Joseph Kürschner, como sendo a pessoa capaz de reorganizar e apresentar a obra científica de Goethe. Steiner seria o responsável por estabelecer uma ponte entre a obra científica de Goethe e a Idade Moderna. Esta tarefa estendeu-se por quase vinte e dois anos de sua vida, levando-o a um contato com a obra do pensador alemão da forma mais aprofundada que qualquer outra pessoa poderia ter.

Assumindo uma tarefa que caberia a Schröer, que era o editor da obra literária de Goethe, mas não tinha nenhum acesso interior à obra científica do pensador, Steiner assumiu para si parte do destino de Schröer e adiou o cumprimento de sua missão por vários anos. No entanto, colocou-o diante de uma decisão que influenciou tanto sua vida espiritual, quanto sua vida exterior. Foi essa a tarefa que obrigou o seu espírito a aprofundar-se e pelejar em seu próprio mundo interior a fim de estruturar as idéias para compreender e demonstrar a índole de Goethe, tornando-lhe possível introduzir a Antroposofia ao público, pois estava ali a base de todo o edifício da Ciência Espiritual.

Era Goethe quem mostrava ao jovem Steiner que ‘aquele que progride rápido demais pelos caminhos espirituais, pode certamente chegar a uma experiência cabal do espírito; só que em matéria de conteúdo-realidade, sairá empobrecido na plenitude da vida.’

Através do trabalho com as obras de Goethe pode observar a diferença entre a constituição da alma à qual o mundo espiritual se manifesta por intermédio da graça, como havia ocorrido com ele em sua infância e a constituição da alma que passo a passo torna o próprio interior cada vez mais semelhante com o espírito. Vivenciando a si mesma como verdadeiro espírito.

É só então que se sente o quão intimamente o espírito humano e a espiritualidade do mundo podem crescer juntos na alma humana.

Nas introduções elaboradas por Rudolf Steiner pode-se observar toda a essência da obra de Goethe. Em sua edição do primeiro volume das obras científicas de Goethe, Steiner alcança o reconhecimento público.

Steiner tem 23 anos quando conclui seus estudos na Academia Politécnica de Viena, mas ainda não tem elaborada uma tese que lhe permitiria seguir a carreira de professor de Filosofia. Não recebendo mais a bolsa de estudos, vê-se empenhado em garantir uma forma de sustento regular. Emprega-se como preceptor na casa da família vienense Specht, também por indicação de Schröer. Na decisão de assumir a educação das crianças dessa família, Steiner tem seus planos de se tornar professor universitário adiados, porém percebe o cumprimento do destino por vias indiretas.

O impulso de participar dos destinos de outras pessoas se faz notar mais uma vez nesse momento em sua vida e de novo a retardação de seus planos, como uma característica sempre presente em sua biografia.

O mais novo dos meninos, Otto Specht era portador de hidrocefalia, sendo considerado anormal em seu desenvolvimento. Por meio de medidas pedagógicas especiais e de um modo particular de se ligar à criança, Steiner conseguiu obter uma melhora tão radical, que após dois anos o menino pode ser matriculado numa escola comum, numa classe de crianças de sua idade. O menino formou-se em Medicina, atuando como médico na 1ª Guerra Mundial.

Além de ter encontrado uma espécie de lar junto a essa família e desenvolvido uma intensa amizade com a mãe das crianças, Pauline Specht, Steiner reconhece que foi a oportunidade dada pelo destino de perceber que a educação e o ensino formam uma arte baseada no real conhecimento do homem, levando-o mais tarde a desenvolver uma pedagogia revolucionária aplicável a toda a humanidade. Com as crianças dessa família ele teve, ainda, a oportunidade de aprender a brincar, resgatando o tempo perdido de sua infância, entre os 23 e 28 anos.

Nessa casa Rudolf Steiner também conheceu Josef Breuer, o médico vienense que participou junto com Freud do nascimento da psicanálise, admirando-se com a criatividade e sutileza de espírito com que esse médico buscava os caminhos para a cura de seus pacientes.

Em 1886, aos 25 anos, como resultado de seus estudos sobre Goethe e de seus esforços filosófico-metodológicos para superar o abismo entre o pensamento moderno e a concepção espiritual, ele escreveu e publicou: Linhas Básicas para uma Teoria do Conhecimento na Cosmovisão de Goethe – uma reflexão do método de conhecimento que Goethe utilizava em suas pesquisas de Ciência Natural – o Goetheanismo. Edita, também, o segundo volume das obras científicas de Goethe.

Nessa mesma época, ele conhece Gundi, a irmã mais nova de um amigo, com quem viveu uma relação anímica muito intensa, mas reconhecia ser a relação impossível de ser concretizada dada a sua reserva em dizer àquela jovem que ele a amava, percebendo igual reserva na moça. Descreve a amiga como um ser solar em sua vida, restando do relacionamento apenas correspondências e, mais tarde, somente as boas lembranças que sempre emergiram de sua alma durante toda a sua vida

Steiner é introduzido, por Schröer, a um círculo de filósofos e literatos vienenses, que se reunia na casa da poetisa Marie Eugenie delle Grazie, onde se promoviam saraus, e se reuniam regularmente professores da faculdade católica de Teologia. Reinava naquele círculo uma busca constante de valores elevados e abertos a impulsos espirituais, mesmo que não houvesse consenso de idéias, como avaliava Steiner. As idéias para sua Filosofia da Liberdade foram amadurecendo à época do convívio com esse círculo.

No início de 1887, então com quase 26 anos, Rudolf Steiner adoece gravemente e precisa de várias semanas para se recuperar, tendo sido cuidado com muita atenção pela Sra. Pauline Specht, mãe das crianças sob a sua responsabilidade educacional. É possível que tenha sido tratado pelo Doutor Josef Breuer nesta ocasião.

Em torno de seus 28 anos de idade, teve a oportunidade de frequentar um círculo de pessoas agrupadas em torno de Marie Lang, que o impressionava profundamente. Foi levado a esse grupo por Friedrich Eckstein, um jovem dirigente de uma Loja Teosófica em Viena. A busca das pessoas que frequentavam o círculo era por algo mais elevado e ali se reuniam para partilhar suas vivências anímicas interiores. Interessou-se pelo efeito que a Teosofia exercia nas pessoas como uma busca mística séria e lê nessa época ‘Budismo Esotérico’ de Sinnet e ‘Luz no Caminho’ de Mabel Collins, mas a leitura do primeiro livro não lhe causou impressão alguma, ficando até aliviado por não tê-lo lido antes de ter suas idéias embasadas em sua própria vida anímica.

Por intermédio deste grupo, conhece Rosa Mayreder, uma mulher engajada nos movimentos políticos e sociais inovadores da época, em torno de quem, reina uma atmosfera de liberdade de pensamento e fervorosa defesa do verdadeiro lugar e significação da mulher na sociedade. Marie Lang e Rosa Mayreder vieram a ser as líderes do movimento feminista, fundando a Associação das Mulheres Austríacas.

Rosa Mayreder foi uma alma feminina totalmente diferente para Steiner. Ele estabeleceu com ela uma grande amizade e junto compartilhava suas formas de pensamento de sua Filosofia da Liberdade. Foi com essa amiga que experimentou ser tirado de parte daquela solidão interior em que ele vivia, mesmo que tivessem diferentes pontos de vista com relação à vivência do espírito. Rudolf Steiner nos conta que Rosa era uma mulher que lhe dava a impressão de possuir alguns dons anímicos que formavam a expressão correta da natureza humana.

Podemos perceber o imenso carinho que Rosa tinha por Rudolf Steiner, através de suas palavras numa carta a ele, de outubro de 1890:

‘Pois a lacuna que sua despedida deixou na minha vida se me faz sentir, todos os dias, a toda hora, em todos os inumeráveis pontos de raciocínio em que a insegurança, a dúvida, a confusão, a inquietação fazem nascer o desejo da felicidade insubstituível da comunicação amistosa que o senhor me ofereceu. Por quanto mais tempo o senhor fica longe, meu caro amigo, tanto mais inimaginável me parece que possa permanecer longe. (Viena, 26 de outubro de 1890).’

Pode-se perceber a variedade das relações e o grande número de amizades que Steiner reuniu ao seu redor, pelo fato de ter se tornado extremamente sociável e por desenvolver dentro de si cada vez mais a característica de nunca negar sua admiração a ninguém e nem por aquilo que estivesse em oposição direta a ele, mesmo tendo a certeza de que ninguém do seu círculo o acompanharia até o seu mundo.

Steiner dessa forma participa, por suas incontáveis amizades em tão diferentes círculos, a tudo que de moderno pulsava em Viena, onde acontecia grande parte da vida cultural da monarquia imperial da Áustria, levando uma vida exterior sem nenhuma relação com o que se encontrava em sua vida interior, mas reconhecia que os seus interesses estavam entrelaçados.

Em paralelo com a função de educador das e professor particular que se estendeu por mais de 15 anos de sua vida, Steiner assumiu temporariamente, na primeira metade de 1888, com 27 anos de idade, a redação do Semanário Alemão, publicado em Viena. Empenhou-se em introduzir uma discussão onde se levasse em conta as grandes metas espirituais da humanidade, recebendo, com essa tarefa a oportunidade de se ocupar com as almas de povos das várias nacionalidades austríacas, buscando encontrar o fio condutor para uma política cultural espiritual.

Ainda se resguarda de uma atuação pública, concentrando-se na estruturação de seu universo filosófico de idéias, prosseguindo em silêncio com seu treinamento espiritual. Tudo na roupagem da filosofia idealista era o que lhe aconselhavam as forças que atuavam por detrás de si.

Em novembro de 1888, perto dos 28 anos de idade, profere na Sociedade Goethe de Viena o que viria ser a sua primeira palestra antroposófica: ‘Goethe como Pai de uma nova Estética’, levando um dos ouvintes presentes a perceber que Steiner compreendia Goethe de uma maneira aristotélica, sugerindo a ele afinidade de seus pensamentos com os de Tomás de Aquino.

Aos 28 anos de idade, em 1889, tem seu primeiro contato com as obras de Nietzsche, sentindo-se capturado e rechaçado por sua abordagem. Não gostou nenhum um pouco de como o filósofo tratava dos problemas mais profundos com nenhuma espiritualidade consciente.

Com essa idade, Rudolf Steiner fez sua primeira viagem ao Império Alemão. Visitou Eisenach, Sttugart, Berlim e Weimar, conhecida como a Atenas do Norte e cidade de Goethe. Em Berlim ele conhece pessoalmente Eduard Von Hartmann – o filósofo do inconsciente, num encontro decepcionante, levando-o a sentir a distância que o separava da Filosofia contemporânea. Hartmann considerou Steiner apenas um admirador, não levando em consideração nada do que ele tinha a falar-lhe.

O ano de 1890, quando Steiner tem 29 anos de idade, é dedicado a terminar a introdução ao terceiro volume da obra científica de Goethe – a parte sistemática da Teoria das Cores. Sua introdução é o que se pode chamar de Ontologia: a teoria do fenômeno primordial arquetípico, do espaço e do tempo e do sistema da Ciência Natural. Pode-se dizer que formava, em esboço, as bases da Antroposofia.

 

Os anos em Weimar – 1890 a 1896

Em 29 de setembro de 1890, aos 29 anos, Rudolf Steiner muda-se para Weimar, na Alemanha, num adeus à Viena e ao convívio regular das reuniões de jovens.

Começa a trabalhar no Arquivo Goethe-Schiller, como um colaborador, sem um emprego oficial, recebendo a tarefa de preparar para a publicação seis volumes das obras científico-naturais de Goethe, destinada à edição Sofia. Deposita as mais altas expectativas quanto a um futuro promissor nessa mudança, uma vez que tal circunstância lhe proporcionaria o mais vivo contato com tudo quanto na vida internacional significava entusiasmo por Goethe ou pesquisa séria do universo goetheano. Porém a mudança revelou-se para Steiner uma desilusão, sentindo que esta incumbência não correspondia aos seus interesses. A ida para Weimar resultou num intervalo de sete anos de espera em sua vida, apesar de ter sido reconhecido como a capacidade mais importante no campo dos escritos-científicos naturais de Goethe. Mais uma vez a postergação de sua meta se faz notar em sua biografia.

Ele não encontrou em Weimar o goetheanismo atual, mas o passado, embora a cidade ainda tivesse o ar da época de Goethe. Sofria com aquela situação acanhada e burocrática que reinava no arquivo encobrindo a possante irradiação que o gênio de Goethe poderia influenciar na vida cultural do ocidente. Estranhou muito o ambiente externo de atividade científica a que estava submetido, sentindo não ter nenhuma relação interior com ele.

Ocupou-se em estudar o conto de Goethe: ‘A Bela Líria e a Serpente Verde’, como forma de pesquisa de todo o credo de Goethe.

Em março de 1891, aos 30 anos de idade, Steiner sofreu afonia, com paralisia completa das cordas vocais, sendo tratado com aplicações de eletricidade, considerada o agente universal da Idade Moderna.

Seu principal trabalho nesse ano foi a edição das obras morfológicas na edição Sofia, um trabalho puramente filológico. Com sua disposição de ânimo alterada, ele tinha pressa em terminar o trabalho para concentrar-se em sua tese de doutorado e obter um cargo como professor catedrático na Universidade Jena.

Sua tese intitulada Verdade e Ciência é uma lúcida investigação dos elementos básicos do ato cognitivo e seria prelúdio de sua Filosofia da Liberdade. Com ela obteve seu título de Doutor em Filosofia pela Universidade de Rostock em 26 de setembro de 1891.

Logo após a publicação da tese, Steiner aceita o pedido de um editor para escrever um livro sobre os problemas fundamentais da metafísica, que lhe dá muita alegria por perceber-se envolvido com algo que faz sentido para ele. Então, em outubro de 1891, ele começa a escrever sua Filosofia da Liberdade, há muito já preparada.

Em 1892 a tese é publicada em forma de livro – Verdade e Ciência, e ao mesmo tempo, ele se dedica, através de muitos contatos, a conseguir um emprego como professor de Filosofia na Escola Politécnica de Viena, porém sem sucesso.

No meio do ano de 1892, com 31 anos, Rudolf Steiner conhece Anna Eunike.  Ela era uma mulher viúva, mãe de quatro filhas e um filho e tinha 39 anos de idade. Solicitou a Steiner que a ajudasse na tarefa de educar seus filhos, cedendo-lhe uma parte de sua residência. Steiner, que até então não havia encontrado um lugar satisfatório para morar em Weimar, aceitou o convite, mudando-se para a residência da família. Logo entre os dois nasceu uma íntima amizade que se transformou em matrimônio 7 anos mais tarde em Berlim.

Pouco antes de sua morte, Anna relatou a uma de suas filhas que os anos em que viveu com Rudolf Steiner foram os mais felizes de sua vida, existindo outros depoimentos que mostram, também, Steiner muito feliz enquanto durou o matrimônio.

Anna Eunike, de quem logo me tornei intimamente amigo, cuidava para mim com dedicação de tudo que tinha de ser cuidado. Ela dava grande valor à ajuda que lhe prestava em suas difíceis tarefas com a educação dos filhos.

Aos 32 anos de idade, publicou seu livro Filosofia da Liberdade em 15 de novembro de 1893, pela Editora de Emil Felber, de Berlim, trazendo sua teoria do conhecimento. Em todos os capítulos há pensamentos novos, idéias que Steiner não havia expressado desse modo até então. Filosofia da Liberdade tem seu fundamento numa vivência que consiste na conciliação da consciência humana consigo mesma. A liberdade é exercitada no querer; no sentir é experimentada; no pensar é reconhecida. Porém, para alcançar isto, não deve a vida ser perdida no pensar.’

Em janeiro de 1894 proferiu uma palestra intitulada ‘Gênio, Loucura e Criminalidade’ para trezentos ouvintes, provocando em seus colegas de trabalho do Arquivo uma reação de distanciamento e frieza, lhe custando, mais tarde, a possibilidade de voltar à Viena ou de trabalhar em Jena como professor de Filosofia, por boatos que os colegas espalharam dele.

No ano de 1894, aos 33 anos de idade, Steiner dedicou-se ao estudo das obras de Friedrich Nietzsche, cujo primeiro contato já havia se dado em 1889.  Foi convidado, tempos depois, em 1896, a conhecer pessoalmente o filósofo, que já se encontrava seriamente doente. Contemplando Nietzsche Steiner percebeu que tem diante de si uma alma infinitamente bela, que trouxera de existências anteriores um tesouro dourado de luz, mas incapaz de fazer com ele brilhasse plenamente nesta vida.

Com 34 anos, em 1895, conheceu Haeckel pessoalmente em Jena, um eminente cientista representante da Teoria Evolucionista. Steiner considerava a teoria de Haeckel como a mulher fundamentação científica para o ocultismo, compreendendo que se o pensador tivesse estudado um pouco mais de Filosofia teria chegado às mais elevadas conclusões espirituais em seus trabalhos filogenéticos. Ao conhecê-lo pessoalmente, Steiner viu naquele homem um ser humano que somente era capaz de suportar impressões dos sentidos, não deixando o pensamento manifestar-se nele. A atividade da alma cessava naquela personalidade.

Nietzsche e Haeckel eram dois representantes da cosmovisão moderna. Mesmo que toda a teoria que os dois defendessem lhe fosse totalmente estranhas, Steiner reconheceu que eram os principais impulsos da época, levando-o a unir-se com esses impulsos, transformando-os a partir de suas concepções e com isto construir uma ponte apoiada em fundações firmes da Ciência Natural para uma Ciência do Espírito. Dessa forma entrosou-se nas correntes mais contraditórias, compartilhando dos destinos e das visões de mundo daquelas duas personalidades, reconhecendo o abismo em que se encontrava a humanidade, sem perder de vista a necessidade de sobrepujar esse abismo rumo a uma nova era de luz.

Suas forças ocultas lhe mostravam que deixasse fluir para a época o verdadeiramente espiritual, sem que isso fosse notado, tendo sempre em vista que não se chega ao conhecimento quando se quer impingir o próprio ponto de vista de maneira absoluta, mas quando se imerge em correntes espirituais alheias.

Um ano antes de deixar Weimar, por volta dos 35 anos de idade, Steiner sentiu em sua alma uma transformação que ele denominou ‘uma grande reviravolta anímica’, que se tornará pura vivência após sua mudança para Berlim.

Terminou a edição da obra de Goethe, na qual trabalhou por 7 anos.Trata-se de uma obra monumental, abrangendo 147 volumes, pelo acréscimo de introduções. Até hoje a Edição de Weimar ou ‘de Sofia’ é a mais completa das obras de Goethe.

Na finalização de suas atividades em Weimar, Steiner nutriu cada vez mais a esperança de poder voltar à Viena, pois lhe pareceu próxima a possibilidade da criação da cadeira de Filosofia na Academia Politécnica de lá, mas isso se mostrou muito improvável de realizar. Colocava-se para ele a questão do quê fazer? Vivia sem moradia própria, num quarto de hotel em Weimar. Começou a elaborar o livro A Cosmovisão de Goethe, editado em 1897, escrito a partir do que ele vivenciou na cidade e de estudos bem abrangentes sobre a História, que se fizeram necessários para a finalização de seu trabalho do pensador alemão.

Em caráter ilustrativo, cabe mencionar que Steiner se ocupou também das edições completas de Schopenhauer e das obras de Jean Paul, Wieland e Uhland.

Aos 36 anos idade, sua vida anímica sofreu uma profunda modificação, relatada da seguinte forma: Minha capacidade de observar objetos, seres e processos do mundo físico transformou-se rumo à exatidão e à profundidade. Isto ocorreu tanto na vida científica quanto na vida exterior. (…) Uma atenção dirigida ao mundo das percepções sensíveis, antes não existentes, despertou em mim. Detalhes passaram a ser importantes: eu tinha a sensação de que o mundo sensorial tinha a revelar algo que só ele pode revelar.

Essa transformação de percepção significou para Steiner o ingresso num mundo novo. Para estudar esse mundo da observação sensível, adentrou em sua natureza concreta através de uma prática exaustiva, enquanto lhe teria sido muito mais fácil movimentar-se no mundo das idéias. O difícil para ele foi apreender o nexo entre essas duas esferas. Em resumo, Steiner se defrontou cada vez mais com a clareza – e morte – das forças estruturadoras do mundo físico, que também possibilitam a precisão na observação dos fenômenos da natureza. O conhecimento tornou-se para ele algo pertencente a todo o existir e vir a ser do mundo, não só do homem.

Desenvolveu mais tarde, a partir dessas vivências, o livro Concepções sobre o Mundo e a Vida no Século XIX.

A meditação passa a ser nessa época, uma necessidade existencial, reconhecendo que através dela o conhecimento do mundo espiritual é apropriado no organismo assim como este se apropria da respiração. Toda a mudança anímica de Steiner estava, pois, vinculada com um processo de auto-observação.

Até esse momento de sua vida, ele percebia que as forças que determinavam seu destino exterior sempre estiveram em consonância com seus anseios interiores. No entanto, agora sentia de modo diferente: era-lhe necessário dar um cunho novo a sua atividade externa. Nunca precisara conciliar de maneira tão árdua, as orientações provenientes do mundo exterior com as suas próprias. Buscava encontrar de todas as maneiras o caminho para traduzir de uma forma inteligível, aquilo que observava interiormente como verdadeiro. Não queria mais se calar, como lhe ordenava sua necessidade interior, mas falar o quanto fosse possível.

Os primeiros anos em Berlim – 1897 a 1901

Surgiu em Berlim a oportunidade de adquirir os direitos de editar a revista Magazine de Literatura, que publicava poesias, ensaios e críticas provenientes da vida cultural. Porém como garantia de pagamento, o editor que estava lhe passando os direitos, impõe como co-editor da revista o poeta Otto Erich Hartleben, um intelectual boêmio, que ainda não tinha superado dentro de si o estudante acadêmico. Hartleben era um tipo de personalidade oposta a tudo aquilo que Steiner sempre estivera vinculado, mas tornou-se participante do círculo de amigos do co-editor.

A mudança para Berlim aconteceu em junho de 1897, aos 36 anos de idade.

Nas redações de seus artigos para a revista, Steiner falava de literatura contemporânea e da vida espiritual moderna, expressando suas convicções. Sua tarefa era fazer valer uma corrente espiritual dentro da literatura. Lentamente ele se dirigia a caminhos esotéricos.

A partir de 1898 começou a participar intensamente de toda a vida literária e dramática da vanguarda artística de Berlim, significando ser absorvido por um estilo de vida muito diferente do seu. Como forma de compreender as buscas interiores de seus contemporâneos, Steiner passava as noites em teatros, mesas de bares e cafés, em debates e apresentações artísticas. Conviveu, então, com pessoas de diversas classes e atividades sociais, estando ai incluído quase todo o espectro da vida cultural da Alemanha. Em suas relações com os boêmios, artistas, poetas e intelectuais da capital do Reino Alemão, ele se viu completamente privado de estabelecer um convívio mais intenso com os filósofos daquela Berlim da virada do século. Percebia, no entanto, ser natural que o outro grupo de convívio o absorvesse completamente.

Internamente viveu uma crise séria e profunda, sentindo como se a alma fosse arrastada para uma espécie de abismo. Não se encontrava satisfeito com sua atuação no mundo, nem pelo que escrevia e nem pelas palestras que proferia. Enfatizava de forma incisiva que o conhecimento do fundamento da natureza deve conduzir ao conhecimento do espírito. Experimentando fortemente os ventos da época em que o materialismo se fazia crescente em todos os anseios sociais e onde todo o conteúdo de vivência religiosa apontava para um mundo espiritual intangível, Steiner experimentou uma intensificação de suas vivências nos tempos finais de Weimar.

Empenhou-se para impedir que o moderno conhecimento da natureza não o arrastasse para uma mentalidade materialista, atento para não perder, desse modo de ver e viver a vida, a contemplação do espiritual. Rejeitou tudo quanto nas confissões religiosas era aceito como transcendente. Sua diretriz baseava-se em situar o divino, o além, no mundo de cá. Começou a falar do Cristianismo de uma forma nova: O que se passou em minha alma ante a visão do Cristianismo foi uma intensa provação para mim. (…) Tais provações são as resistências oferecidas pelo destino, que devem ser superadas através do desenvolvimento espiritual. (…) O germe do conhecimento se desenvolveu cada vez mais na virada do século. Antes dessa época deu-se a descrita provação da alma. No desenvolvimento de minha alma, na maior seriedade, como festa de conhecimento, se tratava de estar espiritualmente erguido diante do Mistério do Gólgota.

Deu-se na vida de Steiner, por volta dos 38 anos de idade, a vivência do caminho iniciático cristão-rosacruz, cujo coroamento é o encontro pessoal com o Cristo, tendo o fundamento do conhecimento se tornado encontro espiritual direto. Tudo o que agora ele falava, jorrava com uma intensidade que demonstrava estar contido por anos. Como um Mestre esotérico, passou a expressar publicamente, através de imagens todo o conteúdo esotérico oculto. A época exigia tornar público qualquer conhecimento que viesse a surgir, tornando-se impossível preservar os segredos da sabedoria oculta.

Na vida exterior, diante de tantas preocupações com sua subsistência, sendo ajudado inclusive por amigos de Viena, encontrou a serenidade quando Anna Eunike, com sua família muda-se para Berlim, possibilitando-lhe um refúgio de tranqüilidade e felicidade diante de tudo que vivia na época. Depois de ter passado durante curto período por toda a miséria de morar sozinho, voltam a morar juntos, oficializando sua união – em 31 de outubro de 1899.  Este ano foi bem difícil, um ano que não favoreceu nenhum tipo de trabalho de alma. Creio que não teria conseguido suportar o que tive de trabalhar neste ano sem teus cuidados, tua companhia e participação plenos de amor – não a quantidade, mas a qualidade das vivências me teria oprimido sem você, pois pesou tanto em minha alma. É esta a razão porque nos últimos tempos eu estive tão desagradável.

Em 1899 tornou-se professor na Escola de Cultura dos Operários em Berlim, um reduto do movimento sindical socialista, onde ensinava História Universal, Ciências Naturais e Exercícios de Alocução, para um proletariado adulto e entusiasmado pelo saber. Ensinou segundo o seu ponto de vista e não conforme o marxismo, como era o costume nos círculos sociais democratas da época. Seu método idealista para a História e seu modo de ensinar se tornaram simpáticos e compreensíveis aos operários, levando o círculo de ouvintes a crescer cada vez mais, e dessa forma era chamado todas as noites para ensinar. Em suas aulas mostrava ao operariado a forma como os impulsos espirituais atuavam na História e as maneiras como eles se enfraqueceram ante os impulsos econômico-materiais.  Ao entrar em contato com o operariado, Rudolf Steiner mergulhou num segmento da vida onde a alma individual dormia e sonhava e pôde perceber como uma espécie de alma de massa se apoderava daquelas pessoas, abarcando juízo, idéia e comportamento. Mais tarde constatou como a massa proletária ficou como ‘possuída’.

Publicou seu estudo sobre o Conto A Bela Líria e a Serpente Verde, de Goethe, por ocasião do sesquicentenário do pensador. Em A Revelação Secreta de Goethe, Rudolf Steiner falou sobre o mundo espiritual, numa primeira tentativa de apresentar em público os resultados de sua própria pesquisa espiritual, sentindo agir corretamente dessa forma. Considerava essa criação de Goethe como a ante-sala do esoterismo. O artigo foi publicado em seu Magazine para Literatura, em 28 de agosto de 1899.

Rudolf Steiner proferiu palestras nos mais variados círculos de Berlim, onde se reuniam pessoas interessadas sobre os assuntos do conhecimento e da vida em geral. Usava uma linguagem e um modo de falar intenso, cativando as pessoas que o ouviam, porém em parte alguma lhe parecia ser possível abrir brechas que pudessem desobstruir o campo de visão para o mundo espiritual.

Em setembro de 1900 consegue passar o Magazine para outras mãos.

 

A época da Sociedade Teosófica – 1902 a 1912

Primeira fase da Antroposofia

Ainda em setembro de 1900, aos 39 anos de idade, foi convidado pelo Conde e pela Condessa Brockdorff, mentores de um pequeno círculo de teósofos que se reunia em Berlim, para proferir uma conferência sobre Nietzsche. Diante daquele público, Steiner sentia estar falando para pessoas interessadas no mundo espiritual. Convidado a dar mais uma palestra, ele propôs o tema A Revelação Secreta de Goethe. Sentiu falar de um modo bastante esotérico, pela primeira vez, já que até então só poda deixar o espiritual apenas transparecer em suas exposições.

Passou a proferir palestras aos membros daquele círculo de forma regular, deixando claro que falaria sobre aquilo que pulsava dentro dele como Ciência Espiritual. Essas conferências foram reunidas e publicadas no livro A Mística no Despontar da Vida Espiritual (Berlim – 1900). Neste livro encontra-se a primeira referência da figura médica capital da Europa Central no início da Idade Moderna: Paracelso – o médico que conhece a natureza da cura é uma presença essencial nas conferências de Steiner.

Nesta época conheceu Ita Wegman, que freqüentava suas palestras como uma de suas ouvintes. Porém, foram necessários vinte anos, quase três setênios, para que desse encontro surgisse a ampliação científico-espiritual na antroposofia.

Dentro da Sociedade Teosófica deu-se, também, o seu encontro com Marie Von Sivers, uma jovem polonesa muito bonita, que se educara na Rússia e havia estudado teatro em Paris, tendo, recentemente, encerrado sua carreira de atriz. Esse encontro com Marie Von Sivers marca o princípio de sua vida como personalidade pública e assinala o fim de seu matrimônio com Anna Eunike, apesar de os dois ainda viverem juntos até o ano de 1903.

Com o surgimento de uma seção alemã da Sociedade Teosófica, em outubro de 1902, Steiner foi convidado por Annie Besant, a presidente geral da Sociedade, para assumir a Secretaria Geral, tendo sido Marie Von Sivers indicada para sua direção. Dentro dessa Seção, ele teve a oportunidade de falar cada vez mais somente os resultados de sua própria visão do mundo espiritual, já apresentando suas palestras sob o título da antroposofia. Buscava alcançar um saber de ordem espiritual, preocupando-se em sacudir do movimento teosófico qualquer tendência que proviesse de meios espíritas e evitar que se desenvolvesse a prática de passes e do mediunismo. São águas para o moinho do materialismo, escreve ele. Sentiu-se acolhido e compreendido em torno das pessoas interessadas em Teosofia.

Após assumir o cargo na Sociedade Teosófica, seu nome foi profundamente rejeitado em outros círculos em que proferia suas palestras. Passaram a designá-lo como um ‘teósofo’ e dirigente de uma sociedade obscura. Compreendeu que nesses outros círculos ouviam-no apenas como um literato, não tendo a menor compreensão para o conteúdo que ele trazia no coração.

Três dias depois de assumir o cargo como Secretário, ele e Marie Von Sivers são admitidos na Escola Esotérica que existia dentro da Sociedade Teosófica. Assim como ele introduzira algo novo na Sociedade Teosófica, deixou claro que também no círculo esotérico o conteúdo deveria ser buscado diretamente na revelação presente e contínua dos mundos espirituais, independente de qualquer tradição. Em relação à forma exterior da Sociedade, Steiner respeitava corretamente as competências e os usos, mas em relação ao conteúdo espiritual, ele estava decidido a seguir seu próprio rumo.

O movimento teosófico era sediado em Adyar, perto de Madras, na Índia e estava estruturado sobre os ensinamentos da Senhora Helena Blavatsky (‘Ísis sem Véu’ e ‘A Doutrina Secreta’), que estava orientada exclusivamente para a sabedoria oriental da Índia. Na Alemanha, a Sociedade enfrentava uma espécie de definhamento e as pessoas ligadas a esse círculo esperavam a ‘fundação científica’ da Teosofia, quando foi fundada a Seção Alemã.

Steiner reconhecia a grandeza da sabedoria oriental, porém a considerava inadequada em satisfazer as necessidades espirituais do ocidente, entendendo que essa sabedoria não poderia superar a diretriz materialista da moderna Ciência Natural. Para fazer-se inteligível servia-se, com reservas, da terminologia oriental-teosófica, mas logo depois, procurou substituir as expressões orientais por palavras novas, correspondentes à consciência moderna.

Steiner sabia que as pessoas que acolhiam o conhecimento do espírito, que ele dizia com o coração e o bom senso, não eram necessariamente os membros da Sociedade Teosófica, mas pessoas interessadas na sua forma de conhecimento do espírito. Nos membros, percebia que a grande maioria eram fanáticos seguidores de alguns líderes da Sociedade, que atuavam de forma dogmática e sectária.

Os obstáculos a que esteve confrontado nessa época, através de forças contemporâneas avessas ao conhecimento espiritual, se transformaram no motivo que o levaram a atravessar sua prova espiritual mais intensa. Foi daí que ele retirou energia para atuar com base no espírito, empenhando-se cada vez mais em levar a Antroposofia ao mundo.

Em maio de 1903, com 42 anos de idade, fundou com Marie Von Sivers uma publicação mensal de nome Lúcifer, que surgiu para desenvolver a Antroposofia, sem nenhuma dependência com aquilo que a Sociedade Teosófica mandava ensinar. A revista se ampliou, sendo Steiner convidado por um editor de Viena, que editava um periódico de nome Gnosis, para a fusão dos dois periódicos. A publicação passou a se chamar Lúcifer-Gnosis e nela tomam forma as instruções destinadas a criar uma consciência superior e uma autêntica penetração nos mundos supra-sensíveis. A senda do conhecimento passou a ser ensinada de forma pública, endereçada a todos os homens e adequada à consciência do nosso tempo

Aos 43 anos de idade, em 1904, participou do Congresso Teosófico de Amsterdam-Holanda e ministrou inúmeras conferências na Alemanha.

 

Seu livro Teosofia foi publicado sob a forma de artigos na revista Lúcifer-Gnosis, assim como O conhecimento dos mundos superiores e Crônica do Akasha. Nestes escritos estão contidos os conteúdos introdutórios e a preparação individual para iniciar o caminho meditativo ensinado na Escola Esotérica. Em suas exposições ele distingue três estágios na consciência superior: Imaginação, Inspiração e Intuição.

 

Em Teosofia encontramos um livro que nos permite compreender de forma clara e direta as idéias de Rudolf Steiner. O livro estabelece os pontos básicos acerca do espírito e da vida depois da morte e tem uma atmosfera de serenidade que produz no leitor o mesmo efeito da leitura do Bhagavad Gita. Nesse livro desenvolve conceitos que esclarecem a lei da reencarnação.

 

Steiner advertia que a leitura de um livro antroposófico, deveria servir para despertar no leitor a vida espiritual e não para lhe proporcionar uma soma de informações.

 

Com 44 anos, no ano de 1905, dedicou-se intensamente a proferir conferências públicas, tanto na Alemanha quanto na Suíça, visitando grupos teosóficos que já existiam e fundando novos grupos, aprofundando o seu contato com os membros e outros interessados. Ministrou aulas esotéricas em todas as cidades que visitava para fazer conferências públicas, somando por volta de duzentas e cinqüenta aulas até o início da Primeira Guerra. Esforçava-se em formar um novo organismo esotérico que seria como alimento para a nova cultura a ser fundada a partir da abertura e mudança ocorrida no mundo espiritual. Suas conferências falam do novo, com muitas imagens sobre mitos e símbolos antigos, trazendo esclarecimentos sobre os antecedentes das antigas tradições, despertando na alma o conhecimento desse patrimônio inconsciente da humanidade, preparando e dispondo a alma para o cultivo consciente do autoconhecimento.

 

Encerrou neste ano suas atividades na escola de formação de trabalhadores, convidado a se retirar daquele círculo, pois a direção marxista não aceitava mais a sua maneira de falar e seus temas. O impulso libertário que ele buscou implantar nos jovens discípulos foi o motivo pelo qual as autoridades resolveram afastá-lo da Instituição. Foi com este público que Steiner descobriu-se um orador carismático e, até alguns decênios depois, encontravam-se socialistas que falavam com entusiasmo desse mestre que despertava neles o sentido da liberdade.

 

Em 1906, com 45 anos, proferiu os primeiros grandes ciclos de conferências fora de Berlim, inclusive o ciclo O evangelho Segundo João, em Munique, dando inicio à sequência de ciclos sobre os evangelhos, sua obra sobre Cristologia. Apenas 44 conferências se realizaram em Berlim e 201 em outras cidades. Rudolf Steiner começou a dar cursos de uma conferência por dia ao longo de duas semanas – os ciclos. Os participantes podiam se aprofundar melhor no tema, sendo o efeito mais intenso do que em conferências isoladas.

 

Fez nessa época conferências em Paris, onde encontrou pela primeira vez com Edouard Schuré, o poeta e teósofo, autor de Drama Sagrado de Eleusis, que Marie Von Sivers havia traduzido para o alemão, que se tornaria um grande amigo. No ciclo de Paris, depois de um longo processo de maturação, comunicou o fato de o corpo etérico do homem ser feminino e o da mulher, masculino. Com seu corpo físico o homem está integrado às forças da Terra e por meio do corpo etérico encontra-se entrosado com as forças do Cosmo extraterreno. Demonstrou que as qualidades masculinas e femininas remetem-se aos mistérios do mundo.

 

Berlim continuava a ser o centro de suas atividades. Lá, na Rua Motz 17, ele conservou seu domicílio até além do fim da Primeira Guerra Mundial. Mas em Berlim a Antroposofia se desenvolvia numa racionalidade clara, uma vez que a cidade se encontrava completamente imersa na esfera do racionalismo e do intelectualismo.

 

No decurso do ano de 1906 demonstrou a nítida diferenciação entre os vários caminhos de autodesenvolvimento esotérico: o caminho hindu da yoga (difícil de trilhar pelo homem ocidental), o caminho cristão-gnóstico da Idade Média (que requer o afastamento da vida cotidiana) e o caminho rosacruz, que se inicia com a educação do pensar, com o ‘estudo’. Para Steiner o verdadeiro rosacrucianismo não se encontrava nos livros de história, porque foi transmitido por tradição oral. E neste caminho, a relação entre guru e discípulo é substituída pelo apoio de uma educação do pensar. O próprio discípulo tem de ser o condutor e dirigente.

 

1907 é o último ano descrito por Rudolf Steiner em seu livro autobiográfico – Minha Vida. No último capítulo informa ao leitor que a exposição de sua biografia, desse momento em diante, dificilmente poderá ser separada da uma história do movimento antroposófico.

 

Rudolf Steiner estava com 46 anos de idade, quando, à época de Pentecostes, aconteceu em Munique o IV Congresso da Federação das Seções Européias da Sociedade Teosófica. Neste congresso ele tem a oportunidade de reproduzir no ambiente uma decoração em formas e cores em que expressava o conteúdo das comunicações orais que seriam realizadas, fazendo questão de apresentar um ambiente artístico em completa harmonia com a atuação espiritual. Ele falou pela primeira vez sobre Cosmologia e Antropogenia. Ao lado de Marie Von Sivers, ele inaugurou o elemento artístico, através da apresentação do ‘Drama de Eleusis’ de Edouard Schuré, ficando claro que a vida espiritual na Sociedade não aconteceria mais sem o lado artístico. Era a aplicação prática da Antroposofia no mundo exterior.

 

As inovações trazidas por Steiner ao Congresso de Munique não agradaram parte dos antigos membros da Sociedade Teosófica da Inglaterra, França e Holanda. Somente uma minoria entendeu que aquilo que estava sendo oferecido pela corrente antroposófica, era uma postura interior totalmente diversa daquela praticada pela Sociedade Teosófica. Esta postura interior era o verdadeiro motivo pelo qual a Sociedade Antroposófica não podia continuar a existir como uma parte da Sociedade Teosófica, e não os fatos que assumiram vulto mais tarde, provocando inúmeras discórdias.

 

Infatigavelmente ativo espiritual e fisicamente, Rudolf Steiner elaborava a Antroposofia como ciência espiritual, como arte e impulso social e procura consolidá-la em almas e círculos humanos. Era-lhe necessário introduzir o espírito no mundo, desempenhar um trabalho fértil e frutífero para a alma.

 

Em maio de 1908, quando Steiner tinha 47 anos, o último número da revista Lúcifer-Gnosis é publicado. As publicações tiveram que ser encerradas em virtude da carga de trabalho a que estava exposto. Foi um período de muitas viagens e conferências, sendo cada vez mais solicitado como conselheiro pessoal em todas as questões de vida.

 

Marie Von Sivers, juntamente com a colaboração de Johanna Mücke, fundou a Editora Filosófico-Teosófica, em Berlim, com o objetivo de reunir em forma de livros as publicações dos escritos de Rudolf Steiner e ainda, dar uma forma correta às anotações individuais que vinham sendo feitas pelos membros em suas várias conferências e aulas.

 

Aos 48 anos de idade, em 1909, encontrou-se pela primeira vez, em Berlim, com Christian Morgenstern (1971-1914), um dos mais notáveis poetas da língua alemã que se tornará seu discípulo. Christian transformou em maravilhosos poemas muitos conteúdos das conferências de Steiner:

 

Ele falou. E como ele falava, resplandeciam nele o Zodíaco, querubins e serafins,

O astro solar, a translação dos planetas

De ponto em ponto.

Tudo isso jorrava com sua voz,

Era avistado em relance, como um sonho cósmico,

Todo o firmamento parecia baixado às suas instâncias

Por mercê de suas palavras.

 

A ciência Oculta é publicada em 1909. Nesse livro Rudolf Steiner comunica o que tinha elaborado como resultado de sua pesquisa espiritual e fornece as indicações de como podem ser desenvolvidos órgãos para a percepção espiritual, numa linguagem clara e acessível ao não iniciado. No livro foram mantidos com precisão os limites entre o que se pode e deve comunicar, naquela época, do âmbito dos conhecimentos supra-sensíveis e aquilo que se deveria expor mais tarde de outra forma.

 

Em suas conferências abordava aspectos íntimos e profundos da essência do Cristianismo, avançando nos ensinamentos esotéricos e na pesquisa espiritual do Evangelho de Lucas, das Hierarquias Espirituais e dos poderes opositores à evolução humana.

 

No Congresso Internacional em Budapeste, em agosto de 1909, encenou ‘Os Filhos de Lúcifer’, peça de Edouard Schuré, com Marie Von Sivers, proferindo uma conferência sob o tema A Essência das Artes, que do princípio ao fim foi ela própria uma obra de arte configurada.

 

Ao final de 1909, Steiner falou da Antroposofia, por ocasião da Assembléia Geral da Seção Alemã da Sociedade Teosófica, e anunciou que ela será publicada em esboço, em vários cursos e conferências.

 

Segunda fase da Antroposofia – 1909 a 1916

Em 12 de janeiro de 1910, perto de completar 49 anos, num curso em Estocolmo, Suécia, Steiner anunciou pela primeira vez o aparecimento do Cristo no plano etérico: novas faculdades da alma humana se mostrariam a partir de 1933 tornando possível aos seres humanos a visão clarividente do mundo etérico, no qual Cristo se manifesta de forma nova. Ele já observava o desenvolvimento de novas faculdades de clarividência sob as faixas da consciência intelectual que precisavam apenas ser despertadas para que sublime vulto etéreo do Cristo fosse percebido.

O Cristo voltará, porém numa realidade superior à física, numa realidade tal que somente se lhe poderá elevar o olhar tendo-se, antes, adquirido o sentido e a compreensão pela vida espiritual… Inscrevam em seus corações o que deverá ser a Antroposofia: uma preparação para a grande época da humanidade que nos aguarda.’

No entanto, evitava todo o tipo de sensacionalismo ao se manifestar sobre os acontecimentos do momento, para que as pessoas não perdessem sua liberdade em seu sentimento de vida e em suas decisões.

Em julho de 1910 Steiner escreveu o primeiro de seus quatro ‘Dramas de Mistério’ – O Portal da Iniciação – Um Mistério Rosacruz. A apresentação deste Drama se deu no Congresso da Sociedade Teosófica em Munique, diante de um público de duas mil pessoas. Os Dramas de Mistério representavam em linguagem artística aquilo que Rudolf Steiner proferia em suas palestras e foram a aurora da iniciativa que levou à construção do primeiro Goetheanum, o edifício que viria a construir em Dornach para ser a sede do movimento antroposófico. Amadureceu em Steiner uma nova possibilidade: o que ele expunha em seus livros se transformou em Inspiração, expresso pela linguagem e pelo movimento.

Nos dramas são apresentados destinos humanos interligados através de várias vidas terrestres. São mostrados indivíduos em busca do espírito, trilhando o caminho do autoconhecimento e chegando ao limiar do mundo espiritual, cada um a seu modo.

A alma desse empreendimento era Marie Von Sivers, que em São Petersburgo e Paris já tivera aulas com exímios atores e abandonara o teatro quando se deparou com a Teosofia. As recitações eram o seu elemento e ao lado de Rudolf Steiner, ela inspirava vida aos seus dramas.

Em 17 de março de 1911 Anna Steiner faleceu.

Rudolf Steiner, então com 50 anos, proferiu uma série ciclos e conferências em Bolonha, Copenhague, Munique, Karlsruhe, Hannover, Milão, Berna e Munique. Nesta ocasião fala na Dinamarca, onde teve a oportunidade de conhecer a senhora Valborg Werberck-Swärdström e seu marido Louis Werbeck, que se tornaram colaboradores incansáveis na divulgação da Antroposofia.

A apresentação do segundo Drama de Mistérios – A Provação da Alma em 17 de agosto de 1911 deu-se em um momento em que as discordâncias com a Sociedade Teosófica aprofundavam-se.

Após anunciar uma nova revelação do Cristo fica evidente para Steiner um conflito com a Sociedade Teosófica, cujos membros e dirigentes – Annie Besant e H. S. Olcott – viam na síntese de todas as religiões um alto ideal que esperavam alcançar por uma tolerância inteligente. A sua visão do acontecimento do Gólgota e de Jesus Cristo como ponto central da História da Terra e da Humanidade, era uma visão estranha aos dirigentes da Sociedade Teosófica.

Juntando-se a tudo isto, sobreveio o fato de que Annie Besant apresentou um rapaz hindu que seria a personalidade na qual o Cristo se apresentava em uma nova vida terrena, fundando dentro da Sociedade Teosófica a Ordem chamada ‘Estrela do Oriente’, que cuidaria dessa personalidade, que vem a ser Jiddu Krishnamurt.

Os ataques cada vez mais intensos e depois a campanha de difamação desencadeada abertamente por Annie Besant, em resposta à postura que Steiner assumira em relação ao caso Krishnamurt, tornaram impossível a continuação do seu trabalho dentro da Sociedade Teosófica. Em setembro de 1912 a diretoria da Seção Alemã, na pessoa de Rudolf Steiner e Marie Von Sivers, declarou ser incompatível com esta seção o que estava acontecendo na Sociedade Teosófica, tornando-lhe impossível receber os membros da nova Ordem dentro da Seção Alemã.

A Sociedade Teosófica, através de Annie Besant, rompeu a ligação com Rudolf Steiner num ato que revogava o Conselho Geral dos Estatutos da Sociedade Alemã – quatorze lojas alemãs se mantiveram com ela e as demais seguiram Steiner. Com estes membros ele iniciou os preparativos para a fundação da Sociedade Antroposófica em dezembro de 1912, como uma sociedade autônoma.

Fato relevante é que, mesmo com todo sofrimento a que esteve sujeito quando do episódio de seu rompimento com a Sociedade Teosófica, Rudolf Steiner nunca teceu nenhum comentário que desmerecesse a pessoa de Annie Besant, como pode se constatar em sua autobiografia, num exemplo de tolerância e perdão, característico de seu ser.

É fato, também que, em virtude de ter iniciado seu trabalho de cunho esotérico nos âmbitos da Sociedade Teosófica, mesmo discorrendo sobre um conteúdo que não se vinculava àquela Sociedade, Rudolf Steiner sempre foi reconhecido como um teósofo e mesmo hoje, as pessoas de fora ainda confundem a corrente central do cristianismo esotérico, representado pelo Antroposofia, com a Teosofia, de orientação oriental de Blavatsky e Besant, incluindo a Antroposofia como corrente não cristã dos tempos modernos.

Ocupado a todas essas questões que envolviam sua vida, Rudolf Steiner se mantinha atento e solícito às perguntas sempre crescentes das pessoas que o cercavam, organizando nessa época – janeiro de 1912, aos 51 anos de idade, as primeiras instruções dos exercícios de Euritmia a Lory Smits. A jovem alemã de Düsseldorf, de apenas 19 anos, estava interessada numa formação especializada em ginástica rítmica.

Steiner tem a preocupação em demonstrar que a Euritmia não era simplesmente uma arte da dança, mas uma arte do movimento, provinda dos antigos mistérios gregos, que promoviam a cura através de palavras, movimentos sonoros e tonalidades.

Sob os cuidados de Marie Von Sivers, desdobrou-se em três abordagens: arte teatral, complemento de educação nas escolas e como euritmia curativa. Talvez não seja possível sentir, em arte alguma, o ser colocado no cosmo de uma maneira tão intensiva como na arte eurítmica.

Na Páscoa desse ano, Rudolf Steiner publicou o Calendário Antroposófico da Alma e escreveu e encenou o terceiro Drama de Mistério: O Guardião do Limiar, em agosto. Em dezembro deste mesmo ano, fundou sem grandes formalidades a Sociedade Antroposófica em Colônia, na Alemanha.

Com 52 anos de idade participou da realização da primeira assembléia da Sociedade Antroposófica, porém não faz parte da Diretoria e recebeu a adesão de grupos de vários países.

As apresentações dos Dramas, que eram encenadas sempre em Munique, no Teatro do Gärtnerplatz, em agosto de cada ano, revelavam a Steiner que nessa cidade atuava o lado artístico do trabalho antroposófico, de modo oposto ao que acontecia com o movimento antroposófico em Berlim, onde se progredia cada vez mais no saber a respeito do mundo espiritual.

Por força desse impulso criativo que acontecia com a Antroposofia em Munique, Steiner viu surgir a iniciativa da construção de um edifício com um palco onde se pudesse realizar as apresentações dos Dramas e fosse o centro para as atividades antroposóficas.

O edifício deveria ser algo parecido aos centros de mistérios das culturas antigas, dedicado a cultivar os três grandes poderes da vida espiritual: Ciência, Arte e Religião. A nova construção seria a ‘Casa da Linguagem’ onde o mundo espiritual iria falar. Para sua construção foi formada a ‘Associação Johannes de Construção’, mas a Prefeitura de Munique negou o alvará, considerando o projeto extremamente questionável, em meio à experiente e segura atmosfera artística da época e temendo que a cidade se convertesse num centro de uma peculiar seita religiosa. Anteriormente, uma grande agitação popular, por motivos religiosos, durante a apresentação do Congresso Teosófico naquela cidade fora atribuída à Sociedade Teosófica.

Steiner recebeu a ajuda de muitos membros da Sociedade Antroposófica para o seu empreendimento, ressaltando os esforços de Sofia Stinde, uma pintora alemã, aliada à condessa Pauline Von Kalkreut, também pintora e dama de honra da mãe do último Imperador da Alemanha. Era na residência da pintora que aconteciam as reuniões do ramo e as conferências internas da Sociedade Antroposófica, em Munique – Alemanha. Seus esforços também possibilitaram a apresentação dos quatro Dramas de Mistérios de Rudolf Steiner, em Munique.

Em maio de 1913, Emil Grossheintz, um antropósofo suíço, colocou à disposição de Steiner um terreno de sua propriedade em Dornach, perto da Basiléia, fazendo fronteira com a França, Alemanha e Suíça, um lugar que permaneceu ileso na guerra que já se pressentia. Steiner conheceu o terreno no mesmo mês e aceitou a oferta, comunicando que seria em Dornach e não em Munique a construção do primeiro centro do movimento antroposófico. O trabalho de construção começou imediatamente, pois não havia tempo a perder, diante da eminência de uma guerra.

Num ideal arquitetônico contemplado pelo olhar de Goethe que afirmara que ‘Religião, Arte e Ciência atendem à tripla necessidade do homem bafejado por Deus: cultuar, produzir e contemplar; todos os três são um do início ao fim, embora separados pelo meio’, o próprio Steiner encarregou-se do projeto, dando ao edifício um estilo totalmente inovador para a época. O Goetheanum, conforme o edifício foi chamado por Steiner, tinha uma fundação de concreto de onde se erguia uma obra de madeira coberta por duas grandes cúpulas, cuja dificuldade para serem calculadas e erguidas foi totalmente dominada.

Rudolf Steiner assumiu pessoalmente a direção da obra, encarregando-se em grande parte pelo seu acabamento artístico, pintando, por exemplo, o teto da cúpula menor. O teatro tinha capacidade para mil pessoas e os custos de construção somaram o montante de mais de sete milhões de francos suíços, obtidos por doações. Ali cidadãos de dezessete nações diferentes trabalharam juntos sob a supervisão e cooperação calorosa de Steiner.

A pedra fundamental da construção – um duplo dodecaedro – foi colocada no dia 20 de setembro de 1913. Enquanto Steiner pronunciava o discurso, desabou uma grande chuva, escurecedora e barulhenta, quase fazendo desaparecer a sua voz. Em seu discurso ele falava das forças crescentes de Árimã, que trata de semear o caos e a escuridão.

Após a colocação da pedra fundamental, Steiner realizou em Kristiania, hoje Oslo – Noruega, seu curso sobre o ‘Quinto Evangelho’, um ponto alto na sua pesquisa, demonstrando as vivências experimentadas por Jesus de Nazaré ao longo de seu caminho antes e depois de receber em si, pelo batismo no Jordão, a entidade do Cristo.

Em agosto de 1913 os Dramas de Mistérios são apresentados pela última vez em Munique e ainda neste ano é escrito e encenado o quarto de seus Dramas de MistériosO Despertar das Almas, que mostra as crises de uma comunidade na passagem da teoria à aplicação prática.

Em novembro ficaram prontas as fundações em cimento armado do Goetheanum, sendo construídos os andaimes para a construção de madeira. Em dezembro de 1913 iniciou-se a construção das colunas na carpintaria.

Em janeiro de 1914, perto de completar 53 anos, Steiner participou da segunda e última Assembléia da ‘antiga’ Sociedade Antroposófica, que entrou em um longo período de inatividade enquanto sociedade.

O dinheiro obtido para a construção do Goetheanum começou a se acabar, inviabilizando a inauguração da obra para agosto de 1914, como era o desejo de Steiner, e ali ele pudesse apresentar o quinto Drama de Mistério, ainda não escrito.  Para levantar fundos, foi organizada uma série de conferência onde ele destacava a importância da efetivação do projeto para a humanidade, conseguindo continuar a construção, mas sua inauguração precisou ser adiada.

Nos primeiros dias de agosto de 1914 sobreveio a 1ª. Grande Guerra. Muitos operários precisaram deixar a Suíça e voltar a seus países de origem e partir para os campos de batalha. Quando a guerra eclodiu, Rudolf Steiner encontrava-se em Bayreuth, junto a Marie Von Sivers, regressando rapidamente a Dornach, numa noite de grande caos. Ela relata que no transcurso dessa terrível noite cinza, o mundo havia mudado e a expressão pesada expressa no rosto de Steiner durante estes dias, a dor que ele sentia por toda a humanidade, era quase intolerável.

As aulas esotéricas foram interrompidas, pois havia muita perturbação no mundo espiritual vizinho à Terra pelo grande derramamento de sangue humano e pela morte de tantos jovens.

No final deste terrível ano a estrutura da construção ficou pronta e continuaram os trabalhos de escultura das colunas, das arquitraves e de pinturas. Em 24 de dezembro de 1914, Steiner casou-se com Marie Von Sivers, em Dornach, tendo ela passado a se chamar Marie Steiner.

Durante o ano de 1915 a guerra impediu a atuação pública de Steiner, que tem 54 anos de idade. Dornach havia se tornado o centro da vida antroposófica, abrigando ali cerca de duzentas pessoas de diversas nacionalidades, jovens e velhos, artistas, cientistas, comerciantes, unidos e trabalhando em torno de um mesmo ideal, fazendo germinar uma comunidade antroposófica. A obra de construção do Goetheanum tinha um ritmo mais limitado pela falta de dinheiro.

Steiner desistiu da idéia de escrever um quinto Drama de Mistério, se dedicando à produção da primeira versão teatral completa de ‘Fausto’ de Goethe, ministrando ainda, o primeiro curso de Euritmia verbal. Até os dias de hoje somente no Goetheanum, Fausto é apresentado em sua forma integral.

Steiner envolveu-se pessoalmente no trabalho de esculpir uma estátua de madeira que idealizara, junto com Edith Maryon, uma fiel colaboradora. A escultura foi nomeada o Representante da Humanidade, representando o Cristo entre as forças de Lúcifer e Árimã e tem aproximadamente 8 metros de altura. Na escultura podemos observar a expressão da harmonia entre as três forças da alma: o pensar, o sentir e o querer – forças que devem viver com autonomia. E das mãos do Cristo podemos sentir fluir o amor que emana de seu coração.

Rudolf Steiner plasmou de tal forma o modelo, que torna possível a qualquer um de nós, reconhecermos o Cristo de imediato ao nos depararmos com Ele. Lá está o Cristo que caminha entre os poderes adversários: o brilhante e sedutor Lúcifer e o sinistro e enrijecido Árimã.

1916 foi um ano marcado por muitas dificuldades do ponto de vista exterior tendo em vista a Guerra. Porém Steiner, com 55 anos de idade, ainda conseguiu viajar e dar conferências na Alemanha e Áustria. Nesta época publicou Do Enigma do Homem.

Em suas conferências começou a desenvolver um novo jeito de falar sobre a Antroposofia, orientando-se pelos fatos históricos da época, abarcando os aspectos centrais da vida espiritual alemã.

Outro tema com o qual se ocupou nessa época foi da vida após a morte, especialmente em relação aos acontecimentos da Guerra. Iniciava todas as suas conferências durante a guerra, com uma prece pelas almas dos combatentes vivos e mortos, compondo versos mântricos que visavam proporcionar uma ligação com o mundo dos mortos.

Provavelmente foi nessa época – entre agosto de 1916 e janeiro de 1917 – mas a data é incerta, que Steiner sofreu um acidente, quase se ferindo gravemente: ele caiu do andaime utilizado para construir a escultura de madeira, mas foi salvo por Edith Maryon, que conseguiu segurá-lo, desviando sua queda que seria em cima de uma ponta de madeira.

 

Terceira Fase da Antroposofia – 1917 a 1923

O mundo caminhava dividido por causa da Guerra. A Revolução Russa estabeleceu o poder soviético. No Ocidente despontavam os EUA como um novo poder. Na Europa Central, a Alemanha e a monarquia austro-húngara encontravam-se preocupadas apenas com guerras de anexação, sem nenhuma proposição que abarcasse os seres humanos. Em conseqüência da catástrofe da Primeira Guerra Mundial, novas possibilidades se abriram para que a Ciência Espiritual transpusesse para a realidade social as suas conclusões.

A partir de uma pergunta vinda de Otto Graf Lerchenfeld, um político alemão preocupado em formar novas idéias que levassem a guerra a um desfecho e a uma nova ordem social, Steiner formulou a idéia da Trimembração do Organismo Social. Não se tratava de nenhum programa partidário e não continha nenhuma exigência abstrata. A Trimembração Social considerava as áreas da vida econômica, jurídica e espiritual como três funções existentes lado a lado e administradas de forma autônoma, exigindo a descentralização da vida social.

O organismo social é constituído como o natural. E como o organismo natural deve prover o pensamento por meio da cabeça e não dos pulmões, assim é necessária ao organismo social a constituição em sistemas que não possam absorver cada um deles as funções do outro, mas que devem antes, colaborar com os demais, mantendo, porém, sua autonomia.

Escreveu, ainda, o livro Do Enigma da Alma, onde expõe uma de suas afirmações mais importantes: a divisão ternária do ser humano. As principais faculdades do homem – o pensamento, o sentimento e a vontade – se realizam através de partes diferentes do organismo físico. Não se trata de uma divisão trivial em cabeça, tórax e abdome. O homem é uma ação conjunta e um entrelaçamento dinâmico desses três componentes. As doenças decorrem da preponderância de um sistema sobre o outro. Em princípio, todas as forças curativas procedem do sistema médio, pois o homem rítmico é em si mesmo o ser primitivamente são. Esta idéia é o elemento verdadeiramente novo da Antroposofia.

Nos anos seguintes, após 1917, a idéia da trimembração foi cada vez mais elaborada, principalmente no ciclo de conferência chamada A Arte da Educação, dada em 1919 aos professores da primeira escola Waldorf em Stuttgart.

Durante este tempo, as atividades em Dornach prosseguem ativamente, tais como: a Euritmia, a preparação para a encenação do ‘Fausto’, a escultura de madeira e a pintura das cúpulas do Goetheanum.

No ano de 1918, com 57 anos, Steiner viajou a um grande número de cidades para ministrar conferências, além daquelas que proferiu em Dornach e Berlim. Foi um ano de conclusão e preparação da base de sua atuação para a época do pós-guerra. Nenhum livro novo foi publicado, mas são reeditados vários livros, tornando-se disponíveis todas as obras que ele já havia publicado.

Na Alemanha pairava uma ameaça de guerra civil na primavera de 1919. O império havia ruído: fome, desemprego, doenças, revoltas faziam parte do dia-a-dia. As pessoas se dividiam entre tomar posições extremistas ou se sobrepor às grandes dificuldades e buscar um objetivo em comum. 1919 evidenciou-se como o ano da luta pela Trimembração Social, tendo Steiner realizado uma série de conferências para industriais e pequenos grupos de operários, falando em pequenas salas, pátios de fábricas e mesas de bares. Foi constituída a Associação para a Trimembração do Organismo Social, em Stuttgart a qual pertenciam muitas personalidades completamente alheias aos círculos antroposóficos. A associação tinha como objetivo despertar a compreensão para as exigências sociais do tempo e divulgar as leis que atendessem às mesmas, empenhando-se em iniciativas sociais concretas. Liberdade no espírito, igualdade perante o direito, fraternidade na economia – conferindo um novo conteúdo aos ideais da Revolução Francesa.

A partir deste momento histórico, com 58 anos de idade, a atuação de Rudolf Steiner passou a ter uma característica totalmente nova: sem nenhuma reserva, ele falava das relações entre os fatos históricos e os fatos políticos. Revelava os bastidores da história de uma maneira que não podia deixar de surpreender a todos quantos se apegavam a uma concepção convencional dela, e não menos aos políticos profissionais. Esta forma de atuar culminou no manifesto Apelo ao povo alemão e ao mundo cultural, divulgado em março de 1919, depois da derrocada da Alemanha. O documento é assinado por várias personalidades, muitas das quais não pertenciam, nem antes e nem depois, à Antroposofia, porém, abaladas pelo impacto dos acontecimentos e aguardando algo de totalmente diverso, estavam preparadas para defender a realização das idéias do manifesto. Nesse Apelo Rudolf Steiner falava da necessidade de desmembrar o antigo complexo estatal nos três sistemas: o espiritual, o político e o econômico, podendo-se assim ser evitado o caos, que continuava eminente, terminando da seguinte forma: Ou se condescenderá em conformar-se, no próprio pensar, com as exigências da realidade, ou não se terá aprendido coisa alguma da desgraça, e do contrário, multiplicar-se-à, ad infinitum, por novas desgraças, a causada até aí. No entanto, com a finalização do estado de Guerra, prevaleceu entre as pessoas a atitude de deixar as coisas como estavam, uma vez que a crise inflacionária já estava superada pela estabilização do marco, e as transformações esperadas não se realizaram, fadando ao fracasso a luta pela Trimembração Social.

Foi o início de uma atuação pública que faria Rudolf Steiner entrar mais amplamente na consciência da Europa Central, em particular na Alemanha, levando passo a passo, à fundação dos impulsos culturais específicos da Antroposofia.

Os comunistas passaram a se preocupar com o que Steiner tinha a dizer e proíbem seus membros de assistirem às suas conferências. Os nazistas começaram a considerá-lo uma ameaça ao defender que a Trimembração Social encerrava em si as leis estruturais de uma nova ordem social. Era uma época em despontava como grande orador o jovem cabo do exército bávaro, Adolf Hitler, que inspirava o Partido dos Trabalhadores Alemães, falando sobre nacionalismo e anti-semitismo.

Steiner não nutria ilusão nenhuma acerca da capacidade moral dos ocupantes do poder político e econômico ou dos homens em geral. O que ele propunha não era uma utopia, mas um sistema social que partia do conhecimento do homem em seus impulsos sociais e anti-sociais, concretizando as capacidades sociais que poderiam ser despertadas, mesmo diante de tanta fraqueza e egoísmo, se fossem desenvolvidas de forma verdadeiramente humanas. Em vez de pensar nas alternativas imediatas do momento, haverá de existir uma concepção mais ampliada da vida que esforce em compreender as forças evolucionistas da Humanidade moderna…

Não era chegada ainda a hora de uma ordem social trimembrada. Mas uma das sementes dessa concepção se transformou num bonito fruto: a Pedagogia Waldorf, criada a partir da escola Waldorf de Stuttgart, cuja abertura se deu em 7 de setembro de 1919, após intensa preparação e envolvimento de Rudolf Steiner.

Com o apoio de Emil Molt, Conselheiro Comercial e chefe da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, em Stuttgart, ele assumiu a instalação e direção da escola, tarefa que aceitou com a mais alta responsabilidade, em abril de 1919. Rudolf Steiner sentia a feliz expectativa do que estava sendo criado por ele.

Alguns círculos sociais, como a Igreja Católica, olhavam com desconfiança para esta pedagogia nascida da Antroposofia e torciam pelo malogro do empreendimento. Entretanto, a Escola Waldorf de Stuttgart foi um grande sucesso, começando a funcionar com 200 alunos e em poucos anos, já contava com 1000 alunos, sendo necessário rejeitar inúmeros outros, por falta de vagas. Pouco a pouco outras escolas surgiram: Berlim, Altona, Hannover, Kassel, Breslau, Dresden, Basiléia, Zurique, Haia, Londres, Nova York e Oslo. E muitas outras pelo mundo afora.

O desejo de Rudolf Steiner era fundar uma escola única de 12 séries, para todas as classes sociais e para meninos de ambos os sexos, independente da camada social a qual pertencessem. Seu objetivo para uma escola desse tipo é a formação do ser humano, necessitando para isso de um professor que possa imergir nas almas e em toda a essência do ser humano em desenvolvimento.

Posteriormente, em março de 1939, a escola de Stuttgart foi fechada com o advento do Regime nacional-socialista na Alemanha. Seus edifícios foram seriamente danificados pelo bombardeio das tropas aliadas durante a Segunda Grande Guerra. Com a chegada das tropas americanas naquela cidade, em 1945, os ex-alunos, mesmo sem se comunicarem entre si e sem qualquer planejamento, começaram a estabelecer uma nova ordem, fazendo a escola renascer dos escombros, florescendo até hoje.

Também no ano de 1919 a Euritmia foi apresentada ao público em uma grande viagem pela Alemanha e Suíça. O ser humano, tal como o vemos ante nós, é uma forma acabada. Mas essa forma acabada origina-se de movimentos… E, desenvolvendo a euritmia, retornarmos aos movimentos primordiais… Deus euritmiza, e enquanto Ele o faz nasce, como resultado desse euritimizar, a figura humana.

Na idade de 59 anos, Steiner encontrava-se envolvido intensamente nos mais variados campos, a partir do impulso espiritual de trazer vida nova à civilização atual e enriquecê-la através dos conhecimentos da ciência iniciática. Confiava na força da Antroposofia, que converte o pensar materialista e egoísta em pensar espiritualizado e humano, acreditando que a mentalidade se modificaria em todos os campos da vida do homem aos poucos. Todo o seu esforço consistia em transmitir aos homens uma nova compreensão do próprio assunto com o qual os homens têm de lidar em cada esfera particular da vida.

Rudolf Steiner se colocava sempre à disposição daqueles que tinham perguntas, encarando seu interlocutor com seus bondosos olhos castanhos luminosos, como se naquele momento não existisse nada mais importante que as perguntas ou o destino pessoal de quem estava a sua frente.

Ele esperava sempre que as pessoas se dirigissem a ele e lhe solicitassem ajuda e, na plenitude de seu conhecimento espiritual, ele respondia de bom grado, dando-lhes do maior e do melhor do que se ousaria esperar. Mas as pessoas tinham de ser aqueles indivíduos que pela força de sua entrega, lhe fornecessem o fundamento apropriado ao novo que era trazido. Uma regra do esoterismo diz que um Iniciado só responde se for perguntado.

A solidão de todos os tempos continuava sua companheira, percebendo o abismo crescente entre o que falava em suas conferências, trazido diretamente dos mundos espirituais, e a consciência extremamente terrena de seus ouvintes. Porém Rudolf Steiner nunca deixou que qualquer um dos seus colaboradores percebesse um desapontamento seu, suportando tudo sempre com gentil paciência. Sempre se dirigia ao melhor do outro, mesmo se fosse a parte mais baixa deste que lhe respondesse. Um grande sábio falava às pessoas, mas elas não percebiam de quem se tratava.

Na Páscoa de 1920, aos 59 anos de idade, Rudolf Steiner deu o primeiro curso para médicos e estudantes de Medicina, em Dornach. Foram 20 conferências que demonstraram um conhecimento soberano de questões relacionadas com a ciência médica. Porém não era sua intenção aparecer como terapeuta; compreendendo que essa missão cabia aos médicos. Só se empenhava na atividade terapêutica em ligação com um médico licenciado, não tratando as pessoas. Ele aconselhava o médico com toda a sua humanidade e os médicos, ao se disporem a aceitar os seus ensinamentos, dispunham-se, também, a passarem por uma profunda reviravolta em suas consciências médicas. Oferecia a educação de novas faculdades de discernimento, o despertar da visão correta para os diagnósticos e liberava no praticante uma dose superior da vontade de curar e combater a enfermidade. A Antroposofia, antes de afirmar algo acerca do espiritual, elabora os métodos que a autorizam a fazer tais afirmações.

Mas essa espera pelos médicos foi uma das mais demoradas de sua biografia e talvez uma das mais dolorosas. Ele já havia percebido muito cedo o significado social abrangente e a premência da ampliação do impulso científico-espiritual na Medicina Antroposófica, diante do desenvolvimento vertiginoso da medicina convencional. Em uma palestra de 1909 já anunciava: Deixe-se desenvolver a Medicina de forma tão materialista e, se vocês pudessem antever quarenta anos, ficariam assustados diante da brutalidade dos seus procedimentos e até que formas de morte serão empregadas por essa Medicina para curar as pessoas.

Em 1920 também foram instituídos 2 cursos antroposóficos de nível universitário, dados por colaboradores e pelo próprio Steiner, que difundiam o saber científico. Essa iniciativa trouxe para o movimento um número de jovens com formação universitária, ocasionando a substituição dos antigos membros vinculados à época da Seção alemã da Sociedade Teosófica por jovens cientistas, professores e médicos que buscavam a Antroposofia como uma nova forma de atuação. Steiner considerou que os dois cursos ficaram em total desacordo com o espírito do edifício, porque ao invés da Ciência ser fecundada pela Antroposofia, a Antroposofia se viu invadida pelos hábitos do pensamento da Ciência Natural.

 

Em setembro de 1920 o Goetheanum é inaugurado sem a escultura do Representante da Humanidade, que ainda estava sendo esculpida por Steiner na marcenaria ao lado do prédio. A construção era majestosa, com suas cúpulas reluzentes e as formas modificando-se sobre as janelas e os portais. Tinha-se a impressão de que tudo se superava.

Desta época em diante, praticamente todas as semanas publicavam-se artigos e livros contra Rudolf Steiner, com ataques, calúnias e zombarias provenientes de um grande número de adversários, fanáticos religiosos, cientistas dogmáticos e de círculos nacionalista alemães. Steiner tinha a consciência de que seus opositores arrastavam seu nome na lama para destruir seu trabalho, pressentindo que o movimento sofreria muito com tudo isso. Empenhou-se solitariamente e com muito sofrimento em ordenar e responder a todos esses ataques.

Em Stuttgart aconteceu, ainda, um grande congresso público e o segundo curso para médicos foi oferecido. Os cursos para médicos continham múltiplas sugestões para uma nova aplicação de medicamentos, fazendo nascer dessas indicações os laboratórios farmacêuticos. Em 1920 havia uma grande pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos, favorecendo o nascimento dos laboratórios farmacêuticos em Arlesheim e Schwabisch Gmünd (Weleda A.G) e mais tarde em Eckwalden (WALA). Surgiu, também, a necessidade de se fundar uma clínica levando alguns médicos antroposóficos a criarem um Instituto Terapêutico em Stuttgart, onde Steiner teve a oportunidade de trabalhar em conjunto com eles.  Porém esses médicos eram aqueles formados nos cursos que desagradaram Steiner, não se empenhando da maneira urgente, como ele esperava, para que se pudesse promover o estudo e a reforma necessária da Medicina.

Muitas iniciativas antroposóficas foram organizadas, mas a Sociedade Antroposófica ainda estava inativa e sem um cultivo de seus ramos. As empresas ‘Der Kommende Tag’ e a ‘Futurum S.A.’ na Suíça, que foram fundadas com a tarefa de apoiar empreendimentos econômicos e espirituais, geravam muita preocupação, causada pela incompetência administrativa e pela falta de idéias. Sentia-se por todos os lados o prenúncio de uma crise.

Em junho de 1921, em Arlesheim, Suíça, próximo ao Goetheanum, a Dra. Ita Wegman inaugurou um Instituto Clínico-Terapêutico, como forma de fazer o que fosse necessário no sentido da Antroposofia. A cooperação entre Steiner e a médica começou nesse verão, tornando-se mais próxima, mais tarde num momento trágico da vida dele.

O auge da atuação pública de Rudolf Steiner foi alcançado no ano de 1922, quando contava com 61 anos de idade. A Agência de concerto Wolff, em Berlim, interessou-se pela organização de suas conferências e as salas existentes já não comportavam mais o público ouvinte. Em maio ele proferiu um ciclo de palestras de duas semanas em dez cidades alemãs. Marie Steiner descreveu o ambiente reinante na Europa com relação à atuação de Rudolf Steiner dessa forma: O público vindo das cidades vizinhas estacionava diante das ruas próximas ao local do evento em Berlim, sem conseguir entrar. Esse sucesso desencadeou logo a sanha dos adversários. Para aniquilar um movimento espiritualista, perigoso, conforme as opiniões de inúmeras pessoas uniram as hostes inimigas entre si. Pan-germânicos, católicos, protestantes, comunistas, representantes da ciência, uniram-se nessa mesma intenção. Os poderosos círculos judaicos, dirigentes nas finanças e na imprensa tudo fizeram, por meio de uma campanha em artigos difamatórios para apoiar e atiçar a ânsia de destruição dos inimigos. Desse modo não foi difícil encenar arruaças.

Estas cenas aconteceram em Elberfeld e Munique – a cidade sede da atuação de Adolf Hitler. Jovens ligados ao movimento nacionalista alemão interromperam várias vezes, quando Rudolf Steiner falava Da Antroposofia e o Conhecimento Espiritual, no Hotel Quatro Estações. Nesse hotel ele foi alvo de um atentado à mão armada, que graças à intervenção dos amigos, evitou-se o pior. Steiner escapou pela porta dos fundos e terminou seu ciclo serenamente.

Os organizadores aconselharam-no a suspender a realização das palestras, entendendo que a organização inimiga era tão forte, que eles não se achavam em condições de oferecer garantias quanto à sua segurança. Esses episódios foram apenas avisos do que deveria seguir-se: um golpe bem mais duro.

Em julho ele compareceu em Viena ao Congresso Leste-Oeste, em que era um dos principais oradores. O Congresso aconteceu num clima tenso, encontrando-se Steiner extremamente triste Os ataques a sua obra continuavam e certa oposição interna dirigida a sua pessoa começou a ser percebida.

Num esforço sobre-humano Steiner falou no Congresso, dispondo-se, como sempre, a oferecer conselhos e consolo a centena de pessoas. Duas mil pessoas participaram do Congresso Leste-Oeste, todas cheias de entusiasmo, apesar das críticas agressivas da imprensa. Ele considerou este congresso como sendo o mais grandioso empreendimento público originado do espírito antroposófico. Foi durante este Congresso que a senhora Valborg Werbeck Svärdstöm, criadora da Escola do Desvendar da Voz, de inspiração antroposófica, deu um concerto na famosa Sala da Associação Musical de Viena.

Em agosto de 1922, pela primeira vez depois da Guerra, Steiner viajou à Oxford, Inglaterra, para falar em uma conferência sobre educação. Aconteceram, também, apresentações de Euritmia em Londres e em Haia, evidenciando-se um crescente entusiasmo por esta arte. Em Dornach um curso para franceses foi organizado, demonstrando que os contatos interrompidos pela Guerra estavam sendo retomados.

Ainda nesta época, um grupo de jovens teólogos reuniu-se em Stuttgart para solicitar a Steiner conselhos e diretivas para sua futura atividade religiosa. Esse grupo depositava enorme confiança em Rudolf Steiner não só em suas doutrinas, mas, sobretudo pelo modo como ele se situara na vida pública nos anos da derrocada alemã. Como encontrar eco nos corações dos contemporâneos quando se trata de falar-lhes das coisas relativas ao verdadeiro cristianismo? Foi a pergunta que Steiner lhes fez.

Dessa forma, em setembro de 1922 foi fundada a Comunidade de Cristãos, com o intuito de dar prosseguimento à corrente cristã da humanidade, junto com quarenta e cinco sacerdotes, entre eles um sábio budista e três mulheres.

A Comunidade de Cristãos é uma comunidade inteiramente autônoma e sua vida se processa sem qualquer vinculação de dependência perante a Sociedade Antroposófica. O movimento antroposófico deve atender à necessidade cognitiva, ao passo que o movimento religioso deve atender às necessidades de ressurreição do homem.

Em dezembro de 1922 Rudolf Steiner proferiu uma conferência para esclarecer à Sociedade Antroposófica que não se tratava da criação de uma nova religião, como muitos acreditaram e adverte os antropósofos a não se descuidarem do solo a partir do qual o culto da Comunidade de Cristãos brotara – a Antroposofia. Aos antropósofos caberia o cultivo do ser Antroposofia. O que seria da Sociedade Antroposófica se ela necessitasse em primeiro lugar de uma renovação religiosa? Era a pergunta de Rudolf Steiner para aqueles que se limitavam apenas em acorrer aos bandos aos atos cúlticos dos pastores.

Os inimigos aumentavam, uma vez que foi inevitável o surgimento da compreensão de que se tratava da fundação de uma nova religião antroposófica.

Durante o mês de outubro, depois de muitos conflitos com os mais velhos, Steiner deu o ‘Curso para Jovens’ em resposta à busca de muitos deles por caminhos na Antroposofia, já que a cultivavam como se fosse um partido antroposófico.  Sente que os mais velhos sabiam muito, porém faziam pouco e rejeitavam os mais jovens, que sabiam pouco e queriam fazer muito.

Steiner retirou-se em grande parte da vida pública, constatando que aquela Sociedade não estava espiritualmente desperta o bastante para defender o edifício e protegê-lo internamente de seus poderosos e numerosos inimigos. A Sociedade Antroposófica está dormindo.

As empresas e as instituições financeiras continuavam em crise, sendo necessária a liquidação da ‘Futurum’, na Suíça, com graves perdas financeiras. Na Alemanha, a sociedade ‘Die Kommende Tag’ tem de passar a maior parte de suas ações para sua maior acionista, a fábrica de cigarros Waldorf-Astória e reduzir bastante o seu programa. Os institutos de pesquisa não atingiam os resultados práticos e apareciam dificuldades até mesmo na Escola Waldorf. No Instituto Terapêutico de Stuttgart a espera pelo trabalho dos médicos não acontecia, formando-se um muro burocrático, conhecido como o ‘sistema de Stuttgart’, a oposição no colegiado dos médicos era a mais visível.

Rudolf Steiner tentou, em inúmeras reuniões noturnas, votações, conferências e palestras, ativar finalmente a auto-reflexão dos antropósofos e chegar com eles ao que realmente paralisava a Sociedade: falta de elaboração de tarefas científicas, bloqueio ao êxito de muitas iniciativas recentemente fundadas, rejeição aos jovens, espera do trabalho científico central dos médicos – o Vademecum, além de outros aspectos. A intenção de Steiner era dar às iniciativas um cunho antroposófico, ou todos aqueles impulsos que surgiam, acabariam arruinando o movimento.

A campanha difamatória dos inimigos amplamente organizados realizou-se principalmente nos anos de 1922 e 1923. Max Hayek, simpatizante da Antroposofia, havia se encontrado com Rudolf Steiner no verão de 1922 e percebera que ele era um portador de grandes aflições… na Terra, um mártir do espírito, alguém que suportava uma cruz.

No Congresso de Natal de 1922 suas palestras levavam os antropósofos presentes à compreensão do posicionamento do ser humano no decurso do dia e do ano, da metamorfose dos mistérios solares e à compreensão dos profundos mistérios de Hibérnia, através do acontecimento no Gólgota.

As palestras estavam sendo proferidas no grande salão de cúpulas para um grande público e turnos de vigilância foram preparados para evitar qualquer acidente na construção, provocado por falhas técnicas ou por forças da natureza, levando-se em consideração que Steiner já alertara muitas vezes que o Goetheanum estava extremamente exposto ao perigo. Enquanto soavam aqueles avisos de alerta, sérios e penetrantes, contra a destruição que viria de dentro, tanto por não se cuidar devidamente do espiritual, como por não se cultivar a Antroposofia, o destino do primeiro Goetheanum já estava selado.

A crise no movimento antroposófico se tornou explícita na noite de 31 de dezembro de 1922: um incêndio destruiu o edifício, numa ação criminosa. Naquela noite Rudolf Steiner falava de coisas grandiosas: O ser humano transforma a Terra a partir de sua própria espiritualidade ao compartilhá-la com o mundo; ao vivificar os pensamentos pela Imaginação, a Inspiração, a Intuição; ao realizar a comunhão espiritual da humanidade. O tom solene e a penetração de suas palavras intensificavam-se ao longo da palestra. Tinha-se a impressão de que naquele púlpito um grande iniciado celebrava o culto do futuro, o culto cósmico da humanidade.

Depois de ter proferido os versos que ele havia escrito no quadro negro, ele se afastou do púlpito com grande discrição, pela lateral, tornando assim óbvio que ninguém o aplaudisse como naturalmente ocorria em outras palestras. Os dois versos permaneceram na lousa com sua letra bonita, enquanto jovens e velhos, profundamente comovidos, saíam para a noite estrelada de São Silvestre. Pouco depois o guarda de plantão acionou a linha de emergência do corpo de bombeiros do Goetheanum, dando o sinal de incêndio. Fogo no Goetheanum!

Aquela construção onde trabalharam pessoas de diferentes nações por muitos anos e a qual Rudolf Steiner tinha se entregado totalmente, fora consumida pelas chamas. Tudo agora está inscrito no éter cósmico, foi o que Rudolf Steiner disse a Ita Wegman, que se encontrava ao seu lado nessa hora.

Rudolf Steiner foi visto percorrendo o terreno, em todas as direções, com o semblante marcado por profunda tristeza, consciente do que a humanidade havia perdido. Após a noite de incêndio, pela manhã, apesar da imensa dor provocada por aquela tragédia, com seu espírito inabalável, deu coragem e força a todos os presentes para que pudessem suportar aquela situação. Ele informou a um pequeno de grupo de antropósofos que estava ao seu lado que o trabalho continuaria e que voltaria a construir.

Quis na matéria sensória

O Goetheanum falar ao eterno

Através das formas, ao olho.

As chamas puderam destruir a matéria.

Deve a Antroposofia

Fazer, a partir do espírito,

Sua construção falar à alma.

As chamas do espírito,

Elas hão de endurecê-la.

 

Ao meio dia do dia 1º de janeiro de 1923 todos foram informados que as apresentações previstas seriam mantidas conforme o programa.

Neste mesmo dia Steiner ainda disse as seguintes palavras ao conde Polzer-Hoditz: as diferenças entre as almas são muito grandes. Elas querem ver, ouvir e acompanhar tudo, mas acordar elas não querem. Assim elas tiveram de sentir a catástrofe e a dor física. Aqui não age o carma e sim o não estar acordado dos membros e a maldade de algumas pessoas. A possibilidade nos foi dada: o Espaço da Palavra estava lá, mas esta só pode viver se seu interlocutor tiver sua contra-imagem no coração, e lá haverá a consciência da palavra, ou seja, quando o homem não apenas se responsabilizar pela ‘Palavra do Mundo’. Este era o sentido da edificação: Palavra e Resposta, Logos e Homem. Em Éfesus tivemos os mistérios da encarnação da Palavra. Éfesus teve de ser destruído para que não fosse usado indevidamente pelas forças contrárias. Aqui ocorreu o contrário. Os deuses olharam com expectativa para o Espaço da Palavra, mas os homens não estavam lá para protegê-lo. Foi dada uma possibilidade, mas a resposta dos homens faltou.

A destruição do Goetheanum foi o acontecimento mais trágico de toda a história do movimento antroposófico e da Sociedade Antroposófica até aquele momento. Não só a ruína física que estava ali à vista de todos e, principalmente de Rudolf Steiner, era preocupante, mas a advertência que nos últimos anos a Sociedade havia estado sem firmeza, acometida também com algo de aspecto ruinoso, simbolizado nas ruínas do edifício. Dez anos e um monte de ruínas. Estas foram as palavras encontradas em seu caderno de anotações de 1923, indicando o estado de sua alma depois do incêndio, mas que não expressaram de modo algum a tragédia que o incêndio representou para ele pessoalmente.

Para dar vida ao edifício, Steiner havia sacrificado parte de suas próprias forças etéricas, que deste modo se entrelaçaram à essência viva do Goetheanum. O incêndio revelou-se um duro golpe ao próprio corpo etérico de Rudolf Steiner. A obra ainda não estava completa, portanto, estava ligada às forças de seu criador.

Friedrich Rittelmeyer relatou que durante aqueles dias Steiner estava como uma grande ferida aberta, e foi a partir desse estado que ele pode voltar à calma translúcida e ao espírito suave com o qual escreveu Minha Vida.

Assya Turguenieff, uma colaboradora, observou que a risada jovial e alegre que muitas vezes clareava os severos traços do rosto do Dr. Steiner, seus movimentos rápidos e leves, seu passo rítmico – ninguém era capaz de andar como ele – nada disto pudemos vivenciar depois da noite do incêndio. Um grande peso pressionava seus ombros. Ele tinha de produzir a força para manter sua postura ereta e fazia muito esforço para caminhar.

Nesse momento de muita dor sua relação com Ita Wegman se intensificou, havendo surgido por parte da médica a compreensão mais exata de quem era Rudolf Steiner, do que ele precisaria e de como ele deveria ser apoiado.

1923 se revelou o ano mais crítico, não só para Rudolf Steiner como também para a Sociedade Antroposófica. Aos 62 anos de idade pensou na possibilidade de afastar-se totalmente e por completo da Sociedade, somente em companhia de alguns poucos discípulos e continuar o seu trabalho em caráter mais privado. Sentia-se como uma quantidade de valor desprezível. Entretanto, decidiu continuar, apesar de sentir que as pessoas queriam exatamente o contrário do que ele sugeria.

Em verdade, Rudolf Steiner já havia manifestado esta possibilidade anteriormente, conforme relato de Marie Steiner, pouco depois da morte dele: Na esteira da guerra, em muitos momentos difíceis – tanto do fracasso diante da luta cheia de ódio dos inimigos, quanto de indiferença frente ao seu fanatismo destrutivo – Rudolf Steiner se pronunciou com freqüência nos seguintes termos: ‘Quem sabe não seria melhor levar o movimento adiante sem a Sociedade?

Rudolf Steiner planejava a reconstrução da Sociedade e deixou isto bem claro 3 semanas depois do incêndio, falando da necessidade de consolidar a Sociedade o mais rápido possível. Porque, em certo sentido, o que faltou ao edifício de Dornach – e isto falou alto e claro para o mundo todo – foi o apoio protetor da Sociedade Antroposófica. Basicamente a Sociedade Antroposófica se esquivou desde o início da construção… A reconstrução só faz sentido se, atrás dela, estiver uma Sociedade Antroposófica cônscia de si mesma, tendo presentes seus deveres. Nas antigas iniciações sempre se conhecera o grau da prova de fogo, e essa prova de fogo fora estabelecida como se visasse a proporcionar-lhe uma iniciação vital.

Com um esforço sobre-humano, Steiner retomou suas viagens para proferir palestras, negociações, reuniões, aconselhamentos e cursos. As viagens e conferências serviam para cumprir a meta de despertar a antiga Sociedade Antroposófica do sono e do marasmo em que se encontrava e de resolver a ineficiência e má administração das várias firmas. Steiner exigiu a supressão de todo o espírito sectarista, o senso pela realidade em todas as esferas da vida e a coragem para enfrentar todas as deturpações da Antroposofia. Para ele o que deveria prevalecer era o caráter espiritual da Antroposofia e não um espírito teórico-didático. Enquanto a Antroposofia não for tomada com um ser vivo, que se movimenta invisível entre nós e perante o qual cada um se sinta responsável, o pequeno grupo dos antropósofos não progredirá como um grupo exemplar.

Prosseguiu com uma intensa atividade de esclarecimento, nos mínimos detalhes, das causas do incêndio junto à polícia e as demais autoridades suíças, negociando pessoalmente com as companhias seguradoras as indenizações que viabilizariam a construção do segundo Goetheanum.

Em agosto de 1923, Rudolf Steiner fez uma viagem a Gales, acompanhado de Ita Wegman, para novas conferências. Naquela região dos Mistérios de Gales a médica teve a oportunidade de ter muitas conversas com ele, falando-lhe de suas aspirações pelos Mistérios, perguntando-lhe, ainda, porque os cursos de Medicina eram dados de forma tão intelectual. Esta foi a pergunta que ele esperou que lhe fosse feita há muito tempo. Haviam-se passados exatos vinte e um anos até aquele dia – três setênios, desde que Rudolf Steiner formulou a frase, em 16 de agosto de 1902: Eu quero construir apoiado sobre a força que me permita levar ‘discípulos do espírito’ ao caminho do desenvolvimento. Uma meta importante e central do desenvolvimento foi alcançada por um verdadeiro discípulo. Confirmou-se a possibilidade do desenvolvimento de uma nova Medicina dos Mistérios, esta devia vir à vida… O mundo espiritual se rejubilou.

Em suas conferências para médicos não-antroposóficos e um público interessado, começou a fazer, então, uma série de exposições sobre a nova arte de curar e expressou com toda a clareza: Especialmente deve-se apontar aqui o Instituto Clínico Terapêutico de Arlesheim, sob a direção da Doutora Ita Wegman, que desenvolve uma atividade especialmente benéfica para esse Instituto, por ter aquilo que eu gostaria de chamar de coragem de curar. Não fora em Dornach ou Stuttgart que surgiu a expressão coragem de curar. Essas palavras foram expressas numa paisagem relacionada tanto com os mistérios de Hibérnia, quanto com a corrente de Micael, em Gales, onde ele tinha acolhido profundamente em si toda a espiritualidade da paisagem do lugar.

A partir de setembro de 1923 Steiner tomou nas mãos o desenvolvimento interior futuro de Ita Wegman, com toda a energia, ensinado-a e preparando-a para aquilo que deveria ser realizado de forma mais elevada.

Durante o restante deste ano formulou cada vez mais claramente a inauguração dos novos Mistérios, que agora se tornavam públicos e manifestos. Muito preocupado em aumentar as forças morais da Sociedade, apresentou de forma enfática a sua missão cultural, demonstrando que esta deveria se tornar um instrumento onde a renovação espiritual da humanidade se concretizasse, não obstante os intensos esforços das potências adversárias. O teor de suas conferências mostrou o resultado de seu trabalho. Todos os níveis até então ainda ocultos se revelavam. Evidencia-se agora o caráter Intuitivo, no despertar e na revelação dos níveis da vontade, é a expressão pública das ‘Bodas Químicas’ (no sentido de transubstanciação da matéria).

Numa série de conferências e palestras sobre Micael, em Viena, local de sua juventude e dos anos de estudante, anunciou que escreveria um livro de Medicina junto com a doutora Ita Wegman. O livro Os Elementos Fundamentais para uma ampliação da Arte de Cura começou a ser escrito no atelier de Rudolf Steiner e todas as noites iniciava o trabalho com a oração Pai Nosso, ao lado da estátua do Cristo.

No Congresso de Natal de 1923, realizado em Dornach, em meio a todos os escombros do incêndio, Rudolf Steiner fundou a nova Sociedade Antroposófica, num ato individual de grande coragem e absolutamente só. Tomou para si o cargo de presidente da Sociedade Antroposófica e sem reservas uniu o seu destino totalmente ao destino da Sociedade Antroposófica Universal num ato esotérico público, vinculando o Movimento Antroposófico à Sociedade Antroposófica. Após vencer graves dúvidas interiores, ergueu-se dentro de mim o conhecimento de que será impossível continuar a dirigir o movimento antroposófico dentro da Sociedade Antroposófica, se esta Assembléia de Natal não concordar com que eu retorne novamente a toda a forma de direção, inclusive a Presidência da Sociedade Antroposófica, a ser fundada aqui em Dornach, no Goetheanum.

Do ponto de vista do oculto, a atitude de Steiner somente é possível quando o princípio do perdão se torna uma realidade no mais nobre sentido cristão. Ao não empurrar a oposição para fora e nem se esquivar, deixando cada um por sua própria conta, Rudolf Steiner uniu-se à oposição. No sacrifício reside todo o esoterismo. Perdoando e acolhendo a todos os membros da recém fundada Sociedade Antroposófica, inclusive os que se opunham a ele, por todos os seus erros passados, inclusive ações e atitudes contra sua pessoa, cujas conseqüências ele suportou externa e internamente, tornou-lhe possível permanecer espiritualmente com essas pessoas, perdoando-lhes sempre que necessário, esperando pacientemente até que, mediante sua liberdade interior, elas adquirissem a consciência da absoluta necessidade da iniciativa espiritual individual para a evolução futura da humanidade inteira. Neste ato de perdão completo e sem reservas pode-se formar a efetiva substância espiritual, o solo moral-espiritual que lhe possibilitou desenvolver o impulso moderno dos novos mistérios cristãos.

Marie Steiner demonstrou a impossibilidade de dar uma descrição do que foi o Congresso de Natal de 1923. Mal se podiam perceber as forças que o impulsionaram. Entretanto, ali se deu a mais enérgica tentativa de um educador da humanidade de erguer seus contemporâneos acima de seu pequeno ego e de fazer um apelo à sua vontade consciente, no sentido de se tornarem um instrumento da sábia direção do cosmos.

Deu-se também a abertura da primeira classe (como de um primeiro ano de uma escola) da Escola Livre de Ciência Espiritual – a Escola Esotérica, centro de atuação da Sociedade Antroposófica. Sua abertura em 15 de fevereiro de 1924 foi precedida por um curso de Introdução à Antroposofia onde estavam presentes muitos jovens e novos membros.

Da nova Sociedade Antroposófica Universal são membros as Sociedades Territoriais e a Escola Superior Livre para as Ciências Espirituais com suas seções ligadas às atividades práticas: seção médica, seção pedagógica, seção de ciências naturais, seção de matemática e astronomia, seção de literatura, seção de artes dramáticas e musicais, seção social e seção de Antroposofia geral.

Além de Rudolf Steiner como presidente dessa Sociedade, foram nomeados Albert Steffen como vice-presidente e diretor de literatura, Marie Steiner como diretora da seção de Artes Dramáticas e Musicais, Ita Wegman como diretora da Seção Médica, Elisabeth Vreede como diretora da seção de Matemática e Astronomia e Gunther Waschsmuth como Secretário e Tesoureiro da Sociedade e dirigente da seção de Ciências Naturais.

Em sua alocução de abertura do Congresso de Natal, Rudolf Steiner apontou claramente para o fato de que o Goetheanum não fora consumido pelas chamas apenas em conseqüência de um ataque inimigo, mas o monte de escombros na colina de Dornach simbolizava num certo sentido, outro monte de escombros dentro da Sociedade Antroposófica e da própria situação do mundo.

Naquela época foi dada aos corações e às almas de todos os verdadeiros antropósofos do passado, do presente e do futuro a possibilidade de depositarem dentro de si a Pedra Fundamental, que estava relacionada com tudo aquilo que já havia começado a viver na Terra através do lançamento da primeira pedra fundamental e da construção do primeiro Goetheanum. Desta vez a Pedra Fundamental foi lançada no coração dos presentes sob a forma de uma meditação, fundando-se os novos mistérios cristãos. E o solo adequado em que precisamos colocar a Pedra Fundamental de hoje, esse solo adequado são os nossos corações, em sua harmoniosa cooperação, em sua boa vontade compenetrada de amor, para transportamos juntos o querer antroposófico, através do mundo para nós.

No Congresso de Natal consumou-se um grande mistério: foi criada a possibilidade do mundo se tornar um templo onde, em toda parte, almas humanas vivam e atuem a partir da força da pedra Fundamental. Esta meditação é um exercício constante para gerar em nós, por caminhos meditativos espirituais, as forças puras do amor em nossa organização trimembrada.

O solo onde foi colocada a ‘Pedra Fundamental’ puderam ser apenas os corações e as almas das personalidades unidas na Sociedade; e a própria Pedra Fundamental, ele mesma tem de ser a mentalidade que brota da configuração antroposófica da vida. ‘Esta mentalidade na maneira como é exigida dos sinais da época presente, é formada pela vontade de encontrar através do aprofundamento humano da alma o caminho para a visão do espírito e para a vida a partir do espírito’

Estavam ali presentes entre setecentas a oitocentas pessoas, algumas como representantes de suas Sociedades Territoriais, e muitas porque o destino as levara até lá. Marie Steiner constatou que aqueles ali presentes não eram os escolhidos, somente foram de fato chamados, mas não estavam à altura do apelo, conforme se evidenciaria mais tarde.

Também, naquele Congresso, Steiner sancionou como um caminho de canto com orientação antroposófica, a Escola do Desvendar da Voz, que tinha na pessoa da senhora Valborg Werbeck-Swärdström sua idealizadora.

Suas exposições passaram a ser relacionadas à atuação de personalidades concretas – sejam elas historicamente conhecidas ou não – que representaram os impulsos espirituais da humanidade nas maneiras mais diversas, em diferentes épocas. Esse tipo de exposição intimamente relacionada ao carma da Sociedade Antroposófica, iniciou-se durante o Congresso de Natal de 1923, destacando os antecedentes espirituais da fundação da nova Sociedade e a ampla dimensão em que Steiner colocava a Sociedade Antroposófica a partir do Congresso.

Os últimos anos de vida – 1924 a 1925

O esgotamento físico de Rudolf Steiner, bem nítido aos olhos de seus colaboradores desde o incêndio do Goetheanum, se agravou repentinamente em 1º de janeiro de 1924, e ele adoeceu gravemente: A mais profunda ação esotérica teria consistido em conseguir que correntes espirituais anteriormente divergentes, pudessem chegar nesse momento, entre alguns de seus representantes, a um acordo harmonioso. Essa teria sido uma missão esotérica que, em comum atuação do Dr. Steiner, pela sua transcendente compreensão, energia e capacidade de amor, poderia ter sido solucionada. Mas nosso carma humano e o carma da Sociedade Antroposófica, abateram-se sobre ele imediatamente após o Congresso de Natal. No último dia, 1º de janeiro de 1924, ele adoeceu gravemente e de súbito. Foi como um golpe de espada, que atingiu sua vida, por ocasião de um chá acompanhado de doces e salgados, assinalado no programa como ‘Rout’. (Marie Steiner)

Steiner subjugou repetidamente a moléstia que se fez sentir na noite de 1º de janeiro de 1924. A imagem de homem saudável deu lugar a de um homem enfermo, sem contudo, interromper suas atividades. Neste ano ele completou 63 anos e foi o último ano completo de sua vida, sendo também um ano de atividade plena.

Num período de 272 dias ele proferiu 338 conferências, 60 alocuções, além de viajar para Paris, Londres, Breslau, Praga, Berna, Arnheim e Torquay. Do ponto de vista da Medicina, ele trabalhava exclusiva e intensamente com a Doutora Ita Wegman, a colaboradora que ele considerava poder fazer valer a Antroposofia na forma correta, em sua área específica – a Medicina.

Ita Wegman percebia aflita, porém impotente, o declínio gradativo das forças físicas de Steiner. Numa carta a Ita Wegman, escrita em 1º de abril de 1924, Rudolf Steiner esclareceu-lhe:

Minha querida Mysa-Ita (a forma como Rudolf Steiner tratava a Doutora Ita Wegman), muitíssimo obrigado, de coração pela amorosa carta, que me deixou muito contente. Espero que minha querida Mysa esteja bem. Por favor, não tenha mais preocupações pelo meu estado; eu me cuidarei de verdade, tanto quanto seja possível. Até agora tudo pôde ser superado. Há muito para ser feito.

Naquela época, tal como hoje, muitos antropósofos especulavam sobre a natureza de sua doença. Para alguns, Steiner permitiu saber em que direção eles deveriam pensar – e esses entenderam imediatamente. Entre essas pessoas estava, o escocês Daniel Dunlop, que se encontrou com ele em Torquay no sul da Inglaterra, em agosto de 1924: Algumas semanas ainda antes de sua última doença, durante o curso de verão de Torquay, eu falei da minha preocupação pela sua saúde física. Com firmeza, mas com infinita amabilidade, ele me levou para o lado e me chamou a atenção de que não deveriam ser empregadas idéias comuns sobre enfermidades para o seu estado. Com estas poucas palavras abriu-se para mim muito mais do que estava contido no significado imediato delas.

 

Numa carta a Marie Steiner, em outubro de 1924, ele escreveu:

‘Minha querida Marie, eu lhe contei há algum tempo que desde janeiro de 1923 a conexão dos membros constitutivos superiores de meu ser com meu corpo físico já não estava mais completa: em minha vida nos reinos espirituais, eu, em certo sentido, perdi a conexão direta com meu organismo físico.’

A fraqueza física e o excesso de trabalho não foram capazes de abater Rudolf Steiner, que se mostrava pleno de possibilidades espirituais, chegando até a manifestar que sentia como se recebesse uma retribuição do mundo espiritual, como uma compensação do destino pela perda sofrida pela Antroposofia, com o incêndio do Goetheanum.

O ponto central de suas conferências é a consideração sobre o destino humano, retomando assim suas intenções mais genuínas. Com toda intimidade e soberania, Steiner sentia que era possível revelar os resultados concretos de sua pesquisa cármica e do destino humano a um público que agora o escutava atentamente, conseguindo tornar realidade o que outrora, em conseqüência de oposições que vigoravam, não pudera ser iniciado com a intrepidez necessária. Não mais se tratava de ensinamentos gerais, agora era possível falar abertamente sobre as relações na vida terrena, pois isto tem a ver com o mistério desvelado de Micael… O fato novo é que os demônios, que antes não permitiam que se falasse das coisas, agora devem silenciar.

Seu curso para jovens médicos no início de 1924 assumiu um tom inteiramente novo, apoiado na natureza própria do homem. A Euritmia ganhou sua síntese e seu coroamento com grandes cursos de fevereiro a junho – Euritmia Musical e a Euritmia como Linguagem visível.

Dois importantes impulsos se concretizaram ainda em 1924, mais uma vez vindo de solicitação externa:

1- A Pedagogia Curativa – que surgiu da iniciativa de jovens estudantes universitários de Jena, na Alemanha, que trabalhavam com crianças psicopatas. Steiner deu conselhos sobre quais cuidados elas deveriam receber: O que é preciso em primeiro lugar para a educação dessas crianças? Não o peso do chumbo, mas humor, humor verdadeiro, humor vital!

O trabalho da Pedagogia Curativa é subordinado à Seção Médica e corre de mãos dadas com a Euritmia Curativa. Na Escócia, na Inglaterra e na África do Sul o Doutor Karl Köning criou o movimento pedagógico-curativo ‘Camphill’. Na Suécia formou-se um centro perto de Estocolmo com três sedes. Atualmente, existem mais de seiscentas instituições para crianças, jovens e adultos com distúrbios de desenvolvimento, deficiência física e mental e distúrbios comportamentais. Hoje são cerca de sessenta centros de formação em Pedagogia Curativa.

2- A Agricultura Biodinâmica – O Conde Carl Keyserlingk formulou uma série de perguntas a Rudolf Steiner sobre a Agricultura, solicitando-lhe que realizasse um curso para agricultores. Então, na primavera de 1924, Rudolf Steiner, já debilitado fisicamente, pronunciou um ciclo de palestras na casa do Conde, em Koberwitz, Polônia, para  fazendeiros, donos de terras, interessados e negociadores de terras de todas as partes da Europa. O objetivo era promover uma atitude de agricultura na qual a terra e a natureza não fossem limitadas como um mero objeto de exploração financeira.  As conferências consideraram um novo método biodinâmico  de cultivo para produzir colheitas sadias, prevenindo erosão do solo, combate à poluição e redução de doenças nas plantas e animais, com a eliminação de venenos industriais e fertilizantes sintéticos.

Junto com o curso de Agricultura, que aconteceu de 6 a 17 de junho de 1924, realizou-se o Congresso de Pentecostes em Breslau, à noite. Neste Congresso Steiner deu um ciclo de conferências sobre o carma, que ganhou um cunho especial pela intimidade com que ele se dirigia às forças humanas do coração. Encontrou tempo para se juntar a um grupo de jovens da Silésia, uma zona industrial entre a Polônia e a República Checa, ouvindo com o coração suas questões e preocupações sobre a vida; encorajando-os e, com sua linguagem imaginativa, abrindo-lhes os olhos da alma para o feito luminoso de Micael, o condutor da humanidade, através de duas aulas proferidas.

Pela manhã de cada dia, ele voltava de trem à Koberwitz para falar ao público que lá o esperava. Nem todos eram agricultores, alguns eram penetras, como dizia Rudolf Steiner. Jovens que, com sua bondade e generosidade, ele permitia que participassem, imaginando que aquela participação pudesse influenciar o destino de um ou outro. Era visível a satisfação e a felicidade dele naquela atmosfera campestre, falando de uma maneira que tocava o coração, dizendo que ele próprio queria estar totalmente ligado à recém fundada sociedade de agricultores profissionais antroposóficos. Surgia para o agricultor um caminho voltado ao espírito, que conduz à compreensão proveniente da região espiritual pela criação e pelo trabalho.

Steiner estava completamente entusiasmado por mais essa iniciativa: Acabamos agora de dar um grande passo adiante.

Ocupou-se ainda dos cursos de formação de professores, formação esotérica dos médicos, Arte da Fala e Arte Dramática, de colaboração profissional entre médicos e sacerdotes, de aprofundamento esotérico para os sacerdotes, e do curso sobre os desvios patológicos dos estados de consciência (A Consciência Iniciática) e de conferência sobre a Antroposofia, ministradas em Praga e Paris. Ainda encontrou tempo para publicar, no período entre 20 de janeiro e 10 de agosto de 1924, no Boletim de Notícias da Sociedade Antroposófica, dezoito cartas aos membros. A Antroposofia somente pode prosperar como algo vivo. Porque a característica fundamental de sua natureza é vida. Ela é vida jorrando do espírito… A forma primordial em que ela pode aparecer entre seres humanos é a idéia: e o primeiro portal a que se dirige no ser humano é o juízo. Não fosse assim, e ela não teria conteúdo. Seria apenas exaltação de sentimento. Mas o espírito verdadeiro não se exalta, fala uma linguagem concisa e substancial. Steiner buscava sempre referendar a intenção espiritual do Congresso de Natal, certificando-se se aqueles impulsos estavam sendo aceitos na Sociedade Antroposófica.

Em setembro de 1924 viajou à Inglaterra, sendo esperado em Dornach, no seu retorno, por mais de mil pessoas, entre elas médicos, atores e teólogos, aos quais havia prometido cursos especiais. Embora já estivesse sofrendo seriamente com a doença, reuniu todas as promessas feitas e durante três semanas falou sobre o Apocalipse de João e deu para médicos e pastores um curso sobre medicina pastoral. Ministrou, ainda, um curso para os operários que participavam da reconstrução do Goetheanum.

Em 28 de setembro de 1924, véspera de Micael, sugeriu que ainda não havia um número suficiente de pessoas que tinham acolhido os impulsos espirituais. É a sua Última Alocução aos membros. Irá vigorar o carma, foi sua resposta à indagação que a Doutora Ita Wegman lhe fizera sobre o que aconteceria se os impulsos não fossem acolhidos pelas pessoas.

Prokofieff demonstra que tal sacrifício somente pode ser superado quando as pessoas abrem seus olhos ao ‘conhecimento’ das verdadeiras realidades do mundo espiritual, que virá como parte de um processo de desenvolvimento ainda maior de uma atividade interior de suas almas, orientadas espiritualmente. Até então, os discípulos iniciados e os mestres espirituais, suportarão a pesada cruz do sofrimento e do perdão pelo tempo necessário, esperando pelas pessoas ‘que ainda não sabem o que fazem’. E a Sociedade ainda não tinha acolhido os impulsos espirituais em si.

Marie Steiner comentou que em setembro se poderia ter chegado à possibilidade de começar com a segunda classe da Escola Livre de Ciência Espiritual, se a onda de sócios que chegava a Dornach não tivesse sido tão avassaladora, necessitando de toda a atenção, assim como o necessitavam as exigências espirituais e a receptividade dos recém-vindos. …havia tantos desejos pessoais a contentar, que foi impossível impedir a exaustão física total do Mestre e Doador.

Rudolf Steiner encontrava-se completamente exausto. Sua enfermidade praticamente impedia a alimentação do seu corpo enfraquecido. A sobrecarga pessoal lhe roubou as últimas reservas de força física e, a partir de 29 de setembro de 1924, viu-se obrigado a renunciar a qualquer atividade entre os sócios, permanecendo acamado, no máximo isolamento. A marcenaria, onde funcionava seu atelier, foi transformada em um quarto de enfermo e sua cama posta ao pé da inacabada estátua do Cristo. A Doutora Ita Wegman se responsabilizou pelos seus cuidados e tratamento, juntamente com o Doutor Ludwig Noll, um médico de Stuttgart, contra a vontade de Steiner.

De seu leito continuou o trabalho, dedicando atenção especial à reconstrução do Goetheanum, planejado em novas formas e feito de concreto armado, um material inovador nas construções à época. Rudolf Steiner amava o ruído vigoroso de marteladas e armações que do canteiro de obras do Goetheanum vinha penetrando a tranqüilidade de seu quarto de doente e lhe anunciava o progresso da construção.

Começou a escrever As Máximas Antroposóficas, que se reuniriam num volume sob o título Mistério de Micael, concentrando ali tudo o que ele tinha a dizer sobre a orientação espiritual da humanidade. Chamou a atenção para o fato de ser Micael o dirigente de nossos tempos, que educa a humanidade para ser livre, crendo no seu futuro, não desejando ver essa humanidade entregue às suas fraquezas, mas sim a um esforço supremo. Steiner adverte que somente em ligação com Micael a humanidade conseguirá superar as forças contrárias que ameaçam a sobrevivência da civilização, revelando-se o mistério da luta contra o dragão.

Temos de erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer ao homem.
Temos de adquirir serenidade em todos os sentimentos e sensações a respeito do futuro.
Temos que olhar para frente com absoluta equanimidade para com tudo que possa vir.
Temos que pensar somente que tudo o que vier nos será dado por uma direção mundial plena de sabedoria.
Isto é parte do que temos de aprender nesta era, a saber: viver com pura confiança, sem qualquer segurança na existência; confiança na ajuda sempre presente do mundo espiritual.
Em verdade, nada terá valor se a coragem nos faltar.
Disciplinemos nossa vontade e busquemos todas as manhãs e todas as noites, o despertar interior.

Elementos Fundamentais para uma Ampliação da Arte de Curar Segundo os Conhecimentos da Ciência Espiritual, o livro que escrevia em conjunto com a Doutora Ita Wegman foi interrompido antes de completar-se, mas foi publicado. Seu objetivo era reunir as primeiras indicações conceituais e práticas para o exercício de uma arte médica ampliada.

Na primavera de 1924 ele já havia começado a escrever sua autobiografia como uma maneira de invalidar as acusações infundadas às quais esteve duramente exposto, não sofrendo nenhuma interrupção durante a doença. Os relatos vinham sendo publicados semanalmente e todos os fascículos recebiam de sua mão o adendo ‘Segue’. De maneira curiosa, o manuscrito que ele enviou na última semana de março de 1925 não continha o adendo.

Seu estado de saúde se agravou muito no final do ano de 1924, à época do Natal. Os antropósofos chegavam a Dornach para estar pelo menos fisicamente, próximos de Rudolf Steiner, mas as visitas não eram mais permitidas. Somente umas poucas pessoas tinham acesso a ele: Marie Steiner, Albert Steffen e Günther Wachsmut. Mesmo muito debilitado escreveu uma longa carta em 30 de dezembro, agradecendo a atenção de todos e especialmente a dedicação da Doutora Ita Wegman: O que a Doutora Wegman faz em fiel assistência… Sempre permanecerá, diante dos médicos, como exemplo luminoso da atuação do amor médico.

Três meses depois pela manhã, Rudolf Steiner faleceu em seu Atelier em Dornach – Suíça. Novamente era uma segunda-feira, 10 horas da manhã, 30 de março de 1925.

Conforme relato da Doutora Ita Wegman, A partida foi como um milagre. Ele foi embora como se fosse algo natural. Para mim foi como se, no último momento, tivessem sido jogados os dados da decisão. E, quando eles caíram, não havia mais luta, nenhuma intenção de ficar na Terra. Ele olhou calmamente por algum tempo para frente, disse-me algumas palavras carinhosas e com toda a consciência, fechou os olhos e ajuntou as mãos.

Era a época da Paixão, mas já se anunciava a festa da Ressurreição. A notícia de sua morte foi um imenso golpe e de todos os lados as pessoas chegavam com olhares que revelavam uma enorme tristeza. A Sociedade e a Escola Superior perderam sua cabeça em um instante quando tudo havia sido fixado, mas nada levado a cabo. Agora, aprendizes e oficiais tinham de mostrar com força própria o que haviam aprendido do Mestre.

 

 

 

 

 

 

 

 

‘Que seja para o bem.’

Referências:

 

Além das biografias e estudos, existem dezenas de outros livros e sites sobre a vida de Rudolf Steiner:

 

CALLEGARO, Bruno. Momentos de um Caminho. Reflexões sobre a Vida de Rudolf Steiner. Editora João de Barro; 2007. 152 pg.

HEMLEBEN, Johannes. Rudolf Steiner. Editora Antroposófica; 1989. 185 pg.

MEYER, Rudolf. Quem era Rudolf Steiner. Editado pela Associação Pedagógica Rudolf Steiner; 1969. 211 pg.

STEINER, Rudolf. Minha Vida. A narrativa autobiográfica do fundador da Antroposofia. Editora Antroposófica; 2006. 389 pg.

WILSON, Colin. Rudolf Steiner: El hombre y su visión: una introducción a la vida y a las ideas del fundador de la Antroposofia. Ediciones Urano, S.A.; 1986. 199 pg.

 

Na vida real o amor é o maior

poder de conhecimento.

 

  • Kraljevec – Croácia 27 de fevereiro de 1861
  • Dornach – Suíça 30 de março de 1925

ANA MARIA LUCCHESI CUNHA VASCONCELOS

Escola Livre de Estudos Biográficos Minas Gerais – Juiz de Fora

Formada pelo grupo I

RUDOLF STEINER

 

A Biografia de um Ser Humano Livre

 

‘Vidas não podem ser fielmente registradas em papel, sobretudo aquelas que merecem ser recontadas. Mas, se cabe ao escriba, honesto em seu propósito, a missão de relatar uma vida, o relato inevitavelmente, desfigurado e incompleto, consistirá na soma de várias histórias.’

Esta biografia fala de um iniciado cristão dos tempos modernos – um mestre espiritual, representante da corrente central do esoterismo cristão, cuja missão foi preparar a Terra, para que outros pudessem lançar a semente.

Rudolf Steiner foi um dos maiores pensadores e iniciados do século XX, doando ao mundo a Antroposofia – a sabedoria do Homem, a Ciência Espiritual que ele fundamentou a partir de suas próprias vivências, no início como ‘manifestação por obra de graça’ e a partir dos 18 anos de idade como uma disciplina conscientemente aplicada ao próprio interior. Constante foi o seu esforço para fazer da Antroposofia um trabalho espiritual útil e positivo, reconhecido e aprovado como um movimento científico-espiritual.

Apontou para a humanidade um caminho de autodesenvolvimento adequado ao homem moderno, tornando possível a concretização dos impulsos do mundo espiritual em conseqüências práticas no mundo exterior através da pedagogia, da arte, da Medicina, da agricultura e muitos campos de atividade.

Rudolf Steiner é o primogênito de um modesto casal de austríacos. Seus pais provinham de uma região de florestas ao norte do Danúbio, intocada pelos ventos da modernidade que começavam a soprar. Seu pai, Johann Steiner havia sido caçador a serviço do Conde De Hoyos, em Horn, na Baixa Áustria, onde conheceu Franziska Blie, uma mulher calma e silenciosa. Para se casar com Franziska, Johann assumiu o cargo de telegrafista na recém inaugurada ferrovia do sul da Áustria, favorecendo ao pequeno Steiner um ambiente bastante moderno para aqueles tempos, a partir de sua profissão.

Johann Steiner foi transferido para Kraljevec, situada na fronteira húngaro-croata, num lugar bem distante de sua região natal. É nessa cidade, numa segunda feira, 27 de fevereiro de 1861, que nasceu Rudolf Steiner. O bebê era muito chorão, necessitando ser sempre ninado no colo, em volta da casa, para que se acalmasse e não incomodasse tanto os vizinhos com seus gritos.

Quando completou 1 ano e meio de idade iniciou-se para Rudolf Steiner o que podemos chamar da perda de suas raízes e pátria: mudou-se de seu lugar de nascimento e as mudanças não pararam mais. Johann foi novamente transferido, desta vez para Mödling, perto de Viena e seis meses mais tarde, mudou-se com a família para Pottschach, próximo à fronteira estíria. Neste lugar Rudolf Steiner viveu até a época dos 8 anos de idade e viu chegar ali sua única irmã, Leopoldine (1864 – 1927), e Gustave (1866 – 1941), seu irmão mais novo, que era um menino bem alegre, surdo-mudo de nascença, de quem Rudolf Steiner se ocupou desde cedo. Depois disso a família não cresceu mais.

Os pais de Rudolf Steiner tinham poucos recursos materiais, morando sempre em casas pertencentes às estações de ferro onde o pai trabalhava. No entanto, Johann e Franziska dedicavam o pouco que possuíam ao bem estar de suas crianças. Johann era agnóstico, extremamente trabalhador e sua única distração era se ocupar com os assuntos da política. Franziska era uma mulher inteiramente dedicada às tarefas domésticas e aos cuidados carinhosos com os filhos. A família falava o dialeto alemão da Baixa – Áustria oriental, usual nas regiões da Hungria.

A paisagem natural que cercou o ambiente da infância de Steiner era deslumbrante, cercada por verdejantes montanhas. Tudo era sublime natureza e reinava no lugar uma grande tranqüilidade! De vez em quando os trens se encarregavam de dar aquele lugar um pouco de movimento, colocando o menino em contato com o elemento mecânico traduzido em tudo o que dizia respeito à estação ferroviária.

O ambiente educacional naquela época era desanimador, tendo o menino ficado bem pouco tempo na escola em que foi matriculado. Seu pai logo o tirou dali, em razão de um incidente com o filho do Mestre – Escola e se encarregou pessoalmente de ensiná-lo. Rudolf Steiner aprendeu a ler cedo, mas a escrita era uma atividade pela qual o menino não tinha muitos interesses. Naquele ambiente de trabalho do pai, interessava-o muito mais observar todas as atividades práticas que o pai executava do que se envolver com aquilo que ele lhe ensinava. Fazia logo suas obrigações, para se ver livre das mesmas e observar atentamente todas as manifestações das leis da natureza e da mecânica.

Steiner era uma criança introspectiva, silenciosa, de índole compassiva perante as pessoas e à natureza. Era um menino clarividente, percebendo por detrás de todas as coisas e seres um mundo que não se revelava aos olhos de ninguém de sua convivência.

Desde cedo começou a ter experiências interiores que marcariam sua vida dali por diante. As vivências com as quais se deparava levaram-no a cada vez mais silenciar sobre elas. Dentro da criança reinava a convicção de que não adiantaria em nada esclarecer com os adultos o que ele via, porque se tratava de algo que ninguém em torno vele percebia. O ambiente que reinava à época era de um catolicismo pragmático desprovido de qualquer conteúdo interior, presente apenas como tradição histórica e em sua própria casa não encontrava estímulo algum quanto a essa sua relação com os assuntos do mundo espiritual, levando-o a se sentir completamente estranho em seu próprio meio. Portanto, desde muito cedo se acostumou ao silêncio e à solidão.

Com 7 anos de idade Rudolf Steiner se encontrava sozinho numa sala da estação ferroviária perto de um fogão à lenha, quando viu abrir-se a porta e entrar por ela uma mulher que lhe disse algumas palavras, fez alguns gestos e depois se encaminhou até o fogão e desapareceu dentro dele. Sabia não se tratar de um seu humano corpóreo, no entanto guardou segredo sobre essa experiência porque sabia não encontrar ninguém de seu meio com a mínima compreensão para o que todos consideravam ser somente uma superstição. Se contasse sobre o acontecimento ao pai sabia, com certeza, que ouviria as reprimendas mais amargas e seria alvo de terríveis chacotas. Mais tarde sua família foi informada que uma tia havia se suicidado, num lugar longe dali. O pai nada comentou com ele, mas o menino não teve dúvidas de que aquele episódio se tratou da visita, em espírito, da pessoa que havia se suicidado e que o havia encarregado de fazer algo por ela após sua morte.

A partir desse acontecimento, iniciou-se para o menino uma vida na alma em que se manifestam os mundos dos quais não só falam as árvores, as montanhas, mas também os mundos que se encontram por trás delas. Desse momento em diante o menino vivia com os espíritos da natureza que podiam ser especialmente percebidos naquela região.

Esta é umas das qualidades da iniciação rosa-cruz, vivenciada a partir da condição de vida e da biografia.

Em mais um transferência de seu pai, Rudolf Steiner, aos 8 anos de idade, muda-se com a família, para Neudörfl, uma pequena aldeia húngara, situada na fronteira com a Baixa – Áustria. A região é formada por rios, montanhas, florestas e colinas ao leste e ao sul, favorecendo ao menino o desenvolvimento de sua capacidade de observar a natureza, outra qualidade da iniciação rosa-cruz.

O dia na aldeia era preenchido com a ida à escola, a colheita de frutos na floresta e longas caminhadas para buscar água gaseificada numa forma de contribuir com os afazeres domésticos e colaborar para enriquecer tanto o almoço, quanto com o jantar da família, que normalmente se compunha de um pedaço de pão com manteiga e, às vezes, um pedaço de queijo.

Rudolf Steiner era de pouquíssimas amizades com outras crianças de sua idade, passando horas vagando solitariamente nas florestas das redondezas, em contato com os aldeões adultos que ali buscavam lenha ou observando passar a sua frente monges redentoristas que nem lhe dirigiam a palavra, mas que lhe causavam uma grande curiosidade em relação ao que eles faziam.

Quando entrou para a escola em Neudörfl, o menino já sabia ler, porém tinha grandes dificuldades com a escrita: Rudolf Steiner arredondava todas as letras, ignorando as linhas de cima, escrevendo as palavras desconsiderando a ortografia, lançando mão da musicalidade da língua. Para escrever sentia-se compelido a fixar as imagens verbais em fonemas, da mesma forma que ele ouvia as palavras do dialeto que falava, tornando-lhe muito difícil encontrar um acesso para a escrita da língua.

Para ajudá-lo nessa dificuldade o mestre – auxiliar lhe dá aulas particulares em seu quarto, onde possui uma pequena biblioteca. Rudolf Steiner desperta um especial interesse pelo livro de Geometria de Franz Monik, tomando-o emprestado, começando a estudá-lo sozinho, com afinco e entusiasmo.

O fato de se poder presenciar animicamente o desenvolvimento de formas a serem observadas de maneira puramente interior, sem impressão dos sentidos externos, proporcionou-me imensa satisfação. Nisto eu encontrei consolo para a disposição anímica que me resultara das questões não respondidas. Poder compreender algo puramente no espírito trazia-me uma felicidade interior. Sei que na Geometria eu conheci a felicidade pela primeira vez.

Sua alma ficou plenamente preenchida pela congruência, pela semelhança dos triângulos, quadriláteros, pelo teorema de Pitágoras e pela questão sobre onde se interceptariam as paralelas? Encontrou na Geometria uma espécie de espaço anímico, dando-lhe o modelo pelo qual se pode ter em si mesmo o conhecimento do mundo espiritual.

Este professor também trouxe ao pequeno Steiner a vivência do elemento artístico, lhe ensinando a desenhar com lápis carvão e colocando-o em contato com o violino e o piano, instrumentos que o mestre tocava. O menino ficava junto do professor todo o tempo que podia. Seu nome era Heinrich Gangl.

Recebeu através do pároco responsável pelo ensino religioso, Franz Maráz, a explicação do funcionamento do sistema cósmico copernicano, deixando na alma do pequeno Steiner uma impressão que marcou de modo exemplar sua orientação espiritual posterior. A criança ficou inteiramente cativada pelo assunto.

Com a idade de 10 anos, Rudolf Steiner, o pequeno solitário e de natureza observadora, ainda não sabia escrever corretamente, mas já cultivava dentro de si uma vontade silenciosa e reta de apoderar-se dos acontecimentos a partir da inteligência e da compreensão.

Para que pudesse ingressar no curso ginasial, foi necessário a Steiner realizar uma prova de admissão para a Escola Real, que ficava em Wierner-Neustadt, do outro lado do rio que cortava sua aldeia. A Escola tinha o caráter mais técnico, porque Johann, o pai de Rudolf Steiner, previa para o filho a profissão de Engenheiro. Mesmo não tendo sido aprovado com brilhantismo, ingressou nessa escola em outubro de 1872, com 11 anos de idade.

Cabe ressaltar que para Steiner pouco importava estudar numa escola clássica ou numa escola técnica. O que atuava dentro dele naquela época era um forte desejo de encontrar as respostas para as perguntas que ele carregava dentro de si.

Para ir para a Escola Real, Rudolf Steiner valia-se do trem que partia de manhã de sua aldeia para Wierner-Neustadt, porém na volta não havia mais horários de trens, sendo obrigado a voltar a pé, num percurso que demorava uma hora e meia. No verão o trajeto era de pura natureza, não se podendo dizer o mesmo da paisagem quando era inverno: a neve chegava a bater na altura dos joelhos. Mais tarde ele atribuiu a esse grande esforço físico a oportunidade de fortalecer sua saúde.

O menino acostumado a uma pequena aldeia, não se sente nem um pouco à vontade naquela cidade de casas apertadas umas contra as outras. Porque não morava ali, não lhe sobrava tempo para fazer amizades, sobrando-lhe apenas poucos momentos em que gastava, solitariamente, observando as vitrines no caminho de volta para casa. Nas horas do almoço era acolhido por uma amiga da família que lhe dava de comer gratuitamente e o acolhia sempre que necessário.

Ainda sentia muitas dificuldades em acompanhar as aulas, com exceção de Matemática, Física, Química e Geometria Descritiva, achando a maioria das aulas exageradamente monótonas. Para compensar toda a sua dificuldade de aprender, ele começou a estudar sozinho em livros de matemática e física, que ele mesmo comprava.

Aos 13 anos encontrou na pessoa do professor de Aritmética e Geometria alguém a quem poderia seguir como um ideal de ser humano. O professor lhe ensinava de uma forma tão ordenada e clara, que despertou em Steiner os entendimentos necessários para compreender a Matemática e muita coisa mais que ele ainda não conseguia compreender. Era altamente benéfico ao pensar poder acompanhá-lo.

Empenhando-se em harmonizar o que assimilava pela Matemática, Física e Desenho Geométrico, com o conteúdo que ele trazia dentro de si, buscava encontrar a forma de responder à pergunta: Como se pode abrir para o pensar o mundo do espírito?

Sentia que somente se aproximando da natureza poderia se posicionar perante o mundo espiritual que se encontrava em evidente manifestação diante dele. A adequada vivência do mundo espiritual por meio da alma somente aconteceria quando o pensar adquirisse uma configuração capaz de aproximar-se da essência dos fenômenos da natureza. E, ordenando tudo o que aprendia para se aproximar de sua meta, tornava-se cada vez mais, um aluno exemplar.

O jovem empenhado em elucidar as questões não resolvidas trazidas dentro de si, nunca abdicou de desempenhar as tarefas da vida cotidiana. Aprendeu a encadernar seus próprios livros escolares, a estenografar, e ocupando-se dos afazeres de sua casa, ajudando em tudo que fosse possível e que o tempo lhe permitisse: junto com seus irmãos encarregava-se de replantar os canteiros, cultivar o pomar e ainda arrumava tempo para cuidar sozinho, e com prazer, da tarefa das compras alimentícias para a família, na aldeia. Mais tarde, quando adulto, entendia que devia aquilo do que era capaz ao fato de ter aprendido em criança a sempre lustrar, ele mesmo, os seus sapatos.

Para Steiner, o conhecedor do mundo supra-sensível deve saber como se encontrar de maneira prática na vida, não devendo refletir sobre a vida quem não está inserido nela de forma prática. Por toda sua vida lutará incansavelmente para que o conhecimento do supra-sensório não seja algo meramente que atenda à necessidade teórica, mas sim à verdadeira vida prática.

A partir dos 14 anos de idade, o aluno com grandes dificuldades de aprendizagem se transformou, sendo indicado por seus professores a colegas de sua classe ou alunos mais novos, para ministrar-lhes aulas particulares, encontrando dessa forma um modo de minimizar as despesas que seus pais tinham com sua educação. Foi uma oportunidade para estudar e aprender mais e mais sobre as matérias que ensinava, observando ainda bem novo, as dificuldades da evolução da alma humana.

Aos 15 anos de idade reencontra-se em Wierner-Neustadt, com Carl Hickel, um médico que ele conhecia quando menino, podendo freqüentar sua biblioteca.  O médico se tornou para Steiner o seu professor particular de literatura poética, mostrando-lhe que o mundo era belo, dando-lhe a oportunidade de experimentar um universo diferente daquele que encontrava tanto em sua casa quanto na escola.

Em torno dos 16 anos, numa de suas observações das vitrines das livrarias, Rudolf Steiner adquire um livro de Immanuel Kant – A Critica da Razão Pura. Naquela época ele não tinha a menor idéia da posição espiritual que o filósofo ocupava na história. Seu interesse pelo conteúdo do livro dizia respeito ao que ele desejava compreender dentro de si. Entretanto, o jovem adolescente não tinha tempo disponível para ler o livro, levando-o a buscar a seguinte solução: como as aulas de história eram muito enfadonhas ele inseriu dentro do livro da matéria as folhas do livreto de Kant, podendo ler sossegadamente o filósofo enquanto a aula era ministrada em sala de aula. Steiner lia Kant continuadamente, até vinte vezes a mesma página, para entender como o pensar humano se situava diante do criar da natureza. Queria educar em si a atividade pensante de forma que todo pensamento fosse inteiramente visível, sem a interferência dos sentimentos.

Além do empenho em estudar Kant, adquiriu vários manuais da língua grega e latina, como uma maneira de estudar as matérias que não eram ministradas no seu curso técnico, tornando-se um jovem autodidata e pesquisador de todas as impressões que vinham em sua direção.

Concluiu seus estudos do ensino médio aos 18 anos de idade, em 1879. Encerrou esta etapa com uma prova oral onde explicou o funcionamento do telefone pela física e recebeu seu diploma de Bacharel com nota exemplar no seu comportamento moral.

Os anos de estudo em Viena – 1879 a 1890

Para que Rudolf Steiner pudesse prosseguir seus estudos superiores, seu pai pediu transferência para a estação de ferro de Inzersdorf.  A família muda-se em agosto de 1879, para Oberlaa. Ficaram para trás todos os encantos naturais da paisagem que rodeou a infância e adolescência de Steiner, indo a família morar num canto triste e solitário na periferia de Viena.

A cidade já havia se tornada cosmopolita e moderna, sem os vestígios da Idade Média, escutando-se aqui e ali tons dissonantes que provocavam o despertar da consciência junto com a aurora da nova época.

 

Antes da entrada na Academia Politécnica de Viena, Steiner aprofundou sua pesquisa filosófica, dedicando-se a estudar Fitche, Schelling e Hegel. Foi no estudo de Fitche que lhe foi revelada uma realidade ativa e espiritual. Reescreveu a teoria científica de Fichte, empenhando-se por encontrar o caminho do Eu até a natureza. Para Steiner o Eu humano era o único ponto de partida para um verdadeiro conhecimento.

Sua matrícula na Academia Politécnica foi decidida em função de um estudo que lhe garantisse um ganha-pão, optando, então, pelo magistério científico, com ênfase em Matemática, História Natural e Química.  Reconhece que foram esses conteúdos que lhe deram uma base segura para uma concepção espiritual do mundo, mais que a História e a Literatura que não tinham um método determinado e nem perspectiva no contexto científico alemão daquela época.

Continua dando aulas particulares e estuda graças a uma bolsa de estudos conseguida pelo pai. Na Academia tem aulas de Literatura Alemã, ministrada por Karl Julius Schröer, um pesquisador de Goethe, que ensinava de um modo caloroso e entusiasmado. Através desse professor Steiner é conduzido ao espírito da época de Goethe, sendo incentivado à leitura de Fausto, a obra-prima do filósofo alemão. O professor se tornou um protetor e amigo paternal, sendo esse um encontro decisivo na vida de Steiner.

Ansioso por conhecimento e de natureza muito observadora, Steiner ainda consegue tempo para frequentar toda a sorte de palestras e aulas dos mais variados temas na Universidade de Viena tais como: medicina, pedagogia, psicologia e artes. Buscava encontrar uma forma de esclarecer a questão de como se relacionariam o mundo físico e o mundo espiritual, naquela época de grande materialismo científico e filosófico.

Freqüenta como aluno-ouvinte as palestras de filosofia de Schröer, Robert Zimmermann e Franz Brentano, não lhe sendo fácil assimilar que aquela Filosofia que ele estudava não poderia, no pensamento daqueles filósofos, ser conduzida até a visão do mundo espiritual.

Nesse momento de sua vida, empenha-se em ampliar o seu mundo social, aprofundando-se, para isto, na vida estudantil de Viena. Tudo o que lhe acontecia em volta não lhe passava despercebido, observando as complicadas relações humanas que se desvendavam ante seus olhos.

No entanto, não permitia que ninguém percebesse o que acontecia dentro de si, demonstrando possuir uma força anímica e uma saúde física capaz de suportar toda e qualquer solidão. Estava convicto que sua visão da realidade espiritual deveria ser embasada pelo pensamento científico, e através da Filosofia, busca uma forma concreta de adentrar o, caso contrário, aos olhos dos outros, o jovem talentoso, cujas faculdades de clarividência não lhe davam dúvidas sobre o que existia por detrás e acima do mundo sensorial, demonstraria apenas ser um enfermo da alma.

Para fortalecê-lo em sua meta, duas personalidades são colocadas no caminho de Steiner, como fatos biográficos tramados pelo destino. O primeiro encontro se dá no trem para Inzersdorf, quando ele tinha 18 anos de idade. Era um homem simples do povo, que colhia ervas nas montanhas e as vendia nas farmácias de Viena, de nome Felix Koguzki. Era um iniciado nos mistérios da atuação de todas as plantas e de suas conexões com o cosmo e com a natureza. Para Rudolf Steiner foi difícil, no início, compreender o colhedor de ervas, mas desde o seu primeiro contato teve a mais profunda simpatia por aquele homem. Sentia que o aquele homem falava era influenciado por uma vida anímica de grande sabedoria criativa, trazendo-lhe um grande conhecimento instintivo da Antiguidade. Com Felix, Steiner sentia que se podia falar do mundo espiritual com alguém que tinha experiência dele. Percebia, ainda, que Felix era apenas o órgão fonador para um conteúdo espiritual que queria lhe falar de mundos ocultos.

Rudolf Steiner nunca mencionou o nome dessa pessoa, referindo-se a ele de maneira muito afetuosa em sua biografia. Um antropósofo esclareceu o segredo daquele homem simples. Ele foi fundamental para o caminho interior e o destino de Rudolf Steiner, tendo seu caráter e sua individualidade sido descritos por Steiner em seus ‘Dramas de Mistério’ na figura de Felix Breve.

Mais tarde, num relato a Edouard Schuré, um poeta e teósofo francês seu amigo, Steiner lhe disse que Felix fora apenas o enviado do mestre, que ele ainda não conhecia, mas já o observava à distância e viria a ser seu iniciador. Steiner nunca fez nenhum comentário sobre a identidade pública desta outra personalidade, mencionando-o apenas como aquele homem excepcional e insignificante na profissão exterior. Uma das condições para ser um Mestre é permanecer incógnito.

Ainda, de acordo com Schuré, não foi difícil para o Mestre completar a primeira iniciação espontânea em seu discípulo, Rudolf Steiner. Ele apenas precisou mostrar-lhe como teria de utilizar-se de sua própria natureza para colocar todo o necessário em suas mãos. Mostrou-lhe a ligação entre as ciências exteriores e a ciências ocultas, as religiões e as forças espirituais, assim como a antiqüíssima tradição oculta, que tece os fios da História, separando-os e reatando-os no decorrer dos séculos. Através dos estudos das obras de Fichte, o Mestre conduziu o discípulo a tal fortalecimento dos pensamentos, que o leva a um decisivo despertar da alma. Desse encontro nasceriam os fundamentos de seu livro Ciência Oculta.

O Mestre deixou-o percorrer rapidamente as diversas etapas da disciplina interior, para elevá-lo ao grau da clarividência consciente e racional. Em poucos meses, em aulas orais, ele havia tomado conhecimento da incomparável profundidade e beleza da visão esotérica conjunta. Mostrou-lhe também o significado da dupla corrente do tempo: a expiração e a inspiração da alma do mundo, que provém da eternidade e à eternidade retornam. O conhecimento desta dupla corrente do tempo é a premissa para a vidência espiritual.

Foi lhe concedido seguir os falecidos, vendo o mundo espiritual como sendo realidade. Eu seguia a pessoa falecida pelo seu caminho para dentro do mundo espiritual.

A tarefa de Rudolf Steiner, sua missão de vida, já se delineava: religar ciência e religião. Introduzir Deus na ciência e a natureza na religião. Mas de que maneira isto poderia ser feito? Como ele poderia domar e transformar a ciência materialista? Estas eram suas perguntas mais prementes.

E o Mestre lhe responde: Se você quiser vencer o inimigo, comece por compreendê-lo. Você apenas se tornará o vencedor do dragão quando puder entrar em sua pele. Você precisa pegar o dragão pelos chifres. Apenas no meio da maior adversidade é que encontrará suas armas e seus companheiros de luta. Mostrei-lhe quem você é. Agora vá e permaneça você mesmo!

Iniciava-se um caminho novo e penoso para o jovem de aproximadamente 21 anos, caminho que ele seguiu por toda a sua vida, tornando-se o grande desbravador de um futuro espiritual.

A matemática mais uma vez se mostra como um fundamento de toda a sua busca de conhecimento. Numa aula de Geometria Moderna Steiner se confronta com a imagem de que uma reta, quando prolongada pela direita ao infinito, volta ao seu ponto de partida pela esquerda. O ponto infinitamente distante à direita é o mesmo que o infinitamente distante à esquerda. Compreender que a reta voltava a si como uma linha circular foi uma revelação que lhe tirou um peso enorme dos ombros. Como em seus anos de menino, a Geometria lhe trouxe novamente uma sensação de felicidade junto com um sentimento libertador. Poderia então ser possível uma representação mental que por meio de um avanço no futuro infinitamente distante, implicasse num retorno do passado?

Apresentou-se diante de minha alma uma vidência espiritual, e ela não repousava sobre um sentimento místico obscuro. Transcorria em uma atividade espiritual plenamente comparável ao pensar matemático em sua transparência. Eu me acercava da constituição de alma por meio da qual eu acreditava poder justificar a visão do mundo espiritual que eu trazia dentro de mim também diante do for do pensar científico-natural.  Encontrava-me em meu vigésimo – segundo ano de vida quando estas vivências passavam por minha alma.

Amplia o seu contato com o professor Schröer, freqüentando suas aulas de História da Literatura como aluno ouvinte e visitando-o, freqüentemente, em sua casa, para conversar sobre Goethe, educação e ensino, como num prosseguimento às suas aulas. O professor era 36 anos mais velho que Steiner, estabelecendo entre professor e aluno uma renovação da clássica relação mestre e discípulo.

Schröer recomenda Steiner ao professor Joseph Kürschner, como sendo a pessoa capaz de reorganizar e apresentar a obra científica de Goethe. Steiner seria o responsável por estabelecer uma ponte entre a obra científica de Goethe e a Idade Moderna. Esta tarefa estendeu-se por quase vinte e dois anos de sua vida, levando-o a um contato com a obra do pensador alemão da forma mais aprofundada que qualquer outra pessoa poderia ter.

Assumindo uma tarefa que caberia a Schröer, que era o editor da obra literária de Goethe, mas não tinha nenhum acesso interior à obra científica do pensador, Steiner assumiu para si parte do destino de Schröer e adiou o cumprimento de sua missão por vários anos. No entanto, colocou-o diante de uma decisão que influenciou tanto sua vida espiritual, quanto sua vida exterior. Foi essa a tarefa que obrigou o seu espírito a aprofundar-se e pelejar em seu próprio mundo interior a fim de estruturar as idéias para compreender e demonstrar a índole de Goethe, tornando-lhe possível introduzir a Antroposofia ao público, pois estava ali a base de todo o edifício da Ciência Espiritual.

Era Goethe quem mostrava ao jovem Steiner que ‘aquele que progride rápido demais pelos caminhos espirituais, pode certamente chegar a uma experiência cabal do espírito; só que em matéria de conteúdo-realidade, sairá empobrecido na plenitude da vida.’

Através do trabalho com as obras de Goethe pode observar a diferença entre a constituição da alma à qual o mundo espiritual se manifesta por intermédio da graça, como havia ocorrido com ele em sua infância e a constituição da alma que passo a passo torna o próprio interior cada vez mais semelhante com o espírito. Vivenciando a si mesma como verdadeiro espírito.

É só então que se sente o quão intimamente o espírito humano e a espiritualidade do mundo podem crescer juntos na alma humana.

Nas introduções elaboradas por Rudolf Steiner pode-se observar toda a essência da obra de Goethe. Em sua edição do primeiro volume das obras científicas de Goethe, Steiner alcança o reconhecimento público.

Steiner tem 23 anos quando conclui seus estudos na Academia Politécnica de Viena, mas ainda não tem elaborada uma tese que lhe permitiria seguir a carreira de professor de Filosofia. Não recebendo mais a bolsa de estudos, vê-se empenhado em garantir uma forma de sustento regular. Emprega-se como preceptor na casa da família vienense Specht, também por indicação de Schröer. Na decisão de assumir a educação das crianças dessa família, Steiner tem seus planos de se tornar professor universitário adiados, porém percebe o cumprimento do destino por vias indiretas.

O impulso de participar dos destinos de outras pessoas se faz notar mais uma vez nesse momento em sua vida e de novo a retardação de seus planos, como uma característica sempre presente em sua biografia.

O mais novo dos meninos, Otto Specht era portador de hidrocefalia, sendo considerado anormal em seu desenvolvimento. Por meio de medidas pedagógicas especiais e de um modo particular de se ligar à criança, Steiner conseguiu obter uma melhora tão radical, que após dois anos o menino pode ser matriculado numa escola comum, numa classe de crianças de sua idade. O menino formou-se em Medicina, atuando como médico na 1ª Guerra Mundial.

Além de ter encontrado uma espécie de lar junto a essa família e desenvolvido uma intensa amizade com a mãe das crianças, Pauline Specht, Steiner reconhece que foi a oportunidade dada pelo destino de perceber que a educação e o ensino formam uma arte baseada no real conhecimento do homem, levando-o mais tarde a desenvolver uma pedagogia revolucionária aplicável a toda a humanidade. Com as crianças dessa família ele teve, ainda, a oportunidade de aprender a brincar, resgatando o tempo perdido de sua infância, entre os 23 e 28 anos.

Nessa casa Rudolf Steiner também conheceu Josef Breuer, o médico vienense que participou junto com Freud do nascimento da psicanálise, admirando-se com a criatividade e sutileza de espírito com que esse médico buscava os caminhos para a cura de seus pacientes.

Em 1886, aos 25 anos, como resultado de seus estudos sobre Goethe e de seus esforços filosófico-metodológicos para superar o abismo entre o pensamento moderno e a concepção espiritual, ele escreveu e publicou: Linhas Básicas para uma Teoria do Conhecimento na Cosmovisão de Goethe – uma reflexão do método de conhecimento que Goethe utilizava em suas pesquisas de Ciência Natural – o Goetheanismo. Edita, também, o segundo volume das obras científicas de Goethe.

Nessa mesma época, ele conhece Gundi, a irmã mais nova de um amigo, com quem viveu uma relação anímica muito intensa, mas reconhecia ser a relação impossível de ser concretizada dada a sua reserva em dizer àquela jovem que ele a amava, percebendo igual reserva na moça. Descreve a amiga como um ser solar em sua vida, restando do relacionamento apenas correspondências e, mais tarde, somente as boas lembranças que sempre emergiram de sua alma durante toda a sua vida

Steiner é introduzido, por Schröer, a um círculo de filósofos e literatos vienenses, que se reunia na casa da poetisa Marie Eugenie delle Grazie, onde se promoviam saraus, e se reuniam regularmente professores da faculdade católica de Teologia. Reinava naquele círculo uma busca constante de valores elevados e abertos a impulsos espirituais, mesmo que não houvesse consenso de idéias, como avaliava Steiner. As idéias para sua Filosofia da Liberdade foram amadurecendo à época do convívio com esse círculo.

No início de 1887, então com quase 26 anos, Rudolf Steiner adoece gravemente e precisa de várias semanas para se recuperar, tendo sido cuidado com muita atenção pela Sra. Pauline Specht, mãe das crianças sob a sua responsabilidade educacional. É possível que tenha sido tratado pelo Doutor Josef Breuer nesta ocasião.

Em torno de seus 28 anos de idade, teve a oportunidade de frequentar um círculo de pessoas agrupadas em torno de Marie Lang, que o impressionava profundamente. Foi levado a esse grupo por Friedrich Eckstein, um jovem dirigente de uma Loja Teosófica em Viena. A busca das pessoas que frequentavam o círculo era por algo mais elevado e ali se reuniam para partilhar suas vivências anímicas interiores. Interessou-se pelo efeito que a Teosofia exercia nas pessoas como uma busca mística séria e lê nessa época ‘Budismo Esotérico’ de Sinnet e ‘Luz no Caminho’ de Mabel Collins, mas a leitura do primeiro livro não lhe causou impressão alguma, ficando até aliviado por não tê-lo lido antes de ter suas idéias embasadas em sua própria vida anímica.

Por intermédio deste grupo, conhece Rosa Mayreder, uma mulher engajada nos movimentos políticos e sociais inovadores da época, em torno de quem, reina uma atmosfera de liberdade de pensamento e fervorosa defesa do verdadeiro lugar e significação da mulher na sociedade. Marie Lang e Rosa Mayreder vieram a ser as líderes do movimento feminista, fundando a Associação das Mulheres Austríacas.

Rosa Mayreder foi uma alma feminina totalmente diferente para Steiner. Ele estabeleceu com ela uma grande amizade e junto compartilhava suas formas de pensamento de sua Filosofia da Liberdade. Foi com essa amiga que experimentou ser tirado de parte daquela solidão interior em que ele vivia, mesmo que tivessem diferentes pontos de vista com relação à vivência do espírito. Rudolf Steiner nos conta que Rosa era uma mulher que lhe dava a impressão de possuir alguns dons anímicos que formavam a expressão correta da natureza humana.

Podemos perceber o imenso carinho que Rosa tinha por Rudolf Steiner, através de suas palavras numa carta a ele, de outubro de 1890:

‘Pois a lacuna que sua despedida deixou na minha vida se me faz sentir, todos os dias, a toda hora, em todos os inumeráveis pontos de raciocínio em que a insegurança, a dúvida, a confusão, a inquietação fazem nascer o desejo da felicidade insubstituível da comunicação amistosa que o senhor me ofereceu. Por quanto mais tempo o senhor fica longe, meu caro amigo, tanto mais inimaginável me parece que possa permanecer longe. (Viena, 26 de outubro de 1890).’

Pode-se perceber a variedade das relações e o grande número de amizades que Steiner reuniu ao seu redor, pelo fato de ter se tornado extremamente sociável e por desenvolver dentro de si cada vez mais a característica de nunca negar sua admiração a ninguém e nem por aquilo que estivesse em oposição direta a ele, mesmo tendo a certeza de que ninguém do seu círculo o acompanharia até o seu mundo.

Steiner dessa forma participa, por suas incontáveis amizades em tão diferentes círculos, a tudo que de moderno pulsava em Viena, onde acontecia grande parte da vida cultural da monarquia imperial da Áustria, levando uma vida exterior sem nenhuma relação com o que se encontrava em sua vida interior, mas reconhecia que os seus interesses estavam entrelaçados.

Em paralelo com a função de educador das e professor particular que se estendeu por mais de 15 anos de sua vida, Steiner assumiu temporariamente, na primeira metade de 1888, com 27 anos de idade, a redação do Semanário Alemão, publicado em Viena. Empenhou-se em introduzir uma discussão onde se levasse em conta as grandes metas espirituais da humanidade, recebendo, com essa tarefa a oportunidade de se ocupar com as almas de povos das várias nacionalidades austríacas, buscando encontrar o fio condutor para uma política cultural espiritual.

Ainda se resguarda de uma atuação pública, concentrando-se na estruturação de seu universo filosófico de idéias, prosseguindo em silêncio com seu treinamento espiritual. Tudo na roupagem da filosofia idealista era o que lhe aconselhavam as forças que atuavam por detrás de si.

Em novembro de 1888, perto dos 28 anos de idade, profere na Sociedade Goethe de Viena o que viria ser a sua primeira palestra antroposófica: ‘Goethe como Pai de uma nova Estética’, levando um dos ouvintes presentes a perceber que Steiner compreendia Goethe de uma maneira aristotélica, sugerindo a ele afinidade de seus pensamentos com os de Tomás de Aquino.

Aos 28 anos de idade, em 1889, tem seu primeiro contato com as obras de Nietzsche, sentindo-se capturado e rechaçado por sua abordagem. Não gostou nenhum um pouco de como o filósofo tratava dos problemas mais profundos com nenhuma espiritualidade consciente.

Com essa idade, Rudolf Steiner fez sua primeira viagem ao Império Alemão. Visitou Eisenach, Sttugart, Berlim e Weimar, conhecida como a Atenas do Norte e cidade de Goethe. Em Berlim ele conhece pessoalmente Eduard Von Hartmann – o filósofo do inconsciente, num encontro decepcionante, levando-o a sentir a distância que o separava da Filosofia contemporânea. Hartmann considerou Steiner apenas um admirador, não levando em consideração nada do que ele tinha a falar-lhe.

O ano de 1890, quando Steiner tem 29 anos de idade, é dedicado a terminar a introdução ao terceiro volume da obra científica de Goethe – a parte sistemática da Teoria das Cores. Sua introdução é o que se pode chamar de Ontologia: a teoria do fenômeno primordial arquetípico, do espaço e do tempo e do sistema da Ciência Natural. Pode-se dizer que formava, em esboço, as bases da Antroposofia.

 

Os anos em Weimar – 1890 a 1896

Em 29 de setembro de 1890, aos 29 anos, Rudolf Steiner muda-se para Weimar, na Alemanha, num adeus à Viena e ao convívio regular das reuniões de jovens.

Começa a trabalhar no Arquivo Goethe-Schiller, como um colaborador, sem um emprego oficial, recebendo a tarefa de preparar para a publicação seis volumes das obras científico-naturais de Goethe, destinada à edição Sofia. Deposita as mais altas expectativas quanto a um futuro promissor nessa mudança, uma vez que tal circunstância lhe proporcionaria o mais vivo contato com tudo quanto na vida internacional significava entusiasmo por Goethe ou pesquisa séria do universo goetheano. Porém a mudança revelou-se para Steiner uma desilusão, sentindo que esta incumbência não correspondia aos seus interesses. A ida para Weimar resultou num intervalo de sete anos de espera em sua vida, apesar de ter sido reconhecido como a capacidade mais importante no campo dos escritos-científicos naturais de Goethe. Mais uma vez a postergação de sua meta se faz notar em sua biografia.

Ele não encontrou em Weimar o goetheanismo atual, mas o passado, embora a cidade ainda tivesse o ar da época de Goethe. Sofria com aquela situação acanhada e burocrática que reinava no arquivo encobrindo a possante irradiação que o gênio de Goethe poderia influenciar na vida cultural do ocidente. Estranhou muito o ambiente externo de atividade científica a que estava submetido, sentindo não ter nenhuma relação interior com ele.

Ocupou-se em estudar o conto de Goethe: ‘A Bela Líria e a Serpente Verde’, como forma de pesquisa de todo o credo de Goethe.

Em março de 1891, aos 30 anos de idade, Steiner sofreu afonia, com paralisia completa das cordas vocais, sendo tratado com aplicações de eletricidade, considerada o agente universal da Idade Moderna.

Seu principal trabalho nesse ano foi a edição das obras morfológicas na edição Sofia, um trabalho puramente filológico. Com sua disposição de ânimo alterada, ele tinha pressa em terminar o trabalho para concentrar-se em sua tese de doutorado e obter um cargo como professor catedrático na Universidade Jena.

Sua tese intitulada Verdade e Ciência é uma lúcida investigação dos elementos básicos do ato cognitivo e seria prelúdio de sua Filosofia da Liberdade. Com ela obteve seu título de Doutor em Filosofia pela Universidade de Rostock em 26 de setembro de 1891.

Logo após a publicação da tese, Steiner aceita o pedido de um editor para escrever um livro sobre os problemas fundamentais da metafísica, que lhe dá muita alegria por perceber-se envolvido com algo que faz sentido para ele. Então, em outubro de 1891, ele começa a escrever sua Filosofia da Liberdade, há muito já preparada.

Em 1892 a tese é publicada em forma de livro – Verdade e Ciência, e ao mesmo tempo, ele se dedica, através de muitos contatos, a conseguir um emprego como professor de Filosofia na Escola Politécnica de Viena, porém sem sucesso.

No meio do ano de 1892, com 31 anos, Rudolf Steiner conhece Anna Eunike.  Ela era uma mulher viúva, mãe de quatro filhas e um filho e tinha 39 anos de idade. Solicitou a Steiner que a ajudasse na tarefa de educar seus filhos, cedendo-lhe uma parte de sua residência. Steiner, que até então não havia encontrado um lugar satisfatório para morar em Weimar, aceitou o convite, mudando-se para a residência da família. Logo entre os dois nasceu uma íntima amizade que se transformou em matrimônio 7 anos mais tarde em Berlim.

Pouco antes de sua morte, Anna relatou a uma de suas filhas que os anos em que viveu com Rudolf Steiner foram os mais felizes de sua vida, existindo outros depoimentos que mostram, também, Steiner muito feliz enquanto durou o matrimônio.

Anna Eunike, de quem logo me tornei intimamente amigo, cuidava para mim com dedicação de tudo que tinha de ser cuidado. Ela dava grande valor à ajuda que lhe prestava em suas difíceis tarefas com a educação dos filhos.

Aos 32 anos de idade, publicou seu livro Filosofia da Liberdade em 15 de novembro de 1893, pela Editora de Emil Felber, de Berlim, trazendo sua teoria do conhecimento. Em todos os capítulos há pensamentos novos, idéias que Steiner não havia expressado desse modo até então. Filosofia da Liberdade tem seu fundamento numa vivência que consiste na conciliação da consciência humana consigo mesma. A liberdade é exercitada no querer; no sentir é experimentada; no pensar é reconhecida. Porém, para alcançar isto, não deve a vida ser perdida no pensar.’

Em janeiro de 1894 proferiu uma palestra intitulada ‘Gênio, Loucura e Criminalidade’ para trezentos ouvintes, provocando em seus colegas de trabalho do Arquivo uma reação de distanciamento e frieza, lhe custando, mais tarde, a possibilidade de voltar à Viena ou de trabalhar em Jena como professor de Filosofia, por boatos que os colegas espalharam dele.

No ano de 1894, aos 33 anos de idade, Steiner dedicou-se ao estudo das obras de Friedrich Nietzsche, cujo primeiro contato já havia se dado em 1889.  Foi convidado, tempos depois, em 1896, a conhecer pessoalmente o filósofo, que já se encontrava seriamente doente. Contemplando Nietzsche Steiner percebeu que tem diante de si uma alma infinitamente bela, que trouxera de existências anteriores um tesouro dourado de luz, mas incapaz de fazer com ele brilhasse plenamente nesta vida.

Com 34 anos, em 1895, conheceu Haeckel pessoalmente em Jena, um eminente cientista representante da Teoria Evolucionista. Steiner considerava a teoria de Haeckel como a mulher fundamentação científica para o ocultismo, compreendendo que se o pensador tivesse estudado um pouco mais de Filosofia teria chegado às mais elevadas conclusões espirituais em seus trabalhos filogenéticos. Ao conhecê-lo pessoalmente, Steiner viu naquele homem um ser humano que somente era capaz de suportar impressões dos sentidos, não deixando o pensamento manifestar-se nele. A atividade da alma cessava naquela personalidade.

Nietzsche e Haeckel eram dois representantes da cosmovisão moderna. Mesmo que toda a teoria que os dois defendessem lhe fosse totalmente estranhas, Steiner reconheceu que eram os principais impulsos da época, levando-o a unir-se com esses impulsos, transformando-os a partir de suas concepções e com isto construir uma ponte apoiada em fundações firmes da Ciência Natural para uma Ciência do Espírito. Dessa forma entrosou-se nas correntes mais contraditórias, compartilhando dos destinos e das visões de mundo daquelas duas personalidades, reconhecendo o abismo em que se encontrava a humanidade, sem perder de vista a necessidade de sobrepujar esse abismo rumo a uma nova era de luz.

Suas forças ocultas lhe mostravam que deixasse fluir para a época o verdadeiramente espiritual, sem que isso fosse notado, tendo sempre em vista que não se chega ao conhecimento quando se quer impingir o próprio ponto de vista de maneira absoluta, mas quando se imerge em correntes espirituais alheias.

Um ano antes de deixar Weimar, por volta dos 35 anos de idade, Steiner sentiu em sua alma uma transformação que ele denominou ‘uma grande reviravolta anímica’, que se tornará pura vivência após sua mudança para Berlim.

Terminou a edição da obra de Goethe, na qual trabalhou por 7 anos.Trata-se de uma obra monumental, abrangendo 147 volumes, pelo acréscimo de introduções. Até hoje a Edição de Weimar ou ‘de Sofia’ é a mais completa das obras de Goethe.

Na finalização de suas atividades em Weimar, Steiner nutriu cada vez mais a esperança de poder voltar à Viena, pois lhe pareceu próxima a possibilidade da criação da cadeira de Filosofia na Academia Politécnica de lá, mas isso se mostrou muito improvável de realizar. Colocava-se para ele a questão do quê fazer? Vivia sem moradia própria, num quarto de hotel em Weimar. Começou a elaborar o livro A Cosmovisão de Goethe, editado em 1897, escrito a partir do que ele vivenciou na cidade e de estudos bem abrangentes sobre a História, que se fizeram necessários para a finalização de seu trabalho do pensador alemão.

Em caráter ilustrativo, cabe mencionar que Steiner se ocupou também das edições completas de Schopenhauer e das obras de Jean Paul, Wieland e Uhland.

Aos 36 anos idade, sua vida anímica sofreu uma profunda modificação, relatada da seguinte forma: Minha capacidade de observar objetos, seres e processos do mundo físico transformou-se rumo à exatidão e à profundidade. Isto ocorreu tanto na vida científica quanto na vida exterior. (…) Uma atenção dirigida ao mundo das percepções sensíveis, antes não existentes, despertou em mim. Detalhes passaram a ser importantes: eu tinha a sensação de que o mundo sensorial tinha a revelar algo que só ele pode revelar.

Essa transformação de percepção significou para Steiner o ingresso num mundo novo. Para estudar esse mundo da observação sensível, adentrou em sua natureza concreta através de uma prática exaustiva, enquanto lhe teria sido muito mais fácil movimentar-se no mundo das idéias. O difícil para ele foi apreender o nexo entre essas duas esferas. Em resumo, Steiner se defrontou cada vez mais com a clareza – e morte – das forças estruturadoras do mundo físico, que também possibilitam a precisão na observação dos fenômenos da natureza. O conhecimento tornou-se para ele algo pertencente a todo o existir e vir a ser do mundo, não só do homem.

Desenvolveu mais tarde, a partir dessas vivências, o livro Concepções sobre o Mundo e a Vida no Século XIX.

A meditação passa a ser nessa época, uma necessidade existencial, reconhecendo que através dela o conhecimento do mundo espiritual é apropriado no organismo assim como este se apropria da respiração. Toda a mudança anímica de Steiner estava, pois, vinculada com um processo de auto-observação.

Até esse momento de sua vida, ele percebia que as forças que determinavam seu destino exterior sempre estiveram em consonância com seus anseios interiores. No entanto, agora sentia de modo diferente: era-lhe necessário dar um cunho novo a sua atividade externa. Nunca precisara conciliar de maneira tão árdua, as orientações provenientes do mundo exterior com as suas próprias. Buscava encontrar de todas as maneiras o caminho para traduzir de uma forma inteligível, aquilo que observava interiormente como verdadeiro. Não queria mais se calar, como lhe ordenava sua necessidade interior, mas falar o quanto fosse possível.

Os primeiros anos em Berlim – 1897 a 1901

Surgiu em Berlim a oportunidade de adquirir os direitos de editar a revista Magazine de Literatura, que publicava poesias, ensaios e críticas provenientes da vida cultural. Porém como garantia de pagamento, o editor que estava lhe passando os direitos, impõe como co-editor da revista o poeta Otto Erich Hartleben, um intelectual boêmio, que ainda não tinha superado dentro de si o estudante acadêmico. Hartleben era um tipo de personalidade oposta a tudo aquilo que Steiner sempre estivera vinculado, mas tornou-se participante do círculo de amigos do co-editor.

A mudança para Berlim aconteceu em junho de 1897, aos 36 anos de idade.

Nas redações de seus artigos para a revista, Steiner falava de literatura contemporânea e da vida espiritual moderna, expressando suas convicções. Sua tarefa era fazer valer uma corrente espiritual dentro da literatura. Lentamente ele se dirigia a caminhos esotéricos.

A partir de 1898 começou a participar intensamente de toda a vida literária e dramática da vanguarda artística de Berlim, significando ser absorvido por um estilo de vida muito diferente do seu. Como forma de compreender as buscas interiores de seus contemporâneos, Steiner passava as noites em teatros, mesas de bares e cafés, em debates e apresentações artísticas. Conviveu, então, com pessoas de diversas classes e atividades sociais, estando ai incluído quase todo o espectro da vida cultural da Alemanha. Em suas relações com os boêmios, artistas, poetas e intelectuais da capital do Reino Alemão, ele se viu completamente privado de estabelecer um convívio mais intenso com os filósofos daquela Berlim da virada do século. Percebia, no entanto, ser natural que o outro grupo de convívio o absorvesse completamente.

Internamente viveu uma crise séria e profunda, sentindo como se a alma fosse arrastada para uma espécie de abismo. Não se encontrava satisfeito com sua atuação no mundo, nem pelo que escrevia e nem pelas palestras que proferia. Enfatizava de forma incisiva que o conhecimento do fundamento da natureza deve conduzir ao conhecimento do espírito. Experimentando fortemente os ventos da época em que o materialismo se fazia crescente em todos os anseios sociais e onde todo o conteúdo de vivência religiosa apontava para um mundo espiritual intangível, Steiner experimentou uma intensificação de suas vivências nos tempos finais de Weimar.

Empenhou-se para impedir que o moderno conhecimento da natureza não o arrastasse para uma mentalidade materialista, atento para não perder, desse modo de ver e viver a vida, a contemplação do espiritual. Rejeitou tudo quanto nas confissões religiosas era aceito como transcendente. Sua diretriz baseava-se em situar o divino, o além, no mundo de cá. Começou a falar do Cristianismo de uma forma nova: O que se passou em minha alma ante a visão do Cristianismo foi uma intensa provação para mim. (…) Tais provações são as resistências oferecidas pelo destino, que devem ser superadas através do desenvolvimento espiritual. (…) O germe do conhecimento se desenvolveu cada vez mais na virada do século. Antes dessa época deu-se a descrita provação da alma. No desenvolvimento de minha alma, na maior seriedade, como festa de conhecimento, se tratava de estar espiritualmente erguido diante do Mistério do Gólgota.

Deu-se na vida de Steiner, por volta dos 38 anos de idade, a vivência do caminho iniciático cristão-rosacruz, cujo coroamento é o encontro pessoal com o Cristo, tendo o fundamento do conhecimento se tornado encontro espiritual direto. Tudo o que agora ele falava, jorrava com uma intensidade que demonstrava estar contido por anos. Como um Mestre esotérico, passou a expressar publicamente, através de imagens todo o conteúdo esotérico oculto. A época exigia tornar público qualquer conhecimento que viesse a surgir, tornando-se impossível preservar os segredos da sabedoria oculta.

Na vida exterior, diante de tantas preocupações com sua subsistência, sendo ajudado inclusive por amigos de Viena, encontrou a serenidade quando Anna Eunike, com sua família muda-se para Berlim, possibilitando-lhe um refúgio de tranqüilidade e felicidade diante de tudo que vivia na época. Depois de ter passado durante curto período por toda a miséria de morar sozinho, voltam a morar juntos, oficializando sua união – em 31 de outubro de 1899.  Este ano foi bem difícil, um ano que não favoreceu nenhum tipo de trabalho de alma. Creio que não teria conseguido suportar o que tive de trabalhar neste ano sem teus cuidados, tua companhia e participação plenos de amor – não a quantidade, mas a qualidade das vivências me teria oprimido sem você, pois pesou tanto em minha alma. É esta a razão porque nos últimos tempos eu estive tão desagradável.

Em 1899 tornou-se professor na Escola de Cultura dos Operários em Berlim, um reduto do movimento sindical socialista, onde ensinava História Universal, Ciências Naturais e Exercícios de Alocução, para um proletariado adulto e entusiasmado pelo saber. Ensinou segundo o seu ponto de vista e não conforme o marxismo, como era o costume nos círculos sociais democratas da época. Seu método idealista para a História e seu modo de ensinar se tornaram simpáticos e compreensíveis aos operários, levando o círculo de ouvintes a crescer cada vez mais, e dessa forma era chamado todas as noites para ensinar. Em suas aulas mostrava ao operariado a forma como os impulsos espirituais atuavam na História e as maneiras como eles se enfraqueceram ante os impulsos econômico-materiais.  Ao entrar em contato com o operariado, Rudolf Steiner mergulhou num segmento da vida onde a alma individual dormia e sonhava e pôde perceber como uma espécie de alma de massa se apoderava daquelas pessoas, abarcando juízo, idéia e comportamento. Mais tarde constatou como a massa proletária ficou como ‘possuída’.

Publicou seu estudo sobre o Conto A Bela Líria e a Serpente Verde, de Goethe, por ocasião do sesquicentenário do pensador. Em A Revelação Secreta de Goethe, Rudolf Steiner falou sobre o mundo espiritual, numa primeira tentativa de apresentar em público os resultados de sua própria pesquisa espiritual, sentindo agir corretamente dessa forma. Considerava essa criação de Goethe como a ante-sala do esoterismo. O artigo foi publicado em seu Magazine para Literatura, em 28 de agosto de 1899.

Rudolf Steiner proferiu palestras nos mais variados círculos de Berlim, onde se reuniam pessoas interessadas sobre os assuntos do conhecimento e da vida em geral. Usava uma linguagem e um modo de falar intenso, cativando as pessoas que o ouviam, porém em parte alguma lhe parecia ser possível abrir brechas que pudessem desobstruir o campo de visão para o mundo espiritual.

Em setembro de 1900 consegue passar o Magazine para outras mãos.

 

A época da Sociedade Teosófica – 1902 a 1912

Primeira fase da Antroposofia

Ainda em setembro de 1900, aos 39 anos de idade, foi convidado pelo Conde e pela Condessa Brockdorff, mentores de um pequeno círculo de teósofos que se reunia em Berlim, para proferir uma conferência sobre Nietzsche. Diante daquele público, Steiner sentia estar falando para pessoas interessadas no mundo espiritual. Convidado a dar mais uma palestra, ele propôs o tema A Revelação Secreta de Goethe. Sentiu falar de um modo bastante esotérico, pela primeira vez, já que até então só poda deixar o espiritual apenas transparecer em suas exposições.

Passou a proferir palestras aos membros daquele círculo de forma regular, deixando claro que falaria sobre aquilo que pulsava dentro dele como Ciência Espiritual. Essas conferências foram reunidas e publicadas no livro A Mística no Despontar da Vida Espiritual (Berlim – 1900). Neste livro encontra-se a primeira referência da figura médica capital da Europa Central no início da Idade Moderna: Paracelso – o médico que conhece a natureza da cura é uma presença essencial nas conferências de Steiner.

Nesta época conheceu Ita Wegman, que freqüentava suas palestras como uma de suas ouvintes. Porém, foram necessários vinte anos, quase três setênios, para que desse encontro surgisse a ampliação científico-espiritual na antroposofia.

Dentro da Sociedade Teosófica deu-se, também, o seu encontro com Marie Von Sivers, uma jovem polonesa muito bonita, que se educara na Rússia e havia estudado teatro em Paris, tendo, recentemente, encerrado sua carreira de atriz. Esse encontro com Marie Von Sivers marca o princípio de sua vida como personalidade pública e assinala o fim de seu matrimônio com Anna Eunike, apesar de os dois ainda viverem juntos até o ano de 1903.

Com o surgimento de uma seção alemã da Sociedade Teosófica, em outubro de 1902, Steiner foi convidado por Annie Besant, a presidente geral da Sociedade, para assumir a Secretaria Geral, tendo sido Marie Von Sivers indicada para sua direção. Dentro dessa Seção, ele teve a oportunidade de falar cada vez mais somente os resultados de sua própria visão do mundo espiritual, já apresentando suas palestras sob o título da antroposofia. Buscava alcançar um saber de ordem espiritual, preocupando-se em sacudir do movimento teosófico qualquer tendência que proviesse de meios espíritas e evitar que se desenvolvesse a prática de passes e do mediunismo. São águas para o moinho do materialismo, escreve ele. Sentiu-se acolhido e compreendido em torno das pessoas interessadas em Teosofia.

Após assumir o cargo na Sociedade Teosófica, seu nome foi profundamente rejeitado em outros círculos em que proferia suas palestras. Passaram a designá-lo como um ‘teósofo’ e dirigente de uma sociedade obscura. Compreendeu que nesses outros círculos ouviam-no apenas como um literato, não tendo a menor compreensão para o conteúdo que ele trazia no coração.

Três dias depois de assumir o cargo como Secretário, ele e Marie Von Sivers são admitidos na Escola Esotérica que existia dentro da Sociedade Teosófica. Assim como ele introduzira algo novo na Sociedade Teosófica, deixou claro que também no círculo esotérico o conteúdo deveria ser buscado diretamente na revelação presente e contínua dos mundos espirituais, independente de qualquer tradição. Em relação à forma exterior da Sociedade, Steiner respeitava corretamente as competências e os usos, mas em relação ao conteúdo espiritual, ele estava decidido a seguir seu próprio rumo.

O movimento teosófico era sediado em Adyar, perto de Madras, na Índia e estava estruturado sobre os ensinamentos da Senhora Helena Blavatsky (‘Ísis sem Véu’ e ‘A Doutrina Secreta’), que estava orientada exclusivamente para a sabedoria oriental da Índia. Na Alemanha, a Sociedade enfrentava uma espécie de definhamento e as pessoas ligadas a esse círculo esperavam a ‘fundação científica’ da Teosofia, quando foi fundada a Seção Alemã.

Steiner reconhecia a grandeza da sabedoria oriental, porém a considerava inadequada em satisfazer as necessidades espirituais do ocidente, entendendo que essa sabedoria não poderia superar a diretriz materialista da moderna Ciência Natural. Para fazer-se inteligível servia-se, com reservas, da terminologia oriental-teosófica, mas logo depois, procurou substituir as expressões orientais por palavras novas, correspondentes à consciência moderna.

Steiner sabia que as pessoas que acolhiam o conhecimento do espírito, que ele dizia com o coração e o bom senso, não eram necessariamente os membros da Sociedade Teosófica, mas pessoas interessadas na sua forma de conhecimento do espírito. Nos membros, percebia que a grande maioria eram fanáticos seguidores de alguns líderes da Sociedade, que atuavam de forma dogmática e sectária.

Os obstáculos a que esteve confrontado nessa época, através de forças contemporâneas avessas ao conhecimento espiritual, se transformaram no motivo que o levaram a atravessar sua prova espiritual mais intensa. Foi daí que ele retirou energia para atuar com base no espírito, empenhando-se cada vez mais em levar a Antroposofia ao mundo.

Em maio de 1903, com 42 anos de idade, fundou com Marie Von Sivers uma publicação mensal de nome Lúcifer, que surgiu para desenvolver a Antroposofia, sem nenhuma dependência com aquilo que a Sociedade Teosófica mandava ensinar. A revista se ampliou, sendo Steiner convidado por um editor de Viena, que editava um periódico de nome Gnosis, para a fusão dos dois periódicos. A publicação passou a se chamar Lúcifer-Gnosis e nela tomam forma as instruções destinadas a criar uma consciência superior e uma autêntica penetração nos mundos supra-sensíveis. A senda do conhecimento passou a ser ensinada de forma pública, endereçada a todos os homens e adequada à consciência do nosso tempo

Aos 43 anos de idade, em 1904, participou do Congresso Teosófico de Amsterdam-Holanda e ministrou inúmeras conferências na Alemanha.

 

Seu livro Teosofia foi publicado sob a forma de artigos na revista Lúcifer-Gnosis, assim como O conhecimento dos mundos superiores e Crônica do Akasha. Nestes escritos estão contidos os conteúdos introdutórios e a preparação individual para iniciar o caminho meditativo ensinado na Escola Esotérica. Em suas exposições ele distingue três estágios na consciência superior: Imaginação, Inspiração e Intuição.

 

Em Teosofia encontramos um livro que nos permite compreender de forma clara e direta as idéias de Rudolf Steiner. O livro estabelece os pontos básicos acerca do espírito e da vida depois da morte e tem uma atmosfera de serenidade que produz no leitor o mesmo efeito da leitura do Bhagavad Gita. Nesse livro desenvolve conceitos que esclarecem a lei da reencarnação.

 

Steiner advertia que a leitura de um livro antroposófico, deveria servir para despertar no leitor a vida espiritual e não para lhe proporcionar uma soma de informações.

 

Com 44 anos, no ano de 1905, dedicou-se intensamente a proferir conferências públicas, tanto na Alemanha quanto na Suíça, visitando grupos teosóficos que já existiam e fundando novos grupos, aprofundando o seu contato com os membros e outros interessados. Ministrou aulas esotéricas em todas as cidades que visitava para fazer conferências públicas, somando por volta de duzentas e cinqüenta aulas até o início da Primeira Guerra. Esforçava-se em formar um novo organismo esotérico que seria como alimento para a nova cultura a ser fundada a partir da abertura e mudança ocorrida no mundo espiritual. Suas conferências falam do novo, com muitas imagens sobre mitos e símbolos antigos, trazendo esclarecimentos sobre os antecedentes das antigas tradições, despertando na alma o conhecimento desse patrimônio inconsciente da humanidade, preparando e dispondo a alma para o cultivo consciente do autoconhecimento.

 

Encerrou neste ano suas atividades na escola de formação de trabalhadores, convidado a se retirar daquele círculo, pois a direção marxista não aceitava mais a sua maneira de falar e seus temas. O impulso libertário que ele buscou implantar nos jovens discípulos foi o motivo pelo qual as autoridades resolveram afastá-lo da Instituição. Foi com este público que Steiner descobriu-se um orador carismático e, até alguns decênios depois, encontravam-se socialistas que falavam com entusiasmo desse mestre que despertava neles o sentido da liberdade.

 

Em 1906, com 45 anos, proferiu os primeiros grandes ciclos de conferências fora de Berlim, inclusive o ciclo O evangelho Segundo João, em Munique, dando inicio à sequência de ciclos sobre os evangelhos, sua obra sobre Cristologia. Apenas 44 conferências se realizaram em Berlim e 201 em outras cidades. Rudolf Steiner começou a dar cursos de uma conferência por dia ao longo de duas semanas – os ciclos. Os participantes podiam se aprofundar melhor no tema, sendo o efeito mais intenso do que em conferências isoladas.

 

Fez nessa época conferências em Paris, onde encontrou pela primeira vez com Edouard Schuré, o poeta e teósofo, autor de Drama Sagrado de Eleusis, que Marie Von Sivers havia traduzido para o alemão, que se tornaria um grande amigo. No ciclo de Paris, depois de um longo processo de maturação, comunicou o fato de o corpo etérico do homem ser feminino e o da mulher, masculino. Com seu corpo físico o homem está integrado às forças da Terra e por meio do corpo etérico encontra-se entrosado com as forças do Cosmo extraterreno. Demonstrou que as qualidades masculinas e femininas remetem-se aos mistérios do mundo.

 

Berlim continuava a ser o centro de suas atividades. Lá, na Rua Motz 17, ele conservou seu domicílio até além do fim da Primeira Guerra Mundial. Mas em Berlim a Antroposofia se desenvolvia numa racionalidade clara, uma vez que a cidade se encontrava completamente imersa na esfera do racionalismo e do intelectualismo.

 

No decurso do ano de 1906 demonstrou a nítida diferenciação entre os vários caminhos de autodesenvolvimento esotérico: o caminho hindu da yoga (difícil de trilhar pelo homem ocidental), o caminho cristão-gnóstico da Idade Média (que requer o afastamento da vida cotidiana) e o caminho rosacruz, que se inicia com a educação do pensar, com o ‘estudo’. Para Steiner o verdadeiro rosacrucianismo não se encontrava nos livros de história, porque foi transmitido por tradição oral. E neste caminho, a relação entre guru e discípulo é substituída pelo apoio de uma educação do pensar. O próprio discípulo tem de ser o condutor e dirigente.

 

1907 é o último ano descrito por Rudolf Steiner em seu livro autobiográfico – Minha Vida. No último capítulo informa ao leitor que a exposição de sua biografia, desse momento em diante, dificilmente poderá ser separada da uma história do movimento antroposófico.

 

Rudolf Steiner estava com 46 anos de idade, quando, à época de Pentecostes, aconteceu em Munique o IV Congresso da Federação das Seções Européias da Sociedade Teosófica. Neste congresso ele tem a oportunidade de reproduzir no ambiente uma decoração em formas e cores em que expressava o conteúdo das comunicações orais que seriam realizadas, fazendo questão de apresentar um ambiente artístico em completa harmonia com a atuação espiritual. Ele falou pela primeira vez sobre Cosmologia e Antropogenia. Ao lado de Marie Von Sivers, ele inaugurou o elemento artístico, através da apresentação do ‘Drama de Eleusis’ de Edouard Schuré, ficando claro que a vida espiritual na Sociedade não aconteceria mais sem o lado artístico. Era a aplicação prática da Antroposofia no mundo exterior.

 

As inovações trazidas por Steiner ao Congresso de Munique não agradaram parte dos antigos membros da Sociedade Teosófica da Inglaterra, França e Holanda. Somente uma minoria entendeu que aquilo que estava sendo oferecido pela corrente antroposófica, era uma postura interior totalmente diversa daquela praticada pela Sociedade Teosófica. Esta postura interior era o verdadeiro motivo pelo qual a Sociedade Antroposófica não podia continuar a existir como uma parte da Sociedade Teosófica, e não os fatos que assumiram vulto mais tarde, provocando inúmeras discórdias.

 

Infatigavelmente ativo espiritual e fisicamente, Rudolf Steiner elaborava a Antroposofia como ciência espiritual, como arte e impulso social e procura consolidá-la em almas e círculos humanos. Era-lhe necessário introduzir o espírito no mundo, desempenhar um trabalho fértil e frutífero para a alma.

 

Em maio de 1908, quando Steiner tinha 47 anos, o último número da revista Lúcifer-Gnosis é publicado. As publicações tiveram que ser encerradas em virtude da carga de trabalho a que estava exposto. Foi um período de muitas viagens e conferências, sendo cada vez mais solicitado como conselheiro pessoal em todas as questões de vida.

 

Marie Von Sivers, juntamente com a colaboração de Johanna Mücke, fundou a Editora Filosófico-Teosófica, em Berlim, com o objetivo de reunir em forma de livros as publicações dos escritos de Rudolf Steiner e ainda, dar uma forma correta às anotações individuais que vinham sendo feitas pelos membros em suas várias conferências e aulas.

 

Aos 48 anos de idade, em 1909, encontrou-se pela primeira vez, em Berlim, com Christian Morgenstern (1971-1914), um dos mais notáveis poetas da língua alemã que se tornará seu discípulo. Christian transformou em maravilhosos poemas muitos conteúdos das conferências de Steiner:

 

Ele falou. E como ele falava, resplandeciam nele o Zodíaco, querubins e serafins,

O astro solar, a translação dos planetas

De ponto em ponto.

Tudo isso jorrava com sua voz,

Era avistado em relance, como um sonho cósmico,

Todo o firmamento parecia baixado às suas instâncias

Por mercê de suas palavras.

 

A ciência Oculta é publicada em 1909. Nesse livro Rudolf Steiner comunica o que tinha elaborado como resultado de sua pesquisa espiritual e fornece as indicações de como podem ser desenvolvidos órgãos para a percepção espiritual, numa linguagem clara e acessível ao não iniciado. No livro foram mantidos com precisão os limites entre o que se pode e deve comunicar, naquela época, do âmbito dos conhecimentos supra-sensíveis e aquilo que se deveria expor mais tarde de outra forma.

 

Em suas conferências abordava aspectos íntimos e profundos da essência do Cristianismo, avançando nos ensinamentos esotéricos e na pesquisa espiritual do Evangelho de Lucas, das Hierarquias Espirituais e dos poderes opositores à evolução humana.

 

No Congresso Internacional em Budapeste, em agosto de 1909, encenou ‘Os Filhos de Lúcifer’, peça de Edouard Schuré, com Marie Von Sivers, proferindo uma conferência sob o tema A Essência das Artes, que do princípio ao fim foi ela própria uma obra de arte configurada.

 

Ao final de 1909, Steiner falou da Antroposofia, por ocasião da Assembléia Geral da Seção Alemã da Sociedade Teosófica, e anunciou que ela será publicada em esboço, em vários cursos e conferências.

 

Segunda fase da Antroposofia – 1909 a 1916

Em 12 de janeiro de 1910, perto de completar 49 anos, num curso em Estocolmo, Suécia, Steiner anunciou pela primeira vez o aparecimento do Cristo no plano etérico: novas faculdades da alma humana se mostrariam a partir de 1933 tornando possível aos seres humanos a visão clarividente do mundo etérico, no qual Cristo se manifesta de forma nova. Ele já observava o desenvolvimento de novas faculdades de clarividência sob as faixas da consciência intelectual que precisavam apenas ser despertadas para que sublime vulto etéreo do Cristo fosse percebido.

O Cristo voltará, porém numa realidade superior à física, numa realidade tal que somente se lhe poderá elevar o olhar tendo-se, antes, adquirido o sentido e a compreensão pela vida espiritual… Inscrevam em seus corações o que deverá ser a Antroposofia: uma preparação para a grande época da humanidade que nos aguarda.’

No entanto, evitava todo o tipo de sensacionalismo ao se manifestar sobre os acontecimentos do momento, para que as pessoas não perdessem sua liberdade em seu sentimento de vida e em suas decisões.

Em julho de 1910 Steiner escreveu o primeiro de seus quatro ‘Dramas de Mistério’ – O Portal da Iniciação – Um Mistério Rosacruz. A apresentação deste Drama se deu no Congresso da Sociedade Teosófica em Munique, diante de um público de duas mil pessoas. Os Dramas de Mistério representavam em linguagem artística aquilo que Rudolf Steiner proferia em suas palestras e foram a aurora da iniciativa que levou à construção do primeiro Goetheanum, o edifício que viria a construir em Dornach para ser a sede do movimento antroposófico. Amadureceu em Steiner uma nova possibilidade: o que ele expunha em seus livros se transformou em Inspiração, expresso pela linguagem e pelo movimento.

Nos dramas são apresentados destinos humanos interligados através de várias vidas terrestres. São mostrados indivíduos em busca do espírito, trilhando o caminho do autoconhecimento e chegando ao limiar do mundo espiritual, cada um a seu modo.

A alma desse empreendimento era Marie Von Sivers, que em São Petersburgo e Paris já tivera aulas com exímios atores e abandonara o teatro quando se deparou com a Teosofia. As recitações eram o seu elemento e ao lado de Rudolf Steiner, ela inspirava vida aos seus dramas.

Em 17 de março de 1911 Anna Steiner faleceu.

Rudolf Steiner, então com 50 anos, proferiu uma série ciclos e conferências em Bolonha, Copenhague, Munique, Karlsruhe, Hannover, Milão, Berna e Munique. Nesta ocasião fala na Dinamarca, onde teve a oportunidade de conhecer a senhora Valborg Werberck-Swärdström e seu marido Louis Werbeck, que se tornaram colaboradores incansáveis na divulgação da Antroposofia.

A apresentação do segundo Drama de Mistérios – A Provação da Alma em 17 de agosto de 1911 deu-se em um momento em que as discordâncias com a Sociedade Teosófica aprofundavam-se.

Após anunciar uma nova revelação do Cristo fica evidente para Steiner um conflito com a Sociedade Teosófica, cujos membros e dirigentes – Annie Besant e H. S. Olcott – viam na síntese de todas as religiões um alto ideal que esperavam alcançar por uma tolerância inteligente. A sua visão do acontecimento do Gólgota e de Jesus Cristo como ponto central da História da Terra e da Humanidade, era uma visão estranha aos dirigentes da Sociedade Teosófica.

Juntando-se a tudo isto, sobreveio o fato de que Annie Besant apresentou um rapaz hindu que seria a personalidade na qual o Cristo se apresentava em uma nova vida terrena, fundando dentro da Sociedade Teosófica a Ordem chamada ‘Estrela do Oriente’, que cuidaria dessa personalidade, que vem a ser Jiddu Krishnamurt.

Os ataques cada vez mais intensos e depois a campanha de difamação desencadeada abertamente por Annie Besant, em resposta à postura que Steiner assumira em relação ao caso Krishnamurt, tornaram impossível a continuação do seu trabalho dentro da Sociedade Teosófica. Em setembro de 1912 a diretoria da Seção Alemã, na pessoa de Rudolf Steiner e Marie Von Sivers, declarou ser incompatível com esta seção o que estava acontecendo na Sociedade Teosófica, tornando-lhe impossível receber os membros da nova Ordem dentro da Seção Alemã.

A Sociedade Teosófica, através de Annie Besant, rompeu a ligação com Rudolf Steiner num ato que revogava o Conselho Geral dos Estatutos da Sociedade Alemã – quatorze lojas alemãs se mantiveram com ela e as demais seguiram Steiner. Com estes membros ele iniciou os preparativos para a fundação da Sociedade Antroposófica em dezembro de 1912, como uma sociedade autônoma.

Fato relevante é que, mesmo com todo sofrimento a que esteve sujeito quando do episódio de seu rompimento com a Sociedade Teosófica, Rudolf Steiner nunca teceu nenhum comentário que desmerecesse a pessoa de Annie Besant, como pode se constatar em sua autobiografia, num exemplo de tolerância e perdão, característico de seu ser.

É fato, também que, em virtude de ter iniciado seu trabalho de cunho esotérico nos âmbitos da Sociedade Teosófica, mesmo discorrendo sobre um conteúdo que não se vinculava àquela Sociedade, Rudolf Steiner sempre foi reconhecido como um teósofo e mesmo hoje, as pessoas de fora ainda confundem a corrente central do cristianismo esotérico, representado pelo Antroposofia, com a Teosofia, de orientação oriental de Blavatsky e Besant, incluindo a Antroposofia como corrente não cristã dos tempos modernos.

Ocupado a todas essas questões que envolviam sua vida, Rudolf Steiner se mantinha atento e solícito às perguntas sempre crescentes das pessoas que o cercavam, organizando nessa época – janeiro de 1912, aos 51 anos de idade, as primeiras instruções dos exercícios de Euritmia a Lory Smits. A jovem alemã de Düsseldorf, de apenas 19 anos, estava interessada numa formação especializada em ginástica rítmica.

Steiner tem a preocupação em demonstrar que a Euritmia não era simplesmente uma arte da dança, mas uma arte do movimento, provinda dos antigos mistérios gregos, que promoviam a cura através de palavras, movimentos sonoros e tonalidades.

Sob os cuidados de Marie Von Sivers, desdobrou-se em três abordagens: arte teatral, complemento de educação nas escolas e como euritmia curativa. Talvez não seja possível sentir, em arte alguma, o ser colocado no cosmo de uma maneira tão intensiva como na arte eurítmica.

Na Páscoa desse ano, Rudolf Steiner publicou o Calendário Antroposófico da Alma e escreveu e encenou o terceiro Drama de Mistério: O Guardião do Limiar, em agosto. Em dezembro deste mesmo ano, fundou sem grandes formalidades a Sociedade Antroposófica em Colônia, na Alemanha.

Com 52 anos de idade participou da realização da primeira assembléia da Sociedade Antroposófica, porém não faz parte da Diretoria e recebeu a adesão de grupos de vários países.

As apresentações dos Dramas, que eram encenadas sempre em Munique, no Teatro do Gärtnerplatz, em agosto de cada ano, revelavam a Steiner que nessa cidade atuava o lado artístico do trabalho antroposófico, de modo oposto ao que acontecia com o movimento antroposófico em Berlim, onde se progredia cada vez mais no saber a respeito do mundo espiritual.

Por força desse impulso criativo que acontecia com a Antroposofia em Munique, Steiner viu surgir a iniciativa da construção de um edifício com um palco onde se pudesse realizar as apresentações dos Dramas e fosse o centro para as atividades antroposóficas.

O edifício deveria ser algo parecido aos centros de mistérios das culturas antigas, dedicado a cultivar os três grandes poderes da vida espiritual: Ciência, Arte e Religião. A nova construção seria a ‘Casa da Linguagem’ onde o mundo espiritual iria falar. Para sua construção foi formada a ‘Associação Johannes de Construção’, mas a Prefeitura de Munique negou o alvará, considerando o projeto extremamente questionável, em meio à experiente e segura atmosfera artística da época e temendo que a cidade se convertesse num centro de uma peculiar seita religiosa. Anteriormente, uma grande agitação popular, por motivos religiosos, durante a apresentação do Congresso Teosófico naquela cidade fora atribuída à Sociedade Teosófica.

Steiner recebeu a ajuda de muitos membros da Sociedade Antroposófica para o seu empreendimento, ressaltando os esforços de Sofia Stinde, uma pintora alemã, aliada à condessa Pauline Von Kalkreut, também pintora e dama de honra da mãe do último Imperador da Alemanha. Era na residência da pintora que aconteciam as reuniões do ramo e as conferências internas da Sociedade Antroposófica, em Munique – Alemanha. Seus esforços também possibilitaram a apresentação dos quatro Dramas de Mistérios de Rudolf Steiner, em Munique.

Em maio de 1913, Emil Grossheintz, um antropósofo suíço, colocou à disposição de Steiner um terreno de sua propriedade em Dornach, perto da Basiléia, fazendo fronteira com a França, Alemanha e Suíça, um lugar que permaneceu ileso na guerra que já se pressentia. Steiner conheceu o terreno no mesmo mês e aceitou a oferta, comunicando que seria em Dornach e não em Munique a construção do primeiro centro do movimento antroposófico. O trabalho de construção começou imediatamente, pois não havia tempo a perder, diante da eminência de uma guerra.

Num ideal arquitetônico contemplado pelo olhar de Goethe que afirmara que ‘Religião, Arte e Ciência atendem à tripla necessidade do homem bafejado por Deus: cultuar, produzir e contemplar; todos os três são um do início ao fim, embora separados pelo meio’, o próprio Steiner encarregou-se do projeto, dando ao edifício um estilo totalmente inovador para a época. O Goetheanum, conforme o edifício foi chamado por Steiner, tinha uma fundação de concreto de onde se erguia uma obra de madeira coberta por duas grandes cúpulas, cuja dificuldade para serem calculadas e erguidas foi totalmente dominada.

Rudolf Steiner assumiu pessoalmente a direção da obra, encarregando-se em grande parte pelo seu acabamento artístico, pintando, por exemplo, o teto da cúpula menor. O teatro tinha capacidade para mil pessoas e os custos de construção somaram o montante de mais de sete milhões de francos suíços, obtidos por doações. Ali cidadãos de dezessete nações diferentes trabalharam juntos sob a supervisão e cooperação calorosa de Steiner.

A pedra fundamental da construção – um duplo dodecaedro – foi colocada no dia 20 de setembro de 1913. Enquanto Steiner pronunciava o discurso, desabou uma grande chuva, escurecedora e barulhenta, quase fazendo desaparecer a sua voz. Em seu discurso ele falava das forças crescentes de Árimã, que trata de semear o caos e a escuridão.

Após a colocação da pedra fundamental, Steiner realizou em Kristiania, hoje Oslo – Noruega, seu curso sobre o ‘Quinto Evangelho’, um ponto alto na sua pesquisa, demonstrando as vivências experimentadas por Jesus de Nazaré ao longo de seu caminho antes e depois de receber em si, pelo batismo no Jordão, a entidade do Cristo.

Em agosto de 1913 os Dramas de Mistérios são apresentados pela última vez em Munique e ainda neste ano é escrito e encenado o quarto de seus Dramas de MistériosO Despertar das Almas, que mostra as crises de uma comunidade na passagem da teoria à aplicação prática.

Em novembro ficaram prontas as fundações em cimento armado do Goetheanum, sendo construídos os andaimes para a construção de madeira. Em dezembro de 1913 iniciou-se a construção das colunas na carpintaria.

Em janeiro de 1914, perto de completar 53 anos, Steiner participou da segunda e última Assembléia da ‘antiga’ Sociedade Antroposófica, que entrou em um longo período de inatividade enquanto sociedade.

O dinheiro obtido para a construção do Goetheanum começou a se acabar, inviabilizando a inauguração da obra para agosto de 1914, como era o desejo de Steiner, e ali ele pudesse apresentar o quinto Drama de Mistério, ainda não escrito.  Para levantar fundos, foi organizada uma série de conferência onde ele destacava a importância da efetivação do projeto para a humanidade, conseguindo continuar a construção, mas sua inauguração precisou ser adiada.

Nos primeiros dias de agosto de 1914 sobreveio a 1ª. Grande Guerra. Muitos operários precisaram deixar a Suíça e voltar a seus países de origem e partir para os campos de batalha. Quando a guerra eclodiu, Rudolf Steiner encontrava-se em Bayreuth, junto a Marie Von Sivers, regressando rapidamente a Dornach, numa noite de grande caos. Ela relata que no transcurso dessa terrível noite cinza, o mundo havia mudado e a expressão pesada expressa no rosto de Steiner durante estes dias, a dor que ele sentia por toda a humanidade, era quase intolerável.

As aulas esotéricas foram interrompidas, pois havia muita perturbação no mundo espiritual vizinho à Terra pelo grande derramamento de sangue humano e pela morte de tantos jovens.

No final deste terrível ano a estrutura da construção ficou pronta e continuaram os trabalhos de escultura das colunas, das arquitraves e de pinturas. Em 24 de dezembro de 1914, Steiner casou-se com Marie Von Sivers, em Dornach, tendo ela passado a se chamar Marie Steiner.

Durante o ano de 1915 a guerra impediu a atuação pública de Steiner, que tem 54 anos de idade. Dornach havia se tornado o centro da vida antroposófica, abrigando ali cerca de duzentas pessoas de diversas nacionalidades, jovens e velhos, artistas, cientistas, comerciantes, unidos e trabalhando em torno de um mesmo ideal, fazendo germinar uma comunidade antroposófica. A obra de construção do Goetheanum tinha um ritmo mais limitado pela falta de dinheiro.

Steiner desistiu da idéia de escrever um quinto Drama de Mistério, se dedicando à produção da primeira versão teatral completa de ‘Fausto’ de Goethe, ministrando ainda, o primeiro curso de Euritmia verbal. Até os dias de hoje somente no Goetheanum, Fausto é apresentado em sua forma integral.

Steiner envolveu-se pessoalmente no trabalho de esculpir uma estátua de madeira que idealizara, junto com Edith Maryon, uma fiel colaboradora. A escultura foi nomeada o Representante da Humanidade, representando o Cristo entre as forças de Lúcifer e Árimã e tem aproximadamente 8 metros de altura. Na escultura podemos observar a expressão da harmonia entre as três forças da alma: o pensar, o sentir e o querer – forças que devem viver com autonomia. E das mãos do Cristo podemos sentir fluir o amor que emana de seu coração.

Rudolf Steiner plasmou de tal forma o modelo, que torna possível a qualquer um de nós, reconhecermos o Cristo de imediato ao nos depararmos com Ele. Lá está o Cristo que caminha entre os poderes adversários: o brilhante e sedutor Lúcifer e o sinistro e enrijecido Árimã.

1916 foi um ano marcado por muitas dificuldades do ponto de vista exterior tendo em vista a Guerra. Porém Steiner, com 55 anos de idade, ainda conseguiu viajar e dar conferências na Alemanha e Áustria. Nesta época publicou Do Enigma do Homem.

Em suas conferências começou a desenvolver um novo jeito de falar sobre a Antroposofia, orientando-se pelos fatos históricos da época, abarcando os aspectos centrais da vida espiritual alemã.

Outro tema com o qual se ocupou nessa época foi da vida após a morte, especialmente em relação aos acontecimentos da Guerra. Iniciava todas as suas conferências durante a guerra, com uma prece pelas almas dos combatentes vivos e mortos, compondo versos mântricos que visavam proporcionar uma ligação com o mundo dos mortos.

Provavelmente foi nessa época – entre agosto de 1916 e janeiro de 1917 – mas a data é incerta, que Steiner sofreu um acidente, quase se ferindo gravemente: ele caiu do andaime utilizado para construir a escultura de madeira, mas foi salvo por Edith Maryon, que conseguiu segurá-lo, desviando sua queda que seria em cima de uma ponta de madeira.

 

Terceira Fase da Antroposofia – 1917 a 1923

O mundo caminhava dividido por causa da Guerra. A Revolução Russa estabeleceu o poder soviético. No Ocidente despontavam os EUA como um novo poder. Na Europa Central, a Alemanha e a monarquia austro-húngara encontravam-se preocupadas apenas com guerras de anexação, sem nenhuma proposição que abarcasse os seres humanos. Em conseqüência da catástrofe da Primeira Guerra Mundial, novas possibilidades se abriram para que a Ciência Espiritual transpusesse para a realidade social as suas conclusões.

A partir de uma pergunta vinda de Otto Graf Lerchenfeld, um político alemão preocupado em formar novas idéias que levassem a guerra a um desfecho e a uma nova ordem social, Steiner formulou a idéia da Trimembração do Organismo Social. Não se tratava de nenhum programa partidário e não continha nenhuma exigência abstrata. A Trimembração Social considerava as áreas da vida econômica, jurídica e espiritual como três funções existentes lado a lado e administradas de forma autônoma, exigindo a descentralização da vida social.

O organismo social é constituído como o natural. E como o organismo natural deve prover o pensamento por meio da cabeça e não dos pulmões, assim é necessária ao organismo social a constituição em sistemas que não possam absorver cada um deles as funções do outro, mas que devem antes, colaborar com os demais, mantendo, porém, sua autonomia.

Escreveu, ainda, o livro Do Enigma da Alma, onde expõe uma de suas afirmações mais importantes: a divisão ternária do ser humano. As principais faculdades do homem – o pensamento, o sentimento e a vontade – se realizam através de partes diferentes do organismo físico. Não se trata de uma divisão trivial em cabeça, tórax e abdome. O homem é uma ação conjunta e um entrelaçamento dinâmico desses três componentes. As doenças decorrem da preponderância de um sistema sobre o outro. Em princípio, todas as forças curativas procedem do sistema médio, pois o homem rítmico é em si mesmo o ser primitivamente são. Esta idéia é o elemento verdadeiramente novo da Antroposofia.

Nos anos seguintes, após 1917, a idéia da trimembração foi cada vez mais elaborada, principalmente no ciclo de conferência chamada A Arte da Educação, dada em 1919 aos professores da primeira escola Waldorf em Stuttgart.

Durante este tempo, as atividades em Dornach prosseguem ativamente, tais como: a Euritmia, a preparação para a encenação do ‘Fausto’, a escultura de madeira e a pintura das cúpulas do Goetheanum.

No ano de 1918, com 57 anos, Steiner viajou a um grande número de cidades para ministrar conferências, além daquelas que proferiu em Dornach e Berlim. Foi um ano de conclusão e preparação da base de sua atuação para a época do pós-guerra. Nenhum livro novo foi publicado, mas são reeditados vários livros, tornando-se disponíveis todas as obras que ele já havia publicado.

Na Alemanha pairava uma ameaça de guerra civil na primavera de 1919. O império havia ruído: fome, desemprego, doenças, revoltas faziam parte do dia-a-dia. As pessoas se dividiam entre tomar posições extremistas ou se sobrepor às grandes dificuldades e buscar um objetivo em comum. 1919 evidenciou-se como o ano da luta pela Trimembração Social, tendo Steiner realizado uma série de conferências para industriais e pequenos grupos de operários, falando em pequenas salas, pátios de fábricas e mesas de bares. Foi constituída a Associação para a Trimembração do Organismo Social, em Stuttgart a qual pertenciam muitas personalidades completamente alheias aos círculos antroposóficos. A associação tinha como objetivo despertar a compreensão para as exigências sociais do tempo e divulgar as leis que atendessem às mesmas, empenhando-se em iniciativas sociais concretas. Liberdade no espírito, igualdade perante o direito, fraternidade na economia – conferindo um novo conteúdo aos ideais da Revolução Francesa.

A partir deste momento histórico, com 58 anos de idade, a atuação de Rudolf Steiner passou a ter uma característica totalmente nova: sem nenhuma reserva, ele falava das relações entre os fatos históricos e os fatos políticos. Revelava os bastidores da história de uma maneira que não podia deixar de surpreender a todos quantos se apegavam a uma concepção convencional dela, e não menos aos políticos profissionais. Esta forma de atuar culminou no manifesto Apelo ao povo alemão e ao mundo cultural, divulgado em março de 1919, depois da derrocada da Alemanha. O documento é assinado por várias personalidades, muitas das quais não pertenciam, nem antes e nem depois, à Antroposofia, porém, abaladas pelo impacto dos acontecimentos e aguardando algo de totalmente diverso, estavam preparadas para defender a realização das idéias do manifesto. Nesse Apelo Rudolf Steiner falava da necessidade de desmembrar o antigo complexo estatal nos três sistemas: o espiritual, o político e o econômico, podendo-se assim ser evitado o caos, que continuava eminente, terminando da seguinte forma: Ou se condescenderá em conformar-se, no próprio pensar, com as exigências da realidade, ou não se terá aprendido coisa alguma da desgraça, e do contrário, multiplicar-se-à, ad infinitum, por novas desgraças, a causada até aí. No entanto, com a finalização do estado de Guerra, prevaleceu entre as pessoas a atitude de deixar as coisas como estavam, uma vez que a crise inflacionária já estava superada pela estabilização do marco, e as transformações esperadas não se realizaram, fadando ao fracasso a luta pela Trimembração Social.

Foi o início de uma atuação pública que faria Rudolf Steiner entrar mais amplamente na consciência da Europa Central, em particular na Alemanha, levando passo a passo, à fundação dos impulsos culturais específicos da Antroposofia.

Os comunistas passaram a se preocupar com o que Steiner tinha a dizer e proíbem seus membros de assistirem às suas conferências. Os nazistas começaram a considerá-lo uma ameaça ao defender que a Trimembração Social encerrava em si as leis estruturais de uma nova ordem social. Era uma época em despontava como grande orador o jovem cabo do exército bávaro, Adolf Hitler, que inspirava o Partido dos Trabalhadores Alemães, falando sobre nacionalismo e anti-semitismo.

Steiner não nutria ilusão nenhuma acerca da capacidade moral dos ocupantes do poder político e econômico ou dos homens em geral. O que ele propunha não era uma utopia, mas um sistema social que partia do conhecimento do homem em seus impulsos sociais e anti-sociais, concretizando as capacidades sociais que poderiam ser despertadas, mesmo diante de tanta fraqueza e egoísmo, se fossem desenvolvidas de forma verdadeiramente humanas. Em vez de pensar nas alternativas imediatas do momento, haverá de existir uma concepção mais ampliada da vida que esforce em compreender as forças evolucionistas da Humanidade moderna…

Não era chegada ainda a hora de uma ordem social trimembrada. Mas uma das sementes dessa concepção se transformou num bonito fruto: a Pedagogia Waldorf, criada a partir da escola Waldorf de Stuttgart, cuja abertura se deu em 7 de setembro de 1919, após intensa preparação e envolvimento de Rudolf Steiner.

Com o apoio de Emil Molt, Conselheiro Comercial e chefe da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, em Stuttgart, ele assumiu a instalação e direção da escola, tarefa que aceitou com a mais alta responsabilidade, em abril de 1919. Rudolf Steiner sentia a feliz expectativa do que estava sendo criado por ele.

Alguns círculos sociais, como a Igreja Católica, olhavam com desconfiança para esta pedagogia nascida da Antroposofia e torciam pelo malogro do empreendimento. Entretanto, a Escola Waldorf de Stuttgart foi um grande sucesso, começando a funcionar com 200 alunos e em poucos anos, já contava com 1000 alunos, sendo necessário rejeitar inúmeros outros, por falta de vagas. Pouco a pouco outras escolas surgiram: Berlim, Altona, Hannover, Kassel, Breslau, Dresden, Basiléia, Zurique, Haia, Londres, Nova York e Oslo. E muitas outras pelo mundo afora.

O desejo de Rudolf Steiner era fundar uma escola única de 12 séries, para todas as classes sociais e para meninos de ambos os sexos, independente da camada social a qual pertencessem. Seu objetivo para uma escola desse tipo é a formação do ser humano, necessitando para isso de um professor que possa imergir nas almas e em toda a essência do ser humano em desenvolvimento.

Posteriormente, em março de 1939, a escola de Stuttgart foi fechada com o advento do Regime nacional-socialista na Alemanha. Seus edifícios foram seriamente danificados pelo bombardeio das tropas aliadas durante a Segunda Grande Guerra. Com a chegada das tropas americanas naquela cidade, em 1945, os ex-alunos, mesmo sem se comunicarem entre si e sem qualquer planejamento, começaram a estabelecer uma nova ordem, fazendo a escola renascer dos escombros, florescendo até hoje.

Também no ano de 1919 a Euritmia foi apresentada ao público em uma grande viagem pela Alemanha e Suíça. O ser humano, tal como o vemos ante nós, é uma forma acabada. Mas essa forma acabada origina-se de movimentos… E, desenvolvendo a euritmia, retornarmos aos movimentos primordiais… Deus euritmiza, e enquanto Ele o faz nasce, como resultado desse euritimizar, a figura humana.

Na idade de 59 anos, Steiner encontrava-se envolvido intensamente nos mais variados campos, a partir do impulso espiritual de trazer vida nova à civilização atual e enriquecê-la através dos conhecimentos da ciência iniciática. Confiava na força da Antroposofia, que converte o pensar materialista e egoísta em pensar espiritualizado e humano, acreditando que a mentalidade se modificaria em todos os campos da vida do homem aos poucos. Todo o seu esforço consistia em transmitir aos homens uma nova compreensão do próprio assunto com o qual os homens têm de lidar em cada esfera particular da vida.

Rudolf Steiner se colocava sempre à disposição daqueles que tinham perguntas, encarando seu interlocutor com seus bondosos olhos castanhos luminosos, como se naquele momento não existisse nada mais importante que as perguntas ou o destino pessoal de quem estava a sua frente.

Ele esperava sempre que as pessoas se dirigissem a ele e lhe solicitassem ajuda e, na plenitude de seu conhecimento espiritual, ele respondia de bom grado, dando-lhes do maior e do melhor do que se ousaria esperar. Mas as pessoas tinham de ser aqueles indivíduos que pela força de sua entrega, lhe fornecessem o fundamento apropriado ao novo que era trazido. Uma regra do esoterismo diz que um Iniciado só responde se for perguntado.

A solidão de todos os tempos continuava sua companheira, percebendo o abismo crescente entre o que falava em suas conferências, trazido diretamente dos mundos espirituais, e a consciência extremamente terrena de seus ouvintes. Porém Rudolf Steiner nunca deixou que qualquer um dos seus colaboradores percebesse um desapontamento seu, suportando tudo sempre com gentil paciência. Sempre se dirigia ao melhor do outro, mesmo se fosse a parte mais baixa deste que lhe respondesse. Um grande sábio falava às pessoas, mas elas não percebiam de quem se tratava.

Na Páscoa de 1920, aos 59 anos de idade, Rudolf Steiner deu o primeiro curso para médicos e estudantes de Medicina, em Dornach. Foram 20 conferências que demonstraram um conhecimento soberano de questões relacionadas com a ciência médica. Porém não era sua intenção aparecer como terapeuta; compreendendo que essa missão cabia aos médicos. Só se empenhava na atividade terapêutica em ligação com um médico licenciado, não tratando as pessoas. Ele aconselhava o médico com toda a sua humanidade e os médicos, ao se disporem a aceitar os seus ensinamentos, dispunham-se, também, a passarem por uma profunda reviravolta em suas consciências médicas. Oferecia a educação de novas faculdades de discernimento, o despertar da visão correta para os diagnósticos e liberava no praticante uma dose superior da vontade de curar e combater a enfermidade. A Antroposofia, antes de afirmar algo acerca do espiritual, elabora os métodos que a autorizam a fazer tais afirmações.

Mas essa espera pelos médicos foi uma das mais demoradas de sua biografia e talvez uma das mais dolorosas. Ele já havia percebido muito cedo o significado social abrangente e a premência da ampliação do impulso científico-espiritual na Medicina Antroposófica, diante do desenvolvimento vertiginoso da medicina convencional. Em uma palestra de 1909 já anunciava: Deixe-se desenvolver a Medicina de forma tão materialista e, se vocês pudessem antever quarenta anos, ficariam assustados diante da brutalidade dos seus procedimentos e até que formas de morte serão empregadas por essa Medicina para curar as pessoas.

Em 1920 também foram instituídos 2 cursos antroposóficos de nível universitário, dados por colaboradores e pelo próprio Steiner, que difundiam o saber científico. Essa iniciativa trouxe para o movimento um número de jovens com formação universitária, ocasionando a substituição dos antigos membros vinculados à época da Seção alemã da Sociedade Teosófica por jovens cientistas, professores e médicos que buscavam a Antroposofia como uma nova forma de atuação. Steiner considerou que os dois cursos ficaram em total desacordo com o espírito do edifício, porque ao invés da Ciência ser fecundada pela Antroposofia, a Antroposofia se viu invadida pelos hábitos do pensamento da Ciência Natural.

 

Em setembro de 1920 o Goetheanum é inaugurado sem a escultura do Representante da Humanidade, que ainda estava sendo esculpida por Steiner na marcenaria ao lado do prédio. A construção era majestosa, com suas cúpulas reluzentes e as formas modificando-se sobre as janelas e os portais. Tinha-se a impressão de que tudo se superava.

Desta época em diante, praticamente todas as semanas publicavam-se artigos e livros contra Rudolf Steiner, com ataques, calúnias e zombarias provenientes de um grande número de adversários, fanáticos religiosos, cientistas dogmáticos e de círculos nacionalista alemães. Steiner tinha a consciência de que seus opositores arrastavam seu nome na lama para destruir seu trabalho, pressentindo que o movimento sofreria muito com tudo isso. Empenhou-se solitariamente e com muito sofrimento em ordenar e responder a todos esses ataques.

Em Stuttgart aconteceu, ainda, um grande congresso público e o segundo curso para médicos foi oferecido. Os cursos para médicos continham múltiplas sugestões para uma nova aplicação de medicamentos, fazendo nascer dessas indicações os laboratórios farmacêuticos. Em 1920 havia uma grande pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos, favorecendo o nascimento dos laboratórios farmacêuticos em Arlesheim e Schwabisch Gmünd (Weleda A.G) e mais tarde em Eckwalden (WALA). Surgiu, também, a necessidade de se fundar uma clínica levando alguns médicos antroposóficos a criarem um Instituto Terapêutico em Stuttgart, onde Steiner teve a oportunidade de trabalhar em conjunto com eles.  Porém esses médicos eram aqueles formados nos cursos que desagradaram Steiner, não se empenhando da maneira urgente, como ele esperava, para que se pudesse promover o estudo e a reforma necessária da Medicina.

Muitas iniciativas antroposóficas foram organizadas, mas a Sociedade Antroposófica ainda estava inativa e sem um cultivo de seus ramos. As empresas ‘Der Kommende Tag’ e a ‘Futurum S.A.’ na Suíça, que foram fundadas com a tarefa de apoiar empreendimentos econômicos e espirituais, geravam muita preocupação, causada pela incompetência administrativa e pela falta de idéias. Sentia-se por todos os lados o prenúncio de uma crise.

Em junho de 1921, em Arlesheim, Suíça, próximo ao Goetheanum, a Dra. Ita Wegman inaugurou um Instituto Clínico-Terapêutico, como forma de fazer o que fosse necessário no sentido da Antroposofia. A cooperação entre Steiner e a médica começou nesse verão, tornando-se mais próxima, mais tarde num momento trágico da vida dele.

O auge da atuação pública de Rudolf Steiner foi alcançado no ano de 1922, quando contava com 61 anos de idade. A Agência de concerto Wolff, em Berlim, interessou-se pela organização de suas conferências e as salas existentes já não comportavam mais o público ouvinte. Em maio ele proferiu um ciclo de palestras de duas semanas em dez cidades alemãs. Marie Steiner descreveu o ambiente reinante na Europa com relação à atuação de Rudolf Steiner dessa forma: O público vindo das cidades vizinhas estacionava diante das ruas próximas ao local do evento em Berlim, sem conseguir entrar. Esse sucesso desencadeou logo a sanha dos adversários. Para aniquilar um movimento espiritualista, perigoso, conforme as opiniões de inúmeras pessoas uniram as hostes inimigas entre si. Pan-germânicos, católicos, protestantes, comunistas, representantes da ciência, uniram-se nessa mesma intenção. Os poderosos círculos judaicos, dirigentes nas finanças e na imprensa tudo fizeram, por meio de uma campanha em artigos difamatórios para apoiar e atiçar a ânsia de destruição dos inimigos. Desse modo não foi difícil encenar arruaças.

Estas cenas aconteceram em Elberfeld e Munique – a cidade sede da atuação de Adolf Hitler. Jovens ligados ao movimento nacionalista alemão interromperam várias vezes, quando Rudolf Steiner falava Da Antroposofia e o Conhecimento Espiritual, no Hotel Quatro Estações. Nesse hotel ele foi alvo de um atentado à mão armada, que graças à intervenção dos amigos, evitou-se o pior. Steiner escapou pela porta dos fundos e terminou seu ciclo serenamente.

Os organizadores aconselharam-no a suspender a realização das palestras, entendendo que a organização inimiga era tão forte, que eles não se achavam em condições de oferecer garantias quanto à sua segurança. Esses episódios foram apenas avisos do que deveria seguir-se: um golpe bem mais duro.

Em julho ele compareceu em Viena ao Congresso Leste-Oeste, em que era um dos principais oradores. O Congresso aconteceu num clima tenso, encontrando-se Steiner extremamente triste Os ataques a sua obra continuavam e certa oposição interna dirigida a sua pessoa começou a ser percebida.

Num esforço sobre-humano Steiner falou no Congresso, dispondo-se, como sempre, a oferecer conselhos e consolo a centena de pessoas. Duas mil pessoas participaram do Congresso Leste-Oeste, todas cheias de entusiasmo, apesar das críticas agressivas da imprensa. Ele considerou este congresso como sendo o mais grandioso empreendimento público originado do espírito antroposófico. Foi durante este Congresso que a senhora Valborg Werbeck Svärdstöm, criadora da Escola do Desvendar da Voz, de inspiração antroposófica, deu um concerto na famosa Sala da Associação Musical de Viena.

Em agosto de 1922, pela primeira vez depois da Guerra, Steiner viajou à Oxford, Inglaterra, para falar em uma conferência sobre educação. Aconteceram, também, apresentações de Euritmia em Londres e em Haia, evidenciando-se um crescente entusiasmo por esta arte. Em Dornach um curso para franceses foi organizado, demonstrando que os contatos interrompidos pela Guerra estavam sendo retomados.

Ainda nesta época, um grupo de jovens teólogos reuniu-se em Stuttgart para solicitar a Steiner conselhos e diretivas para sua futura atividade religiosa. Esse grupo depositava enorme confiança em Rudolf Steiner não só em suas doutrinas, mas, sobretudo pelo modo como ele se situara na vida pública nos anos da derrocada alemã. Como encontrar eco nos corações dos contemporâneos quando se trata de falar-lhes das coisas relativas ao verdadeiro cristianismo? Foi a pergunta que Steiner lhes fez.

Dessa forma, em setembro de 1922 foi fundada a Comunidade de Cristãos, com o intuito de dar prosseguimento à corrente cristã da humanidade, junto com quarenta e cinco sacerdotes, entre eles um sábio budista e três mulheres.

A Comunidade de Cristãos é uma comunidade inteiramente autônoma e sua vida se processa sem qualquer vinculação de dependência perante a Sociedade Antroposófica. O movimento antroposófico deve atender à necessidade cognitiva, ao passo que o movimento religioso deve atender às necessidades de ressurreição do homem.

Em dezembro de 1922 Rudolf Steiner proferiu uma conferência para esclarecer à Sociedade Antroposófica que não se tratava da criação de uma nova religião, como muitos acreditaram e adverte os antropósofos a não se descuidarem do solo a partir do qual o culto da Comunidade de Cristãos brotara – a Antroposofia. Aos antropósofos caberia o cultivo do ser Antroposofia. O que seria da Sociedade Antroposófica se ela necessitasse em primeiro lugar de uma renovação religiosa? Era a pergunta de Rudolf Steiner para aqueles que se limitavam apenas em acorrer aos bandos aos atos cúlticos dos pastores.

Os inimigos aumentavam, uma vez que foi inevitável o surgimento da compreensão de que se tratava da fundação de uma nova religião antroposófica.

Durante o mês de outubro, depois de muitos conflitos com os mais velhos, Steiner deu o ‘Curso para Jovens’ em resposta à busca de muitos deles por caminhos na Antroposofia, já que a cultivavam como se fosse um partido antroposófico.  Sente que os mais velhos sabiam muito, porém faziam pouco e rejeitavam os mais jovens, que sabiam pouco e queriam fazer muito.

Steiner retirou-se em grande parte da vida pública, constatando que aquela Sociedade não estava espiritualmente desperta o bastante para defender o edifício e protegê-lo internamente de seus poderosos e numerosos inimigos. A Sociedade Antroposófica está dormindo.

As empresas e as instituições financeiras continuavam em crise, sendo necessária a liquidação da ‘Futurum’, na Suíça, com graves perdas financeiras. Na Alemanha, a sociedade ‘Die Kommende Tag’ tem de passar a maior parte de suas ações para sua maior acionista, a fábrica de cigarros Waldorf-Astória e reduzir bastante o seu programa. Os institutos de pesquisa não atingiam os resultados práticos e apareciam dificuldades até mesmo na Escola Waldorf. No Instituto Terapêutico de Stuttgart a espera pelo trabalho dos médicos não acontecia, formando-se um muro burocrático, conhecido como o ‘sistema de Stuttgart’, a oposição no colegiado dos médicos era a mais visível.

Rudolf Steiner tentou, em inúmeras reuniões noturnas, votações, conferências e palestras, ativar finalmente a auto-reflexão dos antropósofos e chegar com eles ao que realmente paralisava a Sociedade: falta de elaboração de tarefas científicas, bloqueio ao êxito de muitas iniciativas recentemente fundadas, rejeição aos jovens, espera do trabalho científico central dos médicos – o Vademecum, além de outros aspectos. A intenção de Steiner era dar às iniciativas um cunho antroposófico, ou todos aqueles impulsos que surgiam, acabariam arruinando o movimento.

A campanha difamatória dos inimigos amplamente organizados realizou-se principalmente nos anos de 1922 e 1923. Max Hayek, simpatizante da Antroposofia, havia se encontrado com Rudolf Steiner no verão de 1922 e percebera que ele era um portador de grandes aflições… na Terra, um mártir do espírito, alguém que suportava uma cruz.

No Congresso de Natal de 1922 suas palestras levavam os antropósofos presentes à compreensão do posicionamento do ser humano no decurso do dia e do ano, da metamorfose dos mistérios solares e à compreensão dos profundos mistérios de Hibérnia, através do acontecimento no Gólgota.

As palestras estavam sendo proferidas no grande salão de cúpulas para um grande público e turnos de vigilância foram preparados para evitar qualquer acidente na construção, provocado por falhas técnicas ou por forças da natureza, levando-se em consideração que Steiner já alertara muitas vezes que o Goetheanum estava extremamente exposto ao perigo. Enquanto soavam aqueles avisos de alerta, sérios e penetrantes, contra a destruição que viria de dentro, tanto por não se cuidar devidamente do espiritual, como por não se cultivar a Antroposofia, o destino do primeiro Goetheanum já estava selado.

A crise no movimento antroposófico se tornou explícita na noite de 31 de dezembro de 1922: um incêndio destruiu o edifício, numa ação criminosa. Naquela noite Rudolf Steiner falava de coisas grandiosas: O ser humano transforma a Terra a partir de sua própria espiritualidade ao compartilhá-la com o mundo; ao vivificar os pensamentos pela Imaginação, a Inspiração, a Intuição; ao realizar a comunhão espiritual da humanidade. O tom solene e a penetração de suas palavras intensificavam-se ao longo da palestra. Tinha-se a impressão de que naquele púlpito um grande iniciado celebrava o culto do futuro, o culto cósmico da humanidade.

Depois de ter proferido os versos que ele havia escrito no quadro negro, ele se afastou do púlpito com grande discrição, pela lateral, tornando assim óbvio que ninguém o aplaudisse como naturalmente ocorria em outras palestras. Os dois versos permaneceram na lousa com sua letra bonita, enquanto jovens e velhos, profundamente comovidos, saíam para a noite estrelada de São Silvestre. Pouco depois o guarda de plantão acionou a linha de emergência do corpo de bombeiros do Goetheanum, dando o sinal de incêndio. Fogo no Goetheanum!

Aquela construção onde trabalharam pessoas de diferentes nações por muitos anos e a qual Rudolf Steiner tinha se entregado totalmente, fora consumida pelas chamas. Tudo agora está inscrito no éter cósmico, foi o que Rudolf Steiner disse a Ita Wegman, que se encontrava ao seu lado nessa hora.

Rudolf Steiner foi visto percorrendo o terreno, em todas as direções, com o semblante marcado por profunda tristeza, consciente do que a humanidade havia perdido. Após a noite de incêndio, pela manhã, apesar da imensa dor provocada por aquela tragédia, com seu espírito inabalável, deu coragem e força a todos os presentes para que pudessem suportar aquela situação. Ele informou a um pequeno de grupo de antropósofos que estava ao seu lado que o trabalho continuaria e que voltaria a construir.

Quis na matéria sensória

O Goetheanum falar ao eterno

Através das formas, ao olho.

As chamas puderam destruir a matéria.

Deve a Antroposofia

Fazer, a partir do espírito,

Sua construção falar à alma.

As chamas do espírito,

Elas hão de endurecê-la.

 

Ao meio dia do dia 1º de janeiro de 1923 todos foram informados que as apresentações previstas seriam mantidas conforme o programa.

Neste mesmo dia Steiner ainda disse as seguintes palavras ao conde Polzer-Hoditz: as diferenças entre as almas são muito grandes. Elas querem ver, ouvir e acompanhar tudo, mas acordar elas não querem. Assim elas tiveram de sentir a catástrofe e a dor física. Aqui não age o carma e sim o não estar acordado dos membros e a maldade de algumas pessoas. A possibilidade nos foi dada: o Espaço da Palavra estava lá, mas esta só pode viver se seu interlocutor tiver sua contra-imagem no coração, e lá haverá a consciência da palavra, ou seja, quando o homem não apenas se responsabilizar pela ‘Palavra do Mundo’. Este era o sentido da edificação: Palavra e Resposta, Logos e Homem. Em Éfesus tivemos os mistérios da encarnação da Palavra. Éfesus teve de ser destruído para que não fosse usado indevidamente pelas forças contrárias. Aqui ocorreu o contrário. Os deuses olharam com expectativa para o Espaço da Palavra, mas os homens não estavam lá para protegê-lo. Foi dada uma possibilidade, mas a resposta dos homens faltou.

A destruição do Goetheanum foi o acontecimento mais trágico de toda a história do movimento antroposófico e da Sociedade Antroposófica até aquele momento. Não só a ruína física que estava ali à vista de todos e, principalmente de Rudolf Steiner, era preocupante, mas a advertência que nos últimos anos a Sociedade havia estado sem firmeza, acometida também com algo de aspecto ruinoso, simbolizado nas ruínas do edifício. Dez anos e um monte de ruínas. Estas foram as palavras encontradas em seu caderno de anotações de 1923, indicando o estado de sua alma depois do incêndio, mas que não expressaram de modo algum a tragédia que o incêndio representou para ele pessoalmente.

Para dar vida ao edifício, Steiner havia sacrificado parte de suas próprias forças etéricas, que deste modo se entrelaçaram à essência viva do Goetheanum. O incêndio revelou-se um duro golpe ao próprio corpo etérico de Rudolf Steiner. A obra ainda não estava completa, portanto, estava ligada às forças de seu criador.

Friedrich Rittelmeyer relatou que durante aqueles dias Steiner estava como uma grande ferida aberta, e foi a partir desse estado que ele pode voltar à calma translúcida e ao espírito suave com o qual escreveu Minha Vida.

Assya Turguenieff, uma colaboradora, observou que a risada jovial e alegre que muitas vezes clareava os severos traços do rosto do Dr. Steiner, seus movimentos rápidos e leves, seu passo rítmico – ninguém era capaz de andar como ele – nada disto pudemos vivenciar depois da noite do incêndio. Um grande peso pressionava seus ombros. Ele tinha de produzir a força para manter sua postura ereta e fazia muito esforço para caminhar.

Nesse momento de muita dor sua relação com Ita Wegman se intensificou, havendo surgido por parte da médica a compreensão mais exata de quem era Rudolf Steiner, do que ele precisaria e de como ele deveria ser apoiado.

1923 se revelou o ano mais crítico, não só para Rudolf Steiner como também para a Sociedade Antroposófica. Aos 62 anos de idade pensou na possibilidade de afastar-se totalmente e por completo da Sociedade, somente em companhia de alguns poucos discípulos e continuar o seu trabalho em caráter mais privado. Sentia-se como uma quantidade de valor desprezível. Entretanto, decidiu continuar, apesar de sentir que as pessoas queriam exatamente o contrário do que ele sugeria.

Em verdade, Rudolf Steiner já havia manifestado esta possibilidade anteriormente, conforme relato de Marie Steiner, pouco depois da morte dele: Na esteira da guerra, em muitos momentos difíceis – tanto do fracasso diante da luta cheia de ódio dos inimigos, quanto de indiferença frente ao seu fanatismo destrutivo – Rudolf Steiner se pronunciou com freqüência nos seguintes termos: ‘Quem sabe não seria melhor levar o movimento adiante sem a Sociedade?

Rudolf Steiner planejava a reconstrução da Sociedade e deixou isto bem claro 3 semanas depois do incêndio, falando da necessidade de consolidar a Sociedade o mais rápido possível. Porque, em certo sentido, o que faltou ao edifício de Dornach – e isto falou alto e claro para o mundo todo – foi o apoio protetor da Sociedade Antroposófica. Basicamente a Sociedade Antroposófica se esquivou desde o início da construção… A reconstrução só faz sentido se, atrás dela, estiver uma Sociedade Antroposófica cônscia de si mesma, tendo presentes seus deveres. Nas antigas iniciações sempre se conhecera o grau da prova de fogo, e essa prova de fogo fora estabelecida como se visasse a proporcionar-lhe uma iniciação vital.

Com um esforço sobre-humano, Steiner retomou suas viagens para proferir palestras, negociações, reuniões, aconselhamentos e cursos. As viagens e conferências serviam para cumprir a meta de despertar a antiga Sociedade Antroposófica do sono e do marasmo em que se encontrava e de resolver a ineficiência e má administração das várias firmas. Steiner exigiu a supressão de todo o espírito sectarista, o senso pela realidade em todas as esferas da vida e a coragem para enfrentar todas as deturpações da Antroposofia. Para ele o que deveria prevalecer era o caráter espiritual da Antroposofia e não um espírito teórico-didático. Enquanto a Antroposofia não for tomada com um ser vivo, que se movimenta invisível entre nós e perante o qual cada um se sinta responsável, o pequeno grupo dos antropósofos não progredirá como um grupo exemplar.

Prosseguiu com uma intensa atividade de esclarecimento, nos mínimos detalhes, das causas do incêndio junto à polícia e as demais autoridades suíças, negociando pessoalmente com as companhias seguradoras as indenizações que viabilizariam a construção do segundo Goetheanum.

Em agosto de 1923, Rudolf Steiner fez uma viagem a Gales, acompanhado de Ita Wegman, para novas conferências. Naquela região dos Mistérios de Gales a médica teve a oportunidade de ter muitas conversas com ele, falando-lhe de suas aspirações pelos Mistérios, perguntando-lhe, ainda, porque os cursos de Medicina eram dados de forma tão intelectual. Esta foi a pergunta que ele esperou que lhe fosse feita há muito tempo. Haviam-se passados exatos vinte e um anos até aquele dia – três setênios, desde que Rudolf Steiner formulou a frase, em 16 de agosto de 1902: Eu quero construir apoiado sobre a força que me permita levar ‘discípulos do espírito’ ao caminho do desenvolvimento. Uma meta importante e central do desenvolvimento foi alcançada por um verdadeiro discípulo. Confirmou-se a possibilidade do desenvolvimento de uma nova Medicina dos Mistérios, esta devia vir à vida… O mundo espiritual se rejubilou.

Em suas conferências para médicos não-antroposóficos e um público interessado, começou a fazer, então, uma série de exposições sobre a nova arte de curar e expressou com toda a clareza: Especialmente deve-se apontar aqui o Instituto Clínico Terapêutico de Arlesheim, sob a direção da Doutora Ita Wegman, que desenvolve uma atividade especialmente benéfica para esse Instituto, por ter aquilo que eu gostaria de chamar de coragem de curar. Não fora em Dornach ou Stuttgart que surgiu a expressão coragem de curar. Essas palavras foram expressas numa paisagem relacionada tanto com os mistérios de Hibérnia, quanto com a corrente de Micael, em Gales, onde ele tinha acolhido profundamente em si toda a espiritualidade da paisagem do lugar.

A partir de setembro de 1923 Steiner tomou nas mãos o desenvolvimento interior futuro de Ita Wegman, com toda a energia, ensinado-a e preparando-a para aquilo que deveria ser realizado de forma mais elevada.

Durante o restante deste ano formulou cada vez mais claramente a inauguração dos novos Mistérios, que agora se tornavam públicos e manifestos. Muito preocupado em aumentar as forças morais da Sociedade, apresentou de forma enfática a sua missão cultural, demonstrando que esta deveria se tornar um instrumento onde a renovação espiritual da humanidade se concretizasse, não obstante os intensos esforços das potências adversárias. O teor de suas conferências mostrou o resultado de seu trabalho. Todos os níveis até então ainda ocultos se revelavam. Evidencia-se agora o caráter Intuitivo, no despertar e na revelação dos níveis da vontade, é a expressão pública das ‘Bodas Químicas’ (no sentido de transubstanciação da matéria).

Numa série de conferências e palestras sobre Micael, em Viena, local de sua juventude e dos anos de estudante, anunciou que escreveria um livro de Medicina junto com a doutora Ita Wegman. O livro Os Elementos Fundamentais para uma ampliação da Arte de Cura começou a ser escrito no atelier de Rudolf Steiner e todas as noites iniciava o trabalho com a oração Pai Nosso, ao lado da estátua do Cristo.

No Congresso de Natal de 1923, realizado em Dornach, em meio a todos os escombros do incêndio, Rudolf Steiner fundou a nova Sociedade Antroposófica, num ato individual de grande coragem e absolutamente só. Tomou para si o cargo de presidente da Sociedade Antroposófica e sem reservas uniu o seu destino totalmente ao destino da Sociedade Antroposófica Universal num ato esotérico público, vinculando o Movimento Antroposófico à Sociedade Antroposófica. Após vencer graves dúvidas interiores, ergueu-se dentro de mim o conhecimento de que será impossível continuar a dirigir o movimento antroposófico dentro da Sociedade Antroposófica, se esta Assembléia de Natal não concordar com que eu retorne novamente a toda a forma de direção, inclusive a Presidência da Sociedade Antroposófica, a ser fundada aqui em Dornach, no Goetheanum.

Do ponto de vista do oculto, a atitude de Steiner somente é possível quando o princípio do perdão se torna uma realidade no mais nobre sentido cristão. Ao não empurrar a oposição para fora e nem se esquivar, deixando cada um por sua própria conta, Rudolf Steiner uniu-se à oposição. No sacrifício reside todo o esoterismo. Perdoando e acolhendo a todos os membros da recém fundada Sociedade Antroposófica, inclusive os que se opunham a ele, por todos os seus erros passados, inclusive ações e atitudes contra sua pessoa, cujas conseqüências ele suportou externa e internamente, tornou-lhe possível permanecer espiritualmente com essas pessoas, perdoando-lhes sempre que necessário, esperando pacientemente até que, mediante sua liberdade interior, elas adquirissem a consciência da absoluta necessidade da iniciativa espiritual individual para a evolução futura da humanidade inteira. Neste ato de perdão completo e sem reservas pode-se formar a efetiva substância espiritual, o solo moral-espiritual que lhe possibilitou desenvolver o impulso moderno dos novos mistérios cristãos.

Marie Steiner demonstrou a impossibilidade de dar uma descrição do que foi o Congresso de Natal de 1923. Mal se podiam perceber as forças que o impulsionaram. Entretanto, ali se deu a mais enérgica tentativa de um educador da humanidade de erguer seus contemporâneos acima de seu pequeno ego e de fazer um apelo à sua vontade consciente, no sentido de se tornarem um instrumento da sábia direção do cosmos.

Deu-se também a abertura da primeira classe (como de um primeiro ano de uma escola) da Escola Livre de Ciência Espiritual – a Escola Esotérica, centro de atuação da Sociedade Antroposófica. Sua abertura em 15 de fevereiro de 1924 foi precedida por um curso de Introdução à Antroposofia onde estavam presentes muitos jovens e novos membros.

Da nova Sociedade Antroposófica Universal são membros as Sociedades Territoriais e a Escola Superior Livre para as Ciências Espirituais com suas seções ligadas às atividades práticas: seção médica, seção pedagógica, seção de ciências naturais, seção de matemática e astronomia, seção de literatura, seção de artes dramáticas e musicais, seção social e seção de Antroposofia geral.

Além de Rudolf Steiner como presidente dessa Sociedade, foram nomeados Albert Steffen como vice-presidente e diretor de literatura, Marie Steiner como diretora da seção de Artes Dramáticas e Musicais, Ita Wegman como diretora da Seção Médica, Elisabeth Vreede como diretora da seção de Matemática e Astronomia e Gunther Waschsmuth como Secretário e Tesoureiro da Sociedade e dirigente da seção de Ciências Naturais.

Em sua alocução de abertura do Congresso de Natal, Rudolf Steiner apontou claramente para o fato de que o Goetheanum não fora consumido pelas chamas apenas em conseqüência de um ataque inimigo, mas o monte de escombros na colina de Dornach simbolizava num certo sentido, outro monte de escombros dentro da Sociedade Antroposófica e da própria situação do mundo.

Naquela época foi dada aos corações e às almas de todos os verdadeiros antropósofos do passado, do presente e do futuro a possibilidade de depositarem dentro de si a Pedra Fundamental, que estava relacionada com tudo aquilo que já havia começado a viver na Terra através do lançamento da primeira pedra fundamental e da construção do primeiro Goetheanum. Desta vez a Pedra Fundamental foi lançada no coração dos presentes sob a forma de uma meditação, fundando-se os novos mistérios cristãos. E o solo adequado em que precisamos colocar a Pedra Fundamental de hoje, esse solo adequado são os nossos corações, em sua harmoniosa cooperação, em sua boa vontade compenetrada de amor, para transportamos juntos o querer antroposófico, através do mundo para nós.

No Congresso de Natal consumou-se um grande mistério: foi criada a possibilidade do mundo se tornar um templo onde, em toda parte, almas humanas vivam e atuem a partir da força da pedra Fundamental. Esta meditação é um exercício constante para gerar em nós, por caminhos meditativos espirituais, as forças puras do amor em nossa organização trimembrada.

O solo onde foi colocada a ‘Pedra Fundamental’ puderam ser apenas os corações e as almas das personalidades unidas na Sociedade; e a própria Pedra Fundamental, ele mesma tem de ser a mentalidade que brota da configuração antroposófica da vida. ‘Esta mentalidade na maneira como é exigida dos sinais da época presente, é formada pela vontade de encontrar através do aprofundamento humano da alma o caminho para a visão do espírito e para a vida a partir do espírito’

Estavam ali presentes entre setecentas a oitocentas pessoas, algumas como representantes de suas Sociedades Territoriais, e muitas porque o destino as levara até lá. Marie Steiner constatou que aqueles ali presentes não eram os escolhidos, somente foram de fato chamados, mas não estavam à altura do apelo, conforme se evidenciaria mais tarde.

Também, naquele Congresso, Steiner sancionou como um caminho de canto com orientação antroposófica, a Escola do Desvendar da Voz, que tinha na pessoa da senhora Valborg Werbeck-Swärdström sua idealizadora.

Suas exposições passaram a ser relacionadas à atuação de personalidades concretas – sejam elas historicamente conhecidas ou não – que representaram os impulsos espirituais da humanidade nas maneiras mais diversas, em diferentes épocas. Esse tipo de exposição intimamente relacionada ao carma da Sociedade Antroposófica, iniciou-se durante o Congresso de Natal de 1923, destacando os antecedentes espirituais da fundação da nova Sociedade e a ampla dimensão em que Steiner colocava a Sociedade Antroposófica a partir do Congresso.

Os últimos anos de vida – 1924 a 1925

O esgotamento físico de Rudolf Steiner, bem nítido aos olhos de seus colaboradores desde o incêndio do Goetheanum, se agravou repentinamente em 1º de janeiro de 1924, e ele adoeceu gravemente: A mais profunda ação esotérica teria consistido em conseguir que correntes espirituais anteriormente divergentes, pudessem chegar nesse momento, entre alguns de seus representantes, a um acordo harmonioso. Essa teria sido uma missão esotérica que, em comum atuação do Dr. Steiner, pela sua transcendente compreensão, energia e capacidade de amor, poderia ter sido solucionada. Mas nosso carma humano e o carma da Sociedade Antroposófica, abateram-se sobre ele imediatamente após o Congresso de Natal. No último dia, 1º de janeiro de 1924, ele adoeceu gravemente e de súbito. Foi como um golpe de espada, que atingiu sua vida, por ocasião de um chá acompanhado de doces e salgados, assinalado no programa como ‘Rout’. (Marie Steiner)

Steiner subjugou repetidamente a moléstia que se fez sentir na noite de 1º de janeiro de 1924. A imagem de homem saudável deu lugar a de um homem enfermo, sem contudo, interromper suas atividades. Neste ano ele completou 63 anos e foi o último ano completo de sua vida, sendo também um ano de atividade plena.

Num período de 272 dias ele proferiu 338 conferências, 60 alocuções, além de viajar para Paris, Londres, Breslau, Praga, Berna, Arnheim e Torquay. Do ponto de vista da Medicina, ele trabalhava exclusiva e intensamente com a Doutora Ita Wegman, a colaboradora que ele considerava poder fazer valer a Antroposofia na forma correta, em sua área específica – a Medicina.

Ita Wegman percebia aflita, porém impotente, o declínio gradativo das forças físicas de Steiner. Numa carta a Ita Wegman, escrita em 1º de abril de 1924, Rudolf Steiner esclareceu-lhe:

Minha querida Mysa-Ita (a forma como Rudolf Steiner tratava a Doutora Ita Wegman), muitíssimo obrigado, de coração pela amorosa carta, que me deixou muito contente. Espero que minha querida Mysa esteja bem. Por favor, não tenha mais preocupações pelo meu estado; eu me cuidarei de verdade, tanto quanto seja possível. Até agora tudo pôde ser superado. Há muito para ser feito.

Naquela época, tal como hoje, muitos antropósofos especulavam sobre a natureza de sua doença. Para alguns, Steiner permitiu saber em que direção eles deveriam pensar – e esses entenderam imediatamente. Entre essas pessoas estava, o escocês Daniel Dunlop, que se encontrou com ele em Torquay no sul da Inglaterra, em agosto de 1924: Algumas semanas ainda antes de sua última doença, durante o curso de verão de Torquay, eu falei da minha preocupação pela sua saúde física. Com firmeza, mas com infinita amabilidade, ele me levou para o lado e me chamou a atenção de que não deveriam ser empregadas idéias comuns sobre enfermidades para o seu estado. Com estas poucas palavras abriu-se para mim muito mais do que estava contido no significado imediato delas.

 

Numa carta a Marie Steiner, em outubro de 1924, ele escreveu:

‘Minha querida Marie, eu lhe contei há algum tempo que desde janeiro de 1923 a conexão dos membros constitutivos superiores de meu ser com meu corpo físico já não estava mais completa: em minha vida nos reinos espirituais, eu, em certo sentido, perdi a conexão direta com meu organismo físico.’

A fraqueza física e o excesso de trabalho não foram capazes de abater Rudolf Steiner, que se mostrava pleno de possibilidades espirituais, chegando até a manifestar que sentia como se recebesse uma retribuição do mundo espiritual, como uma compensação do destino pela perda sofrida pela Antroposofia, com o incêndio do Goetheanum.

O ponto central de suas conferências é a consideração sobre o destino humano, retomando assim suas intenções mais genuínas. Com toda intimidade e soberania, Steiner sentia que era possível revelar os resultados concretos de sua pesquisa cármica e do destino humano a um público que agora o escutava atentamente, conseguindo tornar realidade o que outrora, em conseqüência de oposições que vigoravam, não pudera ser iniciado com a intrepidez necessária. Não mais se tratava de ensinamentos gerais, agora era possível falar abertamente sobre as relações na vida terrena, pois isto tem a ver com o mistério desvelado de Micael… O fato novo é que os demônios, que antes não permitiam que se falasse das coisas, agora devem silenciar.

Seu curso para jovens médicos no início de 1924 assumiu um tom inteiramente novo, apoiado na natureza própria do homem. A Euritmia ganhou sua síntese e seu coroamento com grandes cursos de fevereiro a junho – Euritmia Musical e a Euritmia como Linguagem visível.

Dois importantes impulsos se concretizaram ainda em 1924, mais uma vez vindo de solicitação externa:

1- A Pedagogia Curativa – que surgiu da iniciativa de jovens estudantes universitários de Jena, na Alemanha, que trabalhavam com crianças psicopatas. Steiner deu conselhos sobre quais cuidados elas deveriam receber: O que é preciso em primeiro lugar para a educação dessas crianças? Não o peso do chumbo, mas humor, humor verdadeiro, humor vital!

O trabalho da Pedagogia Curativa é subordinado à Seção Médica e corre de mãos dadas com a Euritmia Curativa. Na Escócia, na Inglaterra e na África do Sul o Doutor Karl Köning criou o movimento pedagógico-curativo ‘Camphill’. Na Suécia formou-se um centro perto de Estocolmo com três sedes. Atualmente, existem mais de seiscentas instituições para crianças, jovens e adultos com distúrbios de desenvolvimento, deficiência física e mental e distúrbios comportamentais. Hoje são cerca de sessenta centros de formação em Pedagogia Curativa.

2- A Agricultura Biodinâmica – O Conde Carl Keyserlingk formulou uma série de perguntas a Rudolf Steiner sobre a Agricultura, solicitando-lhe que realizasse um curso para agricultores. Então, na primavera de 1924, Rudolf Steiner, já debilitado fisicamente, pronunciou um ciclo de palestras na casa do Conde, em Koberwitz, Polônia, para  fazendeiros, donos de terras, interessados e negociadores de terras de todas as partes da Europa. O objetivo era promover uma atitude de agricultura na qual a terra e a natureza não fossem limitadas como um mero objeto de exploração financeira.  As conferências consideraram um novo método biodinâmico  de cultivo para produzir colheitas sadias, prevenindo erosão do solo, combate à poluição e redução de doenças nas plantas e animais, com a eliminação de venenos industriais e fertilizantes sintéticos.

Junto com o curso de Agricultura, que aconteceu de 6 a 17 de junho de 1924, realizou-se o Congresso de Pentecostes em Breslau, à noite. Neste Congresso Steiner deu um ciclo de conferências sobre o carma, que ganhou um cunho especial pela intimidade com que ele se dirigia às forças humanas do coração. Encontrou tempo para se juntar a um grupo de jovens da Silésia, uma zona industrial entre a Polônia e a República Checa, ouvindo com o coração suas questões e preocupações sobre a vida; encorajando-os e, com sua linguagem imaginativa, abrindo-lhes os olhos da alma para o feito luminoso de Micael, o condutor da humanidade, através de duas aulas proferidas.

Pela manhã de cada dia, ele voltava de trem à Koberwitz para falar ao público que lá o esperava. Nem todos eram agricultores, alguns eram penetras, como dizia Rudolf Steiner. Jovens que, com sua bondade e generosidade, ele permitia que participassem, imaginando que aquela participação pudesse influenciar o destino de um ou outro. Era visível a satisfação e a felicidade dele naquela atmosfera campestre, falando de uma maneira que tocava o coração, dizendo que ele próprio queria estar totalmente ligado à recém fundada sociedade de agricultores profissionais antroposóficos. Surgia para o agricultor um caminho voltado ao espírito, que conduz à compreensão proveniente da região espiritual pela criação e pelo trabalho.

Steiner estava completamente entusiasmado por mais essa iniciativa: Acabamos agora de dar um grande passo adiante.

Ocupou-se ainda dos cursos de formação de professores, formação esotérica dos médicos, Arte da Fala e Arte Dramática, de colaboração profissional entre médicos e sacerdotes, de aprofundamento esotérico para os sacerdotes, e do curso sobre os desvios patológicos dos estados de consciência (A Consciência Iniciática) e de conferência sobre a Antroposofia, ministradas em Praga e Paris. Ainda encontrou tempo para publicar, no período entre 20 de janeiro e 10 de agosto de 1924, no Boletim de Notícias da Sociedade Antroposófica, dezoito cartas aos membros. A Antroposofia somente pode prosperar como algo vivo. Porque a característica fundamental de sua natureza é vida. Ela é vida jorrando do espírito… A forma primordial em que ela pode aparecer entre seres humanos é a idéia: e o primeiro portal a que se dirige no ser humano é o juízo. Não fosse assim, e ela não teria conteúdo. Seria apenas exaltação de sentimento. Mas o espírito verdadeiro não se exalta, fala uma linguagem concisa e substancial. Steiner buscava sempre referendar a intenção espiritual do Congresso de Natal, certificando-se se aqueles impulsos estavam sendo aceitos na Sociedade Antroposófica.

Em setembro de 1924 viajou à Inglaterra, sendo esperado em Dornach, no seu retorno, por mais de mil pessoas, entre elas médicos, atores e teólogos, aos quais havia prometido cursos especiais. Embora já estivesse sofrendo seriamente com a doença, reuniu todas as promessas feitas e durante três semanas falou sobre o Apocalipse de João e deu para médicos e pastores um curso sobre medicina pastoral. Ministrou, ainda, um curso para os operários que participavam da reconstrução do Goetheanum.

Em 28 de setembro de 1924, véspera de Micael, sugeriu que ainda não havia um número suficiente de pessoas que tinham acolhido os impulsos espirituais. É a sua Última Alocução aos membros. Irá vigorar o carma, foi sua resposta à indagação que a Doutora Ita Wegman lhe fizera sobre o que aconteceria se os impulsos não fossem acolhidos pelas pessoas.

Prokofieff demonstra que tal sacrifício somente pode ser superado quando as pessoas abrem seus olhos ao ‘conhecimento’ das verdadeiras realidades do mundo espiritual, que virá como parte de um processo de desenvolvimento ainda maior de uma atividade interior de suas almas, orientadas espiritualmente. Até então, os discípulos iniciados e os mestres espirituais, suportarão a pesada cruz do sofrimento e do perdão pelo tempo necessário, esperando pelas pessoas ‘que ainda não sabem o que fazem’. E a Sociedade ainda não tinha acolhido os impulsos espirituais em si.

Marie Steiner comentou que em setembro se poderia ter chegado à possibilidade de começar com a segunda classe da Escola Livre de Ciência Espiritual, se a onda de sócios que chegava a Dornach não tivesse sido tão avassaladora, necessitando de toda a atenção, assim como o necessitavam as exigências espirituais e a receptividade dos recém-vindos. …havia tantos desejos pessoais a contentar, que foi impossível impedir a exaustão física total do Mestre e Doador.

Rudolf Steiner encontrava-se completamente exausto. Sua enfermidade praticamente impedia a alimentação do seu corpo enfraquecido. A sobrecarga pessoal lhe roubou as últimas reservas de força física e, a partir de 29 de setembro de 1924, viu-se obrigado a renunciar a qualquer atividade entre os sócios, permanecendo acamado, no máximo isolamento. A marcenaria, onde funcionava seu atelier, foi transformada em um quarto de enfermo e sua cama posta ao pé da inacabada estátua do Cristo. A Doutora Ita Wegman se responsabilizou pelos seus cuidados e tratamento, juntamente com o Doutor Ludwig Noll, um médico de Stuttgart, contra a vontade de Steiner.

De seu leito continuou o trabalho, dedicando atenção especial à reconstrução do Goetheanum, planejado em novas formas e feito de concreto armado, um material inovador nas construções à época. Rudolf Steiner amava o ruído vigoroso de marteladas e armações que do canteiro de obras do Goetheanum vinha penetrando a tranqüilidade de seu quarto de doente e lhe anunciava o progresso da construção.

Começou a escrever As Máximas Antroposóficas, que se reuniriam num volume sob o título Mistério de Micael, concentrando ali tudo o que ele tinha a dizer sobre a orientação espiritual da humanidade. Chamou a atenção para o fato de ser Micael o dirigente de nossos tempos, que educa a humanidade para ser livre, crendo no seu futuro, não desejando ver essa humanidade entregue às suas fraquezas, mas sim a um esforço supremo. Steiner adverte que somente em ligação com Micael a humanidade conseguirá superar as forças contrárias que ameaçam a sobrevivência da civilização, revelando-se o mistério da luta contra o dragão.

Temos de erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer ao homem.
Temos de adquirir serenidade em todos os sentimentos e sensações a respeito do futuro.
Temos que olhar para frente com absoluta equanimidade para com tudo que possa vir.
Temos que pensar somente que tudo o que vier nos será dado por uma direção mundial plena de sabedoria.
Isto é parte do que temos de aprender nesta era, a saber: viver com pura confiança, sem qualquer segurança na existência; confiança na ajuda sempre presente do mundo espiritual.
Em verdade, nada terá valor se a coragem nos faltar.
Disciplinemos nossa vontade e busquemos todas as manhãs e todas as noites, o despertar interior.

Elementos Fundamentais para uma Ampliação da Arte de Curar Segundo os Conhecimentos da Ciência Espiritual, o livro que escrevia em conjunto com a Doutora Ita Wegman foi interrompido antes de completar-se, mas foi publicado. Seu objetivo era reunir as primeiras indicações conceituais e práticas para o exercício de uma arte médica ampliada.

Na primavera de 1924 ele já havia começado a escrever sua autobiografia como uma maneira de invalidar as acusações infundadas às quais esteve duramente exposto, não sofrendo nenhuma interrupção durante a doença. Os relatos vinham sendo publicados semanalmente e todos os fascículos recebiam de sua mão o adendo ‘Segue’. De maneira curiosa, o manuscrito que ele enviou na última semana de março de 1925 não continha o adendo.

Seu estado de saúde se agravou muito no final do ano de 1924, à época do Natal. Os antropósofos chegavam a Dornach para estar pelo menos fisicamente, próximos de Rudolf Steiner, mas as visitas não eram mais permitidas. Somente umas poucas pessoas tinham acesso a ele: Marie Steiner, Albert Steffen e Günther Wachsmut. Mesmo muito debilitado escreveu uma longa carta em 30 de dezembro, agradecendo a atenção de todos e especialmente a dedicação da Doutora Ita Wegman: O que a Doutora Wegman faz em fiel assistência… Sempre permanecerá, diante dos médicos, como exemplo luminoso da atuação do amor médico.

Três meses depois pela manhã, Rudolf Steiner faleceu em seu Atelier em Dornach – Suíça. Novamente era uma segunda-feira, 10 horas da manhã, 30 de março de 1925.

Conforme relato da Doutora Ita Wegman, A partida foi como um milagre. Ele foi embora como se fosse algo natural. Para mim foi como se, no último momento, tivessem sido jogados os dados da decisão. E, quando eles caíram, não havia mais luta, nenhuma intenção de ficar na Terra. Ele olhou calmamente por algum tempo para frente, disse-me algumas palavras carinhosas e com toda a consciência, fechou os olhos e ajuntou as mãos.

Era a época da Paixão, mas já se anunciava a festa da Ressurreição. A notícia de sua morte foi um imenso golpe e de todos os lados as pessoas chegavam com olhares que revelavam uma enorme tristeza. A Sociedade e a Escola Superior perderam sua cabeça em um instante quando tudo havia sido fixado, mas nada levado a cabo. Agora, aprendizes e oficiais tinham de mostrar com força própria o que haviam aprendido do Mestre.

 

 

 

 

 

 

 

 

‘Que seja para o bem.’

Referências:

 

Além das biografias e estudos, existem dezenas de outros livros e sites sobre a vida de Rudolf Steiner:

 

CALLEGARO, Bruno. Momentos de um Caminho. Reflexões sobre a Vida de Rudolf Steiner. Editora João de Barro; 2007. 152 pg.

HEMLEBEN, Johannes. Rudolf Steiner. Editora Antroposófica; 1989. 185 pg.

MEYER, Rudolf. Quem era Rudolf Steiner. Editado pela Associação Pedagógica Rudolf Steiner; 1969. 211 pg.

STEINER, Rudolf. Minha Vida. A narrativa autobiográfica do fundador da Antroposofia. Editora Antroposófica; 2006. 389 pg.

WILSON, Colin. Rudolf Steiner: El hombre y su visión: una introducción a la vida y a las ideas del fundador de la Antroposofia. Ediciones Urano, S.A.; 1986. 199 pg.

dor de la Antroposofia. Ediciones Urano, S.A.; 1986. 199 pg.

 

Na vida real o amor é o maior

poder de conhecimento.

 

  • Kraljevec – Croácia 27 de fevereiro de 1861
  • Dornach – Suíça 30 de março de 1925

ANA MARIA LUCCHESI CUNHA VASCONCELOS

Escola Livre de Estudos Biográficos Minas Gerais – Juiz de Fora

Formada pelo grupo I

RUDOLF STEINER

 

A Biografia de um Ser Humano Livre

 

‘Vidas não podem ser fielmente registradas em papel, sobretudo aquelas que merecem ser recontadas. Mas, se cabe ao escriba, honesto em seu propósito, a missão de relatar uma vida, o relato inevitavelmente, desfigurado e incompleto, consistirá na soma de várias histórias.’

Esta biografia fala de um iniciado cristão dos tempos modernos – um mestre espiritual, representante da corrente central do esoterismo cristão, cuja missão foi preparar a Terra, para que outros pudessem lançar a semente.

Rudolf Steiner foi um dos maiores pensadores e iniciados do século XX, doando ao mundo a Antroposofia – a sabedoria do Homem, a Ciência Espiritual que ele fundamentou a partir de suas próprias vivências, no início como ‘manifestação por obra de graça’ e a partir dos 18 anos de idade como uma disciplina conscientemente aplicada ao próprio interior. Constante foi o seu esforço para fazer da Antroposofia um trabalho espiritual útil e positivo, reconhecido e aprovado como um movimento científico-espiritual.

Apontou para a humanidade um caminho de autodesenvolvimento adequado ao homem moderno, tornando possível a concretização dos impulsos do mundo espiritual em conseqüências práticas no mundo exterior através da pedagogia, da arte, da Medicina, da agricultura e muitos campos de atividade.

Rudolf Steiner é o primogênito de um modesto casal de austríacos. Seus pais provinham de uma região de florestas ao norte do Danúbio, intocada pelos ventos da modernidade que começavam a soprar. Seu pai, Johann Steiner havia sido caçador a serviço do Conde De Hoyos, em Horn, na Baixa Áustria, onde conheceu Franziska Blie, uma mulher calma e silenciosa. Para se casar com Franziska, Johann assumiu o cargo de telegrafista na recém inaugurada ferrovia do sul da Áustria, favorecendo ao pequeno Steiner um ambiente bastante moderno para aqueles tempos, a partir de sua profissão.

Johann Steiner foi transferido para Kraljevec, situada na fronteira húngaro-croata, num lugar bem distante de sua região natal. É nessa cidade, numa segunda feira, 27 de fevereiro de 1861, que nasceu Rudolf Steiner. O bebê era muito chorão, necessitando ser sempre ninado no colo, em volta da casa, para que se acalmasse e não incomodasse tanto os vizinhos com seus gritos.

Quando completou 1 ano e meio de idade iniciou-se para Rudolf Steiner o que podemos chamar da perda de suas raízes e pátria: mudou-se de seu lugar de nascimento e as mudanças não pararam mais. Johann foi novamente transferido, desta vez para Mödling, perto de Viena e seis meses mais tarde, mudou-se com a família para Pottschach, próximo à fronteira estíria. Neste lugar Rudolf Steiner viveu até a época dos 8 anos de idade e viu chegar ali sua única irmã, Leopoldine (1864 – 1927), e Gustave (1866 – 1941), seu irmão mais novo, que era um menino bem alegre, surdo-mudo de nascença, de quem Rudolf Steiner se ocupou desde cedo. Depois disso a família não cresceu mais.

Os pais de Rudolf Steiner tinham poucos recursos materiais, morando sempre em casas pertencentes às estações de ferro onde o pai trabalhava. No entanto, Johann e Franziska dedicavam o pouco que possuíam ao bem estar de suas crianças. Johann era agnóstico, extremamente trabalhador e sua única distração era se ocupar com os assuntos da política. Franziska era uma mulher inteiramente dedicada às tarefas domésticas e aos cuidados carinhosos com os filhos. A família falava o dialeto alemão da Baixa – Áustria oriental, usual nas regiões da Hungria.

A paisagem natural que cercou o ambiente da infância de Steiner era deslumbrante, cercada por verdejantes montanhas. Tudo era sublime natureza e reinava no lugar uma grande tranqüilidade! De vez em quando os trens se encarregavam de dar aquele lugar um pouco de movimento, colocando o menino em contato com o elemento mecânico traduzido em tudo o que dizia respeito à estação ferroviária.

O ambiente educacional naquela época era desanimador, tendo o menino ficado bem pouco tempo na escola em que foi matriculado. Seu pai logo o tirou dali, em razão de um incidente com o filho do Mestre – Escola e se encarregou pessoalmente de ensiná-lo. Rudolf Steiner aprendeu a ler cedo, mas a escrita era uma atividade pela qual o menino não tinha muitos interesses. Naquele ambiente de trabalho do pai, interessava-o muito mais observar todas as atividades práticas que o pai executava do que se envolver com aquilo que ele lhe ensinava. Fazia logo suas obrigações, para se ver livre das mesmas e observar atentamente todas as manifestações das leis da natureza e da mecânica.

Steiner era uma criança introspectiva, silenciosa, de índole compassiva perante as pessoas e à natureza. Era um menino clarividente, percebendo por detrás de todas as coisas e seres um mundo que não se revelava aos olhos de ninguém de sua convivência.

Desde cedo começou a ter experiências interiores que marcariam sua vida dali por diante. As vivências com as quais se deparava levaram-no a cada vez mais silenciar sobre elas. Dentro da criança reinava a convicção de que não adiantaria em nada esclarecer com os adultos o que ele via, porque se tratava de algo que ninguém em torno vele percebia. O ambiente que reinava à época era de um catolicismo pragmático desprovido de qualquer conteúdo interior, presente apenas como tradição histórica e em sua própria casa não encontrava estímulo algum quanto a essa sua relação com os assuntos do mundo espiritual, levando-o a se sentir completamente estranho em seu próprio meio. Portanto, desde muito cedo se acostumou ao silêncio e à solidão.

Com 7 anos de idade Rudolf Steiner se encontrava sozinho numa sala da estação ferroviária perto de um fogão à lenha, quando viu abrir-se a porta e entrar por ela uma mulher que lhe disse algumas palavras, fez alguns gestos e depois se encaminhou até o fogão e desapareceu dentro dele. Sabia não se tratar de um seu humano corpóreo, no entanto guardou segredo sobre essa experiência porque sabia não encontrar ninguém de seu meio com a mínima compreensão para o que todos consideravam ser somente uma superstição. Se contasse sobre o acontecimento ao pai sabia, com certeza, que ouviria as reprimendas mais amargas e seria alvo de terríveis chacotas. Mais tarde sua família foi informada que uma tia havia se suicidado, num lugar longe dali. O pai nada comentou com ele, mas o menino não teve dúvidas de que aquele episódio se tratou da visita, em espírito, da pessoa que havia se suicidado e que o havia encarregado de fazer algo por ela após sua morte.

A partir desse acontecimento, iniciou-se para o menino uma vida na alma em que se manifestam os mundos dos quais não só falam as árvores, as montanhas, mas também os mundos que se encontram por trás delas. Desse momento em diante o menino vivia com os espíritos da natureza que podiam ser especialmente percebidos naquela região.

Esta é umas das qualidades da iniciação rosa-cruz, vivenciada a partir da condição de vida e da biografia.

Em mais um transferência de seu pai, Rudolf Steiner, aos 8 anos de idade, muda-se com a família, para Neudörfl, uma pequena aldeia húngara, situada na fronteira com a Baixa – Áustria. A região é formada por rios, montanhas, florestas e colinas ao leste e ao sul, favorecendo ao menino o desenvolvimento de sua capacidade de observar a natureza, outra qualidade da iniciação rosa-cruz.

O dia na aldeia era preenchido com a ida à escola, a colheita de frutos na floresta e longas caminhadas para buscar água gaseificada numa forma de contribuir com os afazeres domésticos e colaborar para enriquecer tanto o almoço, quanto com o jantar da família, que normalmente se compunha de um pedaço de pão com manteiga e, às vezes, um pedaço de queijo.

Rudolf Steiner era de pouquíssimas amizades com outras crianças de sua idade, passando horas vagando solitariamente nas florestas das redondezas, em contato com os aldeões adultos que ali buscavam lenha ou observando passar a sua frente monges redentoristas que nem lhe dirigiam a palavra, mas que lhe causavam uma grande curiosidade em relação ao que eles faziam.

Quando entrou para a escola em Neudörfl, o menino já sabia ler, porém tinha grandes dificuldades com a escrita: Rudolf Steiner arredondava todas as letras, ignorando as linhas de cima, escrevendo as palavras desconsiderando a ortografia, lançando mão da musicalidade da língua. Para escrever sentia-se compelido a fixar as imagens verbais em fonemas, da mesma forma que ele ouvia as palavras do dialeto que falava, tornando-lhe muito difícil encontrar um acesso para a escrita da língua.

Para ajudá-lo nessa dificuldade o mestre – auxiliar lhe dá aulas particulares em seu quarto, onde possui uma pequena biblioteca. Rudolf Steiner desperta um especial interesse pelo livro de Geometria de Franz Monik, tomando-o emprestado, começando a estudá-lo sozinho, com afinco e entusiasmo.

O fato de se poder presenciar animicamente o desenvolvimento de formas a serem observadas de maneira puramente interior, sem impressão dos sentidos externos, proporcionou-me imensa satisfação. Nisto eu encontrei consolo para a disposição anímica que me resultara das questões não respondidas. Poder compreender algo puramente no espírito trazia-me uma felicidade interior. Sei que na Geometria eu conheci a felicidade pela primeira vez.

Sua alma ficou plenamente preenchida pela congruência, pela semelhança dos triângulos, quadriláteros, pelo teorema de Pitágoras e pela questão sobre onde se interceptariam as paralelas? Encontrou na Geometria uma espécie de espaço anímico, dando-lhe o modelo pelo qual se pode ter em si mesmo o conhecimento do mundo espiritual.

Este professor também trouxe ao pequeno Steiner a vivência do elemento artístico, lhe ensinando a desenhar com lápis carvão e colocando-o em contato com o violino e o piano, instrumentos que o mestre tocava. O menino ficava junto do professor todo o tempo que podia. Seu nome era Heinrich Gangl.

Recebeu através do pároco responsável pelo ensino religioso, Franz Maráz, a explicação do funcionamento do sistema cósmico copernicano, deixando na alma do pequeno Steiner uma impressão que marcou de modo exemplar sua orientação espiritual posterior. A criança ficou inteiramente cativada pelo assunto.

Com a idade de 10 anos, Rudolf Steiner, o pequeno solitário e de natureza observadora, ainda não sabia escrever corretamente, mas já cultivava dentro de si uma vontade silenciosa e reta de apoderar-se dos acontecimentos a partir da inteligência e da compreensão.

Para que pudesse ingressar no curso ginasial, foi necessário a Steiner realizar uma prova de admissão para a Escola Real, que ficava em Wierner-Neustadt, do outro lado do rio que cortava sua aldeia. A Escola tinha o caráter mais técnico, porque Johann, o pai de Rudolf Steiner, previa para o filho a profissão de Engenheiro. Mesmo não tendo sido aprovado com brilhantismo, ingressou nessa escola em outubro de 1872, com 11 anos de idade.

Cabe ressaltar que para Steiner pouco importava estudar numa escola clássica ou numa escola técnica. O que atuava dentro dele naquela época era um forte desejo de encontrar as respostas para as perguntas que ele carregava dentro de si.

Para ir para a Escola Real, Rudolf Steiner valia-se do trem que partia de manhã de sua aldeia para Wierner-Neustadt, porém na volta não havia mais horários de trens, sendo obrigado a voltar a pé, num percurso que demorava uma hora e meia. No verão o trajeto era de pura natureza, não se podendo dizer o mesmo da paisagem quando era inverno: a neve chegava a bater na altura dos joelhos. Mais tarde ele atribuiu a esse grande esforço físico a oportunidade de fortalecer sua saúde.

O menino acostumado a uma pequena aldeia, não se sente nem um pouco à vontade naquela cidade de casas apertadas umas contra as outras. Porque não morava ali, não lhe sobrava tempo para fazer amizades, sobrando-lhe apenas poucos momentos em que gastava, solitariamente, observando as vitrines no caminho de volta para casa. Nas horas do almoço era acolhido por uma amiga da família que lhe dava de comer gratuitamente e o acolhia sempre que necessário.

Ainda sentia muitas dificuldades em acompanhar as aulas, com exceção de Matemática, Física, Química e Geometria Descritiva, achando a maioria das aulas exageradamente monótonas. Para compensar toda a sua dificuldade de aprender, ele começou a estudar sozinho em livros de matemática e física, que ele mesmo comprava.

Aos 13 anos encontrou na pessoa do professor de Aritmética e Geometria alguém a quem poderia seguir como um ideal de ser humano. O professor lhe ensinava de uma forma tão ordenada e clara, que despertou em Steiner os entendimentos necessários para compreender a Matemática e muita coisa mais que ele ainda não conseguia compreender. Era altamente benéfico ao pensar poder acompanhá-lo.

Empenhando-se em harmonizar o que assimilava pela Matemática, Física e Desenho Geométrico, com o conteúdo que ele trazia dentro de si, buscava encontrar a forma de responder à pergunta: Como se pode abrir para o pensar o mundo do espírito?

Sentia que somente se aproximando da natureza poderia se posicionar perante o mundo espiritual que se encontrava em evidente manifestação diante dele. A adequada vivência do mundo espiritual por meio da alma somente aconteceria quando o pensar adquirisse uma configuração capaz de aproximar-se da essência dos fenômenos da natureza. E, ordenando tudo o que aprendia para se aproximar de sua meta, tornava-se cada vez mais, um aluno exemplar.

O jovem empenhado em elucidar as questões não resolvidas trazidas dentro de si, nunca abdicou de desempenhar as tarefas da vida cotidiana. Aprendeu a encadernar seus próprios livros escolares, a estenografar, e ocupando-se dos afazeres de sua casa, ajudando em tudo que fosse possível e que o tempo lhe permitisse: junto com seus irmãos encarregava-se de replantar os canteiros, cultivar o pomar e ainda arrumava tempo para cuidar sozinho, e com prazer, da tarefa das compras alimentícias para a família, na aldeia. Mais tarde, quando adulto, entendia que devia aquilo do que era capaz ao fato de ter aprendido em criança a sempre lustrar, ele mesmo, os seus sapatos.

Para Steiner, o conhecedor do mundo supra-sensível deve saber como se encontrar de maneira prática na vida, não devendo refletir sobre a vida quem não está inserido nela de forma prática. Por toda sua vida lutará incansavelmente para que o conhecimento do supra-sensório não seja algo meramente que atenda à necessidade teórica, mas sim à verdadeira vida prática.

A partir dos 14 anos de idade, o aluno com grandes dificuldades de aprendizagem se transformou, sendo indicado por seus professores a colegas de sua classe ou alunos mais novos, para ministrar-lhes aulas particulares, encontrando dessa forma um modo de minimizar as despesas que seus pais tinham com sua educação. Foi uma oportunidade para estudar e aprender mais e mais sobre as matérias que ensinava, observando ainda bem novo, as dificuldades da evolução da alma humana.

Aos 15 anos de idade reencontra-se em Wierner-Neustadt, com Carl Hickel, um médico que ele conhecia quando menino, podendo freqüentar sua biblioteca.  O médico se tornou para Steiner o seu professor particular de literatura poética, mostrando-lhe que o mundo era belo, dando-lhe a oportunidade de experimentar um universo diferente daquele que encontrava tanto em sua casa quanto na escola.

Em torno dos 16 anos, numa de suas observações das vitrines das livrarias, Rudolf Steiner adquire um livro de Immanuel Kant – A Critica da Razão Pura. Naquela época ele não tinha a menor idéia da posição espiritual que o filósofo ocupava na história. Seu interesse pelo conteúdo do livro dizia respeito ao que ele desejava compreender dentro de si. Entretanto, o jovem adolescente não tinha tempo disponível para ler o livro, levando-o a buscar a seguinte solução: como as aulas de história eram muito enfadonhas ele inseriu dentro do livro da matéria as folhas do livreto de Kant, podendo ler sossegadamente o filósofo enquanto a aula era ministrada em sala de aula. Steiner lia Kant continuadamente, até vinte vezes a mesma página, para entender como o pensar humano se situava diante do criar da natureza. Queria educar em si a atividade pensante de forma que todo pensamento fosse inteiramente visível, sem a interferência dos sentimentos.

Além do empenho em estudar Kant, adquiriu vários manuais da língua grega e latina, como uma maneira de estudar as matérias que não eram ministradas no seu curso técnico, tornando-se um jovem autodidata e pesquisador de todas as impressões que vinham em sua direção.

Concluiu seus estudos do ensino médio aos 18 anos de idade, em 1879. Encerrou esta etapa com uma prova oral onde explicou o funcionamento do telefone pela física e recebeu seu diploma de Bacharel com nota exemplar no seu comportamento moral.

Os anos de estudo em Viena – 1879 a 1890

Para que Rudolf Steiner pudesse prosseguir seus estudos superiores, seu pai pediu transferência para a estação de ferro de Inzersdorf.  A família muda-se em agosto de 1879, para Oberlaa. Ficaram para trás todos os encantos naturais da paisagem que rodeou a infância e adolescência de Steiner, indo a família morar num canto triste e solitário na periferia de Viena.

A cidade já havia se tornada cosmopolita e moderna, sem os vestígios da Idade Média, escutando-se aqui e ali tons dissonantes que provocavam o despertar da consciência junto com a aurora da nova época.

 

Antes da entrada na Academia Politécnica de Viena, Steiner aprofundou sua pesquisa filosófica, dedicando-se a estudar Fitche, Schelling e Hegel. Foi no estudo de Fitche que lhe foi revelada uma realidade ativa e espiritual. Reescreveu a teoria científica de Fichte, empenhando-se por encontrar o caminho do Eu até a natureza. Para Steiner o Eu humano era o único ponto de partida para um verdadeiro conhecimento.

Sua matrícula na Academia Politécnica foi decidida em função de um estudo que lhe garantisse um ganha-pão, optando, então, pelo magistério científico, com ênfase em Matemática, História Natural e Química.  Reconhece que foram esses conteúdos que lhe deram uma base segura para uma concepção espiritual do mundo, mais que a História e a Literatura que não tinham um método determinado e nem perspectiva no contexto científico alemão daquela época.

Continua dando aulas particulares e estuda graças a uma bolsa de estudos conseguida pelo pai. Na Academia tem aulas de Literatura Alemã, ministrada por Karl Julius Schröer, um pesquisador de Goethe, que ensinava de um modo caloroso e entusiasmado. Através desse professor Steiner é conduzido ao espírito da época de Goethe, sendo incentivado à leitura de Fausto, a obra-prima do filósofo alemão. O professor se tornou um protetor e amigo paternal, sendo esse um encontro decisivo na vida de Steiner.

Ansioso por conhecimento e de natureza muito observadora, Steiner ainda consegue tempo para frequentar toda a sorte de palestras e aulas dos mais variados temas na Universidade de Viena tais como: medicina, pedagogia, psicologia e artes. Buscava encontrar uma forma de esclarecer a questão de como se relacionariam o mundo físico e o mundo espiritual, naquela época de grande materialismo científico e filosófico.

Freqüenta como aluno-ouvinte as palestras de filosofia de Schröer, Robert Zimmermann e Franz Brentano, não lhe sendo fácil assimilar que aquela Filosofia que ele estudava não poderia, no pensamento daqueles filósofos, ser conduzida até a visão do mundo espiritual.

Nesse momento de sua vida, empenha-se em ampliar o seu mundo social, aprofundando-se, para isto, na vida estudantil de Viena. Tudo o que lhe acontecia em volta não lhe passava despercebido, observando as complicadas relações humanas que se desvendavam ante seus olhos.

No entanto, não permitia que ninguém percebesse o que acontecia dentro de si, demonstrando possuir uma força anímica e uma saúde física capaz de suportar toda e qualquer solidão. Estava convicto que sua visão da realidade espiritual deveria ser embasada pelo pensamento científico, e através da Filosofia, busca uma forma concreta de adentrar o, caso contrário, aos olhos dos outros, o jovem talentoso, cujas faculdades de clarividência não lhe davam dúvidas sobre o que existia por detrás e acima do mundo sensorial, demonstraria apenas ser um enfermo da alma.

Para fortalecê-lo em sua meta, duas personalidades são colocadas no caminho de Steiner, como fatos biográficos tramados pelo destino. O primeiro encontro se dá no trem para Inzersdorf, quando ele tinha 18 anos de idade. Era um homem simples do povo, que colhia ervas nas montanhas e as vendia nas farmácias de Viena, de nome Felix Koguzki. Era um iniciado nos mistérios da atuação de todas as plantas e de suas conexões com o cosmo e com a natureza. Para Rudolf Steiner foi difícil, no início, compreender o colhedor de ervas, mas desde o seu primeiro contato teve a mais profunda simpatia por aquele homem. Sentia que o aquele homem falava era influenciado por uma vida anímica de grande sabedoria criativa, trazendo-lhe um grande conhecimento instintivo da Antiguidade. Com Felix, Steiner sentia que se podia falar do mundo espiritual com alguém que tinha experiência dele. Percebia, ainda, que Felix era apenas o órgão fonador para um conteúdo espiritual que queria lhe falar de mundos ocultos.

Rudolf Steiner nunca mencionou o nome dessa pessoa, referindo-se a ele de maneira muito afetuosa em sua biografia. Um antropósofo esclareceu o segredo daquele homem simples. Ele foi fundamental para o caminho interior e o destino de Rudolf Steiner, tendo seu caráter e sua individualidade sido descritos por Steiner em seus ‘Dramas de Mistério’ na figura de Felix Breve.

Mais tarde, num relato a Edouard Schuré, um poeta e teósofo francês seu amigo, Steiner lhe disse que Felix fora apenas o enviado do mestre, que ele ainda não conhecia, mas já o observava à distância e viria a ser seu iniciador. Steiner nunca fez nenhum comentário sobre a identidade pública desta outra personalidade, mencionando-o apenas como aquele homem excepcional e insignificante na profissão exterior. Uma das condições para ser um Mestre é permanecer incógnito.

Ainda, de acordo com Schuré, não foi difícil para o Mestre completar a primeira iniciação espontânea em seu discípulo, Rudolf Steiner. Ele apenas precisou mostrar-lhe como teria de utilizar-se de sua própria natureza para colocar todo o necessário em suas mãos. Mostrou-lhe a ligação entre as ciências exteriores e a ciências ocultas, as religiões e as forças espirituais, assim como a antiqüíssima tradição oculta, que tece os fios da História, separando-os e reatando-os no decorrer dos séculos. Através dos estudos das obras de Fichte, o Mestre conduziu o discípulo a tal fortalecimento dos pensamentos, que o leva a um decisivo despertar da alma. Desse encontro nasceriam os fundamentos de seu livro Ciência Oculta.

O Mestre deixou-o percorrer rapidamente as diversas etapas da disciplina interior, para elevá-lo ao grau da clarividência consciente e racional. Em poucos meses, em aulas orais, ele havia tomado conhecimento da incomparável profundidade e beleza da visão esotérica conjunta. Mostrou-lhe também o significado da dupla corrente do tempo: a expiração e a inspiração da alma do mundo, que provém da eternidade e à eternidade retornam. O conhecimento desta dupla corrente do tempo é a premissa para a vidência espiritual.

Foi lhe concedido seguir os falecidos, vendo o mundo espiritual como sendo realidade. Eu seguia a pessoa falecida pelo seu caminho para dentro do mundo espiritual.

A tarefa de Rudolf Steiner, sua missão de vida, já se delineava: religar ciência e religião. Introduzir Deus na ciência e a natureza na religião. Mas de que maneira isto poderia ser feito? Como ele poderia domar e transformar a ciência materialista? Estas eram suas perguntas mais prementes.

E o Mestre lhe responde: Se você quiser vencer o inimigo, comece por compreendê-lo. Você apenas se tornará o vencedor do dragão quando puder entrar em sua pele. Você precisa pegar o dragão pelos chifres. Apenas no meio da maior adversidade é que encontrará suas armas e seus companheiros de luta. Mostrei-lhe quem você é. Agora vá e permaneça você mesmo!

Iniciava-se um caminho novo e penoso para o jovem de aproximadamente 21 anos, caminho que ele seguiu por toda a sua vida, tornando-se o grande desbravador de um futuro espiritual.

A matemática mais uma vez se mostra como um fundamento de toda a sua busca de conhecimento. Numa aula de Geometria Moderna Steiner se confronta com a imagem de que uma reta, quando prolongada pela direita ao infinito, volta ao seu ponto de partida pela esquerda. O ponto infinitamente distante à direita é o mesmo que o infinitamente distante à esquerda. Compreender que a reta voltava a si como uma linha circular foi uma revelação que lhe tirou um peso enorme dos ombros. Como em seus anos de menino, a Geometria lhe trouxe novamente uma sensação de felicidade junto com um sentimento libertador. Poderia então ser possível uma representação mental que por meio de um avanço no futuro infinitamente distante, implicasse num retorno do passado?

Apresentou-se diante de minha alma uma vidência espiritual, e ela não repousava sobre um sentimento místico obscuro. Transcorria em uma atividade espiritual plenamente comparável ao pensar matemático em sua transparência. Eu me acercava da constituição de alma por meio da qual eu acreditava poder justificar a visão do mundo espiritual que eu trazia dentro de mim também diante do for do pensar científico-natural.  Encontrava-me em meu vigésimo – segundo ano de vida quando estas vivências passavam por minha alma.

Amplia o seu contato com o professor Schröer, freqüentando suas aulas de História da Literatura como aluno ouvinte e visitando-o, freqüentemente, em sua casa, para conversar sobre Goethe, educação e ensino, como num prosseguimento às suas aulas. O professor era 36 anos mais velho que Steiner, estabelecendo entre professor e aluno uma renovação da clássica relação mestre e discípulo.

Schröer recomenda Steiner ao professor Joseph Kürschner, como sendo a pessoa capaz de reorganizar e apresentar a obra científica de Goethe. Steiner seria o responsável por estabelecer uma ponte entre a obra científica de Goethe e a Idade Moderna. Esta tarefa estendeu-se por quase vinte e dois anos de sua vida, levando-o a um contato com a obra do pensador alemão da forma mais aprofundada que qualquer outra pessoa poderia ter.

Assumindo uma tarefa que caberia a Schröer, que era o editor da obra literária de Goethe, mas não tinha nenhum acesso interior à obra científica do pensador, Steiner assumiu para si parte do destino de Schröer e adiou o cumprimento de sua missão por vários anos. No entanto, colocou-o diante de uma decisão que influenciou tanto sua vida espiritual, quanto sua vida exterior. Foi essa a tarefa que obrigou o seu espírito a aprofundar-se e pelejar em seu próprio mundo interior a fim de estruturar as idéias para compreender e demonstrar a índole de Goethe, tornando-lhe possível introduzir a Antroposofia ao público, pois estava ali a base de todo o edifício da Ciência Espiritual.

Era Goethe quem mostrava ao jovem Steiner que ‘aquele que progride rápido demais pelos caminhos espirituais, pode certamente chegar a uma experiência cabal do espírito; só que em matéria de conteúdo-realidade, sairá empobrecido na plenitude da vida.’

Através do trabalho com as obras de Goethe pode observar a diferença entre a constituição da alma à qual o mundo espiritual se manifesta por intermédio da graça, como havia ocorrido com ele em sua infância e a constituição da alma que passo a passo torna o próprio interior cada vez mais semelhante com o espírito. Vivenciando a si mesma como verdadeiro espírito.

É só então que se sente o quão intimamente o espírito humano e a espiritualidade do mundo podem crescer juntos na alma humana.

Nas introduções elaboradas por Rudolf Steiner pode-se observar toda a essência da obra de Goethe. Em sua edição do primeiro volume das obras científicas de Goethe, Steiner alcança o reconhecimento público.

Steiner tem 23 anos quando conclui seus estudos na Academia Politécnica de Viena, mas ainda não tem elaborada uma tese que lhe permitiria seguir a carreira de professor de Filosofia. Não recebendo mais a bolsa de estudos, vê-se empenhado em garantir uma forma de sustento regular. Emprega-se como preceptor na casa da família vienense Specht, também por indicação de Schröer. Na decisão de assumir a educação das crianças dessa família, Steiner tem seus planos de se tornar professor universitário adiados, porém percebe o cumprimento do destino por vias indiretas.

O impulso de participar dos destinos de outras pessoas se faz notar mais uma vez nesse momento em sua vida e de novo a retardação de seus planos, como uma característica sempre presente em sua biografia.

O mais novo dos meninos, Otto Specht era portador de hidrocefalia, sendo considerado anormal em seu desenvolvimento. Por meio de medidas pedagógicas especiais e de um modo particular de se ligar à criança, Steiner conseguiu obter uma melhora tão radical, que após dois anos o menino pode ser matriculado numa escola comum, numa classe de crianças de sua idade. O menino formou-se em Medicina, atuando como médico na 1ª Guerra Mundial.

Além de ter encontrado uma espécie de lar junto a essa família e desenvolvido uma intensa amizade com a mãe das crianças, Pauline Specht, Steiner reconhece que foi a oportunidade dada pelo destino de perceber que a educação e o ensino formam uma arte baseada no real conhecimento do homem, levando-o mais tarde a desenvolver uma pedagogia revolucionária aplicável a toda a humanidade. Com as crianças dessa família ele teve, ainda, a oportunidade de aprender a brincar, resgatando o tempo perdido de sua infância, entre os 23 e 28 anos.

Nessa casa Rudolf Steiner também conheceu Josef Breuer, o médico vienense que participou junto com Freud do nascimento da psicanálise, admirando-se com a criatividade e sutileza de espírito com que esse médico buscava os caminhos para a cura de seus pacientes.

Em 1886, aos 25 anos, como resultado de seus estudos sobre Goethe e de seus esforços filosófico-metodológicos para superar o abismo entre o pensamento moderno e a concepção espiritual, ele escreveu e publicou: Linhas Básicas para uma Teoria do Conhecimento na Cosmovisão de Goethe – uma reflexão do método de conhecimento que Goethe utilizava em suas pesquisas de Ciência Natural – o Goetheanismo. Edita, também, o segundo volume das obras científicas de Goethe.

Nessa mesma época, ele conhece Gundi, a irmã mais nova de um amigo, com quem viveu uma relação anímica muito intensa, mas reconhecia ser a relação impossível de ser concretizada dada a sua reserva em dizer àquela jovem que ele a amava, percebendo igual reserva na moça. Descreve a amiga como um ser solar em sua vida, restando do relacionamento apenas correspondências e, mais tarde, somente as boas lembranças que sempre emergiram de sua alma durante toda a sua vida

Steiner é introduzido, por Schröer, a um círculo de filósofos e literatos vienenses, que se reunia na casa da poetisa Marie Eugenie delle Grazie, onde se promoviam saraus, e se reuniam regularmente professores da faculdade católica de Teologia. Reinava naquele círculo uma busca constante de valores elevados e abertos a impulsos espirituais, mesmo que não houvesse consenso de idéias, como avaliava Steiner. As idéias para sua Filosofia da Liberdade foram amadurecendo à época do convívio com esse círculo.

No início de 1887, então com quase 26 anos, Rudolf Steiner adoece gravemente e precisa de várias semanas para se recuperar, tendo sido cuidado com muita atenção pela Sra. Pauline Specht, mãe das crianças sob a sua responsabilidade educacional. É possível que tenha sido tratado pelo Doutor Josef Breuer nesta ocasião.

Em torno de seus 28 anos de idade, teve a oportunidade de frequentar um círculo de pessoas agrupadas em torno de Marie Lang, que o impressionava profundamente. Foi levado a esse grupo por Friedrich Eckstein, um jovem dirigente de uma Loja Teosófica em Viena. A busca das pessoas que frequentavam o círculo era por algo mais elevado e ali se reuniam para partilhar suas vivências anímicas interiores. Interessou-se pelo efeito que a Teosofia exercia nas pessoas como uma busca mística séria e lê nessa época ‘Budismo Esotérico’ de Sinnet e ‘Luz no Caminho’ de Mabel Collins, mas a leitura do primeiro livro não lhe causou impressão alguma, ficando até aliviado por não tê-lo lido antes de ter suas idéias embasadas em sua própria vida anímica.

Por intermédio deste grupo, conhece Rosa Mayreder, uma mulher engajada nos movimentos políticos e sociais inovadores da época, em torno de quem, reina uma atmosfera de liberdade de pensamento e fervorosa defesa do verdadeiro lugar e significação da mulher na sociedade. Marie Lang e Rosa Mayreder vieram a ser as líderes do movimento feminista, fundando a Associação das Mulheres Austríacas.

Rosa Mayreder foi uma alma feminina totalmente diferente para Steiner. Ele estabeleceu com ela uma grande amizade e junto compartilhava suas formas de pensamento de sua Filosofia da Liberdade. Foi com essa amiga que experimentou ser tirado de parte daquela solidão interior em que ele vivia, mesmo que tivessem diferentes pontos de vista com relação à vivência do espírito. Rudolf Steiner nos conta que Rosa era uma mulher que lhe dava a impressão de possuir alguns dons anímicos que formavam a expressão correta da natureza humana.

Podemos perceber o imenso carinho que Rosa tinha por Rudolf Steiner, através de suas palavras numa carta a ele, de outubro de 1890:

‘Pois a lacuna que sua despedida deixou na minha vida se me faz sentir, todos os dias, a toda hora, em todos os inumeráveis pontos de raciocínio em que a insegurança, a dúvida, a confusão, a inquietação fazem nascer o desejo da felicidade insubstituível da comunicação amistosa que o senhor me ofereceu. Por quanto mais tempo o senhor fica longe, meu caro amigo, tanto mais inimaginável me parece que possa permanecer longe. (Viena, 26 de outubro de 1890).’

Pode-se perceber a variedade das relações e o grande número de amizades que Steiner reuniu ao seu redor, pelo fato de ter se tornado extremamente sociável e por desenvolver dentro de si cada vez mais a característica de nunca negar sua admiração a ninguém e nem por aquilo que estivesse em oposição direta a ele, mesmo tendo a certeza de que ninguém do seu círculo o acompanharia até o seu mundo.

Steiner dessa forma participa, por suas incontáveis amizades em tão diferentes círculos, a tudo que de moderno pulsava em Viena, onde acontecia grande parte da vida cultural da monarquia imperial da Áustria, levando uma vida exterior sem nenhuma relação com o que se encontrava em sua vida interior, mas reconhecia que os seus interesses estavam entrelaçados.

Em paralelo com a função de educador das e professor particular que se estendeu por mais de 15 anos de sua vida, Steiner assumiu temporariamente, na primeira metade de 1888, com 27 anos de idade, a redação do Semanário Alemão, publicado em Viena. Empenhou-se em introduzir uma discussão onde se levasse em conta as grandes metas espirituais da humanidade, recebendo, com essa tarefa a oportunidade de se ocupar com as almas de povos das várias nacionalidades austríacas, buscando encontrar o fio condutor para uma política cultural espiritual.

Ainda se resguarda de uma atuação pública, concentrando-se na estruturação de seu universo filosófico de idéias, prosseguindo em silêncio com seu treinamento espiritual. Tudo na roupagem da filosofia idealista era o que lhe aconselhavam as forças que atuavam por detrás de si.

Em novembro de 1888, perto dos 28 anos de idade, profere na Sociedade Goethe de Viena o que viria ser a sua primeira palestra antroposófica: ‘Goethe como Pai de uma nova Estética’, levando um dos ouvintes presentes a perceber que Steiner compreendia Goethe de uma maneira aristotélica, sugerindo a ele afinidade de seus pensamentos com os de Tomás de Aquino.

Aos 28 anos de idade, em 1889, tem seu primeiro contato com as obras de Nietzsche, sentindo-se capturado e rechaçado por sua abordagem. Não gostou nenhum um pouco de como o filósofo tratava dos problemas mais profundos com nenhuma espiritualidade consciente.

Com essa idade, Rudolf Steiner fez sua primeira viagem ao Império Alemão. Visitou Eisenach, Sttugart, Berlim e Weimar, conhecida como a Atenas do Norte e cidade de Goethe. Em Berlim ele conhece pessoalmente Eduard Von Hartmann – o filósofo do inconsciente, num encontro decepcionante, levando-o a sentir a distância que o separava da Filosofia contemporânea. Hartmann considerou Steiner apenas um admirador, não levando em consideração nada do que ele tinha a falar-lhe.

O ano de 1890, quando Steiner tem 29 anos de idade, é dedicado a terminar a introdução ao terceiro volume da obra científica de Goethe – a parte sistemática da Teoria das Cores. Sua introdução é o que se pode chamar de Ontologia: a teoria do fenômeno primordial arquetípico, do espaço e do tempo e do sistema da Ciência Natural. Pode-se dizer que formava, em esboço, as bases da Antroposofia.

 

Os anos em Weimar – 1890 a 1896

Em 29 de setembro de 1890, aos 29 anos, Rudolf Steiner muda-se para Weimar, na Alemanha, num adeus à Viena e ao convívio regular das reuniões de jovens.

Começa a trabalhar no Arquivo Goethe-Schiller, como um colaborador, sem um emprego oficial, recebendo a tarefa de preparar para a publicação seis volumes das obras científico-naturais de Goethe, destinada à edição Sofia. Deposita as mais altas expectativas quanto a um futuro promissor nessa mudança, uma vez que tal circunstância lhe proporcionaria o mais vivo contato com tudo quanto na vida internacional significava entusiasmo por Goethe ou pesquisa séria do universo goetheano. Porém a mudança revelou-se para Steiner uma desilusão, sentindo que esta incumbência não correspondia aos seus interesses. A ida para Weimar resultou num intervalo de sete anos de espera em sua vida, apesar de ter sido reconhecido como a capacidade mais importante no campo dos escritos-científicos naturais de Goethe. Mais uma vez a postergação de sua meta se faz notar em sua biografia.

Ele não encontrou em Weimar o goetheanismo atual, mas o passado, embora a cidade ainda tivesse o ar da época de Goethe. Sofria com aquela situação acanhada e burocrática que reinava no arquivo encobrindo a possante irradiação que o gênio de Goethe poderia influenciar na vida cultural do ocidente. Estranhou muito o ambiente externo de atividade científica a que estava submetido, sentindo não ter nenhuma relação interior com ele.

Ocupou-se em estudar o conto de Goethe: ‘A Bela Líria e a Serpente Verde’, como forma de pesquisa de todo o credo de Goethe.

Em março de 1891, aos 30 anos de idade, Steiner sofreu afonia, com paralisia completa das cordas vocais, sendo tratado com aplicações de eletricidade, considerada o agente universal da Idade Moderna.

Seu principal trabalho nesse ano foi a edição das obras morfológicas na edição Sofia, um trabalho puramente filológico. Com sua disposição de ânimo alterada, ele tinha pressa em terminar o trabalho para concentrar-se em sua tese de doutorado e obter um cargo como professor catedrático na Universidade Jena.

Sua tese intitulada Verdade e Ciência é uma lúcida investigação dos elementos básicos do ato cognitivo e seria prelúdio de sua Filosofia da Liberdade. Com ela obteve seu título de Doutor em Filosofia pela Universidade de Rostock em 26 de setembro de 1891.

Logo após a publicação da tese, Steiner aceita o pedido de um editor para escrever um livro sobre os problemas fundamentais da metafísica, que lhe dá muita alegria por perceber-se envolvido com algo que faz sentido para ele. Então, em outubro de 1891, ele começa a escrever sua Filosofia da Liberdade, há muito já preparada.

Em 1892 a tese é publicada em forma de livro – Verdade e Ciência, e ao mesmo tempo, ele se dedica, através de muitos contatos, a conseguir um emprego como professor de Filosofia na Escola Politécnica de Viena, porém sem sucesso.

No meio do ano de 1892, com 31 anos, Rudolf Steiner conhece Anna Eunike.  Ela era uma mulher viúva, mãe de quatro filhas e um filho e tinha 39 anos de idade. Solicitou a Steiner que a ajudasse na tarefa de educar seus filhos, cedendo-lhe uma parte de sua residência. Steiner, que até então não havia encontrado um lugar satisfatório para morar em Weimar, aceitou o convite, mudando-se para a residência da família. Logo entre os dois nasceu uma íntima amizade que se transformou em matrimônio 7 anos mais tarde em Berlim.

Pouco antes de sua morte, Anna relatou a uma de suas filhas que os anos em que viveu com Rudolf Steiner foram os mais felizes de sua vida, existindo outros depoimentos que mostram, também, Steiner muito feliz enquanto durou o matrimônio.

Anna Eunike, de quem logo me tornei intimamente amigo, cuidava para mim com dedicação de tudo que tinha de ser cuidado. Ela dava grande valor à ajuda que lhe prestava em suas difíceis tarefas com a educação dos filhos.

Aos 32 anos de idade, publicou seu livro Filosofia da Liberdade em 15 de novembro de 1893, pela Editora de Emil Felber, de Berlim, trazendo sua teoria do conhecimento. Em todos os capítulos há pensamentos novos, idéias que Steiner não havia expressado desse modo até então. Filosofia da Liberdade tem seu fundamento numa vivência que consiste na conciliação da consciência humana consigo mesma. A liberdade é exercitada no querer; no sentir é experimentada; no pensar é reconhecida. Porém, para alcançar isto, não deve a vida ser perdida no pensar.’

Em janeiro de 1894 proferiu uma palestra intitulada ‘Gênio, Loucura e Criminalidade’ para trezentos ouvintes, provocando em seus colegas de trabalho do Arquivo uma reação de distanciamento e frieza, lhe custando, mais tarde, a possibilidade de voltar à Viena ou de trabalhar em Jena como professor de Filosofia, por boatos que os colegas espalharam dele.

No ano de 1894, aos 33 anos de idade, Steiner dedicou-se ao estudo das obras de Friedrich Nietzsche, cujo primeiro contato já havia se dado em 1889.  Foi convidado, tempos depois, em 1896, a conhecer pessoalmente o filósofo, que já se encontrava seriamente doente. Contemplando Nietzsche Steiner percebeu que tem diante de si uma alma infinitamente bela, que trouxera de existências anteriores um tesouro dourado de luz, mas incapaz de fazer com ele brilhasse plenamente nesta vida.

Com 34 anos, em 1895, conheceu Haeckel pessoalmente em Jena, um eminente cientista representante da Teoria Evolucionista. Steiner considerava a teoria de Haeckel como a mulher fundamentação científica para o ocultismo, compreendendo que se o pensador tivesse estudado um pouco mais de Filosofia teria chegado às mais elevadas conclusões espirituais em seus trabalhos filogenéticos. Ao conhecê-lo pessoalmente, Steiner viu naquele homem um ser humano que somente era capaz de suportar impressões dos sentidos, não deixando o pensamento manifestar-se nele. A atividade da alma cessava naquela personalidade.

Nietzsche e Haeckel eram dois representantes da cosmovisão moderna. Mesmo que toda a teoria que os dois defendessem lhe fosse totalmente estranhas, Steiner reconheceu que eram os principais impulsos da época, levando-o a unir-se com esses impulsos, transformando-os a partir de suas concepções e com isto construir uma ponte apoiada em fundações firmes da Ciência Natural para uma Ciência do Espírito. Dessa forma entrosou-se nas correntes mais contraditórias, compartilhando dos destinos e das visões de mundo daquelas duas personalidades, reconhecendo o abismo em que se encontrava a humanidade, sem perder de vista a necessidade de sobrepujar esse abismo rumo a uma nova era de luz.

Suas forças ocultas lhe mostravam que deixasse fluir para a época o verdadeiramente espiritual, sem que isso fosse notado, tendo sempre em vista que não se chega ao conhecimento quando se quer impingir o próprio ponto de vista de maneira absoluta, mas quando se imerge em correntes espirituais alheias.

Um ano antes de deixar Weimar, por volta dos 35 anos de idade, Steiner sentiu em sua alma uma transformação que ele denominou ‘uma grande reviravolta anímica’, que se tornará pura vivência após sua mudança para Berlim.

Terminou a edição da obra de Goethe, na qual trabalhou por 7 anos.Trata-se de uma obra monumental, abrangendo 147 volumes, pelo acréscimo de introduções. Até hoje a Edição de Weimar ou ‘de Sofia’ é a mais completa das obras de Goethe.

Na finalização de suas atividades em Weimar, Steiner nutriu cada vez mais a esperança de poder voltar à Viena, pois lhe pareceu próxima a possibilidade da criação da cadeira de Filosofia na Academia Politécnica de lá, mas isso se mostrou muito improvável de realizar. Colocava-se para ele a questão do quê fazer? Vivia sem moradia própria, num quarto de hotel em Weimar. Começou a elaborar o livro A Cosmovisão de Goethe, editado em 1897, escrito a partir do que ele vivenciou na cidade e de estudos bem abrangentes sobre a História, que se fizeram necessários para a finalização de seu trabalho do pensador alemão.

Em caráter ilustrativo, cabe mencionar que Steiner se ocupou também das edições completas de Schopenhauer e das obras de Jean Paul, Wieland e Uhland.

Aos 36 anos idade, sua vida anímica sofreu uma profunda modificação, relatada da seguinte forma: Minha capacidade de observar objetos, seres e processos do mundo físico transformou-se rumo à exatidão e à profundidade. Isto ocorreu tanto na vida científica quanto na vida exterior. (…) Uma atenção dirigida ao mundo das percepções sensíveis, antes não existentes, despertou em mim. Detalhes passaram a ser importantes: eu tinha a sensação de que o mundo sensorial tinha a revelar algo que só ele pode revelar.

Essa transformação de percepção significou para Steiner o ingresso num mundo novo. Para estudar esse mundo da observação sensível, adentrou em sua natureza concreta através de uma prática exaustiva, enquanto lhe teria sido muito mais fácil movimentar-se no mundo das idéias. O difícil para ele foi apreender o nexo entre essas duas esferas. Em resumo, Steiner se defrontou cada vez mais com a clareza – e morte – das forças estruturadoras do mundo físico, que também possibilitam a precisão na observação dos fenômenos da natureza. O conhecimento tornou-se para ele algo pertencente a todo o existir e vir a ser do mundo, não só do homem.

Desenvolveu mais tarde, a partir dessas vivências, o livro Concepções sobre o Mundo e a Vida no Século XIX.

A meditação passa a ser nessa época, uma necessidade existencial, reconhecendo que através dela o conhecimento do mundo espiritual é apropriado no organismo assim como este se apropria da respiração. Toda a mudança anímica de Steiner estava, pois, vinculada com um processo de auto-observação.

Até esse momento de sua vida, ele percebia que as forças que determinavam seu destino exterior sempre estiveram em consonância com seus anseios interiores. No entanto, agora sentia de modo diferente: era-lhe necessário dar um cunho novo a sua atividade externa. Nunca precisara conciliar de maneira tão árdua, as orientações provenientes do mundo exterior com as suas próprias. Buscava encontrar de todas as maneiras o caminho para traduzir de uma forma inteligível, aquilo que observava interiormente como verdadeiro. Não queria mais se calar, como lhe ordenava sua necessidade interior, mas falar o quanto fosse possível.

Os primeiros anos em Berlim – 1897 a 1901

Surgiu em Berlim a oportunidade de adquirir os direitos de editar a revista Magazine de Literatura, que publicava poesias, ensaios e críticas provenientes da vida cultural. Porém como garantia de pagamento, o editor que estava lhe passando os direitos, impõe como co-editor da revista o poeta Otto Erich Hartleben, um intelectual boêmio, que ainda não tinha superado dentro de si o estudante acadêmico. Hartleben era um tipo de personalidade oposta a tudo aquilo que Steiner sempre estivera vinculado, mas tornou-se participante do círculo de amigos do co-editor.

A mudança para Berlim aconteceu em junho de 1897, aos 36 anos de idade.

Nas redações de seus artigos para a revista, Steiner falava de literatura contemporânea e da vida espiritual moderna, expressando suas convicções. Sua tarefa era fazer valer uma corrente espiritual dentro da literatura. Lentamente ele se dirigia a caminhos esotéricos.

A partir de 1898 começou a participar intensamente de toda a vida literária e dramática da vanguarda artística de Berlim, significando ser absorvido por um estilo de vida muito diferente do seu. Como forma de compreender as buscas interiores de seus contemporâneos, Steiner passava as noites em teatros, mesas de bares e cafés, em debates e apresentações artísticas. Conviveu, então, com pessoas de diversas classes e atividades sociais, estando ai incluído quase todo o espectro da vida cultural da Alemanha. Em suas relações com os boêmios, artistas, poetas e intelectuais da capital do Reino Alemão, ele se viu completamente privado de estabelecer um convívio mais intenso com os filósofos daquela Berlim da virada do século. Percebia, no entanto, ser natural que o outro grupo de convívio o absorvesse completamente.

Internamente viveu uma crise séria e profunda, sentindo como se a alma fosse arrastada para uma espécie de abismo. Não se encontrava satisfeito com sua atuação no mundo, nem pelo que escrevia e nem pelas palestras que proferia. Enfatizava de forma incisiva que o conhecimento do fundamento da natureza deve conduzir ao conhecimento do espírito. Experimentando fortemente os ventos da época em que o materialismo se fazia crescente em todos os anseios sociais e onde todo o conteúdo de vivência religiosa apontava para um mundo espiritual intangível, Steiner experimentou uma intensificação de suas vivências nos tempos finais de Weimar.

Empenhou-se para impedir que o moderno conhecimento da natureza não o arrastasse para uma mentalidade materialista, atento para não perder, desse modo de ver e viver a vida, a contemplação do espiritual. Rejeitou tudo quanto nas confissões religiosas era aceito como transcendente. Sua diretriz baseava-se em situar o divino, o além, no mundo de cá. Começou a falar do Cristianismo de uma forma nova: O que se passou em minha alma ante a visão do Cristianismo foi uma intensa provação para mim. (…) Tais provações são as resistências oferecidas pelo destino, que devem ser superadas através do desenvolvimento espiritual. (…) O germe do conhecimento se desenvolveu cada vez mais na virada do século. Antes dessa época deu-se a descrita provação da alma. No desenvolvimento de minha alma, na maior seriedade, como festa de conhecimento, se tratava de estar espiritualmente erguido diante do Mistério do Gólgota.

Deu-se na vida de Steiner, por volta dos 38 anos de idade, a vivência do caminho iniciático cristão-rosacruz, cujo coroamento é o encontro pessoal com o Cristo, tendo o fundamento do conhecimento se tornado encontro espiritual direto. Tudo o que agora ele falava, jorrava com uma intensidade que demonstrava estar contido por anos. Como um Mestre esotérico, passou a expressar publicamente, através de imagens todo o conteúdo esotérico oculto. A época exigia tornar público qualquer conhecimento que viesse a surgir, tornando-se impossível preservar os segredos da sabedoria oculta.

Na vida exterior, diante de tantas preocupações com sua subsistência, sendo ajudado inclusive por amigos de Viena, encontrou a serenidade quando Anna Eunike, com sua família muda-se para Berlim, possibilitando-lhe um refúgio de tranqüilidade e felicidade diante de tudo que vivia na época. Depois de ter passado durante curto período por toda a miséria de morar sozinho, voltam a morar juntos, oficializando sua união – em 31 de outubro de 1899.  Este ano foi bem difícil, um ano que não favoreceu nenhum tipo de trabalho de alma. Creio que não teria conseguido suportar o que tive de trabalhar neste ano sem teus cuidados, tua companhia e participação plenos de amor – não a quantidade, mas a qualidade das vivências me teria oprimido sem você, pois pesou tanto em minha alma. É esta a razão porque nos últimos tempos eu estive tão desagradável.

Em 1899 tornou-se professor na Escola de Cultura dos Operários em Berlim, um reduto do movimento sindical socialista, onde ensinava História Universal, Ciências Naturais e Exercícios de Alocução, para um proletariado adulto e entusiasmado pelo saber. Ensinou segundo o seu ponto de vista e não conforme o marxismo, como era o costume nos círculos sociais democratas da época. Seu método idealista para a História e seu modo de ensinar se tornaram simpáticos e compreensíveis aos operários, levando o círculo de ouvintes a crescer cada vez mais, e dessa forma era chamado todas as noites para ensinar. Em suas aulas mostrava ao operariado a forma como os impulsos espirituais atuavam na História e as maneiras como eles se enfraqueceram ante os impulsos econômico-materiais.  Ao entrar em contato com o operariado, Rudolf Steiner mergulhou num segmento da vida onde a alma individual dormia e sonhava e pôde perceber como uma espécie de alma de massa se apoderava daquelas pessoas, abarcando juízo, idéia e comportamento. Mais tarde constatou como a massa proletária ficou como ‘possuída’.

Publicou seu estudo sobre o Conto A Bela Líria e a Serpente Verde, de Goethe, por ocasião do sesquicentenário do pensador. Em A Revelação Secreta de Goethe, Rudolf Steiner falou sobre o mundo espiritual, numa primeira tentativa de apresentar em público os resultados de sua própria pesquisa espiritual, sentindo agir corretamente dessa forma. Considerava essa criação de Goethe como a ante-sala do esoterismo. O artigo foi publicado em seu Magazine para Literatura, em 28 de agosto de 1899.

Rudolf Steiner proferiu palestras nos mais variados círculos de Berlim, onde se reuniam pessoas interessadas sobre os assuntos do conhecimento e da vida em geral. Usava uma linguagem e um modo de falar intenso, cativando as pessoas que o ouviam, porém em parte alguma lhe parecia ser possível abrir brechas que pudessem desobstruir o campo de visão para o mundo espiritual.

Em setembro de 1900 consegue passar o Magazine para outras mãos.

 

A época da Sociedade Teosófica – 1902 a 1912

Primeira fase da Antroposofia

Ainda em setembro de 1900, aos 39 anos de idade, foi convidado pelo Conde e pela Condessa Brockdorff, mentores de um pequeno círculo de teósofos que se reunia em Berlim, para proferir uma conferência sobre Nietzsche. Diante daquele público, Steiner sentia estar falando para pessoas interessadas no mundo espiritual. Convidado a dar mais uma palestra, ele propôs o tema A Revelação Secreta de Goethe. Sentiu falar de um modo bastante esotérico, pela primeira vez, já que até então só poda deixar o espiritual apenas transparecer em suas exposições.

Passou a proferir palestras aos membros daquele círculo de forma regular, deixando claro que falaria sobre aquilo que pulsava dentro dele como Ciência Espiritual. Essas conferências foram reunidas e publicadas no livro A Mística no Despontar da Vida Espiritual (Berlim – 1900). Neste livro encontra-se a primeira referência da figura médica capital da Europa Central no início da Idade Moderna: Paracelso – o médico que conhece a natureza da cura é uma presença essencial nas conferências de Steiner.

Nesta época conheceu Ita Wegman, que freqüentava suas palestras como uma de suas ouvintes. Porém, foram necessários vinte anos, quase três setênios, para que desse encontro surgisse a ampliação científico-espiritual na antroposofia.

Dentro da Sociedade Teosófica deu-se, também, o seu encontro com Marie Von Sivers, uma jovem polonesa muito bonita, que se educara na Rússia e havia estudado teatro em Paris, tendo, recentemente, encerrado sua carreira de atriz. Esse encontro com Marie Von Sivers marca o princípio de sua vida como personalidade pública e assinala o fim de seu matrimônio com Anna Eunike, apesar de os dois ainda viverem juntos até o ano de 1903.

Com o surgimento de uma seção alemã da Sociedade Teosófica, em outubro de 1902, Steiner foi convidado por Annie Besant, a presidente geral da Sociedade, para assumir a Secretaria Geral, tendo sido Marie Von Sivers indicada para sua direção. Dentro dessa Seção, ele teve a oportunidade de falar cada vez mais somente os resultados de sua própria visão do mundo espiritual, já apresentando suas palestras sob o título da antroposofia. Buscava alcançar um saber de ordem espiritual, preocupando-se em sacudir do movimento teosófico qualquer tendência que proviesse de meios espíritas e evitar que se desenvolvesse a prática de passes e do mediunismo. São águas para o moinho do materialismo, escreve ele. Sentiu-se acolhido e compreendido em torno das pessoas interessadas em Teosofia.

Após assumir o cargo na Sociedade Teosófica, seu nome foi profundamente rejeitado em outros círculos em que proferia suas palestras. Passaram a designá-lo como um ‘teósofo’ e dirigente de uma sociedade obscura. Compreendeu que nesses outros círculos ouviam-no apenas como um literato, não tendo a menor compreensão para o conteúdo que ele trazia no coração.

Três dias depois de assumir o cargo como Secretário, ele e Marie Von Sivers são admitidos na Escola Esotérica que existia dentro da Sociedade Teosófica. Assim como ele introduzira algo novo na Sociedade Teosófica, deixou claro que também no círculo esotérico o conteúdo deveria ser buscado diretamente na revelação presente e contínua dos mundos espirituais, independente de qualquer tradição. Em relação à forma exterior da Sociedade, Steiner respeitava corretamente as competências e os usos, mas em relação ao conteúdo espiritual, ele estava decidido a seguir seu próprio rumo.

O movimento teosófico era sediado em Adyar, perto de Madras, na Índia e estava estruturado sobre os ensinamentos da Senhora Helena Blavatsky (‘Ísis sem Véu’ e ‘A Doutrina Secreta’), que estava orientada exclusivamente para a sabedoria oriental da Índia. Na Alemanha, a Sociedade enfrentava uma espécie de definhamento e as pessoas ligadas a esse círculo esperavam a ‘fundação científica’ da Teosofia, quando foi fundada a Seção Alemã.

Steiner reconhecia a grandeza da sabedoria oriental, porém a considerava inadequada em satisfazer as necessidades espirituais do ocidente, entendendo que essa sabedoria não poderia superar a diretriz materialista da moderna Ciência Natural. Para fazer-se inteligível servia-se, com reservas, da terminologia oriental-teosófica, mas logo depois, procurou substituir as expressões orientais por palavras novas, correspondentes à consciência moderna.

Steiner sabia que as pessoas que acolhiam o conhecimento do espírito, que ele dizia com o coração e o bom senso, não eram necessariamente os membros da Sociedade Teosófica, mas pessoas interessadas na sua forma de conhecimento do espírito. Nos membros, percebia que a grande maioria eram fanáticos seguidores de alguns líderes da Sociedade, que atuavam de forma dogmática e sectária.

Os obstáculos a que esteve confrontado nessa época, através de forças contemporâneas avessas ao conhecimento espiritual, se transformaram no motivo que o levaram a atravessar sua prova espiritual mais intensa. Foi daí que ele retirou energia para atuar com base no espírito, empenhando-se cada vez mais em levar a Antroposofia ao mundo.

Em maio de 1903, com 42 anos de idade, fundou com Marie Von Sivers uma publicação mensal de nome Lúcifer, que surgiu para desenvolver a Antroposofia, sem nenhuma dependência com aquilo que a Sociedade Teosófica mandava ensinar. A revista se ampliou, sendo Steiner convidado por um editor de Viena, que editava um periódico de nome Gnosis, para a fusão dos dois periódicos. A publicação passou a se chamar Lúcifer-Gnosis e nela tomam forma as instruções destinadas a criar uma consciência superior e uma autêntica penetração nos mundos supra-sensíveis. A senda do conhecimento passou a ser ensinada de forma pública, endereçada a todos os homens e adequada à consciência do nosso tempo

Aos 43 anos de idade, em 1904, participou do Congresso Teosófico de Amsterdam-Holanda e ministrou inúmeras conferências na Alemanha.

 

Seu livro Teosofia foi publicado sob a forma de artigos na revista Lúcifer-Gnosis, assim como O conhecimento dos mundos superiores e Crônica do Akasha. Nestes escritos estão contidos os conteúdos introdutórios e a preparação individual para iniciar o caminho meditativo ensinado na Escola Esotérica. Em suas exposições ele distingue três estágios na consciência superior: Imaginação, Inspiração e Intuição.

 

Em Teosofia encontramos um livro que nos permite compreender de forma clara e direta as idéias de Rudolf Steiner. O livro estabelece os pontos básicos acerca do espírito e da vida depois da morte e tem uma atmosfera de serenidade que produz no leitor o mesmo efeito da leitura do Bhagavad Gita. Nesse livro desenvolve conceitos que esclarecem a lei da reencarnação.

 

Steiner advertia que a leitura de um livro antroposófico, deveria servir para despertar no leitor a vida espiritual e não para lhe proporcionar uma soma de informações.

 

Com 44 anos, no ano de 1905, dedicou-se intensamente a proferir conferências públicas, tanto na Alemanha quanto na Suíça, visitando grupos teosóficos que já existiam e fundando novos grupos, aprofundando o seu contato com os membros e outros interessados. Ministrou aulas esotéricas em todas as cidades que visitava para fazer conferências públicas, somando por volta de duzentas e cinqüenta aulas até o início da Primeira Guerra. Esforçava-se em formar um novo organismo esotérico que seria como alimento para a nova cultura a ser fundada a partir da abertura e mudança ocorrida no mundo espiritual. Suas conferências falam do novo, com muitas imagens sobre mitos e símbolos antigos, trazendo esclarecimentos sobre os antecedentes das antigas tradições, despertando na alma o conhecimento desse patrimônio inconsciente da humanidade, preparando e dispondo a alma para o cultivo consciente do autoconhecimento.

 

Encerrou neste ano suas atividades na escola de formação de trabalhadores, convidado a se retirar daquele círculo, pois a direção marxista não aceitava mais a sua maneira de falar e seus temas. O impulso libertário que ele buscou implantar nos jovens discípulos foi o motivo pelo qual as autoridades resolveram afastá-lo da Instituição. Foi com este público que Steiner descobriu-se um orador carismático e, até alguns decênios depois, encontravam-se socialistas que falavam com entusiasmo desse mestre que despertava neles o sentido da liberdade.

 

Em 1906, com 45 anos, proferiu os primeiros grandes ciclos de conferências fora de Berlim, inclusive o ciclo O evangelho Segundo João, em Munique, dando inicio à sequência de ciclos sobre os evangelhos, sua obra sobre Cristologia. Apenas 44 conferências se realizaram em Berlim e 201 em outras cidades. Rudolf Steiner começou a dar cursos de uma conferência por dia ao longo de duas semanas – os ciclos. Os participantes podiam se aprofundar melhor no tema, sendo o efeito mais intenso do que em conferências isoladas.

 

Fez nessa época conferências em Paris, onde encontrou pela primeira vez com Edouard Schuré, o poeta e teósofo, autor de Drama Sagrado de Eleusis, que Marie Von Sivers havia traduzido para o alemão, que se tornaria um grande amigo. No ciclo de Paris, depois de um longo processo de maturação, comunicou o fato de o corpo etérico do homem ser feminino e o da mulher, masculino. Com seu corpo físico o homem está integrado às forças da Terra e por meio do corpo etérico encontra-se entrosado com as forças do Cosmo extraterreno. Demonstrou que as qualidades masculinas e femininas remetem-se aos mistérios do mundo.

 

Berlim continuava a ser o centro de suas atividades. Lá, na Rua Motz 17, ele conservou seu domicílio até além do fim da Primeira Guerra Mundial. Mas em Berlim a Antroposofia se desenvolvia numa racionalidade clara, uma vez que a cidade se encontrava completamente imersa na esfera do racionalismo e do intelectualismo.

 

No decurso do ano de 1906 demonstrou a nítida diferenciação entre os vários caminhos de autodesenvolvimento esotérico: o caminho hindu da yoga (difícil de trilhar pelo homem ocidental), o caminho cristão-gnóstico da Idade Média (que requer o afastamento da vida cotidiana) e o caminho rosacruz, que se inicia com a educação do pensar, com o ‘estudo’. Para Steiner o verdadeiro rosacrucianismo não se encontrava nos livros de história, porque foi transmitido por tradição oral. E neste caminho, a relação entre guru e discípulo é substituída pelo apoio de uma educação do pensar. O próprio discípulo tem de ser o condutor e dirigente.

 

1907 é o último ano descrito por Rudolf Steiner em seu livro autobiográfico – Minha Vida. No último capítulo informa ao leitor que a exposição de sua biografia, desse momento em diante, dificilmente poderá ser separada da uma história do movimento antroposófico.

 

Rudolf Steiner estava com 46 anos de idade, quando, à época de Pentecostes, aconteceu em Munique o IV Congresso da Federação das Seções Européias da Sociedade Teosófica. Neste congresso ele tem a oportunidade de reproduzir no ambiente uma decoração em formas e cores em que expressava o conteúdo das comunicações orais que seriam realizadas, fazendo questão de apresentar um ambiente artístico em completa harmonia com a atuação espiritual. Ele falou pela primeira vez sobre Cosmologia e Antropogenia. Ao lado de Marie Von Sivers, ele inaugurou o elemento artístico, através da apresentação do ‘Drama de Eleusis’ de Edouard Schuré, ficando claro que a vida espiritual na Sociedade não aconteceria mais sem o lado artístico. Era a aplicação prática da Antroposofia no mundo exterior.

 

As inovações trazidas por Steiner ao Congresso de Munique não agradaram parte dos antigos membros da Sociedade Teosófica da Inglaterra, França e Holanda. Somente uma minoria entendeu que aquilo que estava sendo oferecido pela corrente antroposófica, era uma postura interior totalmente diversa daquela praticada pela Sociedade Teosófica. Esta postura interior era o verdadeiro motivo pelo qual a Sociedade Antroposófica não podia continuar a existir como uma parte da Sociedade Teosófica, e não os fatos que assumiram vulto mais tarde, provocando inúmeras discórdias.

 

Infatigavelmente ativo espiritual e fisicamente, Rudolf Steiner elaborava a Antroposofia como ciência espiritual, como arte e impulso social e procura consolidá-la em almas e círculos humanos. Era-lhe necessário introduzir o espírito no mundo, desempenhar um trabalho fértil e frutífero para a alma.

 

Em maio de 1908, quando Steiner tinha 47 anos, o último número da revista Lúcifer-Gnosis é publicado. As publicações tiveram que ser encerradas em virtude da carga de trabalho a que estava exposto. Foi um período de muitas viagens e conferências, sendo cada vez mais solicitado como conselheiro pessoal em todas as questões de vida.

 

Marie Von Sivers, juntamente com a colaboração de Johanna Mücke, fundou a Editora Filosófico-Teosófica, em Berlim, com o objetivo de reunir em forma de livros as publicações dos escritos de Rudolf Steiner e ainda, dar uma forma correta às anotações individuais que vinham sendo feitas pelos membros em suas várias conferências e aulas.

 

Aos 48 anos de idade, em 1909, encontrou-se pela primeira vez, em Berlim, com Christian Morgenstern (1971-1914), um dos mais notáveis poetas da língua alemã que se tornará seu discípulo. Christian transformou em maravilhosos poemas muitos conteúdos das conferências de Steiner:

 

Ele falou. E como ele falava, resplandeciam nele o Zodíaco, querubins e serafins,

O astro solar, a translação dos planetas

De ponto em ponto.

Tudo isso jorrava com sua voz,

Era avistado em relance, como um sonho cósmico,

Todo o firmamento parecia baixado às suas instâncias

Por mercê de suas palavras.

 

A ciência Oculta é publicada em 1909. Nesse livro Rudolf Steiner comunica o que tinha elaborado como resultado de sua pesquisa espiritual e fornece as indicações de como podem ser desenvolvidos órgãos para a percepção espiritual, numa linguagem clara e acessível ao não iniciado. No livro foram mantidos com precisão os limites entre o que se pode e deve comunicar, naquela época, do âmbito dos conhecimentos supra-sensíveis e aquilo que se deveria expor mais tarde de outra forma.

 

Em suas conferências abordava aspectos íntimos e profundos da essência do Cristianismo, avançando nos ensinamentos esotéricos e na pesquisa espiritual do Evangelho de Lucas, das Hierarquias Espirituais e dos poderes opositores à evolução humana.

 

No Congresso Internacional em Budapeste, em agosto de 1909, encenou ‘Os Filhos de Lúcifer’, peça de Edouard Schuré, com Marie Von Sivers, proferindo uma conferência sob o tema A Essência das Artes, que do princípio ao fim foi ela própria uma obra de arte configurada.

 

Ao final de 1909, Steiner falou da Antroposofia, por ocasião da Assembléia Geral da Seção Alemã da Sociedade Teosófica, e anunciou que ela será publicada em esboço, em vários cursos e conferências.

 

Segunda fase da Antroposofia – 1909 a 1916

Em 12 de janeiro de 1910, perto de completar 49 anos, num curso em Estocolmo, Suécia, Steiner anunciou pela primeira vez o aparecimento do Cristo no plano etérico: novas faculdades da alma humana se mostrariam a partir de 1933 tornando possível aos seres humanos a visão clarividente do mundo etérico, no qual Cristo se manifesta de forma nova. Ele já observava o desenvolvimento de novas faculdades de clarividência sob as faixas da consciência intelectual que precisavam apenas ser despertadas para que sublime vulto etéreo do Cristo fosse percebido.

O Cristo voltará, porém numa realidade superior à física, numa realidade tal que somente se lhe poderá elevar o olhar tendo-se, antes, adquirido o sentido e a compreensão pela vida espiritual… Inscrevam em seus corações o que deverá ser a Antroposofia: uma preparação para a grande época da humanidade que nos aguarda.’

No entanto, evitava todo o tipo de sensacionalismo ao se manifestar sobre os acontecimentos do momento, para que as pessoas não perdessem sua liberdade em seu sentimento de vida e em suas decisões.

Em julho de 1910 Steiner escreveu o primeiro de seus quatro ‘Dramas de Mistério’ – O Portal da Iniciação – Um Mistério Rosacruz. A apresentação deste Drama se deu no Congresso da Sociedade Teosófica em Munique, diante de um público de duas mil pessoas. Os Dramas de Mistério representavam em linguagem artística aquilo que Rudolf Steiner proferia em suas palestras e foram a aurora da iniciativa que levou à construção do primeiro Goetheanum, o edifício que viria a construir em Dornach para ser a sede do movimento antroposófico. Amadureceu em Steiner uma nova possibilidade: o que ele expunha em seus livros se transformou em Inspiração, expresso pela linguagem e pelo movimento.

Nos dramas são apresentados destinos humanos interligados através de várias vidas terrestres. São mostrados indivíduos em busca do espírito, trilhando o caminho do autoconhecimento e chegando ao limiar do mundo espiritual, cada um a seu modo.

A alma desse empreendimento era Marie Von Sivers, que em São Petersburgo e Paris já tivera aulas com exímios atores e abandonara o teatro quando se deparou com a Teosofia. As recitações eram o seu elemento e ao lado de Rudolf Steiner, ela inspirava vida aos seus dramas.

Em 17 de março de 1911 Anna Steiner faleceu.

Rudolf Steiner, então com 50 anos, proferiu uma série ciclos e conferências em Bolonha, Copenhague, Munique, Karlsruhe, Hannover, Milão, Berna e Munique. Nesta ocasião fala na Dinamarca, onde teve a oportunidade de conhecer a senhora Valborg Werberck-Swärdström e seu marido Louis Werbeck, que se tornaram colaboradores incansáveis na divulgação da Antroposofia.

A apresentação do segundo Drama de Mistérios – A Provação da Alma em 17 de agosto de 1911 deu-se em um momento em que as discordâncias com a Sociedade Teosófica aprofundavam-se.

Após anunciar uma nova revelação do Cristo fica evidente para Steiner um conflito com a Sociedade Teosófica, cujos membros e dirigentes – Annie Besant e H. S. Olcott – viam na síntese de todas as religiões um alto ideal que esperavam alcançar por uma tolerância inteligente. A sua visão do acontecimento do Gólgota e de Jesus Cristo como ponto central da História da Terra e da Humanidade, era uma visão estranha aos dirigentes da Sociedade Teosófica.

Juntando-se a tudo isto, sobreveio o fato de que Annie Besant apresentou um rapaz hindu que seria a personalidade na qual o Cristo se apresentava em uma nova vida terrena, fundando dentro da Sociedade Teosófica a Ordem chamada ‘Estrela do Oriente’, que cuidaria dessa personalidade, que vem a ser Jiddu Krishnamurt.

Os ataques cada vez mais intensos e depois a campanha de difamação desencadeada abertamente por Annie Besant, em resposta à postura que Steiner assumira em relação ao caso Krishnamurt, tornaram impossível a continuação do seu trabalho dentro da Sociedade Teosófica. Em setembro de 1912 a diretoria da Seção Alemã, na pessoa de Rudolf Steiner e Marie Von Sivers, declarou ser incompatível com esta seção o que estava acontecendo na Sociedade Teosófica, tornando-lhe impossível receber os membros da nova Ordem dentro da Seção Alemã.

A Sociedade Teosófica, através de Annie Besant, rompeu a ligação com Rudolf Steiner num ato que revogava o Conselho Geral dos Estatutos da Sociedade Alemã – quatorze lojas alemãs se mantiveram com ela e as demais seguiram Steiner. Com estes membros ele iniciou os preparativos para a fundação da Sociedade Antroposófica em dezembro de 1912, como uma sociedade autônoma.

Fato relevante é que, mesmo com todo sofrimento a que esteve sujeito quando do episódio de seu rompimento com a Sociedade Teosófica, Rudolf Steiner nunca teceu nenhum comentário que desmerecesse a pessoa de Annie Besant, como pode se constatar em sua autobiografia, num exemplo de tolerância e perdão, característico de seu ser.

É fato, também que, em virtude de ter iniciado seu trabalho de cunho esotérico nos âmbitos da Sociedade Teosófica, mesmo discorrendo sobre um conteúdo que não se vinculava àquela Sociedade, Rudolf Steiner sempre foi reconhecido como um teósofo e mesmo hoje, as pessoas de fora ainda confundem a corrente central do cristianismo esotérico, representado pelo Antroposofia, com a Teosofia, de orientação oriental de Blavatsky e Besant, incluindo a Antroposofia como corrente não cristã dos tempos modernos.

Ocupado a todas essas questões que envolviam sua vida, Rudolf Steiner se mantinha atento e solícito às perguntas sempre crescentes das pessoas que o cercavam, organizando nessa época – janeiro de 1912, aos 51 anos de idade, as primeiras instruções dos exercícios de Euritmia a Lory Smits. A jovem alemã de Düsseldorf, de apenas 19 anos, estava interessada numa formação especializada em ginástica rítmica.

Steiner tem a preocupação em demonstrar que a Euritmia não era simplesmente uma arte da dança, mas uma arte do movimento, provinda dos antigos mistérios gregos, que promoviam a cura através de palavras, movimentos sonoros e tonalidades.

Sob os cuidados de Marie Von Sivers, desdobrou-se em três abordagens: arte teatral, complemento de educação nas escolas e como euritmia curativa. Talvez não seja possível sentir, em arte alguma, o ser colocado no cosmo de uma maneira tão intensiva como na arte eurítmica.

Na Páscoa desse ano, Rudolf Steiner publicou o Calendário Antroposófico da Alma e escreveu e encenou o terceiro Drama de Mistério: O Guardião do Limiar, em agosto. Em dezembro deste mesmo ano, fundou sem grandes formalidades a Sociedade Antroposófica em Colônia, na Alemanha.

Com 52 anos de idade participou da realização da primeira assembléia da Sociedade Antroposófica, porém não faz parte da Diretoria e recebeu a adesão de grupos de vários países.

As apresentações dos Dramas, que eram encenadas sempre em Munique, no Teatro do Gärtnerplatz, em agosto de cada ano, revelavam a Steiner que nessa cidade atuava o lado artístico do trabalho antroposófico, de modo oposto ao que acontecia com o movimento antroposófico em Berlim, onde se progredia cada vez mais no saber a respeito do mundo espiritual.

Por força desse impulso criativo que acontecia com a Antroposofia em Munique, Steiner viu surgir a iniciativa da construção de um edifício com um palco onde se pudesse realizar as apresentações dos Dramas e fosse o centro para as atividades antroposóficas.

O edifício deveria ser algo parecido aos centros de mistérios das culturas antigas, dedicado a cultivar os três grandes poderes da vida espiritual: Ciência, Arte e Religião. A nova construção seria a ‘Casa da Linguagem’ onde o mundo espiritual iria falar. Para sua construção foi formada a ‘Associação Johannes de Construção’, mas a Prefeitura de Munique negou o alvará, considerando o projeto extremamente questionável, em meio à experiente e segura atmosfera artística da época e temendo que a cidade se convertesse num centro de uma peculiar seita religiosa. Anteriormente, uma grande agitação popular, por motivos religiosos, durante a apresentação do Congresso Teosófico naquela cidade fora atribuída à Sociedade Teosófica.

Steiner recebeu a ajuda de muitos membros da Sociedade Antroposófica para o seu empreendimento, ressaltando os esforços de Sofia Stinde, uma pintora alemã, aliada à condessa Pauline Von Kalkreut, também pintora e dama de honra da mãe do último Imperador da Alemanha. Era na residência da pintora que aconteciam as reuniões do ramo e as conferências internas da Sociedade Antroposófica, em Munique – Alemanha. Seus esforços também possibilitaram a apresentação dos quatro Dramas de Mistérios de Rudolf Steiner, em Munique.

Em maio de 1913, Emil Grossheintz, um antropósofo suíço, colocou à disposição de Steiner um terreno de sua propriedade em Dornach, perto da Basiléia, fazendo fronteira com a França, Alemanha e Suíça, um lugar que permaneceu ileso na guerra que já se pressentia. Steiner conheceu o terreno no mesmo mês e aceitou a oferta, comunicando que seria em Dornach e não em Munique a construção do primeiro centro do movimento antroposófico. O trabalho de construção começou imediatamente, pois não havia tempo a perder, diante da eminência de uma guerra.

Num ideal arquitetônico contemplado pelo olhar de Goethe que afirmara que ‘Religião, Arte e Ciência atendem à tripla necessidade do homem bafejado por Deus: cultuar, produzir e contemplar; todos os três são um do início ao fim, embora separados pelo meio’, o próprio Steiner encarregou-se do projeto, dando ao edifício um estilo totalmente inovador para a época. O Goetheanum, conforme o edifício foi chamado por Steiner, tinha uma fundação de concreto de onde se erguia uma obra de madeira coberta por duas grandes cúpulas, cuja dificuldade para serem calculadas e erguidas foi totalmente dominada.

Rudolf Steiner assumiu pessoalmente a direção da obra, encarregando-se em grande parte pelo seu acabamento artístico, pintando, por exemplo, o teto da cúpula menor. O teatro tinha capacidade para mil pessoas e os custos de construção somaram o montante de mais de sete milhões de francos suíços, obtidos por doações. Ali cidadãos de dezessete nações diferentes trabalharam juntos sob a supervisão e cooperação calorosa de Steiner.

A pedra fundamental da construção – um duplo dodecaedro – foi colocada no dia 20 de setembro de 1913. Enquanto Steiner pronunciava o discurso, desabou uma grande chuva, escurecedora e barulhenta, quase fazendo desaparecer a sua voz. Em seu discurso ele falava das forças crescentes de Árimã, que trata de semear o caos e a escuridão.

Após a colocação da pedra fundamental, Steiner realizou em Kristiania, hoje Oslo – Noruega, seu curso sobre o ‘Quinto Evangelho’, um ponto alto na sua pesquisa, demonstrando as vivências experimentadas por Jesus de Nazaré ao longo de seu caminho antes e depois de receber em si, pelo batismo no Jordão, a entidade do Cristo.

Em agosto de 1913 os Dramas de Mistérios são apresentados pela última vez em Munique e ainda neste ano é escrito e encenado o quarto de seus Dramas de MistériosO Despertar das Almas, que mostra as crises de uma comunidade na passagem da teoria à aplicação prática.

Em novembro ficaram prontas as fundações em cimento armado do Goetheanum, sendo construídos os andaimes para a construção de madeira. Em dezembro de 1913 iniciou-se a construção das colunas na carpintaria.

Em janeiro de 1914, perto de completar 53 anos, Steiner participou da segunda e última Assembléia da ‘antiga’ Sociedade Antroposófica, que entrou em um longo período de inatividade enquanto sociedade.

O dinheiro obtido para a construção do Goetheanum começou a se acabar, inviabilizando a inauguração da obra para agosto de 1914, como era o desejo de Steiner, e ali ele pudesse apresentar o quinto Drama de Mistério, ainda não escrito.  Para levantar fundos, foi organizada uma série de conferência onde ele destacava a importância da efetivação do projeto para a humanidade, conseguindo continuar a construção, mas sua inauguração precisou ser adiada.

Nos primeiros dias de agosto de 1914 sobreveio a 1ª. Grande Guerra. Muitos operários precisaram deixar a Suíça e voltar a seus países de origem e partir para os campos de batalha. Quando a guerra eclodiu, Rudolf Steiner encontrava-se em Bayreuth, junto a Marie Von Sivers, regressando rapidamente a Dornach, numa noite de grande caos. Ela relata que no transcurso dessa terrível noite cinza, o mundo havia mudado e a expressão pesada expressa no rosto de Steiner durante estes dias, a dor que ele sentia por toda a humanidade, era quase intolerável.

As aulas esotéricas foram interrompidas, pois havia muita perturbação no mundo espiritual vizinho à Terra pelo grande derramamento de sangue humano e pela morte de tantos jovens.

No final deste terrível ano a estrutura da construção ficou pronta e continuaram os trabalhos de escultura das colunas, das arquitraves e de pinturas. Em 24 de dezembro de 1914, Steiner casou-se com Marie Von Sivers, em Dornach, tendo ela passado a se chamar Marie Steiner.

Durante o ano de 1915 a guerra impediu a atuação pública de Steiner, que tem 54 anos de idade. Dornach havia se tornado o centro da vida antroposófica, abrigando ali cerca de duzentas pessoas de diversas nacionalidades, jovens e velhos, artistas, cientistas, comerciantes, unidos e trabalhando em torno de um mesmo ideal, fazendo germinar uma comunidade antroposófica. A obra de construção do Goetheanum tinha um ritmo mais limitado pela falta de dinheiro.

Steiner desistiu da idéia de escrever um quinto Drama de Mistério, se dedicando à produção da primeira versão teatral completa de ‘Fausto’ de Goethe, ministrando ainda, o primeiro curso de Euritmia verbal. Até os dias de hoje somente no Goetheanum, Fausto é apresentado em sua forma integral.

Steiner envolveu-se pessoalmente no trabalho de esculpir uma estátua de madeira que idealizara, junto com Edith Maryon, uma fiel colaboradora. A escultura foi nomeada o Representante da Humanidade, representando o Cristo entre as forças de Lúcifer e Árimã e tem aproximadamente 8 metros de altura. Na escultura podemos observar a expressão da harmonia entre as três forças da alma: o pensar, o sentir e o querer – forças que devem viver com autonomia. E das mãos do Cristo podemos sentir fluir o amor que emana de seu coração.

Rudolf Steiner plasmou de tal forma o modelo, que torna possível a qualquer um de nós, reconhecermos o Cristo de imediato ao nos depararmos com Ele. Lá está o Cristo que caminha entre os poderes adversários: o brilhante e sedutor Lúcifer e o sinistro e enrijecido Árimã.

1916 foi um ano marcado por muitas dificuldades do ponto de vista exterior tendo em vista a Guerra. Porém Steiner, com 55 anos de idade, ainda conseguiu viajar e dar conferências na Alemanha e Áustria. Nesta época publicou Do Enigma do Homem.

Em suas conferências começou a desenvolver um novo jeito de falar sobre a Antroposofia, orientando-se pelos fatos históricos da época, abarcando os aspectos centrais da vida espiritual alemã.

Outro tema com o qual se ocupou nessa época foi da vida após a morte, especialmente em relação aos acontecimentos da Guerra. Iniciava todas as suas conferências durante a guerra, com uma prece pelas almas dos combatentes vivos e mortos, compondo versos mântricos que visavam proporcionar uma ligação com o mundo dos mortos.

Provavelmente foi nessa época – entre agosto de 1916 e janeiro de 1917 – mas a data é incerta, que Steiner sofreu um acidente, quase se ferindo gravemente: ele caiu do andaime utilizado para construir a escultura de madeira, mas foi salvo por Edith Maryon, que conseguiu segurá-lo, desviando sua queda que seria em cima de uma ponta de madeira.

 

Terceira Fase da Antroposofia – 1917 a 1923

O mundo caminhava dividido por causa da Guerra. A Revolução Russa estabeleceu o poder soviético. No Ocidente despontavam os EUA como um novo poder. Na Europa Central, a Alemanha e a monarquia austro-húngara encontravam-se preocupadas apenas com guerras de anexação, sem nenhuma proposição que abarcasse os seres humanos. Em conseqüência da catástrofe da Primeira Guerra Mundial, novas possibilidades se abriram para que a Ciência Espiritual transpusesse para a realidade social as suas conclusões.

A partir de uma pergunta vinda de Otto Graf Lerchenfeld, um político alemão preocupado em formar novas idéias que levassem a guerra a um desfecho e a uma nova ordem social, Steiner formulou a idéia da Trimembração do Organismo Social. Não se tratava de nenhum programa partidário e não continha nenhuma exigência abstrata. A Trimembração Social considerava as áreas da vida econômica, jurídica e espiritual como três funções existentes lado a lado e administradas de forma autônoma, exigindo a descentralização da vida social.

O organismo social é constituído como o natural. E como o organismo natural deve prover o pensamento por meio da cabeça e não dos pulmões, assim é necessária ao organismo social a constituição em sistemas que não possam absorver cada um deles as funções do outro, mas que devem antes, colaborar com os demais, mantendo, porém, sua autonomia.

Escreveu, ainda, o livro Do Enigma da Alma, onde expõe uma de suas afirmações mais importantes: a divisão ternária do ser humano. As principais faculdades do homem – o pensamento, o sentimento e a vontade – se realizam através de partes diferentes do organismo físico. Não se trata de uma divisão trivial em cabeça, tórax e abdome. O homem é uma ação conjunta e um entrelaçamento dinâmico desses três componentes. As doenças decorrem da preponderância de um sistema sobre o outro. Em princípio, todas as forças curativas procedem do sistema médio, pois o homem rítmico é em si mesmo o ser primitivamente são. Esta idéia é o elemento verdadeiramente novo da Antroposofia.

Nos anos seguintes, após 1917, a idéia da trimembração foi cada vez mais elaborada, principalmente no ciclo de conferência chamada A Arte da Educação, dada em 1919 aos professores da primeira escola Waldorf em Stuttgart.

Durante este tempo, as atividades em Dornach prosseguem ativamente, tais como: a Euritmia, a preparação para a encenação do ‘Fausto’, a escultura de madeira e a pintura das cúpulas do Goetheanum.

No ano de 1918, com 57 anos, Steiner viajou a um grande número de cidades para ministrar conferências, além daquelas que proferiu em Dornach e Berlim. Foi um ano de conclusão e preparação da base de sua atuação para a época do pós-guerra. Nenhum livro novo foi publicado, mas são reeditados vários livros, tornando-se disponíveis todas as obras que ele já havia publicado.

Na Alemanha pairava uma ameaça de guerra civil na primavera de 1919. O império havia ruído: fome, desemprego, doenças, revoltas faziam parte do dia-a-dia. As pessoas se dividiam entre tomar posições extremistas ou se sobrepor às grandes dificuldades e buscar um objetivo em comum. 1919 evidenciou-se como o ano da luta pela Trimembração Social, tendo Steiner realizado uma série de conferências para industriais e pequenos grupos de operários, falando em pequenas salas, pátios de fábricas e mesas de bares. Foi constituída a Associação para a Trimembração do Organismo Social, em Stuttgart a qual pertenciam muitas personalidades completamente alheias aos círculos antroposóficos. A associação tinha como objetivo despertar a compreensão para as exigências sociais do tempo e divulgar as leis que atendessem às mesmas, empenhando-se em iniciativas sociais concretas. Liberdade no espírito, igualdade perante o direito, fraternidade na economia – conferindo um novo conteúdo aos ideais da Revolução Francesa.

A partir deste momento histórico, com 58 anos de idade, a atuação de Rudolf Steiner passou a ter uma característica totalmente nova: sem nenhuma reserva, ele falava das relações entre os fatos históricos e os fatos políticos. Revelava os bastidores da história de uma maneira que não podia deixar de surpreender a todos quantos se apegavam a uma concepção convencional dela, e não menos aos políticos profissionais. Esta forma de atuar culminou no manifesto Apelo ao povo alemão e ao mundo cultural, divulgado em março de 1919, depois da derrocada da Alemanha. O documento é assinado por várias personalidades, muitas das quais não pertenciam, nem antes e nem depois, à Antroposofia, porém, abaladas pelo impacto dos acontecimentos e aguardando algo de totalmente diverso, estavam preparadas para defender a realização das idéias do manifesto. Nesse Apelo Rudolf Steiner falava da necessidade de desmembrar o antigo complexo estatal nos três sistemas: o espiritual, o político e o econômico, podendo-se assim ser evitado o caos, que continuava eminente, terminando da seguinte forma: Ou se condescenderá em conformar-se, no próprio pensar, com as exigências da realidade, ou não se terá aprendido coisa alguma da desgraça, e do contrário, multiplicar-se-à, ad infinitum, por novas desgraças, a causada até aí. No entanto, com a finalização do estado de Guerra, prevaleceu entre as pessoas a atitude de deixar as coisas como estavam, uma vez que a crise inflacionária já estava superada pela estabilização do marco, e as transformações esperadas não se realizaram, fadando ao fracasso a luta pela Trimembração Social.

Foi o início de uma atuação pública que faria Rudolf Steiner entrar mais amplamente na consciência da Europa Central, em particular na Alemanha, levando passo a passo, à fundação dos impulsos culturais específicos da Antroposofia.

Os comunistas passaram a se preocupar com o que Steiner tinha a dizer e proíbem seus membros de assistirem às suas conferências. Os nazistas começaram a considerá-lo uma ameaça ao defender que a Trimembração Social encerrava em si as leis estruturais de uma nova ordem social. Era uma época em despontava como grande orador o jovem cabo do exército bávaro, Adolf Hitler, que inspirava o Partido dos Trabalhadores Alemães, falando sobre nacionalismo e anti-semitismo.

Steiner não nutria ilusão nenhuma acerca da capacidade moral dos ocupantes do poder político e econômico ou dos homens em geral. O que ele propunha não era uma utopia, mas um sistema social que partia do conhecimento do homem em seus impulsos sociais e anti-sociais, concretizando as capacidades sociais que poderiam ser despertadas, mesmo diante de tanta fraqueza e egoísmo, se fossem desenvolvidas de forma verdadeiramente humanas. Em vez de pensar nas alternativas imediatas do momento, haverá de existir uma concepção mais ampliada da vida que esforce em compreender as forças evolucionistas da Humanidade moderna…

Não era chegada ainda a hora de uma ordem social trimembrada. Mas uma das sementes dessa concepção se transformou num bonito fruto: a Pedagogia Waldorf, criada a partir da escola Waldorf de Stuttgart, cuja abertura se deu em 7 de setembro de 1919, após intensa preparação e envolvimento de Rudolf Steiner.

Com o apoio de Emil Molt, Conselheiro Comercial e chefe da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, em Stuttgart, ele assumiu a instalação e direção da escola, tarefa que aceitou com a mais alta responsabilidade, em abril de 1919. Rudolf Steiner sentia a feliz expectativa do que estava sendo criado por ele.

Alguns círculos sociais, como a Igreja Católica, olhavam com desconfiança para esta pedagogia nascida da Antroposofia e torciam pelo malogro do empreendimento. Entretanto, a Escola Waldorf de Stuttgart foi um grande sucesso, começando a funcionar com 200 alunos e em poucos anos, já contava com 1000 alunos, sendo necessário rejeitar inúmeros outros, por falta de vagas. Pouco a pouco outras escolas surgiram: Berlim, Altona, Hannover, Kassel, Breslau, Dresden, Basiléia, Zurique, Haia, Londres, Nova York e Oslo. E muitas outras pelo mundo afora.

O desejo de Rudolf Steiner era fundar uma escola única de 12 séries, para todas as classes sociais e para meninos de ambos os sexos, independente da camada social a qual pertencessem. Seu objetivo para uma escola desse tipo é a formação do ser humano, necessitando para isso de um professor que possa imergir nas almas e em toda a essência do ser humano em desenvolvimento.

Posteriormente, em março de 1939, a escola de Stuttgart foi fechada com o advento do Regime nacional-socialista na Alemanha. Seus edifícios foram seriamente danificados pelo bombardeio das tropas aliadas durante a Segunda Grande Guerra. Com a chegada das tropas americanas naquela cidade, em 1945, os ex-alunos, mesmo sem se comunicarem entre si e sem qualquer planejamento, começaram a estabelecer uma nova ordem, fazendo a escola renascer dos escombros, florescendo até hoje.

Também no ano de 1919 a Euritmia foi apresentada ao público em uma grande viagem pela Alemanha e Suíça. O ser humano, tal como o vemos ante nós, é uma forma acabada. Mas essa forma acabada origina-se de movimentos… E, desenvolvendo a euritmia, retornarmos aos movimentos primordiais… Deus euritmiza, e enquanto Ele o faz nasce, como resultado desse euritimizar, a figura humana.

Na idade de 59 anos, Steiner encontrava-se envolvido intensamente nos mais variados campos, a partir do impulso espiritual de trazer vida nova à civilização atual e enriquecê-la através dos conhecimentos da ciência iniciática. Confiava na força da Antroposofia, que converte o pensar materialista e egoísta em pensar espiritualizado e humano, acreditando que a mentalidade se modificaria em todos os campos da vida do homem aos poucos. Todo o seu esforço consistia em transmitir aos homens uma nova compreensão do próprio assunto com o qual os homens têm de lidar em cada esfera particular da vida.

Rudolf Steiner se colocava sempre à disposição daqueles que tinham perguntas, encarando seu interlocutor com seus bondosos olhos castanhos luminosos, como se naquele momento não existisse nada mais importante que as perguntas ou o destino pessoal de quem estava a sua frente.

Ele esperava sempre que as pessoas se dirigissem a ele e lhe solicitassem ajuda e, na plenitude de seu conhecimento espiritual, ele respondia de bom grado, dando-lhes do maior e do melhor do que se ousaria esperar. Mas as pessoas tinham de ser aqueles indivíduos que pela força de sua entrega, lhe fornecessem o fundamento apropriado ao novo que era trazido. Uma regra do esoterismo diz que um Iniciado só responde se for perguntado.

A solidão de todos os tempos continuava sua companheira, percebendo o abismo crescente entre o que falava em suas conferências, trazido diretamente dos mundos espirituais, e a consciência extremamente terrena de seus ouvintes. Porém Rudolf Steiner nunca deixou que qualquer um dos seus colaboradores percebesse um desapontamento seu, suportando tudo sempre com gentil paciência. Sempre se dirigia ao melhor do outro, mesmo se fosse a parte mais baixa deste que lhe respondesse. Um grande sábio falava às pessoas, mas elas não percebiam de quem se tratava.

Na Páscoa de 1920, aos 59 anos de idade, Rudolf Steiner deu o primeiro curso para médicos e estudantes de Medicina, em Dornach. Foram 20 conferências que demonstraram um conhecimento soberano de questões relacionadas com a ciência médica. Porém não era sua intenção aparecer como terapeuta; compreendendo que essa missão cabia aos médicos. Só se empenhava na atividade terapêutica em ligação com um médico licenciado, não tratando as pessoas. Ele aconselhava o médico com toda a sua humanidade e os médicos, ao se disporem a aceitar os seus ensinamentos, dispunham-se, também, a passarem por uma profunda reviravolta em suas consciências médicas. Oferecia a educação de novas faculdades de discernimento, o despertar da visão correta para os diagnósticos e liberava no praticante uma dose superior da vontade de curar e combater a enfermidade. A Antroposofia, antes de afirmar algo acerca do espiritual, elabora os métodos que a autorizam a fazer tais afirmações.

Mas essa espera pelos médicos foi uma das mais demoradas de sua biografia e talvez uma das mais dolorosas. Ele já havia percebido muito cedo o significado social abrangente e a premência da ampliação do impulso científico-espiritual na Medicina Antroposófica, diante do desenvolvimento vertiginoso da medicina convencional. Em uma palestra de 1909 já anunciava: Deixe-se desenvolver a Medicina de forma tão materialista e, se vocês pudessem antever quarenta anos, ficariam assustados diante da brutalidade dos seus procedimentos e até que formas de morte serão empregadas por essa Medicina para curar as pessoas.

Em 1920 também foram instituídos 2 cursos antroposóficos de nível universitário, dados por colaboradores e pelo próprio Steiner, que difundiam o saber científico. Essa iniciativa trouxe para o movimento um número de jovens com formação universitária, ocasionando a substituição dos antigos membros vinculados à época da Seção alemã da Sociedade Teosófica por jovens cientistas, professores e médicos que buscavam a Antroposofia como uma nova forma de atuação. Steiner considerou que os dois cursos ficaram em total desacordo com o espírito do edifício, porque ao invés da Ciência ser fecundada pela Antroposofia, a Antroposofia se viu invadida pelos hábitos do pensamento da Ciência Natural.

 

Em setembro de 1920 o Goetheanum é inaugurado sem a escultura do Representante da Humanidade, que ainda estava sendo esculpida por Steiner na marcenaria ao lado do prédio. A construção era majestosa, com suas cúpulas reluzentes e as formas modificando-se sobre as janelas e os portais. Tinha-se a impressão de que tudo se superava.

Desta época em diante, praticamente todas as semanas publicavam-se artigos e livros contra Rudolf Steiner, com ataques, calúnias e zombarias provenientes de um grande número de adversários, fanáticos religiosos, cientistas dogmáticos e de círculos nacionalista alemães. Steiner tinha a consciência de que seus opositores arrastavam seu nome na lama para destruir seu trabalho, pressentindo que o movimento sofreria muito com tudo isso. Empenhou-se solitariamente e com muito sofrimento em ordenar e responder a todos esses ataques.

Em Stuttgart aconteceu, ainda, um grande congresso público e o segundo curso para médicos foi oferecido. Os cursos para médicos continham múltiplas sugestões para uma nova aplicação de medicamentos, fazendo nascer dessas indicações os laboratórios farmacêuticos. Em 1920 havia uma grande pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos, favorecendo o nascimento dos laboratórios farmacêuticos em Arlesheim e Schwabisch Gmünd (Weleda A.G) e mais tarde em Eckwalden (WALA). Surgiu, também, a necessidade de se fundar uma clínica levando alguns médicos antroposóficos a criarem um Instituto Terapêutico em Stuttgart, onde Steiner teve a oportunidade de trabalhar em conjunto com eles.  Porém esses médicos eram aqueles formados nos cursos que desagradaram Steiner, não se empenhando da maneira urgente, como ele esperava, para que se pudesse promover o estudo e a reforma necessária da Medicina.

Muitas iniciativas antroposóficas foram organizadas, mas a Sociedade Antroposófica ainda estava inativa e sem um cultivo de seus ramos. As empresas ‘Der Kommende Tag’ e a ‘Futurum S.A.’ na Suíça, que foram fundadas com a tarefa de apoiar empreendimentos econômicos e espirituais, geravam muita preocupação, causada pela incompetência administrativa e pela falta de idéias. Sentia-se por todos os lados o prenúncio de uma crise.

Em junho de 1921, em Arlesheim, Suíça, próximo ao Goetheanum, a Dra. Ita Wegman inaugurou um Instituto Clínico-Terapêutico, como forma de fazer o que fosse necessário no sentido da Antroposofia. A cooperação entre Steiner e a médica começou nesse verão, tornando-se mais próxima, mais tarde num momento trágico da vida dele.

O auge da atuação pública de Rudolf Steiner foi alcançado no ano de 1922, quando contava com 61 anos de idade. A Agência de concerto Wolff, em Berlim, interessou-se pela organização de suas conferências e as salas existentes já não comportavam mais o público ouvinte. Em maio ele proferiu um ciclo de palestras de duas semanas em dez cidades alemãs. Marie Steiner descreveu o ambiente reinante na Europa com relação à atuação de Rudolf Steiner dessa forma: O público vindo das cidades vizinhas estacionava diante das ruas próximas ao local do evento em Berlim, sem conseguir entrar. Esse sucesso desencadeou logo a sanha dos adversários. Para aniquilar um movimento espiritualista, perigoso, conforme as opiniões de inúmeras pessoas uniram as hostes inimigas entre si. Pan-germânicos, católicos, protestantes, comunistas, representantes da ciência, uniram-se nessa mesma intenção. Os poderosos círculos judaicos, dirigentes nas finanças e na imprensa tudo fizeram, por meio de uma campanha em artigos difamatórios para apoiar e atiçar a ânsia de destruição dos inimigos. Desse modo não foi difícil encenar arruaças.

Estas cenas aconteceram em Elberfeld e Munique – a cidade sede da atuação de Adolf Hitler. Jovens ligados ao movimento nacionalista alemão interromperam várias vezes, quando Rudolf Steiner falava Da Antroposofia e o Conhecimento Espiritual, no Hotel Quatro Estações. Nesse hotel ele foi alvo de um atentado à mão armada, que graças à intervenção dos amigos, evitou-se o pior. Steiner escapou pela porta dos fundos e terminou seu ciclo serenamente.

Os organizadores aconselharam-no a suspender a realização das palestras, entendendo que a organização inimiga era tão forte, que eles não se achavam em condições de oferecer garantias quanto à sua segurança. Esses episódios foram apenas avisos do que deveria seguir-se: um golpe bem mais duro.

Em julho ele compareceu em Viena ao Congresso Leste-Oeste, em que era um dos principais oradores. O Congresso aconteceu num clima tenso, encontrando-se Steiner extremamente triste Os ataques a sua obra continuavam e certa oposição interna dirigida a sua pessoa começou a ser percebida.

Num esforço sobre-humano Steiner falou no Congresso, dispondo-se, como sempre, a oferecer conselhos e consolo a centena de pessoas. Duas mil pessoas participaram do Congresso Leste-Oeste, todas cheias de entusiasmo, apesar das críticas agressivas da imprensa. Ele considerou este congresso como sendo o mais grandioso empreendimento público originado do espírito antroposófico. Foi durante este Congresso que a senhora Valborg Werbeck Svärdstöm, criadora da Escola do Desvendar da Voz, de inspiração antroposófica, deu um concerto na famosa Sala da Associação Musical de Viena.

Em agosto de 1922, pela primeira vez depois da Guerra, Steiner viajou à Oxford, Inglaterra, para falar em uma conferência sobre educação. Aconteceram, também, apresentações de Euritmia em Londres e em Haia, evidenciando-se um crescente entusiasmo por esta arte. Em Dornach um curso para franceses foi organizado, demonstrando que os contatos interrompidos pela Guerra estavam sendo retomados.

Ainda nesta época, um grupo de jovens teólogos reuniu-se em Stuttgart para solicitar a Steiner conselhos e diretivas para sua futura atividade religiosa. Esse grupo depositava enorme confiança em Rudolf Steiner não só em suas doutrinas, mas, sobretudo pelo modo como ele se situara na vida pública nos anos da derrocada alemã. Como encontrar eco nos corações dos contemporâneos quando se trata de falar-lhes das coisas relativas ao verdadeiro cristianismo? Foi a pergunta que Steiner lhes fez.

Dessa forma, em setembro de 1922 foi fundada a Comunidade de Cristãos, com o intuito de dar prosseguimento à corrente cristã da humanidade, junto com quarenta e cinco sacerdotes, entre eles um sábio budista e três mulheres.

A Comunidade de Cristãos é uma comunidade inteiramente autônoma e sua vida se processa sem qualquer vinculação de dependência perante a Sociedade Antroposófica. O movimento antroposófico deve atender à necessidade cognitiva, ao passo que o movimento religioso deve atender às necessidades de ressurreição do homem.

Em dezembro de 1922 Rudolf Steiner proferiu uma conferência para esclarecer à Sociedade Antroposófica que não se tratava da criação de uma nova religião, como muitos acreditaram e adverte os antropósofos a não se descuidarem do solo a partir do qual o culto da Comunidade de Cristãos brotara – a Antroposofia. Aos antropósofos caberia o cultivo do ser Antroposofia. O que seria da Sociedade Antroposófica se ela necessitasse em primeiro lugar de uma renovação religiosa? Era a pergunta de Rudolf Steiner para aqueles que se limitavam apenas em acorrer aos bandos aos atos cúlticos dos pastores.

Os inimigos aumentavam, uma vez que foi inevitável o surgimento da compreensão de que se tratava da fundação de uma nova religião antroposófica.

Durante o mês de outubro, depois de muitos conflitos com os mais velhos, Steiner deu o ‘Curso para Jovens’ em resposta à busca de muitos deles por caminhos na Antroposofia, já que a cultivavam como se fosse um partido antroposófico.  Sente que os mais velhos sabiam muito, porém faziam pouco e rejeitavam os mais jovens, que sabiam pouco e queriam fazer muito.

Steiner retirou-se em grande parte da vida pública, constatando que aquela Sociedade não estava espiritualmente desperta o bastante para defender o edifício e protegê-lo internamente de seus poderosos e numerosos inimigos. A Sociedade Antroposófica está dormindo.

As empresas e as instituições financeiras continuavam em crise, sendo necessária a liquidação da ‘Futurum’, na Suíça, com graves perdas financeiras. Na Alemanha, a sociedade ‘Die Kommende Tag’ tem de passar a maior parte de suas ações para sua maior acionista, a fábrica de cigarros Waldorf-Astória e reduzir bastante o seu programa. Os institutos de pesquisa não atingiam os resultados práticos e apareciam dificuldades até mesmo na Escola Waldorf. No Instituto Terapêutico de Stuttgart a espera pelo trabalho dos médicos não acontecia, formando-se um muro burocrático, conhecido como o ‘sistema de Stuttgart’, a oposição no colegiado dos médicos era a mais visível.

Rudolf Steiner tentou, em inúmeras reuniões noturnas, votações, conferências e palestras, ativar finalmente a auto-reflexão dos antropósofos e chegar com eles ao que realmente paralisava a Sociedade: falta de elaboração de tarefas científicas, bloqueio ao êxito de muitas iniciativas recentemente fundadas, rejeição aos jovens, espera do trabalho científico central dos médicos – o Vademecum, além de outros aspectos. A intenção de Steiner era dar às iniciativas um cunho antroposófico, ou todos aqueles impulsos que surgiam, acabariam arruinando o movimento.

A campanha difamatória dos inimigos amplamente organizados realizou-se principalmente nos anos de 1922 e 1923. Max Hayek, simpatizante da Antroposofia, havia se encontrado com Rudolf Steiner no verão de 1922 e percebera que ele era um portador de grandes aflições… na Terra, um mártir do espírito, alguém que suportava uma cruz.

No Congresso de Natal de 1922 suas palestras levavam os antropósofos presentes à compreensão do posicionamento do ser humano no decurso do dia e do ano, da metamorfose dos mistérios solares e à compreensão dos profundos mistérios de Hibérnia, através do acontecimento no Gólgota.

As palestras estavam sendo proferidas no grande salão de cúpulas para um grande público e turnos de vigilância foram preparados para evitar qualquer acidente na construção, provocado por falhas técnicas ou por forças da natureza, levando-se em consideração que Steiner já alertara muitas vezes que o Goetheanum estava extremamente exposto ao perigo. Enquanto soavam aqueles avisos de alerta, sérios e penetrantes, contra a destruição que viria de dentro, tanto por não se cuidar devidamente do espiritual, como por não se cultivar a Antroposofia, o destino do primeiro Goetheanum já estava selado.

A crise no movimento antroposófico se tornou explícita na noite de 31 de dezembro de 1922: um incêndio destruiu o edifício, numa ação criminosa. Naquela noite Rudolf Steiner falava de coisas grandiosas: O ser humano transforma a Terra a partir de sua própria espiritualidade ao compartilhá-la com o mundo; ao vivificar os pensamentos pela Imaginação, a Inspiração, a Intuição; ao realizar a comunhão espiritual da humanidade. O tom solene e a penetração de suas palavras intensificavam-se ao longo da palestra. Tinha-se a impressão de que naquele púlpito um grande iniciado celebrava o culto do futuro, o culto cósmico da humanidade.

Depois de ter proferido os versos que ele havia escrito no quadro negro, ele se afastou do púlpito com grande discrição, pela lateral, tornando assim óbvio que ninguém o aplaudisse como naturalmente ocorria em outras palestras. Os dois versos permaneceram na lousa com sua letra bonita, enquanto jovens e velhos, profundamente comovidos, saíam para a noite estrelada de São Silvestre. Pouco depois o guarda de plantão acionou a linha de emergência do corpo de bombeiros do Goetheanum, dando o sinal de incêndio. Fogo no Goetheanum!

Aquela construção onde trabalharam pessoas de diferentes nações por muitos anos e a qual Rudolf Steiner tinha se entregado totalmente, fora consumida pelas chamas. Tudo agora está inscrito no éter cósmico, foi o que Rudolf Steiner disse a Ita Wegman, que se encontrava ao seu lado nessa hora.

Rudolf Steiner foi visto percorrendo o terreno, em todas as direções, com o semblante marcado por profunda tristeza, consciente do que a humanidade havia perdido. Após a noite de incêndio, pela manhã, apesar da imensa dor provocada por aquela tragédia, com seu espírito inabalável, deu coragem e força a todos os presentes para que pudessem suportar aquela situação. Ele informou a um pequeno de grupo de antropósofos que estava ao seu lado que o trabalho continuaria e que voltaria a construir.

Quis na matéria sensória

O Goetheanum falar ao eterno

Através das formas, ao olho.

As chamas puderam destruir a matéria.

Deve a Antroposofia

Fazer, a partir do espírito,

Sua construção falar à alma.

As chamas do espírito,

Elas hão de endurecê-la.

 

Ao meio dia do dia 1º de janeiro de 1923 todos foram informados que as apresentações previstas seriam mantidas conforme o programa.

Neste mesmo dia Steiner ainda disse as seguintes palavras ao conde Polzer-Hoditz: as diferenças entre as almas são muito grandes. Elas querem ver, ouvir e acompanhar tudo, mas acordar elas não querem. Assim elas tiveram de sentir a catástrofe e a dor física. Aqui não age o carma e sim o não estar acordado dos membros e a maldade de algumas pessoas. A possibilidade nos foi dada: o Espaço da Palavra estava lá, mas esta só pode viver se seu interlocutor tiver sua contra-imagem no coração, e lá haverá a consciência da palavra, ou seja, quando o homem não apenas se responsabilizar pela ‘Palavra do Mundo’. Este era o sentido da edificação: Palavra e Resposta, Logos e Homem. Em Éfesus tivemos os mistérios da encarnação da Palavra. Éfesus teve de ser destruído para que não fosse usado indevidamente pelas forças contrárias. Aqui ocorreu o contrário. Os deuses olharam com expectativa para o Espaço da Palavra, mas os homens não estavam lá para protegê-lo. Foi dada uma possibilidade, mas a resposta dos homens faltou.

A destruição do Goetheanum foi o acontecimento mais trágico de toda a história do movimento antroposófico e da Sociedade Antroposófica até aquele momento. Não só a ruína física que estava ali à vista de todos e, principalmente de Rudolf Steiner, era preocupante, mas a advertência que nos últimos anos a Sociedade havia estado sem firmeza, acometida também com algo de aspecto ruinoso, simbolizado nas ruínas do edifício. Dez anos e um monte de ruínas. Estas foram as palavras encontradas em seu caderno de anotações de 1923, indicando o estado de sua alma depois do incêndio, mas que não expressaram de modo algum a tragédia que o incêndio representou para ele pessoalmente.

Para dar vida ao edifício, Steiner havia sacrificado parte de suas próprias forças etéricas, que deste modo se entrelaçaram à essência viva do Goetheanum. O incêndio revelou-se um duro golpe ao próprio corpo etérico de Rudolf Steiner. A obra ainda não estava completa, portanto, estava ligada às forças de seu criador.

Friedrich Rittelmeyer relatou que durante aqueles dias Steiner estava como uma grande ferida aberta, e foi a partir desse estado que ele pode voltar à calma translúcida e ao espírito suave com o qual escreveu Minha Vida.

Assya Turguenieff, uma colaboradora, observou que a risada jovial e alegre que muitas vezes clareava os severos traços do rosto do Dr. Steiner, seus movimentos rápidos e leves, seu passo rítmico – ninguém era capaz de andar como ele – nada disto pudemos vivenciar depois da noite do incêndio. Um grande peso pressionava seus ombros. Ele tinha de produzir a força para manter sua postura ereta e fazia muito esforço para caminhar.

Nesse momento de muita dor sua relação com Ita Wegman se intensificou, havendo surgido por parte da médica a compreensão mais exata de quem era Rudolf Steiner, do que ele precisaria e de como ele deveria ser apoiado.

1923 se revelou o ano mais crítico, não só para Rudolf Steiner como também para a Sociedade Antroposófica. Aos 62 anos de idade pensou na possibilidade de afastar-se totalmente e por completo da Sociedade, somente em companhia de alguns poucos discípulos e continuar o seu trabalho em caráter mais privado. Sentia-se como uma quantidade de valor desprezível. Entretanto, decidiu continuar, apesar de sentir que as pessoas queriam exatamente o contrário do que ele sugeria.

Em verdade, Rudolf Steiner já havia manifestado esta possibilidade anteriormente, conforme relato de Marie Steiner, pouco depois da morte dele: Na esteira da guerra, em muitos momentos difíceis – tanto do fracasso diante da luta cheia de ódio dos inimigos, quanto de indiferença frente ao seu fanatismo destrutivo – Rudolf Steiner se pronunciou com freqüência nos seguintes termos: ‘Quem sabe não seria melhor levar o movimento adiante sem a Sociedade?

Rudolf Steiner planejava a reconstrução da Sociedade e deixou isto bem claro 3 semanas depois do incêndio, falando da necessidade de consolidar a Sociedade o mais rápido possível. Porque, em certo sentido, o que faltou ao edifício de Dornach – e isto falou alto e claro para o mundo todo – foi o apoio protetor da Sociedade Antroposófica. Basicamente a Sociedade Antroposófica se esquivou desde o início da construção… A reconstrução só faz sentido se, atrás dela, estiver uma Sociedade Antroposófica cônscia de si mesma, tendo presentes seus deveres. Nas antigas iniciações sempre se conhecera o grau da prova de fogo, e essa prova de fogo fora estabelecida como se visasse a proporcionar-lhe uma iniciação vital.

Com um esforço sobre-humano, Steiner retomou suas viagens para proferir palestras, negociações, reuniões, aconselhamentos e cursos. As viagens e conferências serviam para cumprir a meta de despertar a antiga Sociedade Antroposófica do sono e do marasmo em que se encontrava e de resolver a ineficiência e má administração das várias firmas. Steiner exigiu a supressão de todo o espírito sectarista, o senso pela realidade em todas as esferas da vida e a coragem para enfrentar todas as deturpações da Antroposofia. Para ele o que deveria prevalecer era o caráter espiritual da Antroposofia e não um espírito teórico-didático. Enquanto a Antroposofia não for tomada com um ser vivo, que se movimenta invisível entre nós e perante o qual cada um se sinta responsável, o pequeno grupo dos antropósofos não progredirá como um grupo exemplar.

Prosseguiu com uma intensa atividade de esclarecimento, nos mínimos detalhes, das causas do incêndio junto à polícia e as demais autoridades suíças, negociando pessoalmente com as companhias seguradoras as indenizações que viabilizariam a construção do segundo Goetheanum.

Em agosto de 1923, Rudolf Steiner fez uma viagem a Gales, acompanhado de Ita Wegman, para novas conferências. Naquela região dos Mistérios de Gales a médica teve a oportunidade de ter muitas conversas com ele, falando-lhe de suas aspirações pelos Mistérios, perguntando-lhe, ainda, porque os cursos de Medicina eram dados de forma tão intelectual. Esta foi a pergunta que ele esperou que lhe fosse feita há muito tempo. Haviam-se passados exatos vinte e um anos até aquele dia – três setênios, desde que Rudolf Steiner formulou a frase, em 16 de agosto de 1902: Eu quero construir apoiado sobre a força que me permita levar ‘discípulos do espírito’ ao caminho do desenvolvimento. Uma meta importante e central do desenvolvimento foi alcançada por um verdadeiro discípulo. Confirmou-se a possibilidade do desenvolvimento de uma nova Medicina dos Mistérios, esta devia vir à vida… O mundo espiritual se rejubilou.

Em suas conferências para médicos não-antroposóficos e um público interessado, começou a fazer, então, uma série de exposições sobre a nova arte de curar e expressou com toda a clareza: Especialmente deve-se apontar aqui o Instituto Clínico Terapêutico de Arlesheim, sob a direção da Doutora Ita Wegman, que desenvolve uma atividade especialmente benéfica para esse Instituto, por ter aquilo que eu gostaria de chamar de coragem de curar. Não fora em Dornach ou Stuttgart que surgiu a expressão coragem de curar. Essas palavras foram expressas numa paisagem relacionada tanto com os mistérios de Hibérnia, quanto com a corrente de Micael, em Gales, onde ele tinha acolhido profundamente em si toda a espiritualidade da paisagem do lugar.

A partir de setembro de 1923 Steiner tomou nas mãos o desenvolvimento interior futuro de Ita Wegman, com toda a energia, ensinado-a e preparando-a para aquilo que deveria ser realizado de forma mais elevada.

Durante o restante deste ano formulou cada vez mais claramente a inauguração dos novos Mistérios, que agora se tornavam públicos e manifestos. Muito preocupado em aumentar as forças morais da Sociedade, apresentou de forma enfática a sua missão cultural, demonstrando que esta deveria se tornar um instrumento onde a renovação espiritual da humanidade se concretizasse, não obstante os intensos esforços das potências adversárias. O teor de suas conferências mostrou o resultado de seu trabalho. Todos os níveis até então ainda ocultos se revelavam. Evidencia-se agora o caráter Intuitivo, no despertar e na revelação dos níveis da vontade, é a expressão pública das ‘Bodas Químicas’ (no sentido de transubstanciação da matéria).

Numa série de conferências e palestras sobre Micael, em Viena, local de sua juventude e dos anos de estudante, anunciou que escreveria um livro de Medicina junto com a doutora Ita Wegman. O livro Os Elementos Fundamentais para uma ampliação da Arte de Cura começou a ser escrito no atelier de Rudolf Steiner e todas as noites iniciava o trabalho com a oração Pai Nosso, ao lado da estátua do Cristo.

No Congresso de Natal de 1923, realizado em Dornach, em meio a todos os escombros do incêndio, Rudolf Steiner fundou a nova Sociedade Antroposófica, num ato individual de grande coragem e absolutamente só. Tomou para si o cargo de presidente da Sociedade Antroposófica e sem reservas uniu o seu destino totalmente ao destino da Sociedade Antroposófica Universal num ato esotérico público, vinculando o Movimento Antroposófico à Sociedade Antroposófica. Após vencer graves dúvidas interiores, ergueu-se dentro de mim o conhecimento de que será impossível continuar a dirigir o movimento antroposófico dentro da Sociedade Antroposófica, se esta Assembléia de Natal não concordar com que eu retorne novamente a toda a forma de direção, inclusive a Presidência da Sociedade Antroposófica, a ser fundada aqui em Dornach, no Goetheanum.

Do ponto de vista do oculto, a atitude de Steiner somente é possível quando o princípio do perdão se torna uma realidade no mais nobre sentido cristão. Ao não empurrar a oposição para fora e nem se esquivar, deixando cada um por sua própria conta, Rudolf Steiner uniu-se à oposição. No sacrifício reside todo o esoterismo. Perdoando e acolhendo a todos os membros da recém fundada Sociedade Antroposófica, inclusive os que se opunham a ele, por todos os seus erros passados, inclusive ações e atitudes contra sua pessoa, cujas conseqüências ele suportou externa e internamente, tornou-lhe possível permanecer espiritualmente com essas pessoas, perdoando-lhes sempre que necessário, esperando pacientemente até que, mediante sua liberdade interior, elas adquirissem a consciência da absoluta necessidade da iniciativa espiritual individual para a evolução futura da humanidade inteira. Neste ato de perdão completo e sem reservas pode-se formar a efetiva substância espiritual, o solo moral-espiritual que lhe possibilitou desenvolver o impulso moderno dos novos mistérios cristãos.

Marie Steiner demonstrou a impossibilidade de dar uma descrição do que foi o Congresso de Natal de 1923. Mal se podiam perceber as forças que o impulsionaram. Entretanto, ali se deu a mais enérgica tentativa de um educador da humanidade de erguer seus contemporâneos acima de seu pequeno ego e de fazer um apelo à sua vontade consciente, no sentido de se tornarem um instrumento da sábia direção do cosmos.

Deu-se também a abertura da primeira classe (como de um primeiro ano de uma escola) da Escola Livre de Ciência Espiritual – a Escola Esotérica, centro de atuação da Sociedade Antroposófica. Sua abertura em 15 de fevereiro de 1924 foi precedida por um curso de Introdução à Antroposofia onde estavam presentes muitos jovens e novos membros.

Da nova Sociedade Antroposófica Universal são membros as Sociedades Territoriais e a Escola Superior Livre para as Ciências Espirituais com suas seções ligadas às atividades práticas: seção médica, seção pedagógica, seção de ciências naturais, seção de matemática e astronomia, seção de literatura, seção de artes dramáticas e musicais, seção social e seção de Antroposofia geral.

Além de Rudolf Steiner como presidente dessa Sociedade, foram nomeados Albert Steffen como vice-presidente e diretor de literatura, Marie Steiner como diretora da seção de Artes Dramáticas e Musicais, Ita Wegman como diretora da Seção Médica, Elisabeth Vreede como diretora da seção de Matemática e Astronomia e Gunther Waschsmuth como Secretário e Tesoureiro da Sociedade e dirigente da seção de Ciências Naturais.

Em sua alocução de abertura do Congresso de Natal, Rudolf Steiner apontou claramente para o fato de que o Goetheanum não fora consumido pelas chamas apenas em conseqüência de um ataque inimigo, mas o monte de escombros na colina de Dornach simbolizava num certo sentido, outro monte de escombros dentro da Sociedade Antroposófica e da própria situação do mundo.

Naquela época foi dada aos corações e às almas de todos os verdadeiros antropósofos do passado, do presente e do futuro a possibilidade de depositarem dentro de si a Pedra Fundamental, que estava relacionada com tudo aquilo que já havia começado a viver na Terra através do lançamento da primeira pedra fundamental e da construção do primeiro Goetheanum. Desta vez a Pedra Fundamental foi lançada no coração dos presentes sob a forma de uma meditação, fundando-se os novos mistérios cristãos. E o solo adequado em que precisamos colocar a Pedra Fundamental de hoje, esse solo adequado são os nossos corações, em sua harmoniosa cooperação, em sua boa vontade compenetrada de amor, para transportamos juntos o querer antroposófico, através do mundo para nós.

No Congresso de Natal consumou-se um grande mistério: foi criada a possibilidade do mundo se tornar um templo onde, em toda parte, almas humanas vivam e atuem a partir da força da pedra Fundamental. Esta meditação é um exercício constante para gerar em nós, por caminhos meditativos espirituais, as forças puras do amor em nossa organização trimembrada.

O solo onde foi colocada a ‘Pedra Fundamental’ puderam ser apenas os corações e as almas das personalidades unidas na Sociedade; e a própria Pedra Fundamental, ele mesma tem de ser a mentalidade que brota da configuração antroposófica da vida. ‘Esta mentalidade na maneira como é exigida dos sinais da época presente, é formada pela vontade de encontrar através do aprofundamento humano da alma o caminho para a visão do espírito e para a vida a partir do espírito’

Estavam ali presentes entre setecentas a oitocentas pessoas, algumas como representantes de suas Sociedades Territoriais, e muitas porque o destino as levara até lá. Marie Steiner constatou que aqueles ali presentes não eram os escolhidos, somente foram de fato chamados, mas não estavam à altura do apelo, conforme se evidenciaria mais tarde.

Também, naquele Congresso, Steiner sancionou como um caminho de canto com orientação antroposófica, a Escola do Desvendar da Voz, que tinha na pessoa da senhora Valborg Werbeck-Swärdström sua idealizadora.

Suas exposições passaram a ser relacionadas à atuação de personalidades concretas – sejam elas historicamente conhecidas ou não – que representaram os impulsos espirituais da humanidade nas maneiras mais diversas, em diferentes épocas. Esse tipo de exposição intimamente relacionada ao carma da Sociedade Antroposófica, iniciou-se durante o Congresso de Natal de 1923, destacando os antecedentes espirituais da fundação da nova Sociedade e a ampla dimensão em que Steiner colocava a Sociedade Antroposófica a partir do Congresso.

Os últimos anos de vida – 1924 a 1925

O esgotamento físico de Rudolf Steiner, bem nítido aos olhos de seus colaboradores desde o incêndio do Goetheanum, se agravou repentinamente em 1º de janeiro de 1924, e ele adoeceu gravemente: A mais profunda ação esotérica teria consistido em conseguir que correntes espirituais anteriormente divergentes, pudessem chegar nesse momento, entre alguns de seus representantes, a um acordo harmonioso. Essa teria sido uma missão esotérica que, em comum atuação do Dr. Steiner, pela sua transcendente compreensão, energia e capacidade de amor, poderia ter sido solucionada. Mas nosso carma humano e o carma da Sociedade Antroposófica, abateram-se sobre ele imediatamente após o Congresso de Natal. No último dia, 1º de janeiro de 1924, ele adoeceu gravemente e de súbito. Foi como um golpe de espada, que atingiu sua vida, por ocasião de um chá acompanhado de doces e salgados, assinalado no programa como ‘Rout’. (Marie Steiner)

Steiner subjugou repetidamente a moléstia que se fez sentir na noite de 1º de janeiro de 1924. A imagem de homem saudável deu lugar a de um homem enfermo, sem contudo, interromper suas atividades. Neste ano ele completou 63 anos e foi o último ano completo de sua vida, sendo também um ano de atividade plena.

Num período de 272 dias ele proferiu 338 conferências, 60 alocuções, além de viajar para Paris, Londres, Breslau, Praga, Berna, Arnheim e Torquay. Do ponto de vista da Medicina, ele trabalhava exclusiva e intensamente com a Doutora Ita Wegman, a colaboradora que ele considerava poder fazer valer a Antroposofia na forma correta, em sua área específica – a Medicina.

Ita Wegman percebia aflita, porém impotente, o declínio gradativo das forças físicas de Steiner. Numa carta a Ita Wegman, escrita em 1º de abril de 1924, Rudolf Steiner esclareceu-lhe:

Minha querida Mysa-Ita (a forma como Rudolf Steiner tratava a Doutora Ita Wegman), muitíssimo obrigado, de coração pela amorosa carta, que me deixou muito contente. Espero que minha querida Mysa esteja bem. Por favor, não tenha mais preocupações pelo meu estado; eu me cuidarei de verdade, tanto quanto seja possível. Até agora tudo pôde ser superado. Há muito para ser feito.

Naquela época, tal como hoje, muitos antropósofos especulavam sobre a natureza de sua doença. Para alguns, Steiner permitiu saber em que direção eles deveriam pensar – e esses entenderam imediatamente. Entre essas pessoas estava, o escocês Daniel Dunlop, que se encontrou com ele em Torquay no sul da Inglaterra, em agosto de 1924: Algumas semanas ainda antes de sua última doença, durante o curso de verão de Torquay, eu falei da minha preocupação pela sua saúde física. Com firmeza, mas com infinita amabilidade, ele me levou para o lado e me chamou a atenção de que não deveriam ser empregadas idéias comuns sobre enfermidades para o seu estado. Com estas poucas palavras abriu-se para mim muito mais do que estava contido no significado imediato delas.

 

Numa carta a Marie Steiner, em outubro de 1924, ele escreveu:

‘Minha querida Marie, eu lhe contei há algum tempo que desde janeiro de 1923 a conexão dos membros constitutivos superiores de meu ser com meu corpo físico já não estava mais completa: em minha vida nos reinos espirituais, eu, em certo sentido, perdi a conexão direta com meu organismo físico.’

A fraqueza física e o excesso de trabalho não foram capazes de abater Rudolf Steiner, que se mostrava pleno de possibilidades espirituais, chegando até a manifestar que sentia como se recebesse uma retribuição do mundo espiritual, como uma compensação do destino pela perda sofrida pela Antroposofia, com o incêndio do Goetheanum.

O ponto central de suas conferências é a consideração sobre o destino humano, retomando assim suas intenções mais genuínas. Com toda intimidade e soberania, Steiner sentia que era possível revelar os resultados concretos de sua pesquisa cármica e do destino humano a um público que agora o escutava atentamente, conseguindo tornar realidade o que outrora, em conseqüência de oposições que vigoravam, não pudera ser iniciado com a intrepidez necessária. Não mais se tratava de ensinamentos gerais, agora era possível falar abertamente sobre as relações na vida terrena, pois isto tem a ver com o mistério desvelado de Micael… O fato novo é que os demônios, que antes não permitiam que se falasse das coisas, agora devem silenciar.

Seu curso para jovens médicos no início de 1924 assumiu um tom inteiramente novo, apoiado na natureza própria do homem. A Euritmia ganhou sua síntese e seu coroamento com grandes cursos de fevereiro a junho – Euritmia Musical e a Euritmia como Linguagem visível.

Dois importantes impulsos se concretizaram ainda em 1924, mais uma vez vindo de solicitação externa:

1- A Pedagogia Curativa – que surgiu da iniciativa de jovens estudantes universitários de Jena, na Alemanha, que trabalhavam com crianças psicopatas. Steiner deu conselhos sobre quais cuidados elas deveriam receber: O que é preciso em primeiro lugar para a educação dessas crianças? Não o peso do chumbo, mas humor, humor verdadeiro, humor vital!

O trabalho da Pedagogia Curativa é subordinado à Seção Médica e corre de mãos dadas com a Euritmia Curativa. Na Escócia, na Inglaterra e na África do Sul o Doutor Karl Köning criou o movimento pedagógico-curativo ‘Camphill’. Na Suécia formou-se um centro perto de Estocolmo com três sedes. Atualmente, existem mais de seiscentas instituições para crianças, jovens e adultos com distúrbios de desenvolvimento, deficiência física e mental e distúrbios comportamentais. Hoje são cerca de sessenta centros de formação em Pedagogia Curativa.

2- A Agricultura Biodinâmica – O Conde Carl Keyserlingk formulou uma série de perguntas a Rudolf Steiner sobre a Agricultura, solicitando-lhe que realizasse um curso para agricultores. Então, na primavera de 1924, Rudolf Steiner, já debilitado fisicamente, pronunciou um ciclo de palestras na casa do Conde, em Koberwitz, Polônia, para  fazendeiros, donos de terras, interessados e negociadores de terras de todas as partes da Europa. O objetivo era promover uma atitude de agricultura na qual a terra e a natureza não fossem limitadas como um mero objeto de exploração financeira.  As conferências consideraram um novo método biodinâmico  de cultivo para produzir colheitas sadias, prevenindo erosão do solo, combate à poluição e redução de doenças nas plantas e animais, com a eliminação de venenos industriais e fertilizantes sintéticos.

Junto com o curso de Agricultura, que aconteceu de 6 a 17 de junho de 1924, realizou-se o Congresso de Pentecostes em Breslau, à noite. Neste Congresso Steiner deu um ciclo de conferências sobre o carma, que ganhou um cunho especial pela intimidade com que ele se dirigia às forças humanas do coração. Encontrou tempo para se juntar a um grupo de jovens da Silésia, uma zona industrial entre a Polônia e a República Checa, ouvindo com o coração suas questões e preocupações sobre a vida; encorajando-os e, com sua linguagem imaginativa, abrindo-lhes os olhos da alma para o feito luminoso de Micael, o condutor da humanidade, através de duas aulas proferidas.

Pela manhã de cada dia, ele voltava de trem à Koberwitz para falar ao público que lá o esperava. Nem todos eram agricultores, alguns eram penetras, como dizia Rudolf Steiner. Jovens que, com sua bondade e generosidade, ele permitia que participassem, imaginando que aquela participação pudesse influenciar o destino de um ou outro. Era visível a satisfação e a felicidade dele naquela atmosfera campestre, falando de uma maneira que tocava o coração, dizendo que ele próprio queria estar totalmente ligado à recém fundada sociedade de agricultores profissionais antroposóficos. Surgia para o agricultor um caminho voltado ao espírito, que conduz à compreensão proveniente da região espiritual pela criação e pelo trabalho.

Steiner estava completamente entusiasmado por mais essa iniciativa: Acabamos agora de dar um grande passo adiante.

Ocupou-se ainda dos cursos de formação de professores, formação esotérica dos médicos, Arte da Fala e Arte Dramática, de colaboração profissional entre médicos e sacerdotes, de aprofundamento esotérico para os sacerdotes, e do curso sobre os desvios patológicos dos estados de consciência (A Consciência Iniciática) e de conferência sobre a Antroposofia, ministradas em Praga e Paris. Ainda encontrou tempo para publicar, no período entre 20 de janeiro e 10 de agosto de 1924, no Boletim de Notícias da Sociedade Antroposófica, dezoito cartas aos membros. A Antroposofia somente pode prosperar como algo vivo. Porque a característica fundamental de sua natureza é vida. Ela é vida jorrando do espírito… A forma primordial em que ela pode aparecer entre seres humanos é a idéia: e o primeiro portal a que se dirige no ser humano é o juízo. Não fosse assim, e ela não teria conteúdo. Seria apenas exaltação de sentimento. Mas o espírito verdadeiro não se exalta, fala uma linguagem concisa e substancial. Steiner buscava sempre referendar a intenção espiritual do Congresso de Natal, certificando-se se aqueles impulsos estavam sendo aceitos na Sociedade Antroposófica.

Em setembro de 1924 viajou à Inglaterra, sendo esperado em Dornach, no seu retorno, por mais de mil pessoas, entre elas médicos, atores e teólogos, aos quais havia prometido cursos especiais. Embora já estivesse sofrendo seriamente com a doença, reuniu todas as promessas feitas e durante três semanas falou sobre o Apocalipse de João e deu para médicos e pastores um curso sobre medicina pastoral. Ministrou, ainda, um curso para os operários que participavam da reconstrução do Goetheanum.

Em 28 de setembro de 1924, véspera de Micael, sugeriu que ainda não havia um número suficiente de pessoas que tinham acolhido os impulsos espirituais. É a sua Última Alocução aos membros. Irá vigorar o carma, foi sua resposta à indagação que a Doutora Ita Wegman lhe fizera sobre o que aconteceria se os impulsos não fossem acolhidos pelas pessoas.

Prokofieff demonstra que tal sacrifício somente pode ser superado quando as pessoas abrem seus olhos ao ‘conhecimento’ das verdadeiras realidades do mundo espiritual, que virá como parte de um processo de desenvolvimento ainda maior de uma atividade interior de suas almas, orientadas espiritualmente. Até então, os discípulos iniciados e os mestres espirituais, suportarão a pesada cruz do sofrimento e do perdão pelo tempo necessário, esperando pelas pessoas ‘que ainda não sabem o que fazem’. E a Sociedade ainda não tinha acolhido os impulsos espirituais em si.

Marie Steiner comentou que em setembro se poderia ter chegado à possibilidade de começar com a segunda classe da Escola Livre de Ciência Espiritual, se a onda de sócios que chegava a Dornach não tivesse sido tão avassaladora, necessitando de toda a atenção, assim como o necessitavam as exigências espirituais e a receptividade dos recém-vindos. …havia tantos desejos pessoais a contentar, que foi impossível impedir a exaustão física total do Mestre e Doador.

Rudolf Steiner encontrava-se completamente exausto. Sua enfermidade praticamente impedia a alimentação do seu corpo enfraquecido. A sobrecarga pessoal lhe roubou as últimas reservas de força física e, a partir de 29 de setembro de 1924, viu-se obrigado a renunciar a qualquer atividade entre os sócios, permanecendo acamado, no máximo isolamento. A marcenaria, onde funcionava seu atelier, foi transformada em um quarto de enfermo e sua cama posta ao pé da inacabada estátua do Cristo. A Doutora Ita Wegman se responsabilizou pelos seus cuidados e tratamento, juntamente com o Doutor Ludwig Noll, um médico de Stuttgart, contra a vontade de Steiner.

De seu leito continuou o trabalho, dedicando atenção especial à reconstrução do Goetheanum, planejado em novas formas e feito de concreto armado, um material inovador nas construções à época. Rudolf Steiner amava o ruído vigoroso de marteladas e armações que do canteiro de obras do Goetheanum vinha penetrando a tranqüilidade de seu quarto de doente e lhe anunciava o progresso da construção.

Começou a escrever As Máximas Antroposóficas, que se reuniriam num volume sob o título Mistério de Micael, concentrando ali tudo o que ele tinha a dizer sobre a orientação espiritual da humanidade. Chamou a atenção para o fato de ser Micael o dirigente de nossos tempos, que educa a humanidade para ser livre, crendo no seu futuro, não desejando ver essa humanidade entregue às suas fraquezas, mas sim a um esforço supremo. Steiner adverte que somente em ligação com Micael a humanidade conseguirá superar as forças contrárias que ameaçam a sobrevivência da civilização, revelando-se o mistério da luta contra o dragão.

Temos de erradicar da alma todo medo e terror do que o futuro possa trazer ao homem.
Temos de adquirir serenidade em todos os sentimentos e sensações a respeito do futuro.
Temos que olhar para frente com absoluta equanimidade para com tudo que possa vir.
Temos que pensar somente que tudo o que vier nos será dado por uma direção mundial plena de sabedoria.
Isto é parte do que temos de aprender nesta era, a saber: viver com pura confiança, sem qualquer segurança na existência; confiança na ajuda sempre presente do mundo espiritual.
Em verdade, nada terá valor se a coragem nos faltar.
Disciplinemos nossa vontade e busquemos todas as manhãs e todas as noites, o despertar interior.

Elementos Fundamentais para uma Ampliação da Arte de Curar Segundo os Conhecimentos da Ciência Espiritual, o livro que escrevia em conjunto com a Doutora Ita Wegman foi interrompido antes de completar-se, mas foi publicado. Seu objetivo era reunir as primeiras indicações conceituais e práticas para o exercício de uma arte médica ampliada.

Na primavera de 1924 ele já havia começado a escrever sua autobiografia como uma maneira de invalidar as acusações infundadas às quais esteve duramente exposto, não sofrendo nenhuma interrupção durante a doença. Os relatos vinham sendo publicados semanalmente e todos os fascículos recebiam de sua mão o adendo ‘Segue’. De maneira curiosa, o manuscrito que ele enviou na última semana de março de 1925 não continha o adendo.

Seu estado de saúde se agravou muito no final do ano de 1924, à época do Natal. Os antropósofos chegavam a Dornach para estar pelo menos fisicamente, próximos de Rudolf Steiner, mas as visitas não eram mais permitidas. Somente umas poucas pessoas tinham acesso a ele: Marie Steiner, Albert Steffen e Günther Wachsmut. Mesmo muito debilitado escreveu uma longa carta em 30 de dezembro, agradecendo a atenção de todos e especialmente a dedicação da Doutora Ita Wegman: O que a Doutora Wegman faz em fiel assistência… Sempre permanecerá, diante dos médicos, como exemplo luminoso da atuação do amor médico.

Três meses depois pela manhã, Rudolf Steiner faleceu em seu Atelier em Dornach – Suíça. Novamente era uma segunda-feira, 10 horas da manhã, 30 de março de 1925.

Conforme relato da Doutora Ita Wegman, A partida foi como um milagre. Ele foi embora como se fosse algo natural. Para mim foi como se, no último momento, tivessem sido jogados os dados da decisão. E, quando eles caíram, não havia mais luta, nenhuma intenção de ficar na Terra. Ele olhou calmamente por algum tempo para frente, disse-me algumas palavras carinhosas e com toda a consciência, fechou os olhos e ajuntou as mãos.

Era a época da Paixão, mas já se anunciava a festa da Ressurreição. A notícia de sua morte foi um imenso golpe e de todos os lados as pessoas chegavam com olhares que revelavam uma enorme tristeza. A Sociedade e a Escola Superior perderam sua cabeça em um instante quando tudo havia sido fixado, mas nada levado a cabo. Agora, aprendizes e oficiais tinham de mostrar com força própria o que haviam aprendido do Mestre.

 

 

 

 

 

 

 

 

‘Que seja para o bem.’

Referências:

 

Além das biografias e estudos, existem dezenas de outros livros e sites sobre a vida de Rudolf Steiner:

 

CALLEGARO, Bruno. Momentos de um Caminho. Reflexões sobre a Vida de Rudolf Steiner. Editora João de Barro; 2007. 152 pg.

HEMLEBEN, Johannes. Rudolf Steiner. Editora Antroposófica; 1989. 185 pg.

MEYER, Rudolf. Quem era Rudolf Steiner. Editado pela Associação Pedagógica Rudolf Steiner; 1969. 211 pg.

STEINER, Rudolf. Minha Vida. A narrativa autobiográfica do fundador da Antroposofia. Editora Antroposófica; 2006. 389 pg.

WILSON, Colin. Rudolf Steiner: El hombre y su visión: una introducción a la vida y a las ideas del fundador de la Antroposofia. Ediciones Urano, S.A.; 1986. 199 pg.

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